Reconhecendo a importância da educação para a formação (também a nível pessoal) dos jovens, a UNESCO apresentou recentemente o Guia de Prevenção do Extremismo Violento para Professores. Elaborado para ser replicado em qualquer parte do mundo, este documento pretende ajudar os docentes a promoverem sessões de debate onde abordam, junto dos alunos, temáticas relacionadas com comportamentos violentos, terrorismo e grupos radicais. Dar aos jovens ferramentas que os ajudem a reconhecer e questionar as ideologias extremistas, enfraquecendo-as, é um dos seus dos principais objectivos
POR
MÁRIA POMBO

Não é de hoje mas a verdade é que diversos acontecimentos que têm vindo a marcar a actualidade – desde o célebre 11 de Setembro, ocorrido há mais de uma década, aos diversos ataques a capitais europeias ou ainda à destruição da Síria – são demonstrações crescentes de terrorismo ou extremismo violento. De acordo com um documento do Ontario Institute for Studies in Education, da Universidade de Toronto, estes conceitos estão relacionados com o facto de algumas pessoas utilizarem “a violência como meio ou ferramenta para impor os seus pontos de vista”, partindo da ideia de que “as suas ideologias e crenças são únicas” (ou são as correctas) e não permitindo que outras pessoas tenham opiniões e credos diferentes.

Um factor no mínimo preocupante é que não existe um perfil nem uma altura mais propícia na vida para que uma pessoa enverede pela radicalização. Esta também não está relacionada com o tipo ou grau de educação, nem tão pouco com a classe social de quem a escolhe. Contudo, e segundo a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, existem factores socioeconómicos, psicológicos, políticos e culturais que propiciam o extremismo violento e que são favoráveis à formação de grupos organizados.

Neste sentido, a marginalização, a desigualdade, a discriminação e o acesso limitado a uma educação de qualidade são indicados como alguns dos principais factores que conduzem os indivíduos a este comportamento. Adicionalmente, a corrupção, a criminalidade, as lacunas nas leis, a violação de direitos humanos, a corrupção e a impunidade das elites bem relacionadas, e as fraquezas demonstradas por alguns Estados revelam também ser condições bastante favoráveis ao surgimento de organizações extremistas. Por fim, os grupos organizados que praticam a violência e que cativam os curiosos através de discursos persuasivos surgem como uma das principais causas de propaganda de comportamentos violentos, prometendo protecção em troca de filiação, oferecendo conforto espiritual e redes de apoio e garantindo experiências incríveis e liberdade total aos seus membros.

Apesar de o perfil dos cidadãos extremistas ser de difícil definição, a plataforma Stop-djihadisme explica que existem comportamentos típicos de quem está a entrar no caminho do terrorismo e que podem ser observados logo numa fase inicial. A súbita quebra de amizades de longa data e o afastamento de familiares próximos, o desinteresse em relação à escola e o surgimento de conflitos com as instituições de ensino, assim como a mudança de atitude e de gostos relativamente à roupa e à alimentação são alguns dos principais sinais de alerta, nomeadamente entre os jovens. Complementarmente, qualquer pessoa deve tomar atenção se algum dos seus familiares adoptar um comportamento mais anti-social, rejeitar a autoridade, participar em fóruns e grupos de apoio a condutas radicais ou começar a fazer referência ao apocalipse e a variadas teorias da conspiração.

Desenvolver o pensamento crítico e treinar o respeito

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Para evitar a criação de mais grupos radicais, enfraquecendo também (e idealmente) aqueles que já existem, a UNESCO apresentou, em Novembro de 2015, um conjunto de decisões, tomadas com o objectivo de combater o extremismo violento em áreas como educação, juventude, comunicação estratégica e igualdade de género, entre outras. Na decisão 46 deste documento, a educação é reconhecida como “uma ferramenta para prevenir o terrorismo e o extremismo violento, a discriminação racial e religiosa, o genocídio e os crimes de guerra e contra a humanidade”.

Neste seguimento, e tendo em conta que a educação tem, actualmente, o poder de derrubar o terrorismo – considerado como um dos maiores problemas e desafios da actualidade -, a mesma organização apresentou recentemente o Guia de Prevenção do Extremismo Violento para Professores.

De acordo com este documento, a educação estimula o desenvolvimento de capacidades interpessoais através do diálogo, de abordagens pacíficas e do confronto com opiniões divergentes, apoiando a construção de um pensamento crítico e de investigação, o qual permite questionar a legitimidade das diversas crenças extremistas. A mesma consegue ainda promover o desenvolvimento da resiliência e da resistência relativamente às narrativas radicais, bem como a vontade e o empenho em construir uma sociedade sem que seja necessário recorrer à violência. Por fim, a educação tem a capacidade de encorajar os cidadãos a estarem informados e a procurarem a paz entre os seus pares, estimulando o sentido de pertença a uma humanidade comum onde reina o respeito entre todos.

No fundo, estes são também os princípios da educação para a cidadania global, a qual promove a solidariedade, a responsabilidade social e a identidade global, numa abordagem focada no respeito pelos direitos humanos, justiça social, igualdade de género e sustentabilidade ambiental, considerados pela própria UNESCO como “valores fundamentais que ajudam a defender a paz contra o extremismo violento”.

Este Guia não é mais que um protótipo concebido para ser adaptado e replicado em qualquer país. O mesmo pretende dar a professores (e não só) um conjunto de fontes, informações e ferramentas que ajudam a promover uma atitude pacífica e a implementar ou accionar mecanismos contra o comportamento e linguagem ofensivos. De acordo com o documento, o respeito pelos direitos humanos pretende ser implementado essencialmente junto dos jovens, considerando que são eles que vão construir o futuro e “decidir” se o mundo será feito de paz ou de guerra. Para além deste factor, e apesar de o extremismo violento não ser exclusivo de nenhuma idade, género, grupo ou comunidade, o Guia indica que os jovens estão mais vulneráveis às mensagens das organizações terroristas, por navegarem mais tempo na internet e porque muitos não escolheram ainda o rumo que pretendem dar à sua vida, transformando-se em “presas fáceis” dos movimentos terroristas.

O documento incentiva os professores a promoverem sessões de discussão aberta e onde os alunos têm a possibilidade de desenvolver a atenção e o pensamento crítico, e de treinar o respeito por opiniões diferentes, sempre conscientes de que a regra é manter a paz e evitar confrontos. As sessões podem ser feitas dentro e fora da sala, durante um tempo lectivo ou nos últimos minutos de uma aula normal, conforme o tema a abordar e os objectivos definidos pelo docente.

Nesta medida, o mesmo Guia estimula a discussão de acontecimentos relacionados com o terrorismo, como manifestações radicais a nível internacional ou meros episódios de violência física ou verbal ocorridos na escola ou na comunidade. No entanto, para que esta abordagem tenha efeitos positivos, é necessário compreender em que contexto vivem os jovens que vão participar na discussão, nomeadamente em termos sociais, culturais, religiosos e étnicos. Os professores devem abordar os pontos de vista das minorias, recorrendo, se necessário, a exemplos concretos que os alunos reconheçam facilmente: esta atitude inclusiva permite que todos os participantes se sintam confortáveis para dar a sua opinião acerca dos temas que estão a ser falados.

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A educação é a arma mais forte contra o terrorismo

Do ponto de vista cognitivo, as sessões desenvolvem a capacidade crítica e analítica dos alunos, dando-lhes a possibilidade de compreender as questões locais, nacionais e globais que podem motivar o terrorismo, e também a interdependência entre países. Através destas capacidades, os alunos deverão reconhecer diversas formas de manipulação de extremismo violento, distinguir factos de opiniões e ter consciência do impacto que têm, em algumas pessoas ou grupos, os preconceitos e os estereótipos.

Em termos sociais e emocionais, os alunos têm a oportunidade de experimentar a sensação de pertencer a um grupo de pessoas que podem ter opiniões divergentes mas partilham os mesmos valores, tendo como base o respeito pelos direitos humanos. Os mesmos podem ainda desenvolver competências interculturais, bem como a empatia e a solidariedade, tornando-se mais respeitadores e capazes de valorizar outras culturas, outros povos e modos de vida diferentes. Já a nível comportamental, pretende-se que os jovens sejam capazes de revelar auto-confiança para resolver conflitos de forma positiva e pacífica e que aceitem a coexistência de diferentes pontos de vista.

Os autores deste documento alertam ainda para a necessidade de estes diálogos abertos serem feitos não apenas em ambiente de sala de aula mas também em casa, junto de familiares e amigos, reforçando a importância da família, da comunidade e também dos meios de comunicação social para a manutenção da paz e a adopção de comportamentos mais pacíficos.

A preparação das sessões é uma das mais importantes formas de prevenir conflitos, considerando que permite imaginar alguns diálogos, antecipar eventuais desafios e pensar em mecanismos para os resolver. Neste sentido, importa definir com clareza os tópicos que vão ser abordados, bem como as estratégias de discussão e a mensagem que se pretende passar. Os autores do Guia da UNESCO sugerem que sejam convidados familiares ou outros professores para partilharem as suas opiniões com os jovens, afirmando que também pode ser enriquecedor contar com o testemunho de pessoas com diferentes backgrounds, ou ainda com a presença de alguns especialistas para apoiar o docente em temas mais sensíveis para o grupo.

Contudo, cabe também ao professor estar atento aos momentos espontâneos de discussão e avaliar a sua pertinência (ou impertinência) para abordar alguns temas controversos. Estas ocasiões inesperadas podem dar origem a discussões mais violentas ou, por outro lado, a oportunidades incríveis e irrepetíveis de aprendizagem, tendo em conta que permitem pôr em prática toda a teoria sobre o respeito pelos direitos humanos e pela diversidade.

A energia dos jovens pode (e deve) beneficiar o planeta

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Na qualidade de moderador, o professor deve revelar antecipadamente quais são as “regras do jogo”, referindo, por exemplo, que não aceita comportamentos agressivos. Adicionalmente, e ao longo da sessão, este deve fazer perguntas que estimulem o debate (nomeadamente para que os alunos tenham a possibilidade de explicar os seus pontos de vista ou contar as suas experiências) e deve abster-se de emitir juízos de valor. Esta atitude positiva permite-lhe ganhar a confiança dos jovens, tornando-os mais cooperantes e mostrando aos mais conflituosos que existem diversas formas de resolver os problemas sem que seja necessário recorrer à coerção.

É fundamental que todos os participantes tenham a oportunidade de falar e que não exista um ponto de vista ou um participante dominante (nem mesmo o próprio docente), ao longo da sessão. Adicionalmente, cabe ao professor explicar que muitos dos problemas do mundo são complexos e multifacetados e que nem sempre existe um lado certo e um errado. Cidadania, história, religião e crenças, liberdade de expressão, igualdade de género e arte são alguns dos temas sugeridos para abordar a questão do extremismo violento. Em cada um dos temas, o principal objectivo é sempre ajudar os alunos a explorarem e conhecerem diversas opiniões e pontos de vista e a controlarem os seus impulsos quando são confrontados com visões diferentes das suas, levando-os a compreender melhor o outro lado e a rejeitar narrativas e ideologias radicais.

Tão ou mais importante que preparar e moderar as sessões é garantir que, após as mesmas, não existem mal-entendidos nem tensões entre os estudantes, os quais poderão dar origem a conflitos posteriores. Neste sentido, pode ser necessário acompanhar individualmente alguns jovens ou abordar, junto do grupo, o mesmo tema ao longo de várias sessões, garantindo que nenhum membro do grupo será perseguido nem prejudicado pelos restantes. Uma das formas sugeridas para impedir comportamentos violentos é através de mensagens positivas que incutem nos alunos a consciência de que pertencem a um grupo onde se sentem seguros e respeitados, independentemente da idade, crença ou outra qualquer característica.

A ideia defendida pela UNESCO de “aprender a viver em conjunto” não é simples nem se aprende em poucos minutos. Pelo contrário, exige a descoberta e a partilha de experiências, ao mesmo tempo que permite desenvolver, progressivamente, competências como a empatia, a comunicação, e também o conhecimento, a compreensão e a aceitação de outras culturas e línguas. É através de pensamentos positivos e de bons princípios (como a solidariedade e o respeito, já bastante referidos) que os jovens conseguem entender as vantagens, para os próprios e para o mundo, de utilizarem a sua energia e entusiasmo na criação e desenvolvimento de ideias que possam beneficiar o planeta e resolver alguns dos maiores problemas da actualidade (quer relativamente ao terrorismo quer, por exemplo, em termos ambientais ou até económicos).

Com esta atitude positiva, os professores de todo o mundo têm a capacidade de formar jovens mais participativos e informados, capazes de se envolverem nas suas comunidades, de promoverem actividades de voluntariado e de contribuírem para o desenvolvimento local. A aposta na educação como uma ferramenta para combater o extremismo violento dá às escolas a oportunidade (e a obrigação) de praticarem um ensino mais inclusivo e de darem aos alunos competências pessoais e cívicas que lhes possam ser úteis ao longo da vida, ultrapassando o mero cumprimento dos planos curriculares.

Mária Pombo

Jornalista