Foram 105 as multinacionais escrutinadas pela rede global anticorrupção Transparency International e os resultados são desanimadores, mesmo com o registo de algumas melhorias face ao seu posicionamento em 2009. A divulgação de informação por parte de muitas empresas que pertencem ao clube das maiores do mundo continua a ficar aquém do desejado, com três europeias a sobressaírem na lista das mais bem-comportadas e com duas chinesas e uma russa a merecerem um grande puxão de orelhas
POR HELENA OLIVEIRA

São muitos os países que, em todo o mundo, tentam recuperar as suas economias, devastadas pela crise financeira de 2008. Todavia, muitas das maiores empresas cotadas do mundo ainda não passam no teste da transparência, quando já deviam ter colocado em marcha as medidas necessárias para ajudar a prevenir um novo colapso económico.

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A conclusão é da Transparency International (TI), a rede global anticorrupção, que publicou a 3ª edição do relatório “Transparency in corporate reporting: Assessing the world’s largest companies”, no qual são avaliadas 105 das maiores multinacionais do mundo.

De acordo com a TI, estas empresas continuam a publicar muito pouca informação relativamente aos seus compromissos anticorrupção, bem como no que respeita às suas estruturas corporativas, o que impede uma noção clara sobre o seu verdadeiro impacto no mundo. Como resultado, alerta a organização, as maiores empresas mundiais estão, ao invés, a contribuir para um ambiente onde a corrupção pode florescer.

O estudo analisa a transparência dos relatórios publicados pelas empresas que, em conjunto, valem mais de 11 biliões de dólares e que tocam nas vidas das pessoas em mais de 200 países. A sua influência vai muito além de investidores, mercados bolsistas, fornecedores ou clientes, estendendo-se àqueles que empregam e às normas que estabelecem no que respeita a condições de trabalho e a comportamentos em todo o mundo. De acordo com o relatório, esta força económica poderosa pode constituir uma fonte de inovação, competitividade e prosperidade mas, quando mal utilizada, poderá antes resultar em estagnação económica, pobreza e desigualdade.

Melhores classificadas são europeias
Como é sabido, a corrupção é um risco para as multinacionais em múltiplas frentes. Destrói o empreendedorismo, inibe o adequado funcionamento dos livres mercados e enfraquece a estabilidade crucial para uma economia bem-sucedida. Adicionalmente, permite a fluidez de quantias astronómicas de dinheiro ilícito fora da economia real – sob a forma de fuga aos impostos, subornos e lavagem de dinheiro. E, apesar de as empresas reconhecerem esta realidade, seria mais do que tempo para que encetassem esforços para colocar um ponto final parágrafo nos custos da corrupção. A transparência deveria ser o início da resposta, para enfrentar um dos principais problemas da crise financeira e económica.

A boa notícia é que, face aos resultados de 2009, as empresas obtiveram uma média ligeiramente superior em termos de reporting dos seus programas de anticorrupção: 68% versus 47% [em 2009]. E, das 105 multinacionais escrutinadas, foram três europeias as que melhor classificação obtiveram: a BASF (Alemanha), o BG Group (Inglaterra) e a Statoil (Noruega). No que respeita aos resultados combinados dos três indicadores analisados – divulgação pública dos programas anticorrupção, transparência organizacional e relatórios país a país – a Statoil, a Rio Tinto e a BHP Billiton foram as empresas a ocupar os três primeiros lugares do Índice. A título de exemplo, a norueguesa Statoil , que opera no sector da extracção de gás natural e petróleo, atingiu os 100% na divulgação dos seus programas de corrupção, difundiu toda a informação necessária em termos de transparência organizacional, bem como os dados relativos a receitas, impostos e contributos para a comunidade em todos os países nos quais tem operações. O mesmo aconteceu com a anglo-australiana Rio Tinto, um dos gigantes do sector mineiro mundial e com a sua congénere BHP Billiton. No final da lista encontram-se dois bancos chineses – o Bank of China e o Bank of Communications, e a empresa petrolífera, controlada pelo Estado russo, Gazprom, com classificações muito próximas do zero. Cerca de metade das empresas auscultadas e no que respeita especificamente aos seus programas anticorrupção, atingiram um valor aceitável de 77%, com cerca de 14 entre estas a atingirem pontuações superiores a 90%.

As instituições financeiras constituem o grupo mais alargado do relatório, com 24 presenças, e são também aquelas que piores resultados, em média – 56% – apresentam. Todavia e no interior deste conjunto, os resultados são extremados e situam-se entre o zero e os 96%, com a holding britânica HSBC a obter o melhor resultado e, como já foi anteriormente referido, o Bank of China o pior. A crise financeira global recente sublinhou a necessidade de se alargar a discussão sobre as regulamentações e supervisão do sistema financeiro e colocou as questões de transparência e de abordagem ao risco no topo das agendas, o que não parece ter sido suficiente para uma alteração significativa de comportamentos anteriores. No índice geral combinado (0-10), as empresas financeiras alcançaram um resultado médio de 4.2, com os últimos lugares a serem ocupados por três instituições chinesas e a norte-americana Berkshire Hathaway, do filantropo Warren Buffett. De sublinhar igualmente que, no que respeita à informação divulgada por país, é o Banco Santander aquele que melhor se posiciona, com 5.4, sendo que a Visa, em conjunto com Lloyds Banking Group, o JP MorganChase, o Goldman Sachs Group, o Citigroup ou o Bank of America empatam num significativo 0% de divulgação. Todos eles e como é impossível esquecer, considerados “too big to fail” aquando da crise financeira.

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Tecnológicas mal comportadas
No índice geral, a gigante Amazon segue de muito perto a empresa de Buffett, com 3.4 pontos e só ligeiramente abaixo da poderosíssima Microsoft que, por acaso, é uma das patrocinadoras do relatório (entre muitas outras). A Microsoft não passou dos 3.4, com a Google a seguir-lhe os (maus) passos, com 2.9. A Apple está igualmente perto, com 3.2.

Especificamente e no que respeita à Microsoft, a empresa atingiu os 69% em termos de divulgação dos seus programas anticorrupção, 33% em transparência organizacional e zero por cento no que respeita aos países nos quais tem operações. Em contrapartida, a Amazon obteve piores resultados para as práticas anticorrupção e melhores no que respeita à transparência.

Mais bem posicionada está a californiana Hewlett-Packard, com 4.7 no geral, 77% na divulgação das práticas anticorrupção, 67% em transparência organizacional mas, tal como as suas “parceiras” na área das tecnologias, zero por cento no que respeita à informação sobre os países em que opera.

Aliás e no geral, são muito poucas as empresas que se preocupam em divulgar os seus dados relativamente aos países em que têm operações. E, mais preocupante ainda, é o facto de 41 das 105 empresas consideradas terem zero por cento de pontuação neste item em particular. As implicações para esta ausência de informação são óbvias: as empresas que têm relações de negócios com organizações que podem ter más práticas relativamente aos seus colaboradores, que têm relações de proximidade com governos corruptos ou que influenciem os sistemas legais desses países que as possam beneficiar.

De acordo com a TI, estes fraquíssimos resultados (neste índice em particular) devem-se a um conjunto de factores diversificados. Em primeiro lugar, este tipo de report não foi ainda sujeito a qualquer tipo de atenção em termos regulatórios. A esperança de uma melhoria nesta área é igualmente sublinhada no relatório da TI, pois tanto os Estados Unidos como a Europa estão em vias de aprovar uma nova legislação que irá obrigar as empresas da indústria extractiva (pelo menos) a reportarem os pagamentos que efectuam aos governos locais. Em segundo lugar, as empresas tendem a agregar as suas contabilidades apenas por região, mesmo que as informações por país lhes sejam acessíveis. E, apesar da apresentação dos resultados regionais ser muito mais fácil, a verdade é que se perdem detalhes valiosos na agregação. Assim, a Transparency Internactional aconselha vivamente as multinacionais a melhorarem significativamente a sua performance nesta área, dando como bons exemplos a BHP Billiton, a Rio Tinto, a Statoil e a Tesco que foram as únicas, em 105, que divulgaram pelo menos um tipo de informação financeira em todos os países onde estão implantadas.

Mais ainda e como alerta também o relatório, ao adoptarem maiores níveis de transparência corporativa, – divulgando relatórios credíveis sobre as suas actividades e operações, as empresas fornecem a informação necessária a investidores, jornalistas, activistas e cidadãos que, desta forma, podem monitorizar o seu comportamento.

A divulgação de informação relacionada com programas anticorrupção, com a transparência organizacional e com dados sobre os países onde operam oferece uma imagem alargada das operações, receitas, lucros e impostos das empresas em causa. E, como resultado, os stakeholders possuem a informação necessária para tomar decisões adequadas e influenciar o comportamento organizacional. Apesar de uma boa divulgação de informação não significar o bom comportamento de uma empresa, a verdade é que funciona como um indicador de compromisso, consciencialização e acção. E, em último caso, as empresas que tenham bons registos de divulgação dos seus programas anticorrupção e das suas actividades globais passam a ser, com maior probabilidade, parte da solução e não do problema.

Helena Oliveira

Editora Executiva