Muito se tem falado sobre empreendedorismo em Portugal. Todavia, não tem sido feita, no País, uma ligação explícita entre empreendedorismo e sustentabilidade, nem no âmbito das políticas públicas, nem ao nível dos vários capitalistas de risco existentes. É tempo de a fazer e com urgência
POR SOFIA SANTOS

Amplamente discutido ao longo dos últimos anos em Portugal, e não só, o empreendedorismo é compreendido por muitos como algo associado à criação de uma pequena empresa que, quando injectada com capital, consegue escalar a venda do seu bem ou serviço, gerando um crescimento do volume de vendas superior a 20% ao ano. No entanto, esta visão pode ser redutora. Segundo a OCDE, os empreendedores são “(…) agentes de mudança e crescimento numa economia de mercado, podendo agir para acelerar a geração, difusão e concretização de ideias inovadoras (…), procurando não só identificar oportunidades económicas potencialmente rentáveis, mas estando dispostos também a assumir riscos relativamente à intuição que têm face a essa potencial oportunidade”.

Sendo Portugal um dos hotspots de biodiversidade na União Europeia tem, naturalmente, um forte potencial para o desenvolvimento de novos negócios nos quais a protecção ambiental é o núcleo do modelo de negócio. No entanto, não tem sido feita, no País, uma ligação explícita entre empreendedorismo e sustentabilidade, nem no âmbito das políticas públicas, nem ao nível dos vários capitalistas de risco existentes. Ou seja, nas várias iniciativas de promoção do empreendedorismo, as questões ambientais, sociais e éticas enquanto critérios explícitos e exigíveis pelos investidores não são visíveis. O potencial da economia verde é já reconhecido e quantificável em alguns países, estando vários governos a trabalhar este assunto (Reino Unido e Dinamarca, por exemplo), uma vez que a ausência de uma “economia verde” irá resultar em problemas económicos significativo a 10 ou 15 anos e, como tal, é necessário antecipar e actuar.

Atendendo aos fundos comunitários até 2020, e à própria política de crescimento económico defendida pela União Europeia, a economia verde será fortemente apoiada, quer ao nível da prototipagem e demonstração de produtos, quer ao nível de apoios para a colocação desses produtos em mercado. Assim sendo, a promoção do empreendedorismo sustentável é urgente para a economia portuguesa.

Esta falha existe porque, na realidade, o tema da sustentabilidade ainda não é percepcionado, pela maioria dos decisores políticos em Portugal, como um factor essencial ao crescimento da economia, geração de emprego e riqueza. Atrevo-me a dizer que, apenas o actual ministro do Ambiente, Jorge Moreira da Silva, compreende esta evidência e tem vindo, dentro do que é possível fazer no actual contexto governamental, a tomar passos sólidos, mas discretos, nesta caminhada. É necessário, portanto, colocar empresários, investidores, academia e os empreendedores a actuar também nesta caminhada.

Necessário também é ter capital de risco para investir, por exemplo, na exportação de vinho biológico, na produção de agricultura biológica, na prototipagem de equipamentos e produtos que possam contribuir para uma maior eficiência na utilização dos recursos, no turismo sustentável, entre muitos outros. Ou seja, é essencial que o mundo do capital de risco perceba o que a OCDE já compreendeu há bastante tempo: os empreendedores “verdes” podem identificar novos nichos de mercado emergentes, os quais poderão resultar em mudanças nos valores sociais, nos padrões de consumo ou em reformas no enquadramento legislativo.

Um outro aspecto importante para os capitalistas de risco é compreenderem que existe um número crescente de empreendedores que querem desenvolver negócios sustentáveis, nos quais sejam capazes de desenvolver e explorar oportunidades empresariais que criam valor económico, ecológico e social, e onde a pura maximização financeira do projecto a curto prazo não é a principal nem a única preocupação.
Isto não é filantropia, mas sim investir com responsabilidade e a pensar no bem-estar dos nossos filhos e netos. Isto sim, é ser um investidor sustentável.

Em Junho de 2014, em Dublin, numa conferência organizada pelo International Council for Small Businesses, reuniram-se mais de 500 pessoas, do mundo empresarial e académico, para discutir a importância dos temas éticos e sociais como catalisadores para a recuperação da economia, em particular da economia Irlandesa. Reconheceu-se a urgência em se alterar a forma como a educação é ministrada pelas escolas secundárias e universidades, uma vez que a existência de aulas de longa duração nas quais os alunos têm de ficar sentados em salas, está completamente desfasada da realidade, povoada por tweets e caracterizada pelo acesso massificado à informação. Apelou-se, assim, à necessidade de se adequarem as escolas às necessidades do mercado do futuro e ao reconhecimento por parte dos académicos de gestão e de economia da importância crescente da economia circular.

Portugal é talvez um dos melhores países do mundo para se viver. E por isso é, igualmente, um dos melhores locais do mundo para promover uma inovação que seja útil aos nossos filhos e netos. Esses sim, vão precisar. Nós, já não.