Em tempos de incertezas como os actuais, o relatório da Intrum revela que em 64 por cento das empresas portuguesas se afirma grande preocupação, mesmo maior que nunca, com a (falta de) capacidade de os seus clientes pagarem nos prazos. É um tema recorrente no programa Compromisso Pagamento Pontual (CPP), credenciado pela ACEGE com outros parceiros. Pagar a horas sempre foi fundamental
POR PEDRO COTRIM

O European Payment Report (EPR) elaborado pela Intrum acabou de ser divulgado. Os dois anos atípicos devido à pandemia ainda mostram os seus efeitos na economia e no crédito. Acabámos de viver dias duríssimos e o impacto da guerra na Ucrânia talvez ainda não tenha chegado a Portugal na verdadeira magnitude.

Para já temos os indicadores que apresentamos. Há boas notícias, notícias que nos deixam apreensivos e outras que nos deixam na dúvida. Tentaremos perceber o panorama com base no que se apresenta.

Em tempos de incertezas como os actuais, o relatório revela que em 64 por cento das empresas portuguesas se afirma grande preocupação, mesmo maior que nunca, com a (falta de) capacidade de os seus clientes pagarem nos prazos. É um tema recorrente no programa Compromisso Pagamento Pontual (CPP), credenciado pela ACEGE com outros parceiros. Pagar a horas sempre foi fundamental. Não se exagera se se afirmar que no presente é mais crucial devido aos anos verdadeiramente excepcionais que acabámos de viver.

O relatório da Intrum baseia-se numa pesquisa realizada simultaneamente em 29 países europeus entre 17 de Janeiro e 13 de Abril de 2022. Foram auscultadas 11 007 empresas europeias de 15 sectores de actividade. Em Portugal, participaram 333 empresas.

A Directiva dos Atrasos de Pagamento recomenda prazos de pagamento para empresas no máximo de 60 dias e para autoridades públicas 30 dias. As empresas concedem muitas vezes prazos de pagamento mais alargados aos seus clientes, esforçando-se também para obter prazos maiores dos seus fornecedores. De um modo geral, é complicado impor prazos mais alargados a eles do que os que se praticam com os seus próprios clientes, e, deste modo, o crédito do fornecedor possibilita o financiamento de parte do crédito ao cliente para a parte de compra do volume de negócios. O que sobra é imenso: falta cobrir um saldo correspondente ao um período de pagamento concedido sobre o valor da empresa, despendido em salários, rendas, desgaste de material, etc. O valor aumenta de importância com o crescimento das condições de pagamento e importa por isso atentar nos números.

As empresas esperam que os pagamentos em atraso cresçam significativamente nos próximos meses. A causa principal será a inflação real e o aumento das taxas de juro. Importa referir que no espaço de um ano o euro se desvalorizou bastante relativamente ao dólar: cerca de 1.20 dólares em Agosto passado para 1 dólar à entrada deste Agosto que está agora à porta. Uma vez que a maioria das moedas está informalmente indexada ao dólar, designadamente o iene e o yuan, pode afirmar-se que a UE perdeu um sexto do seu poder de compra no mundo no espaço de 12 meses. É muito.

Soubemos ontem que o BCE aumentou as taxas de juro em 50 pontos base. Trata-se de uma decisão que não era tomada há onze anos, esperando-se nova rectificação em Setembro. Não é uma boa notícia para quem tem créditos.

Tem sido ainda notícia o valor em impostos que o Estado tem ganho com a subida dos preços. A relação é evidente: preços maiores, maiores impostos. Tem-se avançado um valor provisório de 3 mil milhões de euros e pressiona-se o governo na aplicação deste valor em relação aos propósitos mais diversos. Importa muito acompanhar as notícias, ainda por cima numa altura em que a velha grande questão do aeroporto parece ter finalmente aterrado.

Para o presente ano, 8 em cada 10 empresas afirmam que fortalecer a sua liquidez e o seu fluxo de capital é uma das principais prioridades. Dois anos muito diferentes permitem agora a retoma com o proverbial balão de oxigénio. Os turistas voltaram ao país e a tal grande obra mencionada no parágrafo anterior terá consequências.

O bem-estar aparente reflecte-se em algumas respostas obtidas: por exemplo, exigir um pré-pagamento para efectuar o negócio passou de prática em 52% das empresas portuguesas em 2020 para 43% em 2021 e para 41% em 2022. É um aparente sinal de confiança nos parceiros e no mercado.

De igual modo, as cobranças de dívidas baixaram muito significativamente (38%, 32% e 23% nos mesmo três anos considerados), assim como o controlo do crédito. Importa sobretudo não esquecer que 2020 e 2021 foram os anos que foram e perceber estes números sem os receber com demasiado optimismo.

Quando comparadas com outras empresas europeias, as empresas portuguesas demonstram resiliência à falta de pagamento, sendo que 38% recorrem a processos de recuperação interna perante cenários de dívidas perante os 29% das estrangeiras. A acção legal apresenta números semelhantes em Portugal e nos outros países e reconhecida por cerca de metade das empresas.

Há contudo um número expressivo: em 75% das empresas portuguesas afirmou-se o recebimento de pedidos para aceitar prazos de pagamento mais longos do que o tido como razoável, e em 62% reconheceu-se que se acordaram prazos de pagamento maiores do que o esperado apenas para garantir o negócio. Neste último caso, a média Europeia é de 75%., sendo este mais um indicador positivo para a economia portuguesa.

Nas empresas portuguesas há grandes receios sobre a inflação e em 53% refere-se esse temor. Como sabemos, a inflação desvaloriza as dívidas, favorece os investidores e penaliza os credores. Num mundo onde a quantidade de dinheiro posta em circulação depende de uma infinidade de actores, as flutuações na criação de dinheiro podem conduzir à recessão e à deflação. É responsabilidade do Estado e dos Bancos Centrais evitar que haja muito dinheiro em circulação, mas também que haja muito pouco.

Um sinal positivo para Portugal é dado pela percentagem de empresas em relação à preocupação com o cash flow para o futuro imediato: em 45% afirmou-se que é reduzido, enquanto nas empresas da EU o valor foi de 34%.

O novo boom do turismo pós-pandemia já terá resultado nos países do sul da Europa, uma vez que o levantamento das restrições já terá efeitos no cash flow. A este respeito, a confiança é realmente maior «cá em baixo».

Há grande preocupação sobre a sustentabilidade ambiental e muitos clientes, particulares ou empresas, manifestam o seu desagrado perante as empresas que não cumprem as metas ambientais: em 47% das empresas em Portugal, Espanha, Itália e Grécia reconhece-se que os clientes optarão pela concorrência se virem desobediência aos compromissos ambientais. As vagas de calor e os grandes incêndios em Portugal e na Grécia são memórias recentes e feridas abertas, pelo que esta circunstância não pode surpreender.

Estamos no meio de um Verão que acabou de nos pôr na pele uma vaga de calor tremenda. Já se ouvem desejos pelo fim do Verão quando Agosto ainda não entrou. Com o calor chegou a subida dos juros e a preocupação com o que representa.

O conceito de oferta monetária é crucial mas a sua aferição apresenta problemas significativos e crescentes. Os contornos tornaram-se mais instáveis e flutuantes a ponto de colocar em questão a sua natureza operacional. Acrescente-se que para determinar a evolução ideal da oferta monetária não basta determinar com rigor os seus contornos: é igualmente necessário estabelecer uma relação entre o seu valor agregado e o volume total de transacções que deve permitir na economia. Os bancos centrais fazem os ajustes das taxas de juro e da indexação para a definição de sua política monetária.

Para obviar os grandes problemas, importa realmente respeitar os prazos dos pagamentos. Grandes ou pequenos, são compromissos que se assumem. Bem sabemos desde pequenos que uma promessa é uma promessa e que a palavra vale ouro: que tal apreciarmos estes valores os como apreciámos na meninice?

Pedro Cotrim

Editor

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