Dinamizar encenações a partir de situações reais vividas por pessoas desfavorecidas é o mote do GTO LX, que trabalha a metodologia do Teatro do Oprimido em bairros carenciados de Lisboa. Num processo em que se promove a reflexão sobre a realidade, gerando empowerment a partir de “uma consciência comunitária direccionada para a resolução conjunta dos problemas”, o espectador entra em cena para improvisar, como protagonista, soluções alternativas, explica ao VER a presidente deste Grupo, Gisella Mendoza
POR GABRIELA COSTA

© GTO LX

O Grupo de Teatro do Oprimido – Lisboa (GTO LX) nasceu informalmente em 2004, trabalhando directamente com jovens dos bairros da Cova da Moura e Estrela d’África, após um período de aprendizagem prático na metodologia do Teatro do Oprimido em Moçambique, em 2002. Em 2005, torna-se numa associação sem fins lucrativos, a fim de desenvolver um trabalho sustentável e em parceria com outras organizações locais.

O GTO LX trabalha a metodologia do Teatro do Oprimido em bairros onde existe um conhecimento prévio do trabalho da associação. Segundo Gizella Mendoza, normalmente são as próprias organizações locais que contactam o projecto, com o objectivo de iniciar um trabalho com um grupo de pessoas específicas: “o GTO LX nunca entra num bairro para convencer a população a trabalhar com o Teatro do Oprimido. A nossa abordagem passa muito pelo trabalho em parceria com organizações locais que conheçam o bairro e que tenham a capacidade de mobilizar pessoas para que experimentem o Teatro do Oprimido”. Nas sessões de trabalho “o mais importante é o convívio e o espaço para ser ouvido, contar e discutir as realidades de cada um”, sublinha. Realidades que “surgem de forma espontânea através dos jogos e exercícios do arsenal do Teatro do Oprimido”.

Após um trabalho prático de criação, reflexão e produção colectiva de um espectáculo, o qual é apresentado à comunidade, o grupo decide se quer dar continuidade ou não ao trabalho. A continuidade pressupõe o aprofundamento da análise social das situações discutidas, as suas ligações ao poder, as suas origens e, sobretudo, a procura conjunta de soluções, explica ao VER a presidente do GTO LX.

O processo de estimular a participação activa dos cidadãos desenvolve-se a dois níveis:

Dentro do grupo – O trabalho regular nas sessões é um trabalho de diálogo e de confronto. O processo de criação é um processo democrático onde todos participam na identificação do porquê da situação e o papel que cada um assume nela. O questionamento contínuo sobre as realidades vividas representa, em muitas ocasiões, o primeiro passo para a tomada de consciência sobre as relações de poder na sociedade onde o grupo se insere. Quando o espectáculo é apresentado à comunidade, o grupo reconhece a necessidade de transpor esse espaço de diálogo para dentro da própria comunidade.

Dentro da comunidade – As apresentações públicas do grupo dentro da comunidade criam um espaço de discussão aberto a todos e todas. É com base no espectáculo e na procura conjunta de soluções para a situação apresentada que a comunidade dialoga de forma aberta sobre o que fazer, enquanto comunidade, para que a situação apresentada (e quase sempre partilhada pelos presentes) possa ser resolvida para todos. As apresentações recolhem propostas claras e concretas sobre o que se poderia fazer ou o que deveria mudar para que a situação não se continue a repetir. O público leva esta discussão para casa, mas ela muitas vezes continua de forma construtiva após o espectáculo. Com o tempo e com base no trabalho do grupo, a comunidade reconhece o grupo como um ponto de referência.

Espectadores protagonistas
As apresentações das peças de teatro do GTO Lx às comunidades, apelando à participação do espectador, que entra em cena para improvisar, como protagonista, soluções alternativas ao problema encenado, têm um balanço “extremamente positivo”, garante Gisella Mendoza, para quem “as comunidades são muito criativas e solidárias na procura conjunta de soluções”.

Disposto a lutar contra as injustiças de que é alvo, o público identifica-se rapidamente com as situações da vida real que inspiram os espectáculos, e “intervém com muita determinação e firmeza”. Os fóruns nas comunidades “são extremamente ricos”, não só em termos de conteúdo mas em termos de solidariedade e justiça social, conclui.

As comunidades envolvidas “são muito criativas e solidárias”, já que se identificam rapidamente com os retratos da vida real que inspiram os espectáculos .
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Mas, em que consiste a metodologia do Teatro do Oprimido, desenvolvida por Augusto Boal nos anos 60, e hoje praticada em mais de setenta países? Trata-se de uma prática teatral cujo objectivo é promover a reflexão do espectador sobre a sua realidade, expondo o modo como a sua conduta resulta da sua percepção das relações de poder e de processos de dominação e exclusão social.

Pretende-se com esta metodologia clarificar estes processos, dando ao sujeito modos de agir com conhecimento e em liberdade, a partir de técnicas como o Teatro Imagem; o Teatro Invisível; o Teatro Legislativo; o Teatro Jornal ou o Teatro Fórum. Neste último, os espectadores podem intervir, propondo possíveis soluções para o problema apresentado, e o palco torna-se num espaço neutro para a exposição e discussão de ideias, “desenvolvendo a participação cidadã, pois todos têm direito a exprimir as suas ideias e vê-las contestadas pelos outros”, defende a presidente do GTO LX. Esta reflexão “gera uma consciência comunitária direccionada para a resolução conjunta dos problemas”.

Ao longo do processo de empowerment social, os beneficiários aprendem a dominar as técnicas do Teatro fórum enquanto as usam para criarem espectáculos que reflectem as suas realidades específicas e que envolvem activamente a toda a comunidade. Numa fase mais avançada, tornam-se eles próprios multiplicadores da metodologia, orientando grupos autónomos que promovem a transformação social dentro das suas comunidades.

O trabalho com os grupos ao longo do tempo “provoca muitas mudanças nos seus elementos: Os jovens ganham uma visão mais crítica sobre si mesmos, sobre a sociedade e sobre o seu papel enquanto cidadãos participativos, tornam-se mais interventivos e actuam como mediadores de conflitos. Alguns deles voltam à escola porque entendem que o seu futuro passa por uma educação melhor. Tornam-se modelos dentro das suas comunidades e embaixadores das mesmas fora delas”. Com a experiência, os elementos dos grupos tornam-se formadores e assumem então responsabilidades de gestão e acompanhamento de grupos.

O GTO LX está interessado na formação contínua dos grupos comunitários de Teatro do Oprimido para que estes possam dar continuidade ao trabalho de forma autónoma. Por isso alguns elementos dos grupos comunitários trabalham enquanto assistentes ou responsáveis da criação e formação de outros grupos comunitários, tendo assim um espaço de experimentação em contexto de formação. Faz parte do trabalho dos grupos a dinamização de jogos, a estruturação de acções de formação e a estruturação do seu próprio processo de aprendizagem. “Todos os elementos dos grupos são incentivados a assumir as funções de formadores/as”, nota Gisella Mendoza.

O GTO LX realiza acções de formação abertas ao público em geral, para dar a conhecer, numa perspectiva prática, o trabalho do Teatro do Oprimido. Existem vários tipos de formação: Acções de sensibilização (sessão prática dirigida a organizações onde os participantes entram em contacto com a técnica do Teatro Fórum), Formação Inicial (formação prática sobre o Teatro do Oprimido, em geral, com aprofundamento em Teatro Imagem e Teatro Fórum), Formação Avançada (aprofundamento da dramaturgia do Teatro do Oprimido e iniciação na Estética do Oprimido), e Formação de Curingas (trabalho específico sobre o papel dos curingas, que promovem o diálogo entre o público e o palco). Neste momento, a maioria dos projectos de intervenção comunitária a decorrer são de longa duração. No entanto, qualquer organização pode requisitar formações.

Resta dizer que o trabalho voluntário é fundamental para o GTO LX, tendo em conta a diversidade de actividades que o projecto desenvolve. No Festival Internacional de Teatro do Oprimido, realizado em Maio, por exemplo, a participação de vários voluntários foi “a chave de sucesso” do evento.

Rede Multiplica
A Rede Multiplica reúne os grupos de Teatro do Oprimido do GTO LX. Formados e certificados pelo GTO LX, estes grupos de multiplicadores usam esta metodologia para intervir nas suas comunidades. Além de acompanhar o processo de empowerment dos grupos, desde a sua mobilização até à autonomia, o GTO LX promove regularmente encontros, festivais e formações que possibilitam a partilha de experiências entre os diversos grupos da rede.Actualmente estão activos os seguintes grupos:
. Depois dos Entas
O Grupo do Centro Social e Cultural da Casa do Povo de Fajã de Baixo, em Ponta Delgada, foi criado em 2008. Composto exclusivamente por idosos, este grupo discute nos seus espectáculos a realidade dos mais velhos numa sociedade onde ser idoso é ser esquecido.. DRK
Originário dos bairros da Cova da Moura e Zambujal, este grupo resulta do projecto DiverCidade (Iniciativa EQUAL), no qual o GTO LX experimentou a ferramenta do Teatro Fórum para a promoção do empowerment comunitário. Os jovens, elementos do grupo, provocam a participação da comunidade com espectáculos sobre a droga, a discriminação, a identidade e a organização comunitária.

. ValArt
No Vale da Amoreira foi criado, em Maio de 2008, este grupo constituído por jovens, também como resultado do Projecto DiverCidade. No VAlArt, o recurso ao Teatro Fórum provoca o envolvimento e a participação da comunidade na resolução das problemáticas que falam sobre a discriminação de género, conflito de gerações, abuso de autoridade, violência e sexualidade.

. Realidade Riba Palco
Criado em Novembro de 2010, este grupo do Bairro 6 de Maio trabalha, através do Teatro Fórum, o tema da marginalização do bairro e a discriminação do mesmo.

. Cidade Sol
Este grupo iniciou o seu trabalho em Outubro de 2010 no bairro da Cidade Sol. Actualmente o grupo trabalha a técnica do Teatro Fórum na Escola Secundária e Básica Santo António da Charneca, reflectindo sobre a discriminação racial na comunidade escolar.

 

Gabriela Costa

Jornalista