Aluno doutorado, com projecto pioneiro a nível mundial, na área das acessibilidades, procura emprego. Professor dedicado envia Carta Aberta a governantes, gestores e empresários. O VER conta a história de ambos. Até agora, ninguém foi contactado. Problemas de comunicação no mundo das tecnologias?
POR HELENA OLIVEIRA

A EasyVoice de Paulo Condado
Paulo Condado desenvolveu um sistema informático denominado EasyVoice, que permite a comunicação à distância usando síntese de voz. Disponível gratuitamente, este programa, desenvolvido pelo doutorando no âmbito do seu doutoramento, permite que pessoas com deficiência na fala possam efectuar chamadas telefónicas utilizando uma voz artificial gerada por computador. Trata-se do primeiro sistema a nível mundial que permite a comunicação à distância usando síntese de voz. O trabalho foi publicado nas mais conceituadas conferências mundiais na área de Computers and Acessibility e foi alvo dos maiores elogios por parte de cientistas de renome internacional.

 

Paulo Condado é um jovem doutorado que, de acordo com várias vozes do mundo académico e científico, realizou um trabalho absolutamente brilhante, tendo contribuído de forma significativa para o avanço do estado de arte na área das acessibilidades. Para além do mais, o Paulo é persistente, teimoso, curioso e transforma adversidades em oportunidades.

Com muitas das competências considerados pelos caçadores de talentos como as indicadas para o exigente mercado de trabalho da actualidade, que empregador não gostaria de ter Paulo integrado nas fileiras da sua empresa? Bem, na verdade e até agora, nenhum! É que o Paulo tem paralisia cerebral, um “palavrão” muito mal compreendido pela sociedade em geral, mas que os líderes bem informados teriam obrigação de conhecer e/ou desmistificar. Para poupar trabalho aos gestores, empresários e até aos governantes deste nosso país pouco dado a inclusões, o VER conta a história de Paulo, com a ajuda inestimável de um dos seus professores, Fernando Lobo, que resolveu utilizar a sociedade da informação (?) para disseminar a história deste aluno brilhante.

Numa Carta Aberta, Fernando Lobo, apela ao apoio para “jovem recém-doutorado com paralisia cerebral”, na qual enumera um sem número de diligências que levou a cabo, até agora sem sucesso algum, para que alguém tenha a coragem – aqui antes traduzida por bom senso – para contratar o Paulo. A presente história cruza não só o percurso académico do jovem, os obstáculos que teve de superar e o apoio inestimável das Tecnologias de informação e Comunicação (TIC) que tornaram possível não só a sua já longa caminhada, mas também a cruzada de muitas pessoas com necessidades especiais que, através das novas tecnologias, conseguem fazer o que era impossível antes da sua existência: integrarem-se, de forma digna, na sociedade em geral e no mundo profissional em particular.

A família, a velha máquina de escrever e o projecto Minerva
É uma expressão dura, feia e, infelizmente, muito usada na maioria dos quadrantes da sociedade. Os “atrasados” são aquelas pessoas com quem nos cruzamos e que, por serem diferentes de nós, nos fazem impressão e o melhor mesmo é fingirmos que não as vemos. Até em algumas famílias, ter um filho com deficiência é motivo para o esconder, para o trancar em casa e para não lhe dar qualquer tipo de oportunidade de se integrar em mundo algum, Felizmente que este tipo de ignorância começa a ser ultrapassado, não tanto como se desejaria, mas a verdade é que Paulo Condado contou sempre com uma família bem informada e que nunca cruzou os braços face à paralisia cerebral que lhe foi diagnosticada. Apesar de Paulo não falar de forma muito perceptível, a família e, mais tarde, os próprios professores, entendiam-no e foi sempre estimulado para descobrir e explorar o mundo que o rodeava.

Quando entrou no ensino primário, a professora aconselhou a mãe a colocá-lo no ensino especial, mas esta, conhecedora da lei que permitia a integração de pessoas com este tipo de deficiência no ensino regular, recusou o “conselho” e manteve Paulo na escola. Como a caligrafia de Paulo era dificilmente perceptível, o seu primeiro contacto com uma “tecnologia” foi feito através de uma máquina de escrever que, graças a eternas questões burocráticas, levou algum tempo a chegar às suas mãos. Ao longo de toda a escola primária, Paulo realizou exactamente as mesmas provas que os seus colegas, com a única diferença de que estes usavam papel e lápis para escrever.

Estávamos nos anos 80 e a turma de Paulo teve a felicidade de ser escolhida para integrar o projecto Minerva, uma iniciativa nacional que teve início em 1985 e cujo principal objectivo era a introdução das tecnologias de informação e comunicação nas escolas, para estudantes e professores. E Paulo apaixonou-se por este novo mundo que viria a ser o seu universo por excelência no futuro. Ao longo do projecto, interagiu com o software Logo, uma linguagem de programação especialmente concebida para crianças, inventada no final dos anos 60 por Seymour Papert. A filosofia subjacente ao Logo (com influências na obra de Jean Piaget) era de que as pessoas (e especialmente as crianças) aprendiam melhor quando lhes era dada a oportunidade de experimentar e aprender a partir dos seus próprios erros.

E já nesta altura Paulo Condado foi mais longe e, de forma inconsciente, começou a dar os primeiros passos na programação informática. Foi graças ao projecto Minerva que Paulo Condado despertou para o desejo de vir a trabalhar em alguma actividade relacionada com as maravilhas do novo mundo da informática, desejo esse que o acompanha até aos dias de hoje. Ainda com o software Logo, Paulo foi mais longe do que o simples obedecer a determinados comandos e conseguiu escrever pequenas mensagens que conseguia enviar aos seus colegas e professores. Para quem vivia limitado por uma velha máquina de escrever e uma fita correctora, esta descoberta foi tão importante como o homem pisar a Lua. Um grande passo para Paulo, sem qualquer dúvida.

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Os computadores, o Renato e a universidade
Antes ainda de ter o seu primeiro computador, Paulo sentia algumas dificuldades em escrever na sua velha máquina, sendo cada vez mais difícil acompanhar o ritmo dos colegas. Na escola, existia um laboratório com um velho computador munido de um processador de texto e com uma aplicação robotizada do Logo que permitia a interacção com o software. Paulo utilizava-o para fazer testes e exames e foi nessa altura que conheceu Renato, um colega com uma deficiência mais séria que a de Paulo, cuja fala era ainda mais imperceptível que a sua e que não se conseguia movimentar de forma independente. Mais uma vez, o destino sorriu-lhe e Paulo e Renato foram ajudados financeiramente para poderem adquirir um computador.

O facto de terem uma tecnologia “transportável” para a sala de aula, não só os ajudou a acompanhar mais facilmente as matérias dadas, como lhes abriu o caminho para poderem comunicar com o mundo exterior. Renato também recebeu uma outra inestimável ajuda tecnológica: uma cadeira de rodas eléctrica, o que lhe permitiu movimentar-se sem ajuda externa e, desta forma, ganhar a tão desejada independência numa sociedade com escassez graves de acessibilidades.

Seguiu-se o ensino secundário e a altura em que os alunos têm que escolher a área que lhes permitirá transitar para o ensino superior. Paulo não teve qualquer dúvida, escolheu a Informática, embora detestasse fazer exercícios que envolvessem fórmulas matemáticas digitadas no computador. Começou a concentrar-se na sua própria mão e esforçou-se para escreve-las sem a ajuda do seu mais fiel amigo. Na verdade, ao se preocupar em demasia com a busca e inserção de símbolos no teclado, percebeu que o seu raciocínio era, de alguma forma, interrompido. No início do 12º ano, Paulo conseguiu incluir algumas actualizações no seu computador de forma a que este pudesse comportar programas mais modernos e a aumentar a velocidade na execução de várias tarefas.

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Quando chegou à Universidade [do Algarve] para estudar Informática e Gestão – cujo campus possuía um parque de estacionamento para pessoas com necessidades especiais, uma novidade ainda não experimentada por Paulo – o seu percurso foi firme e sem problemas de maior. Os professores e colegas acabaram por aprender a a comunicar com ele e foi quando se viu obrigado a fazer uma apresentação pública sobre o seu projecto final de curso, que o jovem utilizou, pela primeira vez, um sintetizador de texto para fala para que toda a gente o pudesse compreender. Com a ajuda de um professor, Hamid Shahbazkia e de um colega, Filipe Tomaz, que o ajudou a implementar o dito sintetizador, Paulo conseguiu, como qualquer outro colega, fazer a sua apresentação.

Contudo e apesar de um computador tradicional permitir a síntese de voz, não é algo muito prático devido a questões de mobilidade. Devido a esse motivo, a universidade utilizou uma máquina compatível, de dimensão reduzida, que Paulo poderia transportar consigo para qualquer parte. Tal constituiu um pequeno mas importante passo para o futuro imediato: a denominada wearable computing, ou a “computação vestível” que, na actualidade, é objecto de um número significativo de investigação e avanços tecnológicos impressionantes. Depois de esta experiência, Paulo tinha mais um objectivo: fazer um doutoramento na área das Tecnologias da Informação e da Comunicação, comprovando os benefícios que estas podem oferecer a pessoas com necessidades especiais. E se bem o pensou, melhor o fez (v.caixa)

Nota: O VER agradece o contributo dado pelo Professor Fernando Lobo que, na sua Carta Aberta, que pode (e deve) ser lida na íntegra, tudo faz para que o caso de Paulo seja conhecido.

© 2009 – Todos os direitos reservados. Publicado em 2 de Dezembro de 2009