O discurso da jovem mulher não era muito esperançoso e chegou mesmo a afirmar que sempre tinha sonhado ser mãe, mas que actualmente não tinha esse desejo devido aos problemas ambientais.
POR AFONSO ESPREGUEIRA SJ

Recentemente, numa conferência internacional sobre ecologia em que compareci, foram convidados quatro jovens entre os 20 e os 25 anos – pouco mais novos que eu – para falarem sobre como olham a crise climática e as suas perspectivas de futuro neste capítulo. O seu discurso não era muito esperançoso e uma das oradoras chegou mesmo a afirmar que sempre tinha sonhado ser mãe, mas que actualmente não tinha esse desejo devido aos problemas ambientais. Não queria trazer um filho a este mundo. Durante a sua intervenção, por entre apelos e chamadas de atenção importantes, estes jovens foram manifestando medo, zanga, ansiedade e revolta com a falta de progressos neste tema e com o futuro que prevêem para a humanidade e o nosso planeta.

As suas vozes juntam-se à de tantos outros jovens que olham para as nossas sociedades e para a questão ambiental com pouca esperança, irritação e frustração e à de muitos que dizem sentir ansiedade climática, um novo termo usado para falar daqueles que vivem preocupados e ansiosos com o futuro devido à crise ecológica.

Se é verdade que o desafio ecológico é grande e estamos a passar por uma “única e complexa crise sócio-ambiental” (Papa Francisco, Laudato Si’, n. 139), a que se juntou uma devastadora guerra às portas da Europa, tem-me surpreendido e feito questionar este tom desesperançado da juventude actual. Afinal, quiçá com uma certa inconsciência, os mais novos costumam ser mais sonhadores, idealistas e inconformados.

É certo que a mobilização dos jovens neste âmbito não revela conformismo. Inspirados por Greta Thunberg, milhões saíram à rua para se manifestar contra a inoperância dos governos e apelar a transformações sistémicas, mas pergunto-me se são alimentados pelo bom espírito. Raiva, medo, ansiedade e falta de esperança serão bons conselheiros? O dedo apontado que acusa os mais velhos de roubar o futuro aos mais novos, quase erguendo um muro entre gerações será o caminho a seguir? Talvez haja razão de ser em tais sentimentos e acusações, mas deverá ser esta a base a partir da qual agimos? Qual o fruto que brota do desespero, da raiva ou da ansiedade?

Nos Evangelhos, não vemos Jesus a actuar a partir dessas moções. Aquilo que O move à acção é o amor e a compaixão. Deus decide encarnar movido pelo amor à humanidade que precisa de ser resgatada e não por um espírito irado que diz “vou ensinar-lhes uma lição, agora é que eles vão ver”. Mesmo quando expulsa os vendilhões do templo, num gesto difícil de compreender, Jesus não age a partir da ira. É significativo que, no evangelho de Lucas, imediatamente antes desta cena, Jesus chore sobre Jerusalém, lamentando que a cidade não siga e não veja o caminho da paz (cf. Lc 19, 41-48). O seu comportamento duro e provocador é pois um alerta, para que os habitantes de Jerusalém despertem. É o zelo, o fervor, o desejo ardente de que Jerusalém se reencontre com o seu Senhor que motiva a atitude de Jesus, não a raiva.

De igual forma, são o amor e a compaixão por um mundo belo, mas ferido, o zelo por provocar e ser parte da transformação social e ecológica necessária hoje, que devem guiar a nossa acção. O amor só quer o bem e não é capaz do mal. A raiva e o desespero pedem destruição e vingança: toldam-nos a razão.

Resta, no entanto, uma questão, para a qual não tenho uma resposta clara: se pelo menos uma parte dos jovens de hoje estão sem esperança, zangados, irritados, ansiosos ou assustados, mas ainda não conformados, como converter estes sentimentos em sentimentos mais positivos com maior possibilidade de trazer bons frutos? Como falar e propor credivelmente a esperança hoje em dia?

Dentro de alguns dias (22-29 de Maio), celebramos a Semana Laudato Si’, que assinala o 7.º aniversário da encíclica homónima do Papa Francisco. Nela lemos linguagem dura e um caminho exigente de conversão a ser feito, com acusações ao nosso modo de vida que são difíceis de digerir. Contudo, não se nota no texto um tom desesperado ou irado. Pelo contrário, a Laudato Si’ é um convite à esperança e a um olhar mais reconciliado e harmonioso para com a Criação.

Os seus frutos, ainda a amadurecer, são já visíveis, sugerindo possíveis rumos de futuro. Lançada em 2015, a encíclica foi um importante contributo para a assinatura do acordo de Paris e tem tido também o condão de trazer o debate sobre as questões ecológicas para a vida da Igreja. Além disso, nos últimos anos, muitas iniciativas e movimentos surgiram em torno da Laudato Si’, tal como, recentemente, a Plataforma de Acção Laudato Si’, que pretende ajudar instituições, comunidades e famílias a alterar hábitos e a viver de forma mais sustentável. Há muito por fazer, mas pequenos passos vão sendo dados.

Possa esta semana ajudar-nos a cultivar um olhar amoroso, compassivo, reconciliador e esperançoso sobre a realidade, zeloso por contribuir para um mundo mais justo, fraterno e ecológico.

Afonso Espregueira, SJ

Jesuíta desde 2017, tem formação em Economia, Estudos de Desenvolvimento e Filosofia. Actualmente vive em Santo Tirso e trabalha no Colégio das Caldinhas.

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