O Fórum Económico Mundial publicou recentemente um relatório que teve como principal objectivo recolher a percepção de um conjunto de cidadãos – muitos deles jovens – sobre a pandemia, bem como as prioridades que elegem para o futuro que se lhe seguirá. E partindo da pergunta “que decisões precisamos de tomar agora para que as gerações futuras se orgulhem de nós?”, é sublinhada, nas respostas, a importância da coesão social e da confiança para uma acção colectiva eficaz no que respeita à necessidade desta retoma transformacional
POR HELENA OLIVEIRA

Existem momentos de perturbação que testam a nossa resiliência como sociedade e que exigem uma profunda reflexão sobre a forma como desejamos avançar, de forma colectiva, em direcção ao futuro. E, como é fácil de perceber, a crise da Covid-19 é um desses momentos.

A pandemia e as medidas associadas tomadas para combater a propagação do vírus tiveram consequências graves para as pessoas em todos os países, cidades, aldeias e comunidades e os seus efeitos não têm sido sentidos, como é sabido, da mesma forma.

As desigualdades sistémicas existentes agravaram-se, colocando aqueles que se encontram nas situações mais vulneráveis em maior risco e aumentou a desconfiança nas instituições, o que contribuiu para um crescente sentimento de injustiça no acesso aos serviços de saúde, empregos e meios de subsistência decentes. Como mostra um relatório da Oxfam International [sobre o qual o VER escreveu] o mundo pode estar a enfrentar o maior aumento da desigualdade desde que há registos, e pode ser necessária mais de uma década para que milhares de milhões das pessoas mais pobres do mundo recuperem do impacto económico da pandemia.

A pandemia também pôs à prova a confiança, “acrescentando medos pessoais e societais persistentes” e esta falta de confiança está a prejudicar a capacidade conjunta para se cooperar na gestão dos muitos desafios que o mundo enfrenta. As visões de como esta crise está a afectar os indivíduos, bem como as discussões participativas sobre o nosso futuro comum, são fulcrais para a construção da confiança e para um sentimento global de pertença, bem como para inspirar a recuperação transformacional de que o mundo tanto precisa.

A inteligência colectiva, a “capacidade reforçada que é criada quando as pessoas trabalham em conjunto” e os processos deliberativos que reforçam a participação cívica têm a capacidade de transformar a forma como abordamos este futuro comum – conduzindo a melhores decisões e resultados para todos. Mas e para o atingir, é necessária uma mudança sistémica na forma como colaboramos, ouvimos e nos associamos uns aos outros.

Embora o conhecimento dos efeitos agregados da COVID-19 no mundo nos ajude a ver o panorama geral da recuperação pós-pandémica, a compreensão das experiências e percepções individuais dos cidadãos ajudará a traçar um caminho em direcção a uma recuperação justa que coloque, em particular, os mais afectados pela crise no centro destes esforços. O Fórum Económico Mundial publicou recentemente um relatório que teve como principal objectivo recolher a percepção de um conjunto de cidadãos – muitos deles jovens – sobre a pandemia, bem como as prioridades que elegem para o futuro que se lhe seguirá.

Com o objectivo de uma cobertura o mais global possível e partindo da pergunta “que decisões precisamos de tomar agora para que as gerações futuras se orgulhem de nós?” os denominados “diálogos deliberativos” com os cidadãos abrangeram alguns países europeus, a Índia, a África Ocidental, contando igualmente com uma rede internacional de jovens e crianças estudantes que deram também a sua visão e contributo para o futuro pós-pandémico. Esta auscultação pública foi ainda complementada por um conjunto diversificado de estudos, prioridades e soluções propostas pela sociedade civil global e teve o apoio de o apoio de seis organizações parceiras: Civis, Confkids, Isha Foundation, Missions Publiques, United World Colleges (UWC) e a West Africa Civil Society Institute (WACSI)

Os principais resultados mostram os efeitos da Covid-19 nos participantes, bem como as áreas que consideram prioritárias para avançarmos para o período pós-crise pandémica, ao mesmo tempo que sublinham a importância da coesão social e da confiança para uma acção colectiva eficaz no que respeita à necessidade desta retoma transformacional.

Vejamos, em primeiro lugar, os principais impactos negativos e positivos identificados pelos participantes neste estudo do Fórum Económico Mundial.

IMPACTOS NEGATIVOS

  • Falta de capacidade das instituições nacionais para responder à crise e ausência de clareza e transparência na tomada de decisões

Em particular, os participantes no inquérito do WEF a viver em França e na Índia consideraram que os sistemas nacionais de saúde e de educação estiveram mal equipados para lidar com a magnitude da pandemia, criticando questões relacionadas com seguros de saúde acessíveis, a disponibilidade de pessoal e equipamento médico treinado e a precariedade das infra-estruturas digitais para a educação online, especialmente nas zonas rurais. Estes factores, aliados a comunicações confusas em termos de esforços de alívio partilhados pelos decisores, aumentaram a desconfiança nas instituições governamentais.

[Num estudo que incluiu 13,500 crianças e 31,500 cuidadores de 46 países, a organização Save the Children apurou que mais de 8 em cada 10 crianças relataram ter aprendido pouco ou nada devido à sua incapacidade de frequentar a escola, enquanto 89% dos agregados familiares afirmaram que o seu acesso a cuidados de saúde, medicamentos ou material médico tinha sido afectado].

  • Aumento das desigualdades sociais

Os participantes em todo o mundo, especialmente os jovens, afirmaram que os mais atingidos pela pandemia e pelos problemas à mesma associados eram já populações vulneráveis, incluindo pessoas isoladas e desempregados. Esta percepção está em consonância com as provas crescentes divulgadas pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças e outras autoridades de que os grupos raciais, étnicos e outros grupos minoritários foram desproporcionalmente afectados pela crise da Covid-19. Os auscultados sentiram igualmente que a pandemia exacerbou as desigualdades preexistentes, aumentando a pobreza, a fome, a violência contra mulheres e crianças. bem como a falta de protecção social para os trabalhadores migrantes – efeitos que têm sido relatados a nível global por organizações como a UN Women, o Programa Alimentar Mundial e pela própria Comissão Europeia. Os participantes afirmaram sentir que as pessoas e as instituições no poder não estavam a fazer o suficiente para abordar estas questões.

[A organização Women Deliver, e num estudo que envolveu 17 países, chamou igualmente a atenção para um impacto desproporcional nas inquiridas femininas em relação aos homens em 13 destes mesmos países, com as primeiras a relatar que sentiram mais stress emocional ou problemas de saúde mental ao longo do período pandémico (37% das inquiridas femininas em média, em comparação com 27% dos inquiridos masculinos)]

  • Diminuição da colaboração global

Os participantes declaram igualmente que a crise evidenciou as vulnerabilidades e deficiências do capitalismo e da globalização. Como exemplos, apontaram a falta de coordenação entre países na gestão de respostas eficazes à pandemia (e, na verdade, uma concorrência acrescida, tal como aconteceu na corrida para encontrar uma vacina e a sua subsequente distribuição), a falta de poder e eficácia das organizações internacionais e o aumento alarmante do proteccionismo estatal

[A organização Mercy Corps constatou que a pandemia levou à deterioração das relações entre grupos locais em 22 dos países onde trabalham, enquanto apenas quatro países assistiram a uma melhoria da coesão social. Testemunharam igualmente uma deterioração das relações entre os Estados e a sociedade, bem como uma proliferação de desinformação em muitos dos países onde trabalham]

  • Perda de meios de subsistência e agravamento dos níveis de bem-estar

Os participantes na análise do Fórum Económico Mundial salientaram a perda maciça de empregos ou de rendimentos como resultado da pandemia, especialmente no que respeita aos trabalhadores assalariados, proprietários de pequenas empresas que tiveram de fechar as portas e agricultores que não puderam levar os seus produtos aos mercados. Esta percepção está de acordo com as conclusões da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que estimam que o equivalente a 255 milhões de empregos a tempo inteiro foram perdidos durante o ano de 2020.

Por seu turno, a degradação da saúde mental foi igualmente referida por um número significativo de participantes, impulsionada pela falta de contactos sociais, pela incapacidade de se sair de casa, pela perda de meios de subsistência, a par de um sentimento geral de medo face à pandemia e agravado pela desinformação. Numerosas instituições ligadas aos cuidados de saúde relataram um aumento global de vários transtornos ligados à saúde mental durante a pandemia. A organização Women Deliver realizou inquéritos a cerca de 17 mil homens e mulheres em 17 países diferentes para aferir as suas percepções face aos efeitos da crise COVID-19, tendo verificado que 52% dos respondentes sentiram a sua saúde mental afectada devido à pandemia.

Do mesmo modo, a organização Save the Children constatou que oito em cada 10 crianças experimentaram sentimentos mais negativos durante a pandemia, tendo denunciado situações de violência doméstica em cerca de um terço dos agregados que acolhem estas mesmas crianças.

[Um recente inquérito online feito a 23 mil adultos com idades compreendidas entre os 16 e os 74 anos, em 28 países, realizado para o Fórum Económico Mundial pela Ipsos, mediu o nível de preocupação dos inquiridos relativamente ao futuro próximo. A deterioração da saúde, a perda de rendimentos ou de emprego, e as catástrofes naturais mais frequentes relacionadas com o clima são percebidas como uma ameaça real por três em cada cinco adultos em todo o mundo. Em contraste, apenas um em cada três se preocupa em enfrentar mais dificuldades no acesso a ferramentas e tecnologia digital em 2021, e apenas dois em cada cinco estão preocupados com o aumento das dificuldades no acesso à formação ou educação]

  • Propagação crescente da desinformação

As preocupações sobre maiores quantidades de desinformação nas notícias e nas redes sociais foram levantadas por numerosos participantes, com as teorias de conspiração e rumores sobre a pandemia publicados nas redes sociais e promovidos por vários políticos a criarem muita desconfiança entre os cidadãos. Os participantes sublinharam a necessidade de as instituições governamentais e estatais serem transparentes e verdadeiras nas suas comunicações para manter e aumentar a confiança, ao mesmo tempo que reconhecem a participação e consequente responsabilidade dos cidadãos na partilha desta mesma desinformação.

[A propagação da desinformação em todo o mundo durante a pandemia – rotulada de “infodemia” – tem sido amplamente noticiada durante todo o período pandémico, inclusivamente por jornalistas de 125 países]

IMPACTOS POSITIVOS

  • Aumento da solidariedade na sociedade

Os participantes salientaram a forma como as pessoas se uniram para ajudar aqueles que necessitavam de apoio durante a pandemia com ajuda financeira, alimentos e equipamento de protecção pessoal, etc., referindo igualmente um sentimento geral de solidariedade e respeito reltivo à protecção dos outros (por exemplo, através do uso de máscaras), tanto ao nível das pequenas comunidades, como em iniciativas regionais e globais de maior dimensão.

  • Efeitos sobre o ambiente

Os efeitos positivos do movimento climático foram referidos por muitos participantes, depois da constatação de que a pandemia e os bloqueios a ela associados reduziram a pegada global de carbono e permitiram que o planeta “descansasse”. Os participantes afirmaram também que a pandemia lhes permitiu reflectir sobre os seus padrões de consumo e estilos de vida, levando-os a ser mais ecológicos e centrados na saúde. Embora se preveja que as emissões globais de CO2 tenham diminuído 7% em 2020, o relatório “Unidos na Ciência 2020” da Organização Meteorológica Mundial concluiu que as emissões voltaram a aumentar quando as pessoas regressaram ao trabalho em Junho, o mesmo acontecendo com as concentrações de gases com efeito de estufa na atmosfera. A pandemia também lançou luz sobre as desigualdades sociais e económicas existentes, levando a um maior respeito e solidariedade para com as comunidades minoritárias.

  • Reforço das infra-estruturas nas nações em desenvolvimento

Os participantes apontaram melhorias nas infra-estruturas e no investimento em cuidados de saúde, tais como a telemedicina e a atenção prestada aos salários dos trabalhadores da linha da frente, em resposta à Covid-19 que, acreditam, irá beneficiar a sociedade muito depois da pandemia. Para os inquiridos, a pandemia pode representar igualmente uma oportunidade para uma revolução arquitectónica, na qual o planeamento urbano poderá dar prioridade a espaços verdes e pedonais.

  • Novas oportunidades económicas e educacionais

Os participantes referiram que o desenvolvimento global da economia virtual foi uma mudança positiva, sublinhando o aumento da inovação que ajudou muitas empresas a manterem-se à tona de água. Do mesmo modo, ganharam noção de que tinham maiores oportunidades de aprender e utilizar ferramentas digitais para fins educativos e profissionais.

A Covid-19 abriu portas à mudança, mas é preciso reforçar a coesão social

Embora, no geral, os participantes tenham sentido que a pandemia teve um impacto negativo nas suas vidas, é patente também um bom nível de optimismo de que a crise abrirá caminho para efeitos positivos nos próximos anos. E, tanto a nível pessoal como social, esse optimismo está acompanhado de um forte sentimento de mudança que, espera-se, possa definir o período pós-surto.

Como está já claramente demonstrado, a resiliência de uma sociedade está dependente de elevados níveis de coesão social. E numa época em que as questões económicas e sociais estão a sofrer um agravamento e a vulnerabilidade dos indivíduos está a aumentar, uma abordagem do futuro precisa de ser coesa e não gerar divisões. Desta forma, e de acordo com a auscultação realizada pelo Fórum Económico Mundial, a igualdade foi considerada como o elemento central para fazer avançar a coesão social, ao mesmo tempo que a equidade na distribuição de vacinas se destacou como uma prioridade para promover esta igualdade necessária num mundo pós-Covid-19.

Por outro lado, os participantes neste inquérito admitiram sentir que a confiança nos outros sofreu um desgaste significativo ao longo da pandemia tendo sido igualmente observado um sentimento de declínio da confiança no que respeita aos governos.

Mas, e em simultâneo, emergiu um sentimento mais forte de coesão social que reforçou a confiança, de que são exemplo muitas iniciativas de solidariedade, bem como o estabelecimento, em muito casos, de ajuda mútua. A acção colectiva, o diálogo, a participação, a diversidade, a consciência social e a educação sobre as causas profundas da desigualdade foram também consideradas como centrais para encorajar a coesão social. Além disso, o papel da religião e da espiritualidade e a sua influência na construção da coesão social não deve ser subestimado.

Adicionalmente, cinco recomendações principais para os decisores foram consolidadas através dos diferentes diálogos deliberativos realizados. Assim e nos próximos anos, os líderes devem concentrar-se na melhoria dos serviços públicos, tomar decisões que dêem prioridade às necessidades ambientais e construir sistemas económicos fortes e resistentes e que considerem o bem-estar da humanidade (em vez de apenas o PIB). Além disso, deverão estabelecer um estilo de governação mais horizontal e implementar os mecanismos necessários para considerar as necessidades e visões dos cidadãos, ao mesmo tempo que devem assegurar o respeito pelos direitos humanos em todos os países do mundo.

Existe assim um sentimento de esperança de que os diferentes stakeholders saiam mais confiantes desta crise e construam economias e sociedade mais justas e resilientes. A pandemia Covid-19 tem sido descrita por muitos como um ponto de inflexão, com os desafios que se nos deparam a exigir uma acção colectiva imediata. E parece ser possível avançarmos em conjunto, apesar da exigência de uma acção coordenada entre múltiplos intervenientes, com as necessidades e perspectivas dos cidadãos e das comunidades no centro, permitindo-nos mitigar possíveis maus resultados futuros e sustentar a nossa resiliência enquanto colectivo global.

Os mecanismos reimaginados e adaptados de colaboração são imperativos para tornar este desejo numa realidade e devem assentar nas seguintes premissas:

  • Co-determinação e co-criação de soluções para o presente e o futuro

Os processos deliberativos podem desempenhar um papel central na formação de respostas adequadas para o futuro. Não apenas ouvir, mas incluir activamente os cidadãos, comunidades e sociedade civil pode ajudar a descobrir sinais de alerta precoces que nos ajudem a compreender, enquanto sociedade, o quão vulneráveis somos e qual a melhor forma de responder a essa vulnerabilidade. Além disso, libertar a imaginação pública – dando voz e apoiando um maior número de indivíduos na sociedade – levará a melhores decisões e resultados de governação, ao mesmo tempo que ajudará a contrariar a polarização e a agitação social existentes. E, com base nessa evidência, os governos e as instituições estão cada vez mais a recorrer à sociedade civil para obter ajuda na tomada de decisões. A Conferência sobre o Futuro da Europa, por exemplo, que consiste numa série de debates e discussões promovidos pelos cidadãos e que permitirão às pessoas de toda a Europa partilhar as suas ideias e ajudar a moldar o nosso futuro comum, dará início ao maior processo democrático deliberativo da União Europeia feito até hoje.

  • Fazer da coesão social uma prioridade

A Nova Zelândia foi elogiada pela forma como geriu a pandemia e foi recentemente classificada como o país com a melhor resposta ao vírus, em parte devido ao enfoque que conferiu à coesão social na sua resposta. Por exemplo, durante a fase crítica da pandemia em Abril de 2020, os níveis de coesão social no país foram elevados: 87% dos cidadãos aprovaram a forma como o governo estava a responder à pandemia, em comparação com uma média de 50% para os países do G7 a quem foi feita a mesma pergunta. Como as tensões entre os interesses económicos e sociais persistem, será particularmente importante o foco numa liderança transparente e reactiva, encorajando a confiança e a pertença e reconhecendo e respondendo às experiências e necessidades individuais – ou seja, a todos os ingredientes necessários para uma sociedade coesa.

  • Centrar as parcerias multistakeholder nas necessidades da comunidade

Um relatório da Philanthropy U, da Fundação Conrad N. Hilton e da GSVlabs mostra o imperativo de se trabalhar em colaboração e de forma criativa, com novos modelos de impacto, a fim de cumprir os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030. Num contexto multistakeholder, as parcerias devem ser “impulsionadas por uma colaboração entre as pessoas mais afectadas e as mais responsáveis pelo progresso”, o que e idealmente, nos colocará no caminho certo para agirmos rapidamente e com propósito no interior de um cenário global instável.