Desde meados dos anos setenta do século passado que a investigação cientifica mostrou que o PIB não chegava para explicar o desenvolvimento dos países. A proposta de passar a incluir a avaliação subjectiva de bem-estar dos cidadãos na avaliação das políticas públicas tornou-se progressivamente relevante, com as Nações Unidas a tomarem o Butão como um exemplo, ao proporem a avaliação da Felicidade Interna Bruta – FIB – em alternativa ao PIB
POR HELENA ÁGUEDA MARUJO

Desde meados dos anos setenta do século passado que a investigação científica mostrou que o PIB não chegava para explicar o desenvolvimento dos países.

Aquilo a que se chamou o “O Paradoxo Easterlin” (Easterlin 1973, 1974) mostrou que, num determinado momento, um aumento no salário gerava mais felicidade; no entanto, a longo prazo (dez anos ou mais) a felicidade auto-avaliada estabilizava, não crescendo como antecipado. Por exemplo, entre 1962 e 1987, o PIB per capita no Japão mais do que triplicou e, no entanto, a felicidade global dos japoneses manteve-se constante durante esse período (Easterlin 2005). Foram muitos os estudos que foram confirmando este indicador (Myers and Diener 1995), mostrando que a melhoria no bem-estar subjectivo que os economistas mainstream e os criadores de políticas públicas esperavam, não se registava (Easterlin et al. 2010).

A proposta de passar a incluir a avaliação subjectiva de bem-estar dos cidadãos na avaliação das políticas públicas tornou-se progressivamente relevante, com as Nações Unidas a tomarem o Butão como um exemplo, ao proporem a avaliação da Felicidade Interna Bruta – FIB – em alternativa ao PIB.

O crescimento da investigação cientifica na área da felicidade emergiu então de forma clara e imparável, mostrando não apenas o que pode ser feito pela felicidade individual – como se avalia, que variáveis lhe estão associadas, como se pode treinar – mas também como a investigação na área do bem-estar pode contribuir de forma indelével e fundamental para nações com populações mais felizes e mais saudavelmente harmoniosas – por exemplo abordando questões ligadas à igualdade e justiça na distribuição dos recursos, até às políticas de desemprego, à corrupção, às políticas da gestão e arquitectura e estrutura das cidades, ao investimento na prevenção e destigmatização das doenças mentais, à pegada ecológica e aos anos de longevidade felizes, ao investimento na paz e na educação em detrimento de financiamento de políticas de guerra.

[quote_center]Um dos fundamentais propósitos da governação deverá ser a de ajudar as pessoas a viverem saudáveis e felizes, pelo que a felicidade dos cidadãos e das cidadãs precisa ser tida em conta quando se planeia, desenha e governa um país[/quote_center]

Neste sentido, convencer governos a preocuparem-se com a saúde mental e o bem-estar passou a ser um objectivo de alguns investigadores da felicidade.

Este é o caso dos criadores do World Happiness Summit (WoHaSu), em especial do H20 (H de Happiness) que se iniciou há três anos em Miami, juntando governantes de cerca de 20 países e investigadores da felicidade de muitos continentes para transmitir conhecimento empírico e teórico sobre bem-estar e felicidade.

A este projecto juntou-se aCátedra em Education for Global Peace Sustainability sediada no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, que integra já parceiros de cerca de 20 países de vários continentes, e tem como objectivo combinar as experiências e recursos dos diversos parceiros em diferentes domínios científicos, países e comunidades de origem em redor do tema da educação para a paz global.

O intuito é: promover formação inovadora, inclusiva e de qualidade; realizar investigação aplicada com impacto social; editar publicações e organizar conferências que questionem e, ao mesmo, tempo, sedimentem o conhecimento científico na área da educação para a paz, da felicidade pública e dos direitos humanos; e, finalmente, trabalhar projectos centrados na comunidade, que criem, dêem visibilidade, frutifiquem e coloquem em rede práticas nacionais e internacionais de educação para a paz positiva, na sua ligação com a cidadania, a sustentabilidade ambiental e um bem-estar enraizado no bem comum.

A parceria entre o WoHaSu e a Cátedra E=GPS concretizou-se no passado dia 12 de Março de 2019, na Reitoria da Universidade de Lisboa, no primeiro H20 realizado fora dos Estados Unidos, e que trouxe a Portugal ministros e outros governantes de uma grande diversidade de países, a maioria não Europeus, para participarem numa conferência onde investigadores da felicidade e lideres mundiais (como Laura Chinchilla, Presidente da Republica da Costa Rica entre 2010 e 2014, o pais mais feliz do mundo de acordo com o Happy Planet Index criado pela New Economics Foundation) partilharem caminhos científicos e práticos para governações respeitadoras do bem-estar de [email protected] e de cada um e da paz global.

Um dos fundamentais propósitos da governação deverá ser a de ajudar as pessoas a viverem saudáveis e felizes, pelo que a felicidade dos cidadãos e das cidadãs precisa ser tida em conta quando se planeia, desenha e governa um país (Marujo & Neto, 2010, 2013, 2016).


Referências:

Easterlin, R. (1973). Does money buy happiness. The Public Interest 30: 3–10.

Easterlin, R. (1974). Does economic growth improve the human lot? Some empirical evidence. In Nations and households in economic growth: Essays in honor of Moses Abramovitz, ed. P.A. David and M.W. Reder. New York: Academic Press, Inc.

Easterlin, R.  (2005). Diminishing marginal utility of income? Caveat Emptor. Social Indicators Research 70: 243–255.

Easterlin, et al. (2010). The happiness-income paradox revisited. PNAS 107 (52): 22463–22468.

Myers, D.G., and E. Diener (1995). Who is happy. Psychological Science 6 (1): 12–13.

Marujo, H. Á., & Neto, L. M. (2016). Quality of life studies and positive psychology. In L. Bruni & P. L. Porta (Eds.), Handbook of Research Methods and Applications in Happiness and Quality of Life (pp.279-305). Northamptom, MA: Edward Elgar Publishing.

Marujo, H. Á., & Neto, L. M. (Eds.). (2013). Positive nations and communities: Collective, qualitative and cultural sensitive processes in Positive Psychology. Dordrecht: Springer.

Marujo, H. À., & Neto, L.M. (2010). Psicologia Comunitária Positiva: Um exemplo de integração paradigmática com populações de pobreza. Análise Psicológica, 28 (3), 517-525.