A busca pela fórmula mais eficaz de satisfazer patrões e empregados no cada vez mais confuso ambiente laboral parece estar longe de ser encontrada. E tal parece dever-se aos entendimentos e expectativas distintos que tanto uns como outros passaram a ter depois de dois anos de trabalho remoto, na sua maioria bem-sucedido. Como afirmam muitos trabalhadores, não é o facto de terem passado a detestar estar no escritório que explica a sua resistência em lá voltar, mas sim não encontrarem motivos válidos para o fazer
POR HELENA OLIVEIRA

Literalmente a cada semana que passa, o actualmente confuso mundo do trabalho é inundado com novas notícias, estudos, análises, inquéritos ou, e em suma, com uma parafernália de novas problemáticas que colocam dúvidas a empregadores e a trabalhadores, os quais continuam meio perdidos naquela que poderá ser considerada como uma das maiores revoluções no universo laboral das últimas décadas. E porque, quer queiramos ou não, o trabalho consome uma enorme parte das nossas vidas, é impossível não estarmos atentos ao que se passa em nosso redor no presente tendo em conta a coexistência de vários modelos e opiniões, que muitas vezes se contrariam, sem se saber exactamente qual será o que melhor se adequará ao nosso próprio futuro.

 A verdade é que os dois anos de pandemia obrigaram a uma reavaliação quase total das prioridades profissionais e pessoais, em particular por parte dos trabalhadores, os quais parecem ter despertado de um estado de dormência e de aceitação passiva das “coisas como sempre foram” e colocam agora a sua qualidade de vida no centro das suas preocupações e revindicações. Por seu turno, os empregadores encontram-se extremamente divididos no que respeita ao que será melhor para a performance empresarial, com os próprios líderes e executivos de topo a questionar também o que será melhor para as suas carreiras, funções e responsabilidades, a par dos resultados das empresas que gerem.

Se o modelo híbrido parece estar, de forma crescente, a ganhar terreno entre as várias modalidades possíveis – sendo inúmeros os estudos que o confirmam –, ganhando cada vez mas popularidade entre os trabalhadores, também é verdade que não assumiu (e, em muitos casos, nunca assumirá) nenhuma “universalidade”, continuando a suscitar ambiguidades que integram riscos e incertezas de natureza variada. Uma das questões que está a emergir em força refere-se ao facto de este modelo poder criar uma sociedade a duas velocidades, na qual muitos trabalhadores poder-se-ão sentir deixados para trás – o que dependerá muito das chefias -, mesmo não contando com a insatisfação daqueles cuja natureza das tarefas que executam impossibilita o “luxo” de poderem fazer o seu trabalho remotamente e conseguirem, desta forma, melhor equilibrar as demais esferas da sua vida. Apesar de as coisas serem como são, certo é que apenas os denominados trabalhadores do conhecimento poderão gozar deste privilégio, o que e por si só, pode dar azo a sentimentos de injustiça e a novas exigências dos que dele não podem usufruir. 

Em paralelo, um novo fenómeno está a dar que falar, desta feita perpetuando a relação desigual que sempre existiu entre empregados e trabalhadores e criando um clima de ressentimento nestes últimos. De acordo com o Future Forum, é cada vez mais significativo o número de executivos e de gestores intermédios que continuam a trabalhar remotamente ao mesmo tempo que insistem que os seus empregados voltem ao escritório. Mas para os trabalhadores que, comprovadamente, se adaptaram com sucesso ao modelo não-presencial durante os anos da pandemia, não baixando a sua produtividade e conseguindo equilibrar melhor as suas diferentes “vidas”, já não faz sentido algum perderem horas no trânsito, meterem-se em transportes públicos a abarrotar ou gastarem combustível – e logo agora, com a subida da inflação e as suas consequências, nomeadamente a crise energética -, muito menos lógica tem olharem para os seus superiores hierárquicos e obedecerem ao famoso ditado “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”. De acordo com a mesma fonte, o que está a acontecer é que o clima de irritação está a aumentar, com os trabalhadores a ripostarem mediante as poucas formas que o podem fazer: não comparecendo no escritório ou simplesmente procurando trabalho num outro sítio qualquer.

Um outro dado interessante é que muitos destes executivos citam ser plenamente capazes de trabalhar a partir de casa através de tecnologias como o Zoom, o Slack ou o Teams, e dizem que fazê-lo permite-lhes trabalhar em horas “menos comuns” e comunicar com colegas em diferentes fusos horários, mantendo ao mesmo tempo o equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Entretanto, mais de metade dos gestores e executivos querem os seus empregados de volta ao escritório cinco dias por semana, de acordo com os novos dados de inquérito da plataforma Fiverr, argumentando que o escritório facilita o acesso aos computadores, ao software e às TI da empresa, sendo este um local melhor para colaborar do que em casa. Um terço destes líderes afirmou igualmente que os trabalhadores são mais produtivos e têm mais motivação quando sabem que estão a ser monitorizados pessoalmente pelos seus superiores, o que contraria a opinião dos empregados; um quarto dos inquiridos acredita igualmente que os trabalhadores fazem pausas mais curtas se estiverem no escritório e, por último, 25% dos líderes entrevistados afirmaram que como já tinham pago pelo espaço do escritório, mais vale utilizá-lo.

Os trabalhadores que estão a ser chamados ou mesmo obrigados a voltarem para o escritório – mesmo que em regime híbrido -afirmam, sem surpresa, que querem continuar a trabalhar remotamente exactamente por razões similares às invocadas por esses mesmos executivos, declarando serem mais produtivos e usufruírem de um melhor equilíbrio entre a vida profissional e familiar. E o ressentimento agudiza-se pelas mesmas razões que sempre existiram na relação entre chefias e trabalhadores, assentes na velha disparidade de salários e benefícios, com estes últimos a relembrar que os seus chefes podem pagar casas próximas de um escritório no centro da cidade ou, e por exemplo, contratar amas que cuidem dos seus filhos enquanto estão ausentes, não sendo obrigados a deslocarem-se durante horas intermináveis ou a depender de cuidados infantis dispendiosos e pouco fiáveis para os seus descendentes. 

Adicionalmente, os trabalhadores consideram que, ao contrários dos executivos que passam a vida a ter reuniões com outros líderes de topo ou clientes, o seu trabalho pode ser perfeitamente cumprido em casa. A ajudar à sua causa está também o facto de os velhos argumentos de que estar no escritório é melhor para a criatividade, para a colaboração e para a criação de sentimentos de pertença à “comunidade” caírem por completo se a gestão de topo for tratada de forma diferente face aos seus funcionários e também porque à medida que o tempo passa, esses mesmos argumentos parecem estar a deixar de fazer sentido. 

Embora existam certamente razões válidas para um executivo ou gestor poder ou dever ter mais flexibilidade na medida em que têm mais responsabilidades e maiores exigências durante o seu quotidiano laboral, para os trabalhadores estas razões não se afiguram como convincentes. 

De qualquer das formas, e sendo este mais um pequeno capítulo de uma novela sem fim à vista, a verdade é que uma parte significativa das empresas deseja o regresso presencial dos seus trabalhadores aos escritórios, sendo no entanto cada vez mais difícil arranjarem razões válidas para os persuadir a fazê-lo. 

Se eu continuo a ser produtivo, qual a diferença entre estar sentado numa cadeira em casa ou numa de um escritório?

A pergunta é feita por milhões de trabalhadores que estão a ser chamados de volta ao regime presencial, mesmo pelos que estão a gozar de um modelo híbrido de trabalho.

Apesar de serem muitos os empregados que não estão a usufruir da possibilidade de trabalharem a partir de casa, entre aqueles que a têm, pelo menos no momento actual, e os que querem tê-la, o futuro afigura-se incerto de mais e há uma batalha latente entre estes e as lideranças. 

Como se pode ler num artigo da revista Vox, aqueles que pretendem voltar a trabalhar a partir de casa porque sentem que isso os ajudou tanto a nível profissional como pessoal, não compreendem os motivos pelos quais – e após dois anos a fazer um bom trabalho – têm de regressar ao escritório. Em simultâneo, os que estavam ansiosos por regressar ao trabalho presencial, queixam-se de não encontrar o mesmo ambiente de que desfrutavam antes da pandemia, com escritórios vazios e menos comodidades. Por outro lado, existem muitas empresas que estão a tentar várias formas de “aliciar” os seus trabalhadores a “voltarem a gostar” de trabalhar presencialmente, muitas delas sem efeito algum visível. Por exemplo, um executivo de um grande banco sediado nos Estados Unidos (que decidiu manter o seu anonimato), afirma que a sua instituição decidiu promover “iniciativas semanais de ´beber copos` depois do horário de trabalho”, a qual teve de ser abandonada pois os trabalhadores bebiam tanto que não se encontravam em condições para realizar eficientemente as suas funções no dia a seguir. O que parece uma anedota é apenas um exemplo de quão perdidas estão também as empresas sobre o que melhor funciona para a cultura organizacional e produtividade neste clima de “transição” para o que era normal e deixou de ser. 

No estudo acima mencionado realizado pela plataforma Fiverr, comprova-se taxativamente que os empregados não desejam abrir mão da flexibilidade e autonomia que aprenderam a saborear, que não querem ser continuamente monitorizados por um superior hierárquico e que não desejam de todo que as suas pausas sejam cronometradas. 

No mesmo inquérito, os inquiridos afirmam que não são as “pequenas regalias” que os farão voltar ao escritório a tempo inteiro, com 61% dos que ainda estão a trabalhar remotamente a afirmar que apenas considerariam esta hipótese caso tivessem um bom aumento salarial (o que também não parece muito ético) com um em cada cinco a afirmar que nenhum incentivo, seja de que natureza for, os fará desejar voltar ao escritório (21%) e 42% a afirmarem que consideram abandonar a empresa caso sejam forçados a regressar a tempo inteiro (se bem que dizer não é o mesmo que fazer). 

A verdade é que as razões pelas quais o regresso ao escritório não está a resultar são inúmeras, nomeadamente porque patrões e empregados passaram a ter entendimentos diferentes sobre “o que é o escritório”, e após mais de dois anos de trabalho remoto, cada um desenvolveu as suas próprias expectativas variadas sobre a melhor forma de despender o seu tempo. Um outro dado revelado pelo estudo realizado pelo Future Forum merece especial atenção: à medida que mais e mais trabalhadores do conhecimento regressam ao escritório, a sua experiência no trabalho – o que inclui a sua capacidade de concentração, os seus níveis de stress a par dos seus níveis de satisfação no trabalho – tem vindo a deteriorar-se.

As razões para esta deterioração prendem-se igualmente com o facto de o espírito de equipa em ambiente presencial – e em particular nas empresas que optaram pelo trabalho híbrido – parecer ter-se eclipsado. 

Nicholas Bloom, o reconhecido professor de Stanford que há muito analisa o futuro do trabalho e que tem vindo a realizar, em conjunto com outros académicos, inquéritos contínuos sobre o trabalho remoto os quais podem ser acedidos na plataforma de pesquisa WFH Research, afirma que um dos motivos para esta insatisfação tem a ver com o seguinte facto: a razão principal que os trabalhadores híbridos citam para comparecer no escritório reside na vontade de voltar a ver os colegas – algo que Bloom designa como “trabalho social” – e recuperar o ambiente de camaradagem que existe (ou existia) nas empresas. Ora, e porque eles próprios, tal como os colegas, não estão necessariamente a seguir as orientações da empresas relativamente aos dias em que nelas devem comparecer, o que acaba por acontecer é um desencontro entre os seus pares, pois uns escolhem (quando isso lhes é permitido) determinados dias para o trabalho presencial, enquanto outros optam por dias diferentes, acabando por não se encontrar.

Apesar de, e obviamente, ser responsabilidade da empresa determinar os dias em que os trabalhadores híbridos deverão comparecer nas instalações das empresas, são muitas as chefias que não estão a penalizar os trabalhadores por não estarem a cumprir as suas directrizes ou por serem elas mesmas a dizer aos funcionários para escolherem os das em que devem trabalhar presencialmente.  O que parece um comportamento estranho e demasiado liberal, afirma Bloom, mas que se pode dever ao facto de estas terem medo de alienar uma força de trabalho num clima de dúvidas e no qual é cada vez mais difícil contratar e reter empregados. Assim e como sublinha o professor de Stanford, o resultado não é o desejado: as pessoas vão a escritório para estar com os seus colegas e acabam por não os ver, o que minimiza a sua vontade de lá voltar. Outro motivo prende-se com o facto de muitas pessoas terem-se mudado para sítios mais longe dos seus locais e trabalho durante a pandemia, o que torna a sua deslocação mais morosa, reflectindo-se em mais horas perdidas no trânsito e, por consequência, em menor vontade de comparecer na empresa. A verdade é que parece estarmos perante uma enorme resistência por parte de uma força de trabalho que não se conforma com o facto de ser obrigada a regressar a uma forma de trabalho que, a seu ver, já não funciona, ao mesmo tempo que os líderes empresariais estão igualmente perdidos face ao que devem ou não devem fazer para recuperar o ambiente laboral “normal” a que estavam habituados.

Ou e em suma, novos episódios se seguirão nesta série que, certamente, terá ainda muitas temporadas.

Helena Oliveira

Editora Executiva