As armas convencionais servem apenas para exprimir uma tomada de posição geopolítica. As verdadeiras armas são estratégicas e atuam através dos danos económicos e de condições de existência. Aí reside muita da ilusão ocidental focalizada no que se vê no imediato, particularmente no grafismo de imagens fortes e chocantes. Porém aquilo que move o mundo raramente é imediato e visível.
POR HENRIQUE LOPES

Muito se tem escrito sobre o grau de ilusão inicial de Putin e dos seus seguidores quanto à guerra da Ucrânia, com membros do partido a afirmarem, nas semanas antecedentes ao conflito, de que necessitariam de escassas horas para resolver tudo. Um membro do parlamento chegou a apontar uns vestigiais oito minutos para que as forças armadas russas derrotassem o exército ucraniano.

Com mais de três meses de guerra estamos onde sabemos. O nacionalismo sobrepôs-se à cola que a partilha da língua proporciona, e todos (ou quase), de ambos os lados, se uniram num confronto entre nações.

O lado ocidental parece estar agora a viver o seu momento de ilusão, acreditando que através do fornecimento de armas em catadupa à Ucrânia e de uma nova corrida ao armamento tudo se resolverá rapidamente em favor do país ocupado. Não vai e muito provavelmente o pior está ainda para chegar.

Pela sua natureza de guerra híbrida, o conflito da Ucrânia extravasa largamente o palco do teatro das operações militares. Ocorre não apenas no local onde os exércitos se confrontam, mas também de formas diversas onde as repercussões da guerra proporcionam vantagem a algum dos oponentes. Neste sentido é já uma guerra mundial porque os mecanismos económicos e sociais empregues pelos blocos em contenda têm consequências que chegam a todos os cantos do planeta.

Estão a ser colocadas em prática, por ambos os lados, ações que visam enfraquecer os mecanismos profundos do adversário: os seus sistemas económicos, energéticos e de acesso a outros recursos vitais, destacando-se o dos alimentos e das matérias-primas estratégicas, numa escala que vai obrigar todas as nações do mundo a tomar posição por um dos lados.

Do lado ocidental, como é do conhecimento geral, têm sido decretadas sanções económicas que debilitam, ou, se possível, inviabilizam a economia russa. Do lado russo as contra-sanções incidem na limitação de acesso a exportações de alimentação de produção própria e ucraniana (no seu conjunto as duas nações são responsáveis por 88% das exportações mundiais de soja e óleo de soja, mais de 18% do trigo, 14% do milho, etc.), de fertilizantes, onde a Rússia, na classe de nitratos, assegura habitualmente mais de 50% das exportações mundiais, a ameaça de corte de acesso aos metais, com destaque para o níquel, e indiretamente impedindo muitas das exportações estratégicas da Ucrânia, como o néon, do qual o país é responsável por 70% das exportações mundiais (mencionando apenas a «famosa» Azovstal, quase sempre referida como siderurgia, é estrategicamente muito mais importante para o néon porque produz 30% do total mundial, existindo ainda outra fábrica em Odessa, igualmente sem escoamento para a sua produção, e que é responsável por mais 20%). Este elemento químico é crítico para a produção de material semicondutor.

Significa este jogo de sanções e contra-sanções que a globalização acabou! Assistimos a uma súbita mudança de paradigma económico, no qual os 60 anos anteriores de globalização são substituídos por uma multipolaridade onde se destacam três grandes blocos de interesses: Ocidente Atlântico, Rússia e a sua zona de influência, China e a sua zona de influência, com convergência geoestratégica, mas não política, dos últimos blocos.

A grande questão que tudo complexifica é a de que o fim das interdependências não se pode fazer por decreto. O Ocidente desindustrializou-se a ponto de a China ser hoje a fábrica do mundo, sendo que a energia e muitos dos metais estratégicos fluem maioritariamente do Leste para Ocidente, a alimentação é produzida como commodity (por isso assente em eficiências produtivas), e não como elemento básico de sobrevivência dos povos e, por inerência, das nações.

A Rússia e a China sabem tudo isto ao detalhe e são estas as verdadeiras armas russas. Não será um acaso que, no essencial, os russos estejam a utilizar no teatro de operações material digno de sucata militar. Algum do armamento que tanto empolga os jornalistas a fazerem reportagens em cenários de ferro retorcido não é constituído por mais do que apenas blindados recondicionados na década de 70 e arrumados de vez nos anos 90. Alguns receberam upgrades mais ou menos recentes, mas não deixam de ser viaturas com 40, 50 e mais anos. Nunca vimos nesta guerra tanques T14 e T15 Armata, blindados Terminator ou Kurganets 25, aviões de 5ª geração ou armas inteligentes em quantidade. Diz-se ainda que muitas das munições têm mais de 50 anos. Começou-se até a ver recentemente carros blindados dos anos 50. O custo de utilização desta escolha de armas é o sacrifício de milhares de jovens tripulantes. A pergunta maliciosa é «será que isso importa ao Kremlin?». Creio que não, respondo.

São apenas as armas necessárias para exprimir uma tomada de posição geopolítica. As verdadeiras armas são estratégicas e atuam através dos danos económicos e de condições de existência. Aí reside muita da ilusão ocidental focalizada no que se vê no imediato, particularmente no grafismo de imagens fortes e chocantes. Porém aquilo que move o mundo raramente é imediato e visível.

Receio que possam vir a existir muitas mais vítimas desta guerra fora do palco de operações do que dentro dele. Citando o Plano Alimentar Mundial e algum trabalho que temos desenvolvido no âmbito da Saúde Públicai ou das organizações humanitáriasii, o número de pessoas que depende diretamente (a maioria exclusivamente) da ajuda alimentar internacional era antes da guerra de 15 milhões, e com a guerra e a inerente subida brutal de preços dos cereais pode chegar rapidamente aos 100 milhões. A África na sua quase totalidade e o Médio Oriente são os dois locais que mais poderão ser afetados pela falha nas exportações de cereais da Rússia e da Ucrânia.

O Banco Mundial estimou que o número de novas pessoas remetidas para a pobreza extrema (o critério técnico de pobreza extrema é viver com menos de 1,9 USD por dia) possa chegar em 2022 aos 263 milhões em resultado dos danos económicos ainda presentes da COVID-19 juntados aos da guerra da Ucrânia. É provável que o número de pessoas nessa condição chegue assim aos 860 milhões.

O aumento brutal de preços que os cereais estão a registar, e especialmente os que se podem verificar após setembro, retiram a capacidade de muitos milhões de pessoas de adquirir a sua base alimentariii, conduzindo a um súbito aumento do número dos tecnicamente pobres (viver com menos de 5,5 USD/dia), o qual, e segundo a Oxfam, pode chegar aos 3300 milhões de pessoasiv.

Bem sabemos o quão mau conselheiro é ter o estômago vazio, mas será pior ainda se forem os estômagos dos filhos. Eis a verdadeira fábrica de extremismos, radicalismos e intolerância.

Quantas guerras estão latentes no planeta pelo controlo da água necessária à agricultura? Pelo acesso a terrenos férteis? Do nível tribal ao nacional, são incontáveis os casos que vão sendo mitigados através da distribuição de alimentos, pela existência de campos de refugiados e de outros mecanismos de que as organizações internacionais dispõem para lidar com a miséria económica e a extrema falta de alimentos. Tenhamos, porém, a noção de que o pano que cobre estas pessoas está esticado ao limite, já a rasgar-se em muitas partes do planeta. Não aguentará novos puxões a menos que haja uma enorme política internacional concertada nesse sentido, algo que de todo não se vislumbra num horizonte curto.

As vítimas da fome direta dos conflitos locais e regionais podem vir a ser várias vezes o número que se tem registado na Europa, mesmo considerando que as reais serão certamente muitíssimo superiores aos números oficiais.

Um outro risco enorme que se pode vir a colocar no horizonte temporal é o da existência de vagas de refugiados. Atribui-se a Séneca, nas suas Meditações Estóicas, que «os animais fogem do fogo e os humanos da guerra».

Já recebemos na Europa Ocidental mais de seis milhões de refugiados ucranianos, e pode haver uma segunda vaga se o oeste do país começar a ser fortemente afetado. Tomando a Síria como paradigma demográfico da fuga de habitantes, o número total poderá chegar aos catorze milhões de pessoas.

Na hipótese de se confirmar um forte agravamento de preços internacionais de cereais (de momento, e tomando como exemplo o trigo, já vai em mais 60% do que no ano passado), juntar-se-ão os refugiados da fome e das outras guerras despoletadas pela escassez alimentar e pobreza extrema.

Como reagirá a Europa a essa avalanche humana? Especialmente quando estiverem a disputar empregos, subsídios, casas e tudo o mais que é básico e necessário? A pandemia mostrou bem que há um cansaço social nos comportamentos protetores. Por outras palavras até quando durará a boa vontade com que os ucranianos estão a ser bem recebidos? E os não europeus? Qual a recetividade que terão olhando para o que tem sido a travessia do Mediterrâneo na última década?

Como funcionarão muitas das indústrias sem as das matérias-primas, por vezes nacessárias apenas para pequenas partes da máquina final, mas que sem elas nada se faz? Vivemos recentemente a escassez de processadores de baixa capacidade, cujo valor é despiciente por unidade e foi o bastante para parar a indústria automóvel. Este cenário tem todas as condições para se multiplicar por centenas.

Como ficará a economia perante um crescendo da inflação que destrói poupanças e salários? Perante a subida dos preços dos bens básicos não haverá uma forte agitação social?

Alguém acredita que perante um agravamento que coloque em causa o princípio da sua existência ou haja prolongamento ad aeternum da guerra, a Rússia continuará a utilizar armas obsoletas?

Acordar da ilusão e preparar a realidade

Temos de acordar das ilusões que mais não são do que mentiras piedosas. Nos filmes de cowboys dos anos 50, Hollywood reduzia os confrontos a «bons contra maus», e depois de grande sofrimento os bons ganhavam no final. Mas isso é no cinema.

Temos de nos preparar para o que está para chegar, mesmo que a guerra acabe amanhã e tudo se componha a bom favor no melhor dos cenários. Ainda assim seria necessário lançar gigantescos programas humanitários com o objetivo de salvar a vida dos que vão ficar sem capacidade de pagar o pão. Por exemplo, negociando com os beligerantes formas de fazer chegar cereais às zonas mais carenciadas do planeta, conforme já se faz para os acordos de gás com os países que não têm alternativa. Controlar os preços dos alimentos básicos, impedindo formas especulativas que se desenham na atualidade de jogar com derivados financeiros que apostam na miséria e na fome generalizadas. Esses tipos de produtos financeiros são simplesmente imorais. Temos de aproveitar o momento para educar as populações a comer melhor, entendendo-se isso como aproveitar melhor os alimentos. Nada de novo, basta regressar a práticas alimentares e receitas do passado, como quando no tempo dos nossos avós se aproveitava tudo o que o animal dava e tudo o que a natureza produzia.

Temos de nos preparar para a vivência conjunta na casa comum que é o planeta. Não podemos olhar apenas para o conflito que rasga a Europa. O facto de todos estarmos centrados nele dá espaço aos senhores da guerra de todo o mundo para agirem enquanto não se lhes está a dar atenção. Guerras enormes como as do Tigray, Iémen, Sudão, etc. estão a colocar os pobres de entre os mais pobres em situação limite. Como deverá o mundo ocidental lidar com estes povos de modo a não depositá-los simplesmente nas mãos chinesas, russas e das autocracias do Golfo? Já vimos o preço de o fazer com a entrega do Afeganistão aos sauditas na década de 80-90. Certamente ninguém está interessado em ter a prazo novos 11 de setembro.

Temos de nos preparar no plano produtivo. A Europa em particular apostou tudo nos serviços, deixando alguma indústria de alta tecnologia na Alemanha e na Escandinávia e de média tecnologia na Itália, na República Checa, na Polónia e pouco mais. Importamos o essencial do consumo corrente da Ásia com destaque para a China, mas com um peso crescente do Vietname, Filipinas, Indonésia e Malásia. Nalguns segmentos de mercado a dependência é superior a 95%, e se falamos em produtos de alta tecnologia incorporando terras raras chega-se aos 98%.

É emergente ter um plano de reindustrialização da Europa que assegure pelo menos o mínimo necessário à sobrevivência económica se faltarem os abastecimentos de outros pontos do mundo.

Temos de nos preparar para a resiliência de saúde. A pandemia de COVID-19 não acabou e somente a variante Omicron apresentou cinco novas subvariantes em cinco meses. Felizmente todas sensíveis à vacinação efetuada e apesar de elevadíssima capacidade de contágio, apresentam moderada perigosidade. Quem nos garante que continua assim? Esperemos que sim, mas há em todos os países europeus milhões de atos clínicos em atraso e as doenças apresentam um perfil médio mais avançado do que antes da pandemia porque o facto de não terem sido realizados muitos dos exames diagnósticos não evitou a progressão da doença.

Explicam-se assim os milhares de mortos que tivemos a mais, mesmo descontados os mortos por COVID-19. Chama-se a isso efeito sindémico e está presente em todas as pandemias ou epidemias graves, nesta para já em linha com o esperado. Aliviar a aposta nos programas de recuperação e resiliência de saúde fará facilmente descarrilar muito do que se tem feito.

Com populações enfraquecidas pela fome, pela deslocação territorial e pelo desemprego, os agentes biológicos agressores tendem a espalhar-se muito mais facilmente. O próprio quadro global das mudanças climáticas proporciona o agravamento do estado de saúde geral. Muitos desconhecem que 70% das novas doenças infeciosas surgidas nos últimos 30 anos foram devidas ao desflorestamento e ao inerente contacto com animais antes restritos a ecossistemas fechados.

A saúde mental das populações, depois de mais de dois anos de pandemia com tudo o que ela trouxe e à que se seguiu uma guerra que pode ser cataclísmica, está em condição deplorável. Todos os indicadores o demonstram, desde o aumento (a nível mundial) da procura de urgências psiquiátricas infantis (+30%) ao número de casos de depressão (+74 milhões) e ao de casos de ansiedade clínica (+45 milhões); e de tudo o mais que ainda não está medido.

Temos de nos preparar para o agravamento do cenário militar. De momento a guerra está circunscrita ao teatro de operações ucraniano, mas pode também escalar para outros países num alargamento de guerra convencional. Pode ainda ter outro tipo de desenvolvimentos para guerra NBQ (nuclear, química e biológica) que nenhum de nós querv mas que pode vir a ter um imenso peso sobre nósvi.

Não interessa aqui detalhar a forma das consequências; importa sim ter a noção de que nenhum sistema de saúde europeu tem capacidade relevante para lidar com essa situação, mesmo que limitada a um uso muito restrito e sem esquecer que a rede de resposta europeia tarda em ser criada e treinada. Simplesmente não há resposta capacitada par tal. E frisa-se: não estamos a falar em cenários de uso de armas estratégicas, o chamado cenário MAD (Mutual Assisted Destruction), no qual a capacidade do Ser Humano se extinguir é quase total por o overkillingvii estar neste momento entre 15 e 16. Apenas se admite a hipótese de haver acidentes com essas armas ou com centrais nucleares de produção elétrica, ou o uso tático muito restrito das armas NBQ.

A necessidade imperiosa da diplomacia Vaticana

A história da diplomacia vaticana em matéria de negociação de termos de guerra é mais longa do que a de qualquer país. Já no ano de 452, o Papa Leão I, cognominado «O Grande», reconhecido por Bento XVI como um dos Papas mais importantes da história da Cristandade, negociou com Átila, o invasor que vinha de Leste, a sua retirada da Península Itálica. Três anos mais tarde não consegue fazer o mesmo com Genserico, o Rei dos Vândalos e Alanos, mas pelo menos evitou a destruição da cidade de Roma e a matança dos seus cidadãos como era hábito dos vândalos quando venciam.

Depois desses feitos de Leão I, milhares de guerras foram presenciadas, negociadas, intermediadas ou prevenidas pela diplomacia Vaticana. Nenhuma chancelaria chega remotamente a essa experiência.

Na atual guerra europeia a diplomacia vaticana tem-se distinguido pela inteligência e realismo: nunca deixando de dizer o que deve ser dito, tem mantido a capacidade de diálogo, de aconselhamento, rejeitado uma nova corrida ao armamentoviii dispondo-se inclusive ao risco máximoix.

A diplomacia vaticana sabe bem o que está em risco e não tem embarcado em superficiais estados de alma. Como dizia Armand Jean du Plessis, dito Cardeal Duque de Richelieu (1585-1642) «A vingança é o luxo dos que tudo podem e dos que nada têm».

Todos temos muito a perder, por isso importa encontrar, quanto antes, termos que ambas as partes considerem aceitáveis e por fim a uma situação que pode ser cataclísmica.

Importa dar a palavra à diplomacia Vaticana, pois provavelmente é a única que pode salvar o Mundo.


i ASPHER Statement – 5 + 5 + 5 points for improving food security in the context of the Russia-Ukraine war. A crisis or an opportunity?

ii Oxfam – FIRST CRISIS, THEN CATASTROPHE Unless G20 leaders, the IMF and the World Bank act immediately, crises of inflation, inequality and COVID-19 could push over a quarter of a billion more people into extreme poverty in 2022.

iii FAO Food Price Index | World Food Situation | Food and Agriculture Organization of the United Nations https://www.fao.org/worldfoodsituation/foodpricesindex/en/

v Preparing for what we abhor: an obligation of Public Health professionals. Lopes, H.; Razun, O.; Middleton, J. in The Lancet, May 22.

vi The Role of Europe’s Schools of Public Health in Times of War: ASPHER Statement on the War Against Ukraine. Lisa Wandschneider, Yudit Namer, Nadav Davidovitch, Dorit Nitzan, Robert Otok, Lore Leighton, Carlo Signorelli, John Middleton, Jose M. Martin-Moreno, Laurent Chambaud, Henrique Lopes, Oliver Razum. In Public Health Reviews, Marsh 22.

vii Designa-se por overkilling a capacidade de a Humanidade se destruir por completo, ou seja, as armas nucleares existentes são suficientes para destruir totalmente o planeta 15 a 16 vezes.

ix https://rr.sapo.pt/noticia/religiao/2022/04/03/papa-confirma-estar-disponivel-para-visitar-a-ucrania/278927/

Henrique Lopes

Co-coordenador da Task Force on War para a guerra da Ucrânia da Associação Europeia de Escolas de Saúde Pública. Coordenador da Educação para a saúde do Comité Mundial de Educação ao longo da vida. Perito UNESCO para a Educação para a Saúde. Professor e investigador sénior de Saúde Pública na Universidade Católica Portuguesa.

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