Actualmente, 71% da força de trabalho é composta por humanos e apenas 29% por máquinas.Mas, e de acordo com a mais recente edição do Future of Jobs Report apresentada pelo Fórum Económico Mundial, espera-se que os humanos desempenhem, em 2022, 58% das tarefas nas organizações, com as máquinas a ficarem responsável pelos restantes 42% de funções. Dotar os trabalhadores de aptidões tecnológicas é uma urgência, mas os autores do documento alertam que, tão importantes como estas, são mesmo as competências humanas
POR MÁRIA POMBO

Queiramos ou não, a evolução da tecnologia está a alterar os padrões de trabalho tradicionais, levando a que muitos empregadores e líderes empresariais tenham que repensar a forma como produzem e comercializam os bens, mas também o modo como gerem as suas equipas e as competências que procuram em cada colaborador. É que se a tecnologia pode causar algum desconforto e apreensão numa fase inicial, a verdade é que também permite atingir níveis mais elevados de eficiência em termos de produção e consumo, permitindo a entrada em novos mercados e estimulando a concorrência com empresas a nível mundial.

De acordo com a mais recente edição do Future of Jobs Report, apresentado pelo Fórum Económico Mundial (FEM) a tecnologia assume cada vez mais o papel de “aceleradora” dos negócios, sendo por isso necessário que as empresas e os seus colaboradores se adaptem às transformações que resultam da mesma, procurando uma nova e mais alargada visão no que respeita ao mercado de trabalho. O estudo contou com a participação dos colaboradores de organizações de relevo e parceiras do FEM, que responderam a inquéritos online entre Novembro de 2017 e Julho de 2018.

A ideia de que os líderes empresariais podem utilizar a automação em algumas tarefas, ajudando assim os colaboradores a desempenharem as suas funções de uma forma mais rápida e eficiente e poupando tempo e dinheiro, é uma das principais conclusões da análise e um dos principais contributos da inovação no mercado laboral. Aqui fica claro que o objectivo não é substituir a mão humana, mas apenas procurar estratégias que a complementem, ajudando as empresas a crescer e a chegar a novos potenciais clientes e investidores de outras partes do mundo.

Porém, para que tal possa tornar-se real, os trabalhadores devem ter formação adequada às novas tarefas que poderão desempenhar, de modo a poderem retirar o melhor proveito daquilo que a tecnologia lhes pode dar, aproveitando ao máximo as suas funcionalidades.

Neste sentido, o documento realça que os líderes devem criar sistemas de aprendizagem para os seus colaboradores, investindo assim em capital humano, e criar relações mais fortes com diversos stakeholders, de modo a ganharem uma maior visibilidade junto de empresas concorrentes. Os autores do estudo referem ainda que os trabalhadores devem mudar a forma como encaram o trabalho, treinando a sua capacidade de reter informação e alterando alguns aspectos da sua rotina, de modo a serem trabalhadores mais flexíveis e abertos à mudança. Por fim, uma chamada de atenção para os legisladores e educadores, os quais devem educar e incentivar os cidadãos – principalmente aqueles que estão fora do meio tecnológico – a adquirir novas competências e a interessarem-se por esta nova forma de trabalhar e estar no mundo, evitando assim a sua exclusão do mercado de trabalho.

Uma coisa é certa: a tecnologia veio para ficar e deve ser encarada como uma janela de oportunidades para a sociedade em geral.

No fundo, trata-se de uma espécie de alavanca da mudança, permitindo explorar e inovar em áreas como a velocidade de internet (que é cada vez mais veloz e acessível), a inteligência artificial, a análise de “big data” e as “nuvens” de armazenamento de informação. Todas estas áreas conduzem a novas oportunidades de negócio e ao crescimento económico dos países, porque permitem a exploração de novos mercados e em novos territórios. Complementarmente, e devido aos seus baixos custos, estas áreas permitem também a expansão e a melhoria da educação, especialmente nas comunidades mais desfavorecidas, bem como a passagem para uma economia cada vez mais verde e amiga do ambiente, tendo em conta os inúmeros avanços tecnológicos que permitem limitar a utilização de combustíveis fósseis.


Menos humanos e mais máquinas nas organizações

De acordo com o documento, 85% das empresas esperam expandir o uso da tecnologia ao nível da análise de “big data”, em 2022, sendo igualmente elevada a percentagem de organizações que consideram aumentar a sua utilização da internet, bem como o consumo de apps e o armazenamento de informação em nuvem. E embora a utilização e comercialização de robots humanóides ainda seja bastante limitada, a verdade é que estas máquinas têm vindo a chamar, de forma crescente, a atenção de muitos líderes, esperando-se por isso que, de um modo gradual, façam parte do dia-a-dia de diversas organizações.

Uma outra conclusão da análise diz respeito a mudanças geográficas. Em 2022, 59% dos empregadores inquiridos esperam alterar drasticamente a forma como produzem e distribuem os seus produtos, assumindo igualmente que pensam alterar os locais de produção e distribuição de bens, em conjunto com as suas cadeias de valor. Após estas alterações, 74% dos inquiridos esperam recorrer a mão-de-obra local. Complementarmente, 50% das empresas esperam que a automação origine a redução de alguma força de trabalho, passando alguns trabalhadores a exercer funções apenas em regime de part-time, e mais de um quarto acredita que esta realidade origine, não a redução, mas a alteração de alguns postos de trabalho, em que os trabalhadores passam a desempenhar funções diferentes daquelas que têm actualmente.

Uma outra previsão aponta para o aumento de tarefas desempenhadas por máquinas. Actualmente, 71% da força de trabalho é composta por humanos e apenas 29% por máquinas, mas existe a expectativa de que os humanos desempenhem, em 2022, 58% das tarefas, ao passo que a automação será responsável pelos restantes 42% do trabalho. As principais tarefas desempenhadas pelas máquinas estão – e estarão – relacionadas com a recolha e análise de dados, mas competências como a comunicação e a interacção, e a tomada de algumas decisões, poderão vir a ser também da sua responsabilidade, numa percentagem que não deve ultrapassar os 30%.

Todavia, o documento reforça que a tecnologia deve ser encarada com optimismo. Se é verdade que algumas tarefas poderão mudar e que trabalhar ao lado de máquinas será cada vez mais frequente, também é verdade que a inovação irá permitir a expansão dos mercados e o crescimento económico, originando assim mais postos de trabalho. Por necessitarem mesmo de ser desempenhadas por humanos, as profissões nas áreas das vendas e marketing, desenvolvimento organizacional, recursos humanos e inovação são aquelas em que os trabalhadores correm menos riscos de serem substituídos, sendo que os especialistas em automação e robotização, em segurança cibernética, em engenharia e em user experience serão aquelas que, previsivelmente, mais irão crescer e mais oportunidades de emprego irão criar.

Por outro lado, também é sabido que a presença cada vez mais ubíqua da tecnologia e as rápidas mudanças que a mesma obriga são sinónimo de instabilidade. Neste sentido, espera-se que a estabilidade ao nível das competências se situe na ordem dos 58%, o que significa que iremos assistir, até 2022, a mudanças de tarefas e funções em cerca de 42% das profissões. Por este motivo, a requalificação dos trabalhadores irá ser não só uma exigência para os empregadores, como uma verdadeira urgência.


É preciso desenvolver competências tecnológicas mas também humanas

As competências tecnológicas e a aprendizagem activa serão algumas das principais exigências feitas aos empregadores, em conjunto com a crescente importância das capacidades ao nível da programação e do design. O documento explica, porém, que o domínio das novas tecnologias é apenas uma parte das competências que os trabalhadores deverão ter, dando-se um grande valor às chamadas human skills, que estão relacionadas com a criatividade, o pensamento crítico e analítico, a atenção ao detalhe, a resiliência e a capacidade de resolver problemas.

Para gerir as diferenças entre aquilo que os trabalhadores dão actualmente às empresas e aquilo que deverão oferecer num futuro próximo, muitos empregadores estão a adoptar três estratégias: em primeiro lugar, procuram contratar apenas os colaboradores que já possuem as competências necessárias para o exercício das suas funções, sem necessitarem de formação; depois, procuram implementar um verdadeiro sistema de automação, de modo a que algumas tarefas não necessitem de intervenção humana; por fim, esperam promover a retenção dos actuais colaboradores, sendo que muitos deles irão necessitar de formação para conseguirem desempenhar algumas das suas novas (ou futuras) funções.

É verdade que as novas tecnologias estimulam o crescimento empresarial, a criação de emprego e a invenção de novas profissões, sendo por esse motivo uma vantagem para qualquer organização. Todavia, não nos podemos esquecer que as mesmas também exigem a requalificação de muitos trabalhadores, sendo necessário lidar com o gap que existe entre os “velhos” colaboradores e as novas tecnologias (e o mundo de novas tarefas que estas exigem), sendo certo que muitas funções vão deixar de ser desempenhadas por humanos, passando a ser da responsabilidade de máquinas.

Para que esta realidade seja possível e os negócios não se tornem obsoletos, os líderes empresariais devem preparar os seus colaboradores para as novas funções que irão desempenhar, dotando-os de competências para tal. E esta também é uma responsabilidade dos próprios trabalhadores, que devem estar disponíveis para aprender e para lidar com as mudanças que estão a chegar, sendo também necessário que, em conjunto com as novas competências técnicas que irão adquirir, adoptem uma postura mais flexível e desenvolvam as suas skillshumanas que máquina nenhuma poderá ter.

O período entre 2018 e 2022 assume-se como uma janela de oportunidades tecnológicas, principalmente para as organizações, as quais têm aqui a possibilidade de fazer crescer os negócios por via de novas actividades, melhorando ao mesmo tempo as condições de trabalho dos seus colaboradores e promovendo, junto destes, a aquisição de novas competências que serão determinantes para que as empresas consigam alcançar o seu máximo potencial. No fundo, este pode ser o início de um ciclo virtuoso, em que as empresas oferecem incentivos aos colaboradores (horários mais reduzidos, conhecimentos, melhores condições) e estes comprometem-se e empenham-se mais, contribuindo para que os negócios consigam ir o mais longe possível.

Por todos os motivos acima apresentados, os autores do estudo reforçam que é necessário olhar para a tecnologia com optimismo e mente aberta, encarando-a como uma “coisa” benéfica e não como um monstro que pretende substituir o Homem e dominar o mundo.

Mária Pombo

Jornalista