Considerando que, se nada for feito, a sustentabilidade do planeta está em risco, os mentores do GreenFest elegeram a economia circular como o tema de destaque da sua 9ª edição, realizada entre 6 e 9 deste mês, no Estoril. Focados na ideia de que “nada se perde, tudo se transforma”, os oradores da conferência inaugural do evento demonstraram o que tem sido feito e o que se espera fazer para alcançar o desperdício zero, em Portugal e além-fronteiras
POR
MÁRIA POMBO

O espaço convidava a experimentar, a descobrir e a conhecer… incentivava a procurar novas actividades e, no fundo, a circular. Entre conferências, debates, workshops e outras experiências, a 9ª edição do GreenFest realizou-se entre os passados dias 6 e 9 deste mês, no Centro de Congressos do Estoril.

Procurar novas formas e modelos sustentáveis de produção e consumo e descobrir respostas e soluções para os desafios relacionados com o crescimento económico e social, preservando o ambiente e os recursos naturais, foram os principais objectivos desta edição do “maior festival de sustentabilidade do País”, que elegeu como tema de destaque a economia circular – segundo a qual se pretende fomentar a criação de emprego através de modelos de negócio escaláveis, aumentar o tempo de vida dos materiais, estimulando a sua reutilização e reciclagem, diminuir a produção de detritos, e promover a utilização de recursos renováveis.

© GreenFest
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A abertura do evento ficou a cargo de Carlos Carreiras, presidente da Câmara Municipal de Cascais (CMC), para quem a aposta numa economia mais sustentável “é sempre incompleta” pois, ainda que muito já tenha sido “feito e materializado”, é necessário que “continuemos militantes desta causa”. Referindo que o GreenFest “ajuda a vencer um conjunto de utopias que se vão renovando”, o antigo vice-presidente da CMC com o pelouro do ambiente referiu que é urgente procurar “uma nova forma de criar postos de trabalho e de riqueza”.

Seguindo esta ideia, o mentor desta iniciativa, Pedro Norton de Matos, reforçou que a economia circular é a economia do desperdício zero, “em termos económicos e não só”, sublinhando que, para além dos resíduos, existe também, e actualmente, “muito capital humano subaproveitado”. Considerando que a educação tem um papel importante para a sustentabilidade do planeta, Norton de Matos apresentou o Duca, a mascote do evento, o qual foi criado com o objectivo de mostrar que cada um tem o poder de fazer a diferença, incentivando as organizações a apostar na educação, principalmente das novas gerações. Neste sentido, o mentor do projecto aproveitou a oportunidade para anunciar algumas iniciativas que iriam decorrer ao longo do evento, como o Parlamento das Crianças – um debate que se realizou no dia 9 e onde os miúdos até aos 12 anos tiveram a oportunidade de discutir as questões ambientais, sem moderação de adultos.

[quote_center]“Os suecos são financeiramente recompensados por reduzirem os resíduos nas suas habitações” – Sten Engdahl[/quote_center]

Na qualidade de representante da Embaixada da Suécia – que foi o país convidado desta 9ª edição – Sten Engdahl referiu que “a economia circular está ligada ao desenvolvimento sustentável e em linha com o governo sueco”. Sendo esta a nação líder, a nível mundial, no que respeita à sustentabilidade, Engdahl referiu que os assuntos relacionados com este tema devem ser tratados “à escala individual, nacional e internacional”. Entre diversas estratégias, o sueco explicou que muito do trabalho é feito junto da população, no sentido de incentivar, por exemplo, o maior número de pessoas a utilizar transportes públicos ou bicicletas, dispensando os veículos motorizados. Uma outra estratégia utilizada pelo Governo daquele país está relacionada com a própria diminuição de resíduos domésticos: para a conseguir alcançar, e estando consciente de que “existe muito mais ainda por fazer”, Engdahl explicou que “os cidadãos são financeiramente recompensados por reduzirem os resíduos nas suas habitações”.

Por fim, a secretária de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza salientou que “a forma e a velocidade com que usamos os recursos é insustentável”, sendo necessário fazer da sustentabilidade “a nossa bandeira para o futuro”. Reforçando que “devemos aprender a olhar para o que a natureza nos dá”, Célia Ramos explicou que temos a obrigação de observar “as estruturas naturais e aprender com estas a construir com menos materiais e maior robustez” e que devemos também “olhar para as plantas e perceber de que forma estas conseguem, por exemplo, aproveitar a luz solar”.

© DR
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E se um dia a água e as florestas deixarem de existir?

Feitas as apresentações, e sob o mote de que “nada se perde, tudo se transforma”, a Conferência Inaugural deste certame contou com a participação de algumas figuras portuguesas que, numa perspectiva académica, empresarial ou social, deram o seu testemunho acerca do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido em Portugal. O debate, que foi moderado pela jornalista Fernanda Freitas, contou ainda com a presença de alguns oradores internacionais, nomeadamente vindos da Suécia, que, enriquecendo-o, revelaram e explicaram algumas boas práticas que, no seu país ou empresa, contribuem para alcançar o principal objectivo da economia circular: o desperdício zero.

O embaixador da Causa do Ambiente na Suécia foi o primeiro, de sete oradores, a dar o seu testemunho. Em jeito de crítica, mas não esquecendo as conquistas que já foram feitas, Jan Olsson alertou para a importância de uma verdadeira mudança, referindo que “não podemos lutar contra questões como a pobreza e o aquecimento global enquanto existir desperdício”, pondo a tónica no facto de actualmente consumirmos cerca de um terço do que produzimos. Uma questão preocupante, para Olsson, é o facto de estarmos “preocupados em produzir sempre mais bens, ao invés de repararmos os que estão avariados” ou reutilizarmos tanto quanto possível.

[quote_center]“Não podemos lutar contra questões como a pobreza e o aquecimento global enquanto existir desperdício” – Jan Olsson[/quote_center]

Contudo, e apesar de poder exigir algum investimento inicial, o sueco esclareceu que transitar para uma economia circular significa “aumentar os nossos níveis de eficiência”, os quais são importantes para “diminuir o impacto da nossa acção e salvar o planeta”. E é com base nesta ideia, e considerando que “já conseguimos produzir roupa, sapatos e electrodomésticos com materiais reciclados e mais sustentáveis”, que actualmente “estamos mais fortes e somos melhores”, sendo assim possível reduzir os custos e preservar o ambiente. Para Jan Olsson, “alcançar a cooperação entre o sector público e o privado” é o passo seguinte – e necessário – para diminuir ainda mais o desperdício e continuar a lutar pela sobrevivência do planeta.

Por seu turno, e abordando o papel da indústria de equipamentos médicos, Freimut Schroder, da Siemens Healthineers, começou por dizer que não imagina “um futuro sem ser eficiente, sustentável e com engenharia que proteja o ambiente”. O alemão explicou que o ser humano tem a capacidade de produzir e reciclar materiais, vezes sem conta e sem ter consciência, referindo que “todos reciclamos as células do nosso corpo”. Um dos grandes objectivos da sua empresa é assegurar que os produtos “conseguem melhorar a vida de alguém ou, até, salvar vidas”. E foi com base na ideia de que “um objecto é bom quando cumpre os seus objectivos” que o alemão estabeleceu a relação entre a sua acção e a economia circular, esclarecendo que “garantir a máxima utilidade e valor dos produtos, materiais e componentes, em todas as vezes que são utilizados” é uma das grandes finalidades, quer da Siemens, quer deste modelo económico.

Numa perspectiva mais académica, Catarina Roseta-Palma, do ISCTE-IUL, deu ênfase aos verdadeiros custos da actual utilização de recursos e da fácil expulsão dos resíduos. Para a economista ambiental, existem recursos – como a água e as florestas – que, do ponto de vista “meramente económico”, são relativamente baratos, mas cujos “verdadeiros custos de utilização se prendem com a sua própria escassez”. Por outras palavras, a docente explicou que “actualmente, aquilo que pagamos pela água que consumimos é muito inferior ao seu verdadeiro custo, tendo em conta que, no futuro, esta deixará de existir”. Complementarmente, também a extracção de biocombustível e a desflorestação são outros recursos que apresentam custos reais muito superiores aos que estão tabelados pela actual perspectiva económica.

[quote_center]“Aquilo que pagamos [hoje] pela água que consumimos é muito inferior ao seu verdadeiro custo, tendo em conta que, no futuro, esta deixará de existir” – Catarina Roseta-Palma[/quote_center]

Para além dos recursos, também os resíduos – nomeadamente os domésticos – representam custos e têm consequências avassaladoras, considerando os seus “custos directos de recolha e transporte e os enormes efeitos que têm para o ambiente”. Tendo em conta o seu impacto no ecossistema marinho, também a acumulação de plástico no oceano foi considerada pela economista como uma “situação grave”.

Contudo, e apesar de acreditar que “se os recursos forem caros, todos os resíduos vão ser mais aproveitados e reutilizados até se chegar o mais próximo possível do desperdício zero”, Roseta-Palma entende que nem tudo merece ser reutilizado, defendendo a “incineração como uma forma de recuperar os excedentes ou aproveitar a sua energia”. Com base na ideia de que “a natureza não reconhece fronteiras”, a economista defendeu ainda que os diversos países devem unir forças, aproveitar as vantagens que cada nação tem e apostar na verdadeira sustentabilidade do planeta.

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Desperdício zero é “utilizar o suficiente para satisfazer uma necessidade”

Também aproveitando diversos exemplos que a natureza pode dar – como o facto de a folha de Lotus conseguir estar sempre limpa, por mais que viva num ambiente poluído, ou como a capacidade que as borboletas têm de não perderem a cor, mesmo que estejam a morrer – Lars Montelius, director geral do Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL), explicou que “’nano’ é o tamanho onde operam os átomos” e a Nanotecnologia é a ciência que analisa as partículas mais pequenas, utilizando apenas aquilo de que necessita”. E é com base nesta ideia – e olhando para a Nanotecnologia como um exemplo de desperdício zero – que o investigador do INL acredita que, “para sermos sustentáveis, devemos utilizar não tudo, mas apenas o suficiente para servir uma determinada necessidade”, considerando que “é desta forma que evitamos o desperdício”.

Da parte da Ikea Portugal, que é uma empresa que procura constantemente novas formas de evoluir e ser mais sustentável, Fernando Caldas sublinhou que “alcançar a independência energética e de recursos”, nas suas lojas, e “inspirar e permitir que milhões de pessoas vivam uma vida mais sustentável em casa” são dois dos seus principais objectivos. Neste sentido, o responsável pela marca sueca em Portugal explicou que uma das grandes apostas do grupo é a iluminação Led, a qual “reduz o consumo em 85% e tem uma durabilidade de 20 anos”. Complementarmente, e através da implementação de painéis solares nas suas lojas, o gestor adiantou que, até 2020, o grupo pretende “gastar a mesma energia que produz”, ou seja, “ser auto-suficiente do ponto de vista energético”.

Um óptimo exemplo de como é possível alcançar este objectivo ambicioso é o facto de, recorrendo a um sistema de “Solar Tubes”, a Ikea de Loures ser a primeira loja sustentável, a nível mundial. Para além de beneficiar o ambiente, esta organização comprova que investir em energia renovável e apostar em edifícios mais eficientes é um gesto vantajoso para o seu próprio crescimento, tendo já permitido poupar 133 milhões de euros, desde 2010.

[quote_center]Recorrendo a um sistema de “Solar Tubes”, a Ikea de Loures é a primeira loja sustentável, a nível mundial[/quote_center]

Por outro lado, e focando-se no PERSU (Plano Estratégico Para os Resíduos Urbanos) – que pretende, até 2020, aumentar os níveis de reciclagem e reduzir a percentagem de resíduos orgânicos biodegradáveis nos aterros -, o presidente da TratoLixo, uma empresa pública de tratamento de resíduos urbanos, referiu que “Portugal ainda está longe de atingir as metas definidas, essencialmente no que respeita a tratamento de material orgânico e resíduos alimentares”.

Para João Dias Coelho, as diferenças regionais não deixam margem para dúvidas: Portugal e a Suécia são países com um número semelhante de habitantes; no entanto, por cá existem apenas três incineradoras – uma em Lisboa, outra no Porto e outra na Madeira – enquanto a nação mais sustentável do mundo alberga 23. Complementarmente, o gestor revelou estar empenhado em contribuir para a preservação ambiental, referindo que a sua empresa é a primeira, em Portugal, a garantir e a apostar na compostagem, uma técnica de decomposição de materiais que permite que os mesmos possam ser reaproveitados, por exemplo, sob a forma de fertilizante.

Numa perspectiva mais social, a presidente do GRACE – Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial, abordou a importância do papel da cultura, do artesanato e da arte para a economia circular. Apresentando um colar tradicional moçambicano, Paula Guimarães recordou “os povos nativos e indígenas que tão bem sabiam viver na natureza”. Para si, o património, o design, a arte urbana e a valorização do artesanato são as quatro dimensões a partir das quais “a cultura é o alicerce da economia circular e da responsabilidade social”.

O património tem uma grande importância, porque se assume como um “instrumento de desenvolvimento”: a este respeito, a presidente do GRACE deu o exemplo da Vidago como “uma marca que a Unicer recuperou e que hoje é um centro de emprego, de cultura e de ambiente”. Por design, a também directora adjunta do Gabinete de Responsabilidade Social do Montepio entende a capacidade de “pôr a imaginação ao serviço da reciclagem”, dando como exemplo o facto de a Unicer – entre outras empresas – fornecer os excedentes dos seus produtos a um projecto de inclusão social, permitindo que estes sejam transformados em artigos de ecodesign e possam contribuir para a melhoria da qualidade de vida da comunidade sem-abrigo que participa no projecto CAIS Recicla.

Relativamente à arte urbana, Paula Guimarães referiu a Urban Art Thresh de São Paulo como um bom exemplo de como se “pode ir buscar ao lixo o necessário para fazer arte”. Já em Portugal, o próprio GRACE promove o GIRO, que se assume como a maior iniciativa de voluntariado no nosso país, e que terá lugar em oito locais – como Setúbal, Matosinhos e Olhão, por exemplo – no dia 14 deste mês. Dando destaque ao mar, esta iniciativa vai permitir a criação de uma instalação artística, contando com a participação de mais de 950 voluntários.

Por fim, e acabando por resumir as ideias dos restantes oradores, Paula Guimarães voltou a pegar no seu colar moçambicano, feito de sementes e pedaços de madeira, para reforçar que – através do artesanato – a economia circular é “a economia da autenticidade e do que é genuíno”. A responsável pelo GRACE reforçou que este modelo “não é uma descoberta do século XXI” nem um conceito inventado “em tempos de crise”. Pelo contrário, é “um regresso às origens”.

Mária Pombo

Jornalista