“Aquilo que realmente diferencia os seres humanos dos animais não é a procura da felicidade, que ocorre em todas as esferas do mundo natural, mas a procura de sentido, que é uma especificidade completamente humana”. Esta é uma das conclusões de um estudo liderado pela universidade de Stanford e recentemente divulgado que afirma que a procura da felicidade e a busca de um sentido para a vida não são sinónimos. Descubra porquê
POR HELENA OLIVEIRA

“As pessoas são felizes quando conseguem aquilo que desejam. Mas o sentido da vida tem de ser encontrado numa outra qualquer dimensão”

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É talvez a frase mais repetida do mundo ou o desejo mais comum a todos os seres humanos: “quero ser feliz”. E é nessa busca interminável que todos nós, de uma forma ou de outra, passamos a vida a perseguir algo que, no geral, é efémero mas, que em simultâneo, nos permite ter motivação para continuar a andar para à frente, na esperança que essa dita felicidade se materialize. Por outro lado, quando falamos da busca de um significado para as nossas vidas, a questão torna-se mais filosófica, sendo que, de acordo com o senso comum, felicidade e significado para a vida acabam por se sobrepor e muita gente considera ambos os conceitos como (quase) sinónimos. Mas a verdade é que não são.

Apesar de terem em comum e em sobreposição vários elementos, a felicidade e a procura de sentido ou significado para a vida são até bastante diferentes. Pelo menos é o que demonstra um novo estudo desenvolvido por uma equipa de psicólogos e que será brevemente publicado no Journal of Positive Psychology, que perguntou a cerca de 400 pessoas, dos 18 aos 78 anos, se consideravam as suas vidas felizes e/ou com significado. Depois de analisarem as auto-avaliações no que respeita à felicidade, ao significado e a muitas outras variáveis – como os níveis de stress, os padrões de consumo ou ter filhos – e ao longo de um mês, os investigadores concluíram que um sentido para a vida e a felicidade na vida se justapõem em alguns casos, mas são, na verdade, muito diferentes. Levar uma vida feliz, dizem os psicólogos, está muito mais associado com aquilo que se recebe, ao passo que ter encontrado um sentido para a vida corresponde ao que se dá. E, numa era em que somos assoberbados com livros de auto-ajuda que têm a palavra “felicidade” no título, em conjunto com seminários e cursos que “ensinam a ser feliz”, sem esquecer todos os motivos que temos para não nos sentirmos felizes na actual conjuntura, talvez ajude esta reflexão sobre a relação entre a procura da felicidade e a procura de sentido.

Se a tão actualmente famosa psicologia positiva, que ganhou asas na década de 90 como uma espécie de correctivo para a ênfase pesada que a (outra) psicologia inculcava na doença, no sofrimento e no infortúnio, acabou por impulsionar os estudos sobre a felicidade de uma forma jamais vista, as investigações sobre o que realmente pode dar sentido ou propósito à vida não foram tão longe, apesar de também serem alvo de algum interesse. Daí o objectivo duplo desta investigação: clarificar, por um lado, as diferenças principais entre os dois conceitos e, por outro, argumentar que, embora a felicidade e a procura de sentido constituam características importantes de uma vida desejável, estando indubitavelmente inter-relacionadas, têm origens e implicações manifestamente diferenciadas.

Depois de um artigo dedicado a esta temática constar no top dos mais lidos durante várias semanas no site da revista The Atlantic, o VER analisou o paper escrito pela equipa de psicólogos e sumariza de seguida os seus principais resultados.

Felicidade natural, sentido cultural
“Ser feliz e encontrar um sentido para a vida são estados que se sobrepõem, mas que encerram diferenças importantes. (…) A satisfação das necessidades e desejos de cada um aumenta os níveis de felicidade, mas é amplamente irrelevante para o sentido [da vida]. A felicidade é extremamente orientada para o presente, ao contrário do sentido, que envolve a integração do passado, presente e futuro. A felicidade foi igualmente associada ao acto de receber, enquanto o sentido está intimamente ligado ao acto de dar. Níveis mais elevados de preocupações, stress e ansiedade estão mais relacionados com as vidas com sentido, mas com níveis baixos de felicidade. As preocupações relativas à identidade pessoal e à expressão do ‘eu’ contribuem para o sentido, mas não para a felicidade. E, em muitos casos, vidas plenas de sentido podem ser infelizes, e vidas felizes podem carecer de sentido”.

Este é o sumário do estudo em causa que, à primeira vista, pode gerar alguma surpresa. Afinal, como é possível que o tão desejado e procurado sentido para a vida esteja relacionado com níveis insignificantes de felicidade? E só é feliz quem se preocupa consigo mesmo e com a satisfação imediata das suas necessidades? As respostas não são fáceis, mas a pesquisa que se segue ajuda a desmistificar algumas realidades que damos como adquiridas.

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Em primeiro lugar, os autores assumem que a forma mais simples de felicidade está enraizada na natureza. Todas as criaturas vivas possuem necessidades biológicas que consistem em coisas que precisam de obter do seu próprio ambiente para sobreviverem e se reproduzirem. Entre as criaturas com cérebros e sistemas nervosos centrais, estas motivações básicas impele-as a persegui-las, e a retirar proveito delas, sendo que a satisfação dessas necessidades produz, na generalidade, estados positivos. De forma contrária, os sentimentos negativos surgem quando essas necessidades são frustradas. Os seres humanos são animais e a sua felicidade global depende, desta forma, das coisas que desejam e da satisfação das suas necessidades.

Se a felicidade é então algo natural, o sentido ou a sua busca, é cultural, sugerem os autores. Todas as culturas utilizam a linguagem, o que lhes permite usar significados e comunicá-los. O conjunto extenso de conceitos subjacentes a essa mesma linguagem é, por sua vez, integrado em redes interligadas de sentido. Assim, os conjuntos de propósitos, valores e outros significados são geracionalmente aprendidos e transmitidos culturalmente, o que vai ao encontro da hipótese avançada pelos investigadores quando definem o sentido como resultado da identidade cultural.

Adicionalmente, uma das vantagens cruciais para o sentido reside no facto de este não estar limitado a um ambiente de estímulos imediatos. O sentido permite que as pessoas pensem em realidades passadas, presentes e futuras e espacialmente distantes. Os exemplos listados no estudo de vidas com sentido mas não felizes – de activistas políticos oprimidos, missionários religiosos e terroristas – incluem, sem excepção, o trabalho com vista à obtenção de um objectivo no futuro, sendo esse futuro altamente desejável mesmo que as actividades presentes para o alcançar possam ser desagradáveis. Ou, em suma, uma vida com sentido envolve a compreensão de uma vida para além do aqui e agora, integrando o futuro e o passado.

“Em muitos casos, vidas plenas de sentido podem ser infelizes, e vidas felizes podem carecer de sentido” Aqueles que se regem por objectivos de curto prazo são mais felizes .
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Por contraste, a felicidade sob a forma de satisfação da vida pode integrar um determinado grau de passado no presente mas, e mesmo quando tal acontece, a avaliação desse passado é sempre efectuada à luz do presente. De incluir também uma outra variável nesta equação: apesar de sabermos que a vida está em constante mudança, a verdade é que a maioria das pessoas luta por níveis de estabilidade, constituindo o sentido uma importante ferramenta para impor essa característica no fluxo da vida. Por exemplo, os sentimentos e comportamentos existentes entre um casal podem flutuar ao longo do dia, mas um sentido mandatado culturalmente, como o casamento, define o relacionamento como constante e estável.

Uma outra conclusão do estudo, já mencionada por outros investigadores, afirma que o sentido dos projectos pessoais de um individuo depende de quão consistente este for com os aspectos centrais do ‘eu’ e da identidade. Assim, a felicidade está mais ligada à satisfação das necessidades do ‘eu’, enquanto o sentido se relaciona, de forma mais ampla, com o tipo de actividades que expressam e reflectem o ‘eu’ simbólico, algumas das quais envolvem o contributo para o bem-estar dos outros (individualmente ou no geral) ou outras actividades culturalmente valorizadas.

Dinheiro: insignificante para o sentido, crucial para a felicidade
“O dinheiro não compra a felicidade, mas ajuda muito”. Sim, a mensagem é antiga, mas está sempre actual e parece conferir veracidade a mais um dos argumentos explicitados neste estudo. Apesar de o dinheiro ser um produto da cultura e não da natureza, as pessoas utilizam-no para satisfazer muitas das suas necessidades mais básicas, bem como os seus desejos. Assim, ter capacidade para adquirir coisas que precisamos ou desejamos possui uma relação positiva significativa com a felicidade, mas quase irrelevante para o sentido. A escassez de dinheiro reduz tanto a felicidade como o sentido, mas o seu grau de afectação foi consideravelmente maior na primeira. Em termos de variação encontrada, a escassez monetária foi avaliada como 20 vezes mais prejudicial à ideia de felicidade (5%) quando comparada com o sentido (0,25%).

Ou, em suma, ter dinheiro suficiente para comprar objectos de desejo (tanto necessidades como luxos) é importante para a felicidade mas faz pouca ou nenhuma diferença no que respeito a um sentido para a vida. Quando inquiridos sobre se “as flutuações económicas afectam a felicidade”, a concordância com a frase indica uma quebra nos níveis de felicidade, mas não a tendência para esta realidade influenciar o sentido da vida. Em princípio, afirmam os autores, reconhecer que a felicidade de cada um depende do estado da economia poderia conduzir tanto a boas como a más direcções, mas as evidências empíricas demonstram que as pessoas associam esse reconhecimento com coisas más. O que também reflecte o princípio generalizado que afirma que as coisas más têm efeitos mais poderosos do que as coisas boas. Mais uma vez, o estudo parece comprovar que gastar dinheiro mediante formas que sejam relevantes para as motivações e objectivos de cada um contribui muito mais para a felicidade do que para uma vida com sentido.

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Quando avaliados em conjunto, os resultados decorrentes encaixam na ideia generalizada de que ter as necessidades satisfeitas, ser capaz de obter o que se quer e o que se deseja e sentirmo-nos mais vezes bem do que mal são condições centrais para a existência da felicidade, mas irrelevantes para o sentido da vida. E, adicionalmente, na medida em que os desejos e as necessidades surgem de forma natural, estes padrões também vão ao encontro da ideia que a felicidade está enraizada na natureza e nos padrões motivacionais incutidos por esta. As pessoas são felizes quando conseguem aquilo que desejam. Mas o sentido da vida tem de ser encontrado numa outra qualquer dimensão.

A felicidade não se encontra na contemplação do futuro
Uma das ideias centrais na investigação em causa defende que a felicidade está relacionada com o presente, ao passo que o sentido interliga os acontecimentos ao longo do tempo, integrando assim o passado, o presente e o futuro. Ou, por outras palavras, o sentido liga as experiências e os acontecimentos ao longo do tempo, sendo que a felicidade tem um carácter momentâneo e é, por isso, largamente independente de outros momentos.

Com base nas respostas dos inquiridos, as pessoas que afirmaram reflectir sobre o passado e terem o pensamento orientado para o futuro, demonstram ter encontrado um sentido para as suas vidas, apesar de serem menos felizes. Ou seja, pensar mais além do que o momento presente consiste num sinal de uma vida com sentido mas com níveis baixos de felicidade. A felicidade não se encontra, portanto, na contemplação do futuro. Devido à potencial importância destas diferenças num período determinado de tempo, os investigadores levaram a cabo um outro estudo subsequente. E os resultados demonstraram que aqueles que se concentram no futuro e são orientados para o longo prazo são significativamente mais associados com o sentido e menos com a felicidade. E, inversamente, os que se regem por objectivos de curto prazo são mais felizes. As pessoas parecem utilizar o sentido como forma de relacionar o passado, o presente e o futuro, em parte porque é desta forma que orientam as suas acções presentes. E reconhecer as ligações existentes entre o presente, o passado e o futuro será extremamente útil para o sucesso em empreendimentos que exijam um sentido, como a educação, a carreira e os relacionamentos duradouros.

Dar ou receber, stress ou descontracção
Do ponto de vista social, a perseguição da felicidade está associado com comportamentos egoístas – ou, como os autores a descrevem, como se sendo um “beneficiário” ao invés de um “doador”. Os psicólogos envolvidos no estudo oferecem uma explicação evolucionista, já anteriormente mencionada, e que tem por base o facto de todos os animais terem necessidades que têm de satisfazer para ficarem felizes. “As pessoas felizes sentem um enorme prazer quando recebem algo que os beneficie, enquanto aqueles que têm um sentido para a vida alcançam esse mesmo prazer quando oferecem algo aos outros”, explica Kathleen Voss, uma das psicólogas que integra a investigação. Por outras palavras, o sentido transcende o ‘eu’ enquanto a felicidade só é atingida quando se dá ao ‘eu’ exactamente aquilo que ele quer. Assim, as pessoas que possuem um sentido elevado nas suas vidas têm uma tendência muito maior para ajudar os outros. E, como refere Roy Baumeister, o coordenador desta investigação, “aquilo que realmente diferencia os seres humanos dos animais não é a perseguição da felicidade, que ocorre em todas as esferas do mundo natural, mas a procura de sentido, que é uma especificidade completamente humana”.

“As pessoas felizes sentem um enorme prazer quando recebem algo que os beneficie, enquanto aqueles que têm um sentido para a vida alcançam esse mesmo prazer quando oferecem algo aos outros” .
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Adicionalmente, os participantes no estudo que afirmaram retirar sentido do acto de dar uma parte de si aos outros, estão igualmente dispostos a fazer sacrifícios em prol de um bem maior. O reconhecido psicólogo Martin Seligmana afirma que na vida com sentido “são utilizadas as nossas maiores forças e talentos para servir algo que se acredita ser muito maior que o ´eu’”.

Assim, as pessoas cujas vidas são preenchidas por níveis elevados de sentido continuam a procurá-lo activamente mesmo quando sabem que o fazem à custa da felicidade. E porque investiram muito de si mesmos em algo que acreditam ser superior a eles próprios, têm igualmente tendência para se preocuparem mais, demonstrando níveis mais elevados de stress e de ansiedade do que os “simplesmente felizes”. Ter filhos, por exemplo, está associado ao acto de dar sentido à vida e, em simultâneo, à capacidade de se fazer sacrifícios. No estudo é igualmente referido que os pais recentes acusam níveis baixos de felicidade, algo que já tinha sido referido pelo famoso psicólogo de Harvard, Daniel Gilbert que, num outro estudo, demonstrou que os pais são menos felizes a interagir com os filhos comparativamente a actos como comer ou ver televisão. “Em parte, o que fazemos enquanto humanos é tomar conta dos outros e contribuir para o seu bem-estar. Estes actos conferem sentido à vida, mas não nos tornam necessariamente felizes”, sublinha Baumeister. Ou, por outras palavras, como os envolvimentos com sentido aumentam os níveis de stress, as preocupações e a ansiedade, acabam por tornar as pessoas menos felizes.

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Uma vida cheia de sentido, mas infeliz. Uma vida feliz, mas sem significado
Os dados recolhidos pela equipa de investigadores permitiram a construção de um retrato estatístico de uma vida que pode ser plena de sentido, mas relativamente incipiente no que respeita à felicidade. Por outro lado, as conclusões retiradas comprovam as suas hipóteses de partida, que consistiam em avaliar as diferenças entre uma vida feliz e outra com sentido, sendo que este tipo de vida tem recebido relativamente pouca atenção ou interesse por parte de outros estudos e, em alguns casos, até pouco respeito. Todavia, cultivar e encorajar as pessoas que sacrificam os seus prazeres pessoais em prol de uma participação construtiva na sociedade poderá constituir um objectivo valioso para os que estudam a psicologia positiva.

As conclusões retiradas desta investigação retratam a vida pouco feliz mas com sentido com base em empreendimentos difíceis e complexos: são vidas marcadas por elevados níveis de preocupação, stress e ansiedade e com um enorme dispêndio de tempo passado a pensar no passado e no futuro. A reflexão profunda é igualmente parte integrante deste tipo de vida, no qual se imaginam acontecimentos futuros e se reflecte a propósito de lutas e desafios passados. Mais ainda, as pessoas que reportaram ter uma vida com sentido percepcionam-se a si mesmas como detentoras de mais experiências desagradáveis do que os demais, existindo uma correlação inegável entre “coisas más que aconteceram” e a procura de sentido.

Apesar de estes indivíduos poderem ser relativamente infelizes, são vários os sinais que sugerem que são aqueles que mais contributos positivos podem oferecer à sociedade. Um elevado sentido na vida apesar de níveis baixos de felicidade foi associado aos que mais dão e menos recebem.

Por outro lado, as conclusões do estudo permitem igualmente sugerir que existem vidas extremamente felizes nas quais escasseia o sentido. As pessoas “felizes” são muito mais descontraídas e despreocupadas e significativamente menos ansiosas. No que respeita as relações interpessoais, são beneficiários natos e pouco dados a dar, sendo que conferem pouca importância ao passado e ao futuro. Estes padrões sugerem assim que a felicidade sem sentido caracteriza uma vida relativamente superficial, auto-absorvente e até egoísta, na qual “as coisas vão bem”, as necessidades e desejos são satisfeitos e as confusões ou complexidades são evitadas.

Se a psicologia positiva deu alguns passos de gigante na forma como se pode cultivar a felicidade e sendo naturalmente difícil resistir ao seu apelo, a verdade é que estudos recentes começam igualmente a sugerir que existe um outro lado, mais negro, na valorização e perseguição da felicidade, ao mesmo tempo que existem benefícios derivados dos sentimentos infelizes e negativos. Daí a sugestão dos autores da presente investigação no sentido da psicologia positiva se concentrar também na compreensão do sentido da vida e do que o diferencia da felicidade. Ficou igualmente claro que não é somente a felicidade que toda a gente procura e que uma vida menos feliz mas plena de sentido é, de certa forma, mais admirável do que uma outra feliz, mas sem qualquer significado.

Por outro lado, os autores sublinham igualmente que os seus resultados confirmam que a felicidade é significativamente “natural”, ao passo que o sentido é culturalmente adquirido. Apesar de os humanos utilizarem o dinheiro e outros artefactos culturais para atingirem a satisfação, a essência da felicidade será sempre encontrada na satisfação das necessidades e dos desejos.

Ou, dito por outras palavras, os humanos podem-se assemelhar a muitas outras criaturas na sua luta pela felicidade, mas a busca de sentido é parte integrante do que nos torna humanos. E também únicos.