Tudo muda: em 2022 morre a rainha que conheceu Churchill e Londres chega aos 40 graus. Se, há trinta ou quarenta anos, perguntássemos a qualquer cientista se esta circunstância meteorológica seria possível, o resultado seria sempre um olhar de pasmo na nossa direcção por sugerirmos uma coisa tão estouvada. Agora que alcançámos a fase estouvada, talvez seja altura de travar um pouco
POR PEDRO COTRIM

Londres é a capital menos quente da Europa. Se não contarmos Reiquiavique, naturalmente. E, já agora, se também não contarmos Dublin, mas podemos ficar por aqui. Oslo, apesar de não ser conhecida pelos Verões escaldantes, é mais quentinha que Londres – ou melhor, aquece com mais facilidade, pois o fiorde que a aninha protege-a dos ventos do norte. Estocolmo está no Báltico, cujas águas chegam a ser cálidas, e sendo uma cidade muito menos fria no Inverno do que se poderia supor, beneficia também de uma ligeira continentalidade, inexistente na capital britânica. Em Helsínquia sucede o mesmo que em Estocolmo, com uns graus a menos por estar mais a norte e mais longe do Atlântico que a lindíssima capital-arquipélago da Suécia. Os dias quentes de Moscovo fazem parte da história da cidade, pois que os oceanos ficam lá longe.

Londres, capital do mundo nos últimos dias devido à contingência que aflige qualquer mortal ter chegado à imortal rainha. Os elogios a Isabel II são unânimes e poucas vozes destoam. Sabe bem ver o Mundo Unido à volta do Reino Unido e já tudo foi dito sobre estes dias que ficarão para sempre na História.

Londres, notícia em Julho pelo British weather. Sabemos que é tema de conversa há muito e que as estações meteorológicas, mais ou menos sofisticadas, têm longa existência em Inglaterra, e contagens de chuva, neve, calores, frios, ventanias ou orvalhadas figuram em inúmeros registos. Este British weather conta-nos que há dois meses se chegou aos quarenta graus na capital e elsewhere ali perto. Jamais visto, jamais registado, jamais suposto, jamais crível. E não é preciso procurar muito para saber porquê.

Londres, em pleno século XX, teve Verões inteiros em que não se chegou sequer aos trinta graus. Os registos do met office mostram que assim sucedeu em data tão recente como os anos oitenta ou noventa. Um dia de 25 ou 26 graus na capital britânica é quentíssimo, e quem já tenha vivido um bem sabe que assim é. O ar marítimo é húmido, há pouco vento e tudo pesa. O feels like americano está a generalizar-se (os EUA têm particularidade climáticas inexistentes na Europa, e um dia de trinta graus abaixo de zero com ventania pode gerar um feels like de menos cinquenta), e os vinte e tal de Londres feel like uma montanha de graus em Portugal.

Londres, por incrível que pareça, tem menos precipitação anual que Lisboa, e no Porto, se começarmos a contar as águas no dia 1 de Janeiro, chegaremos a 31 de Dezembro com o dobro das que se acumularam em Londres. Já no Bom Jesus cai três vezes mais água que no Big Ben e Braga vê-se muitas vezes por um canudo encharcado. A explicação para esta aparente idiossincrasia Portugal/RU está nos dias com precipitação, muito mais frequentes em Inglaterra, mas sem as bátegas que por vezes inundam as nossas cidades. O nosso período seco estival é enganador nas contas do ano. Londres também é menos fria no Inverno que Guarda ou Bragança e a generalidade da Inglaterra tem menos nevões que algumas zonas do interior lusitano. Aliás, a Serra da Estrela acumula muito mais neve que as geladas highlands da Escócia. Surpreende?

O tempo sempre foi um formidável tema de conversa e nos últimos anos ganhou ainda mais notoriedade por via do que sucede em todo o mundo. As alterações climáticas são a preocupação mais quente e o colapso de ecossistemas passou a ser uma possibilidade real. É que é mais fácil interferir num ecossistema do que o que se pode supor, e fica aqui uma anotação que merece um parágrafo separado.

O parque de Yellowstone é lendário. A fauna e a flora são acarinhadas há muito, a extensão é enorme e quem já o visitou afirma deslumbramento constante. Os lobos foram reintroduzidos após setenta anos de ausência e o curso dos rios foi modificado por esta opção de colocação de uma espécie. A explicação está neste pequeno documentário. A própria Covid pode ter sido precipitada pelo desaparecimento de uma espécie-tampão, hipótese ainda não confirmada.

As alterações climáticas não são ‘apenas’ o tal dia muito quente que mata os mais frágeis; são também estas consequências imprevisíveis e que já não estão assim num prazo tão longo. Falamos do malfadado CO2, mas há outro inimigo invisível. O CH4, o metano. Segue-se uma breve revisão da literatura e do estado da arte.

O metano tem implicações climáticas muito significativas e as suas emissões estão a aumentar rapidamente. A origem no gado é conhecida, mas os aterros e outras formas de libertação de matéria orgânica são responsáveis por cerca de 17 % das emissões globais deste gás. 

Quando se pensa em formas de combater o aquecimento global, as primeiras imagens serão de painéis solares, bicicletas, carros eléctricos e edifícios com bons isolamentos. Hoje em dia, o carvão, o petróleo e gás natural ainda fornecem cerca de 80 % da procura energética mundial. As notícias não têm sido muito animadoras: após uma estabilização entre 2013 e 2016, a Agência Internacional de Energia assegura que as emissões de CO2 aumentaram quase 2 %em 2018, a maior subida desde 2013.

Atingir a meta em relação aos combustíveis fósseis antes do final do século não será suficiente para ficar abaixo de um aquecimento de 2°C, consonante com o Acordo de Paris. De acordo com o quinto relatório do IPCC, as emissões de CO2 devido à actividade humana contribuem para 56% da «força radiativa» observada desde 1750. Não há contaminação do AO90 no termo «radiativa» porque a força radiativa representa a diferença entre a energia que a Terra recebe do Sol e a energia devolvida por reflexão da radiação solar. Mede-se em watts por metro quadrado. Se a força for positiva (mais energia recebida do que emitida), o sistema climático tende a aquecer.

O CO2 está longe de constituir o único culpado. Os outros são os gases fluorados (HFC), essencialmente dos frigoríficos e dos aparelhos de ar condicionado, e que correspondem a mais de 5% do total anterior. Há também o óxido nitroso (N2O), que representa igualmente pouco mais de 5 % e do qual os fertilizantes azotados são a principal fonte. E há o metano, o CH4, que o IPCC estima como contribuindo com mais de 30 % para este valor que se totaliza desde a Revolução Industrial.

O metano constitui um terço do problema climático, merecendo por isso toda a atenção. Em termos físico-químicos, perde rapidamente seu poder de aquecimento, o que pode conduzir a uma enganadora falta de importância. Além disso, uma vez que suas emissões estão em grande parte relacionadas com os alimentos, o metano é um assunto politicamente sensível. Só a pecuária é responsável por 30 % de suas emissões globais. Os campos de arroz inundados representam 8 %.

Se não for muito simples alterar rapidamente o consumo de carne vermelha e as técnicas de cultivo de arroz, talvez seja possível actuar rapidamente noutras fontes. O peso da agricultura não deve esconder o facto de cerca de 37 % das emissões corresponderem a despejos do sistema energético dominante: queimas de minério excedente, vazamentos para perfuração de petróleo e gás e as fugas que sucedem em gasodutos entre os locais de produção e os consumidores finais. Muitas destas emissões podem ser controladas e desaparecerão mais rapidamente à medida que se abandonarem os combustíveis fósseis. Os fornecedores de gás continuam a apresentá-lo como alternativa ao carvão porque a sua combustão representa menos emissões, e se o processo for acompanhado na totalidade, verifica-se, em qualquer dos casos, que um combustível fóssil é sempre muito mais danoso.

É contudo essencial analisar os aterros sanitários e outras descargas de matéria orgânica do sistema alimentar, da pecuária ao lixo doméstico e industrial: como se disse, são cerca de 17% das emissões de metano em todo o mundo, de onde se suscita a necessidade cobrir aterros sanitários e outros poços de fertilizantes, de efectuar a recuperação de metano e de resíduos orgânicos em processadores para fazer biogás.

Actuar em todas estas é urgente, dado que, na última década, a concentração de metano na atmosfera tem aumentado rapidamente num cenário de crescimento económico e no facto de os países emergentes estarem a alcançar os modelos insustentáveis dos países desenvolvidos. Em 2017, esta concentração chegou a 1850 ppm (para 750 em meados do século XVIII) e está a crescer a um ritmo de quase 10 ppm por ano. Um factor de explicação proposto será o colapso do mundo soviético e a subsequente queda nas emissões, o que teria temporariamente compensado os aumentos observados noutros lugares.

Sabe-se que o aquecimento global está directamente relacionado com o aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Sabe-se também que para atingir a meta de 2°C é absolutamente necessário estabilizar o nível destas concentrações. Isto significa que as emissões de todos os gases de efeito estufa devem ser reduzidas para que não excedam as captações de CO2 pelas zonas florestais. Se conseguirmos reduzir drasticamente as nossas emissões de CO2 relacionadas com a energia, mas sem estabilizar a concentração de metano, o planeta poderá emitir mais gases de efeito estufa do que o que captura e a meta dos 2°C estará perdida.

Se se combinarem as trajectórias de diminuição dos diversos gases de efeito de estufa e se se aumentar a taxa do sequestro de carbono, alcança-se a neutralidade visada para 2050, mas é preciso notar que todas estas trajectórias são expressas em «Equivalentes CO2». No entanto, no caso do metano, o seu poder de aquecimento global (GWP) varia rapidamente ao longo do tempo. Se nos imaginarmos em 2122, um grama de metano emitido em 2022 terá o mesmo efeito sobre o clima que a emissão de 28 gramas de CO2, enquanto um grama de metano emitido em 2119 contará, para a mesma data, para a produção de 120 gramas de CO2. A conta directa em «Equivalentes CO2» tem de ser feita com cuidado e com este diferimento causado pelo planeta.

Tudo muda: em 2022 morre a rainha que conheceu Churchill e Londres chega aos 40 graus. Se perguntássemos a qualquer cientista há trinta ou quarenta anos se seria possível esta circunstância meteorológica, o resultado seria sempre um olhar de pasmo na nossa direcção por sugerirmos uma coisa tão estouvada. Agora que alcançámos a fase estouvada, talvez seja altura de travar um pouco.

Pedro Cotrim

Editor

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