O estabelecimento de uma ligação de cooperação e ajuda entre o sector privado e a economia social que, durante muito tempo foi considerada impossível e até perversa, é hoje essencial à sobrevivência de ambos os parceiros
POR PAULA GUIMARÃES

Grata pela oportunidade de colaborar com o Portal VER, proponho-me realizar algumas abordagens sobre a economia social e solidária e suas tendências de evolução, dilemas e encruzilhadas.

O primeiro desafio que vos proponho é ver, mais de perto, esta parceria emergente entre as entidades de economia social e os financiadores privados.

O desenvolvimento da responsabilidade social no nosso país na última década e meia originou o aparecimento de diversas iniciativas financiamento por parte de reputadas organizações. São disso exemplo as fundações EDP e Montepio, o BPI, a Fidelidade e mais recentemente a Caixa Geral de Depósitos.

Todas elas elegeram a economia social e alguns dos sectores por esta dinamizados (envelhecimento, deficiência e infância e juventude) como candidatos elegíveis para merecerem apoio financeiro.

Quer se fale em donativos não reembolsáveis ou se utilize a nova terminologia de investimento social, o que está em causa é o reconhecimento, por parte das empresas, da importância deste setor para o desenvolvimento sustentável da sociedade portuguesa.

O estabelecimento de uma ligação de cooperação e ajuda entre o sector privado e a economia social que, durante muito tempo foi considerada impossível e até perversa, é hoje essencial à sobrevivência de ambos os parceiros.

Sem financiamento privado, as entidades mais arrojadas estão impedidas de inovar, experimentar novas intervenções, alargar os seus campos de actuação ou aumentar a qualidade dos seus serviços. Os protocolos de cooperação vigentes são insuficientes e assentes numa lógica de subsidiação míope que não distingue o mérito nem premeia a iniciativa e só a possibilidade de obter um apoio extraordinário pode alavancar projectos disruptivos e criativos.

Por outro lado, as empresas necessitam, cada vez mais, de obter uma licença ética para operar, um fundamento de redistribuição do proveito em prol da comunidade envolvente, um argumento solidário para estreitar as relações com a rede social a que devem pertencer.

Só há crescimento económico equilibrado e com futuro numa sociedade socialmente coesa, atenda ao devir demográfico, potenciadora da diversidade e que não deixa ninguém para trás.

[quote_center]Pese embora o altruísmo da economia social e a responsabilidade social das empresas, esta ligação pode originar a proliferação de recursos desajustados, não planeados e de sentido contraditório.[/quote_center]

Esta ligação virtuosa parece garantir o nascimento de soluções inventivas e potenciadoras de direitos humanos. Parece ser suficiente para garantir que novas respostas emergirão e que os problemas sociais complexos que nos afligem serão minorados.

Gostaria de ser assim optimista, mas creio que faltam ainda outros factores, para que se possa falar de uma equação de sucesso garantido.

Pese embora o altruísmo da economia social e a responsabilidade social das empresas, esta ligação pode originar a proliferação de recursos desajustados, não planeados e de sentido contraditório.

Efectivamente nas empresas e nas consultoras que as apoiam existem poucos quadros com competências nas áreas da sociologia, gerontologia, serviço social ou psicologia que possam validar as propostas candidatas a apoio e que visionem o seu eventual impacto nos domínios do empoderamento dos beneficiários e na união das comunidades.

Por outro lado, os financiamentos privados são pontuais, localizados, sem a pretensão de uma visão de conjunto nacional, sem o objectivo de um planeamento a longo prazo, sem o tempo de esperar para colher o que se semeia.

Acresce que as empresas não têm legitimidade para avaliar a idoneidade dos dirigentes, para conhecer o funcionamento das organizações, para avaliar a sua solvabilidade e perspectivas de continuidade.

Quando apostam num projecto arriscam não apenas o valor que entregam, mas a sua reputação e a confiança que nelas depositam as suas partes interessadas.

Por isso, estes dois sectores podem e devem ser parceiros, co-autores da mudança que urge, mas precisam do olhar e da actuação do sector público. Não para controlar, não para se imiscuir nas decisões livre de ambas as partes, não para coarctar a iniciativa, mas para apontar caminhos, reflectir e avaliar as práticas, diferenciar os promotores, deixar sinais de alerta e reconhecer o mérito de quem trabalha com os olhos postos no futuro e de quem sabe ver a diferença e apostar apenas em quem merece.

Só assim passarão de amigos improváveis a uma rede estruturada em prol dos mais vulneráveis.