Aferir qual o contributo das empresas para a comunidade e reflectir sobre o papel social das mesmas constituem os objectivos principais da 2ª edição do estudo “O investimento das empresas na comunidade” divulgado este mês pela consultora Sair da Casca. O VER apresenta os seus principais resultados e contextualiza-os em entrevista com Nathalie Ballan, sócia fundadora da consultora, que chama a atenção para uma nova abordagem à actuação social: a dos negócios “inclusivos”
POR HELENA OLIVEIRA

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Face à primeira edição do estudo “O Investimento das Empresas na Comunidade”, sobre o qual o VER escreveu em Abril de 2010, a boa notícia é que, apesar da situação de crise em contínuo agravamento, os montantes investidos pelas empresas na comunidade não sofreram cortes entre 2008 e 2010.

E, no ano em que se celebra, a nível europeu, o trabalho voluntário, é ainda uma notícia melhor o facto de se saber que, na amostra que reuniu 52 empresas, 70% destas desenvolvem actualmente programas de voluntariado com um envolvimento expressivo dos colaboradores. A coesão interna da organização através de “um olhar e fazer” pelos outros parece constituir uma fórmula de sucesso com benefícios para ambas as partes.

E, falando em fórmula, em quanto é que se traduz o montante investido pelas universo das 52 empresas auscultadas? Num valor superior a 76 milhões de euros, sendo que a maior percentagem pertence às empresas que investem mais de um milhão de euros (37%) e, no extremo oposto, às que investem menos de 200 mil euros (25%). De realçar igualmente que 13% das empresas não comunicam ainda os montantes dos apoios, o que demonstra que esta área de actuação na comunidade continua a não ser encarada como as demais, faltando-lhe ainda dar passos cruciais em termos de rigor e exigência. O mesmo acontece com a comunicação de critérios de escolha dos projectos, instituições e iniciativas que contam com o seu apoio: apenas 25% das empresas o fazem.

Se o voluntariado empresarial consiste numa tendência com um peso cada vez mais visível no panorama nacional, o mesmo acontece com o compromisso assumido de contribuir para o combate à pobreza e exclusão social, não só a nível interno – de que são exemplo programas de empregabilidade ou de integração de pessoas com deficiência – mas também a nível externo, como comprovam os montantes investidos na comunidade e que privilegiam áreas tão diversas como a criação ou adaptação de produtos e/ou serviços para os tornar acessíveis a populações normalmente excluídas ou a criação de ferramentas financeiras alternativas para pessoas que não podem recorrer ao sistema bancário tradicional. E, nesta categoria, são cerca de 80% as empresas que abraçaram e estão a cumprir este compromisso.

No que respeita às causas mais apoiadas, nada de novo a assinalar face ao primeiro estudo. A solidariedade, que integra o apoio a instituições de solidariedade e o envolvimento em campanhas lideradas também por instituições, lidera o ranking, sendo seguida pela educação (com enfoque nas crianças e jovens) e pela cultura. As empresas optam também por ajudar causas que tenham atingido já um certo patamar de visibilidade. A título de exemplo, na área cultural, entidades como a Fundação de Serralves ou a Fundação Casa da Música e, na área social, o Banco Alimentar contra a Fome ou a EPIS – Empresários para a Inclusão Social – são as que lideram as “preferências” das empresas auscultadas. O apoio a idosos, a pessoas com dependências e a própria deficiência continuam a ser as causas menos divulgadas pelas organizações em questão. Mas, em contrapartida, é notório o crescente envolvimento em projectos educativos para a promoção de temáticas como a educação para a saúde, a prevenção rodoviária ou a protecção ambiental, nos quais as empresas trabalham numa lógica de proximidade com as entidades públicas, assumindo os encargos financeiros das iniciativas que apoiam.

Por último e quando se fala na visão estratégica do papel da empresa na comunidade, o estudo aponta para uma tentativa crescente, por parte das empresas, em estruturarem a sua área de envolvimento, pese embora o facto de, muitas vezes, esta estruturação não ser ainda fruto de uma reflexão estratégica para definir, com eficácia, o papel da organização e as suas formas de actuação. De qualquer das formas, a ligação entre as estratégias de envolvimento com a comunidade e as estratégias de sustentabilidade tornou-se também mais clara nos últimos dois anos, face aos resultados da primeira edição do estudo.

Para ter uma visão mais abrangente sobre a temática em causa, o VER entrevistou
Nathalie Ballan, sócia fundadora da Sair da Casca e uma das responsáveis do estudo agora divulgado.

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Que principais diferenças são de assinalar nesta segunda edição de “O Investimento das empresas na comunidade”?
Em geral, as empresas definiram políticas ou linhas de actuação muito mais claras, já não tão dispersas e cada vez mais relacionadas com o seu contexto local. Em 2008, apenas 13% das empresas comunicava ter uma política ou estratégia de filantropia ou investimento na comunidade; em 2009 e em 2010 este valor subiu respectivamente para 65% e 87%. A ligação entre as estratégias de envolvimento com a comunidade e as estratégias de sustentabilidade tornou-se também mais clara, nos últimos dois anos, comparativamente a 2008. Nota-se uma maior procura de eficiência e eficácia. Os projectos de voluntariado ganham cada vez mais expressão e existe um compromisso de quase todos para contribuir para reduzir a pobreza e exclusão social.

Na primeira edição, afirmava que as empresas ainda não conseguiam ter “controlo” sob a sua acção social, pois “crescemos numa cultura de caridade e filantropia e existe ainda pudor, por parte das empresas, para abordar o seu papel social”. Face aos resultados desta 2ª edição, existiu alguma alteração significativa nesta visão do papel social das empresas?
Hoje, 73% e 83% das empresas respectivamente em 2009 e 2010 comunicam compromissos e/ou áreas de actuação, face a 62% na primeira edição do estudo. Houve uma grande melhoria a nível da gestão mas, no entanto, ainda não é prática corrente comunicar critérios de escolha de projectos ou instituições, sendo que apenas um quarto das empresas comunica critérios de escolha dos projectos, instituições, iniciativas apoiadas e, ainda menos, referem os sucessos e insucessos das acções. Cerca de 13% das empresas continuam a não comunicar dados relativamente ao investimento na comunidade. Ou seja esta área, de actuação na comunidade, continua a não ser encarada da mesma forma do que as outras, mesmo existindo uma evolução indiscutível.

Relativamente às causas mais apoiadas, que continuam basicamente a privilegiar a solidariedade, a educação e a cultura, é dito no estudo que “a tendência é sempre dar visibilidade a quem já é (muito) visível. O mesmo “problema” acontece com as causas que a comunicação social divulga. A seu ver, como seria possível alterar esta realidade?

Os relatórios de sustentabilidade são uma ferramenta de gestão e de comunicação servindo para comunicar o desempenho da empresa e os seus impactos. Às vezes, não é óbvia a escolha entre o que é mais visível e o que tem mais impacto. Até porque isso pressupõe haver critérios de avaliação e alguma medição, pelo menos de resultados. Ora, no caso dos projectos “sociais” ainda há pouco trabalho feito sobre os impactos e como as empresas não podem relatar tudo o que fazem porque seria informação a mais, tendem a privilegiar o que é o mais conhecido ou que lhes pode dar mais visibilidade.

Já é possível afirmar, visto que a responsabilidade social corporativa já não é a “novidade” e tem vindo a sofrer um processo de maturação, que as empresas já perceberam os benefícios de terem políticas de envolvimento com a comunidade que estejam alinhadas na sua estratégia geral de sustentabilidade?
A grande maioria das empresas entende isso, mas é diariamente sujeita a diferentes pressões e, em muitos casos, é o único recurso para apoiar situações de emergência locais. Esta gestão da alocação de recursos é extremamente complexa e não pode ser vista só à luz do que diz a estratégia.

O que nos parece mais interessante são as novas abordagens a esta actuação social. Existem exemplos de caminhos, altamente inspiradores e coerentes com a missão e cultura do mundo empresarial, como o “negócio inclusivo”, promovido pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), e o social business de Muhammad Yunus. As empresas podem usar parte do orçamento disponível para a filantropia e investir num destes modelos, passando de uma atitude de “caridade” para uma postura de “investidores”.

O “negócio inclusivo” tem, em geral, dois tipos de modelos: a empresa desenvolve bens ou serviços para as populações pobres, com características específicas e preços acessíveis e/ou a empresa integra as populações na sua cadeia de valor, como fornecedores ou distribuidores, criando novas competências e desenvolvendo a economia local.

O social business é um modelo empresarial, criado para responder a necessidades sociais. A diferença com o modelo tradicional de negócio é que, depois do reembolso do investimento, os lucros são reinvestidos na comunidade ou na empresa. O objectivo é a auto-suficiência, o desenvolvimento da actividade e o fim da “subsídio-dependência” que permite à estrutura concentrar-se na sua missão social em vez de passar uma grande parte do seu tempo a angariar fundos.

Estes dois modelos têm um ponto em comum: dão às pessoas a oportunidade de saírem do ciclo de pobreza e de serem actores. Traduzem a evolução da filantropia empresarial baseada no donativo, que pode continuar a existir nas situações em que a assistência é a única via, mas com maior exigência no que se refere à sua eficiência, para uma estratégia de investimento social.

Continua a não ser expressivo o número de empresas que mede o impacto dos seus projectos na comunidade. Como é possível “convencê-las” que esta avaliação tem uma dupla utilidade, para si mesmas e para os projectos que apoiam?
Há cada vez mais uma procura de conhecimento sobre quais os impactos dos projectos desenvolvidos ou apoiados. Este é um tema sobre o qual a Sair da Casca se tem debruçado e sobre o qual pretendemos continuar a desenvolver trabalho no próximo ano.

Em relação à medição do impacto, é preciso ter algum cuidado. Quem avalia o impacto não tem que ser necessariamente a empresa e as instituições do terceiro sector, até porque estas podem não ter nem tempo nem recursos e devem focar-se nos projectos. Outro aspecto muito importante é o de que é preciso analisar o que custa avaliar um projecto face ao financiamento total. Estamos numa fase embrionária e não apenas em Portugal. É normal haver uma tendência para uma exigência maior a nível, pelo menos, da organização dos projectos, dos resultados, eventualmente dos seus impactos. No que respeita ao retorno para a sociedade é ainda um tema quase experimental.

Com o agravar das condições económicas do país desde a denominada Grande Recessão, em 2008, existem dados que comprovem que as empresas estão mais preocupadas em praticar uma responsabilidade social virada para o seu interior ou, pelo contrário, notam um maior esforço para ajudar “os que estão lá fora”?
É mais comunicada e mais visível a preocupação das empresas com a sua responsabilidade social interna, para com os seus colaboradores. Cerca de 80% das empresas (dados relativos a 2010) que analisámos assumem um compromisso, por exemplo, através da criação de condições de empregabilidade ou de programas de integração de pessoas com deficiência. Não quer dizer que, antes, as empresas não tinham estas práticas, mas sim que talvez não lhes davam tanta visibilidade. Também não significa que tenham deixado de investir na responsabilidade social “externa”. Continuam a investir, mas o foco interno tornou-se mais evidente e claro.