Ao longo dos tempos, a crença na necessidade de gerar os maiores lucros possíveis foi-se sobrepondo ao sucesso de longo prazo das organizações e ao sucesso da maioria das pessoas. Isto não significa que um sistema que respeita a propriedade privada e que reconhece o papel da economia de mercado, seja um mau sistema. Com consciência e ética, o capitalismo poderá então ser o melhor dos sistemas
POR SOFIA SANTOS

De acordo com dicionário de Cambridge, o capitalismo é um sistema económico, político e social onde a propriedade, os negócios e a indústria são privados, sendo geridos de forma a gerar os maiores lucros possíveis para o sucesso das organizações e das pessoas. Ao longo dos tempos, a crença na necessidade de gerar os maiores lucros possíveis foi-se sobrepondo ao sucesso de longo prazo das organizações e ao sucesso da maioria das pessoas. Isto não significa que um sistema que respeita a propriedade privada e que reconhece o papel da economia de mercado, seja um mau sistema. Se existir a consciência e a ética necessárias, o capitalismo poderá então ser o melhor dos sistemas.

O problema recai nos incentivos que a maximização do lucro traz à sociedade. O problema recai na percepção de que ter mais e mais dinheiro é a ambição correcta. O problema recai quando o sistema dá espaço e encoraja a que se queira vender apenas o que traz maior retorno financeiro, o mais rapidamente possível, sem atender às consequências, sem atender ao impacto em cadeia que sempre ocorre num ecossistema. E a economia funciona como um ecossistema, ou seja, como uma comunidade biológica de organismos em interacção com o seu ambiente físico, uma rede complexa de sistemas interligados. Sistemas humanos, ambientais, sociais, financeiros. Todos ligados entre si, mas cuja ligação foi ignorada durante séculos, em particular a partir da segunda metade do século passado. Esta ausência de conexão entre o sistema financeiro e os restantes, levou a excessos.

Levou à existência de uma sociedade assente no aumento continuado do consumo e, consequentemente, da produção, acreditando na existência ilimitada de recursos naturais e ignorando o impacto que o processo produtivo e o excesso das sobras têm no equilíbrio do ecossistema do qual dependemos;

Levou à “financialização” da economia real, onde o acesso ao financiamento foi dado não só por instituições financeiras per si, como também por grandes empresas industriais que acabaram por conseguir disponibilizar financiamento para que os seus produtos pudessem ser comprados pelos seus clientes;

Levou à crença de que uma boa gestão é aquela que maximiza os dividendos para o accionista no curto prazo, preferindo adiar decisões necessárias em prol de mais proveito hoje;

Levou, sem dúvida, a uma melhoria da qualidade de vida de uma grande parte da população mundial, mas levou também ao aumento das disparidades de rendimentos entre os extremos, estando a riqueza mundial concentrada nas mãos de poucas famílias… algo que não faz sentido numa verdadeira economia de mercado, que supostamente é catalisadora de liberdade para a inovação, para a oportunidade e para a ascensão social;

Levou ao esquecimento do indivíduo como ser único que merece ser respeitado e cuja felicidade depende também do bom funcionamento da sua vida pessoal;

Levou, por fim, à construção massificada de uma percepção distorcida do que é o capitalismo.

O capitalismo defendido por Adam Smith não é este capitalismo de excessos provocados pelas decisões dos seres humanos. A mão invisível da Adam Smith não é sinónimo de egoísmo nas decisões nem de maximização do consumo a todo custo. Antes de Adam Smith falar da riqueza das nações, publicou um livro dedicado aos sentimentos morais. Neste livro, ele define o ser humano como um ser ético, capaz de sentir prazer com a felicidade dos outros, existindo sempre uma esfera individual de cada um que tem de ser respeitada. Adam Smith criou a ideia de economia de mercado, no pressuposto de que o ser humano tinha bom senso, era um ser bom que se preocupava com os outros. No entanto, este pressuposto tão fundamental para se compreender a aplicar o capitalismo foi ignorado pelos economistas e gestores.

Hoje, em 2019, esta componente mais humana está gradualmente a ser reconhecida como urgentemente necessária. No entanto os estímulos e o enquadramento legal e regulatório ainda continuam estagnados no capitalismo errante. É necessário trazer o propósito para cada um de nós e para as organizações. É necessário criar-se a percepção massiva de que o papel das empresas e dos gestores é servir as sociedades em que operam, e não servir-se das sociedades em benefício próprio. Existem já vários movimentos que pretendem acelerar esta mudança: o Capitalismo Consciente iniciado nos EUA, as B Corp, o Capitalismo Inclusivo criado no Reino Unido, entre outros.

Existem também práticas educativas que começam a trabalhar a questão na raiz da essência com a implementação de momentos de meditação e yoga desde a escolaridade infantil. O capitalismo consciente e ético defendido por Adam Smith nunca poderá existir por decreto. Tem de ser sentido, vivenciado e aceite. É por isso essencial que todos nós reaprendamos a reconhecer as emoções, a assumir os nossos sentimentos, a vivenciarmos as nossas escolhas e a aceitarmos a simplicidade da plenitude.