É com um misto de dor – porque a guerra é sempre dolorosa – e de gratidão – por poder ajudar quem mais precisa – que Guadalupe Rodrigo tem estado na Síria desde 2011, dando apoio aos milhares de vítimas que, todos os dias, fintam a morte. E contar a verdade ao mundo é, para si, um privilégio mas também um dever. A missionária argentina veio recentemente a Portugal para dar o seu testemunho sobre a guerra. E pretende voltar em breve a um dos sítios “onde mais ninguém quer ir”
POR
MÁRIA POMBO

“É uma alegria estar aqui, e importa recordar que o que vivi é doloroso mas também é gratificante”. Estas foram as primeiras palavras de Guadalupe Rodrigo, missionária argentina pertencente à congregação Família Religiosa do Verbo Encarnado que tem estado na Síria desde 2011. Foi com um sorriso rasgado que a freira se dirigiu à plateia que a quis ouvir recentemente na igreja da Encarnação, em Lisboa, num testemunho impressionante.

De uma forma crua, cativante, emotiva e com salpicos de humor, a irmã Guadalupe – para quem “divulgar a verdade é um dever de consciência” – falou, durante quase uma hora, sobre uma realidade que muitos comentam mas que poucos se atrevem a conhecer verdadeiramente, referindo que os membros da sua congregação vão “aos locais onde mais ninguém quer ir”. Por considerar que é um privilégio estar com pessoas que admira, mesmo que seja durante apenas alguns momentos antes de estas morrerem, Guadalupe salientou: “muitos dizem que tenho coragem mas, para mim, estar lá é um privilégio e uma bênção”.

[quote_center]Uma das maiores dores que os sírios sentem é a do silêncio e do abandono[/quote_center]

Contudo, a sua ida para a Síria tinha um objectivo totalmente diferente daquele que previa no início. Sentindo-se física e emocionalmente esgotada após mais de uma dolorosa década a viver em missão, no Egipto, a religiosa escolheu, para descansar durante uns tempos, a cidade de Alepo – que é a maior daquele país e onde, antes da guerra, a maioria das pessoas pertencia à classe média-alta. Naquela altura, a Síria era “um paraíso” e “um lugar seguro”, ou seja, o local ideal para recuperar a força e a saúde que lhe faltavam, já que se tratava ainda de “um dos países mais bonitos e civilizados do Médio Oriente”, contando com um baixo índice de criminalidade e com uma relação pacífica entre cristãos e muçulmanos.

Segundo a missionária, um pouco por todo o território “era favorecida a liberdade religiosa e os direitos das minorias”, sendo que a calma daquela sociedade também se devia ao facto de não existirem grandes conflitos, pois a Síria era “um país rico, independente e importante no Médio Oriente”. E, durante dois meses, Guadalupe viveu essa tranquilidade. Chegou em Janeiro e a guerra começou em Março de 2011. E aquele que poderia ser o seu passaporte de regresso à Argentina ou a outro qualquer país que escolhesse como destino para ter o descanso que precisava, acabou por se revelar o principal motivo para ficar. Na hora de decidir apercebeu-se do que estava a acontecer: “fui para a Síria porque estava destinada”. E ficou, convicta de que não poderia abandonar aqueles que mais precisavam de ajuda.

Guadalupe Rodrigo, missionária
Guadalupe Rodrigo, missionária

Como explicou no testemunho que deixou, em Lisboa, “uma das maiores dores que os sírios sentem é a do silêncio e do abandono”, nomeadamente por parte dos meios de comunicação, que têm tratado esta guerra como “uma guerra civil, que de civil não tem nada”. Sem ‘papas na língua’, a religiosa não poupou críticas às “primeiras notícias – falsas – sobre as primeiras manifestações da população que aderiu à Primavera Árabe”, enquanto nos bairros das principais cidades “entravam grupos armados que não eram sírios e nem tão pouco falavam a mesma língua”. Ou seja, não se tratava, de todo, de uma revolta da população, mas sim de uma invasão.

Para si, a Primavera Árabe não passa de uma fraude. “Em Damasco e Alepo”, salientou, “milhares de pessoas apoiavam o governo e pediam para tudo seguir como estava”. Contudo, as notícias eram sobre cidadãos que “pacificamente mostravam a sua posição contra o governo”. E é este “abandono, que começou com a comunicação social” que tanta mágoa tem causado aos sírios. E que é também o motivo pelo qual – como várias vezes referiu ao longo da palestra – a missionária se sentiu tão grata por ver uma sala “cheia de pessoas interessadas” em ouvi-la e em saberem mais acerca daquilo que o povo da Síria tem, de facto, vivido nos últimos anos.

[quote_center]Os sírios não querem a democracia do Ocidente, porque esta não lhes dá o direito de se exprimirem livremente[/quote_center]

No seu testemunho, Guadalupe reforçou que “os sírios não querem a democracia do ocidente, porque não a entendem e porque esta não lhes dá o direito de se exprimirem livremente”, estando habituados “a viver de outra forma”. E lançou uma questão, à qual não conseguiu ainda dar resposta: com que direito é que o Ocidente tenta impor ao Oriente a melhor forma de governo? Na sua opinião esta guerra, que “não se planeou na rua”, é de “gente que pretende decidir o futuro dos povos, matando tantas e tantas pessoas”. Quando afinal “tentar, por via do terrorismo, mudar um país é ridículo”.

Foram diversos os apelos que Guadalupe fez ao longo da palestra. Solicitou a todos aqueles a quem a sua mensagem poderia chegar que parassem com a venda de armas. Apelou à comunicação social para que não inundasse mais o mundo de mentiras a respeito dos sírios e para que não se deixasse manipular pelos que querem, a todo o custo, dominar a Síria. Pediu aos povos, em geral, para dizerem aos seus governantes – principalmente aos do Ocidente – que estão a prejudicar a Síria.

Alepo era uma cidade onde, para muitos, a guerra nunca iria chegar, mas chegou, destruindo tudo “de uma ponta à outra”. A missionária contou que os seus habitantes “eram ricos e tinham tudo” e passaram a ser “pobres, miseráveis”, explicando que, durante o primeiro ano, “cinco milhões de pessoas estiveram presas”, sem comida e com acesso a água apenas uma vez por semana. Actualmente, esta é uma cidade que não tem um único lugar seguro e que sofre ataques permanentes.

O que não davam os sírios por “um só dia de silêncio”

Dos cerca de 12 milhões de habitantes que viviam na Síria, antes do início dos atentados, metade vive agora noutros países. Para a irmã Guadalupe “abrir as fronteiras é uma parte do problema”, sendo que “a solução é encerrar a ‘fábrica’ dos refugiados”. E para nós – que vivemos do lado de cá e nos sentimos solidários com o povo da Síria mas cuja realidade desconhecemos – alguém dizer que “a abertura das fronteiras é um problema” poderia parecer uma afirmação despropositada. Mas a missionária apressou-se a esclarecer que “aquelas pessoas não querem vir para a Europa nem pedem que abram as fronteiras, mas sim que parem os rebeldes”.

Em cinco anos, Guadalupe não se lembra de “um só dia de silêncio”. E tendo em conta que a perseguição religiosa é outro dos problemas que invadiram a Síria, a missionária salientou que os ataques acontecem em qualquer lugar mas “intensificam-se em algumas épocas, como o Natal e a Páscoa, porque as igrejas estão cheias”. Contou que um dia, na cidade onde vive, viu um míssil a cair a uma distância de 50 metros do local onde estava, tirando a vida a mais de 400 pessoas, concluindo que “em dias de missa, duplica o número de pessoas nas igrejas, mas também duplica o número de ataques”.

[quote_center]Tentar, por via do terrorismo, mudar um país é ridículo[/quote_center]

Importa salientar que, na Síria, os cristãos são uma minoria e têm todos, desde pequenos, um terço tatuado no pulso, o qual tem o objectivo de se identificarem uns aos outros, mesmo que sejam autênticos desconhecidos. Contudo, os árabes não lhes facilitam a vida. Segundo referiu a irmã, de cinco milhões de habitantes que viviam, em Alepo, no início da guerra, cerca de meio milhão era cristão. Actualmente são apenas perto de 20 mil. “Desapareceram? Não, mas deixaram de querer considerar-se cristãos”, desabafou. Por outro lado, aqueles que ainda existem sentem-se orgulhosos disso e “passar na rua e ver alguém com uma tatuagem igual à nossa é uma alegria suficientemente grande para fazer aquele dia valer a pena”, reforçou.

Mas qualquer pessoa, de qualquer crença e em qualquer parte pode ser alvo de um ataque. Em tom agridoce, a missionária explicou que “enquanto no ocidente andam a procurar Pokémons, no oriente andamos à procura dos nossos familiares nos escombros” e que “os miúdos coleccionam balas, ainda quentes, apanhadas do chão”. Contudo, a parte boa de os sírios viverem “as situações mais horrorosas” é a capacidade de presenciarem “diversos milagres, todos os dias”.

Pessoas que são filmadas enquanto são decapitadas, filhos que são enterrados vivos à vista das suas mães, torturas e pessoas deixadas a morrer lentamente são algumas das mais vulgares imagens a que os sírios assistem constantemente. E, ainda assim, quando existem máquinas fotográficas ou câmaras de filmar, estes têm a capacidade de sorrir. “E sorriem mesmo, não são sorrisos forçados”, reforçou a religiosa. Tudo porque, para quem vê a morte tão de perto, “é uma alegria poder viver mais um dia”, e os sírios “vivem-no intensamente porque sabem que cada dia pode mesmo ser o último”, garantiu Guadalupe à plateia.

[quote_center]Enquanto no Ocidente procuram Pokémons, no Oriente procuramos os nossos familiares nos escombros[/quote_center]

Interrogando os espectadores acerca da importância e da intensidade que pode ter apenas um dia para aqueles cidadãos, a irmã questionou-se a si própria: “quantas coisas não tinha eu dito e feito, hoje, se soubesse que este é o meu último dia?”

É junto dos pais que absorve muita da energia e coragem que carrega. Quando, ao fim de dois anos, voltou à Argentina para descansar, durante uns dias, com a família, questionou a mãe acerca do seu regresso à guerra e da hipótese real de um dia ser atingida. “Por isso te tornaste missionária”, foi a resposta que obteve. Para a família de Guadalupe, não existe qualquer dúvida: “temos que temer é a morte da alma”.

Talvez muitos de nós desconheçamos, mas naquele país onde os ataques são diários “existem jovens a estudar e a tirar licenciaturas”. Talvez seja difícil – ou impossível – imaginar como é que alguém consegue ter a concentração, o discernimento e a audácia de perseguir sonhos e não desistir da vida, e de acreditar que, em plena guerra e com o perigo a espreitar em todos os instantes, vale a pena continuar a lutar por um futuro melhor.

[quote_center]Os miúdos coleccionam balas, ainda quentes, apanhadas do chão[/quote_center]

O dever de consciência obriga a religiosa a contar ao mundo aquilo que muitos tentam esconder. Contudo, o motivo pelo qual é missionária – que é apoiar aqueles que mais precisam – não lhe permite abandonar aquele povo, como tantos têm feito desde que começou a guerra. É por isso, e convicta de que estar viva é sinónimo de poder continuar a ajudar os sobreviventes, que Guadalupe pretende voltar brevemente ao país que a acolheu um dia, não para descansar, mas para cumprir a sua vocação de missionária.

Mária Pombo

Jornalista