Entre as diversas opções oferecidas pelo programa relativo ao segundo dia do Encontro de Assis, a primeira escolha recaiu na intervenção da Irmã Rafaella Petrini que, à luz da mais recente encíclica do Papa, analisou o papel da mulher na economia e a necessidade de, uma vez por todas, se esbaterem as desigualdades persistentes como forma de alcançar a verdadeira fraternidade humana. Interpelante foi também a mensagem partilhada pelo Nobel da Paz, Muhammad Yunus, a qual se centrou e, como seria expectável, no “seu” sistema financeiro dedicado aos pobres e na sua mais recente proposta – os três zeros – para diminuir as emissões de carbono, as desigualdades de rendimento e o desemprego. A fechar, Jennifer Nedelsky, docente na Universidade de Toronto, convidou a um novo olhar sobre o trabalho que fazemos que, seja qual for, é sempre uma forma de “cuidar dos outros”
POR CARMO VITORINO

A urgência de um novo diálogo que cuide dos mais frágeis

No primeiro momento, a conferência que elegi foi “Uma leitura coletiva da Fratelli Tutti – Pistas de leitura da vila Mulheres pela Economia” dirigida pela Irmã Rafaella Petrini. Depois de resumir os primeiros capítulos da encíclica Fratelli Tutti, escrita pelo Papa Francisco em Outubro deste ano, o desafio proposto foi o de olhar à nossa volta e percebermos onde estamos. Vivemos num mundo de desacordos, de conflitos, de falta de solidariedade, de visão a curto prazo e de profundo isolamento que, actualmente e devido à pandemia, é sentido ainda com maior acentuação.

Temos também à solta o vírus do individualismo, onde reina o EU. Há muitos sinais de que vivemos numa sociedade doente, mas o Papa Francisco continua a eleger a esperança, desafiando-nos a “olharmos para além da nossa própria conveniência”. Somos pessoas que cuidam ou simplesmente ignoram? Como olhamos para os outros? Como simples instrumentos, os quais nos são indiferentes?

Nesta encíclica, e como sublinhou a oradora, somos confrontados, entre vários temas, com a importância de cuidar da fragilidade, concretamente através da fraternidade humana. E as mulheres, pela sua fisionomia, sendo mais frágeis e com uma sensibilidade superior, possuem aptidões inatas, mas também muito desenvolvidas, fruto do poder da maternidade, o qual potencia capacidades distintas, de que é exemplo a facilidade em criar laços.

Como recordou a Irmã Rafaella Petrini, o Papa afirma que precisamos de um novo diálogo, que cuide dos mais frágeis e que promova a paz, sendo que as mulheres, pelas suas características intrínsecas, o podem facilitar. Relembra-nos também que, para alcançar a paz precisamos do diálogo “como meio de comunicação eficiente” – ideia significativamente sublinhada – tendo profunda consciência de que “as palavras não são inocentes”. Será que temos isto presente sempre que expressamos a nossa opinião?

Por último, a oradora referiu-se a Santa Clara e São Francisco, tomando-os como exemplo de fraternidade entre Homem e Mulher, horizontalmente através um do outro e verticalmente através de Deus.

Em suma, ficou mais uma vez claro que precisamos de um mundo onde homens e mulheres tenham os mesmos direitos, a mesma dignidade e a mesma justiça para ser possível alcançar a desejável fraternidade humana.

O final da sessão ficou ainda marcado por uma proposta prática: a criação de um Certificado de Igualdade para Empresas. Este certificado pretende não só avaliar critérios como a igualdade de salários e de oportunidades entre homens e mulheres, mas também valorizar o poder da maternidade no mundo empresarial – que as empresas considerem o princípio da criação de vida como um bem mais valioso, que cuidem dele como seu “ativo”.

Os três zeros do “banqueiro dos pobres”

No segundo dia do evento “The Economy of Francesco”, fomos presenteados com a presença do economista e banqueiro [dos pobres] Muhammad Yunus, vencedor em 2006 do prémio Nobel da Paz. O “pai” do microcrédito e grande impulsionador do empreendedorismo social começou por alertar para o sistema financeiro vigente na nossa sociedade, o qual funciona como veículo por excelência para tornar os ricos ainda mais ricos, e cuja prioridade é, na maioria dos casos, a maximização do lucro. Tomando como exemplo o combate à pandemia e as empresas que lutam pelo desenvolvimento da vacina contra a Covid-19, verificamos que esta corrida tem como principal finalidade a obtenção de lucro máximo e não tanto a preocupação pela saúde mundial, como seria expectável ou, pelo menos, moralmente desejável.

“Não queremos voltar ao tempo antes da pandemia; temos de parar para pensar e construir um mundo melhor do que aquele em que vivemos”, sublinhou o orador, acrescentando que “os sonhos são feitos de impossíveis” para depois serem possíveis. “As finanças são um meio, mas o que temos de definir primeiro é o fim, o propósito”, afirmou também. A seu ver, o fim tem de ser algo desejável e é necessário redefinir o sistema financeiro para atingir esse objectivo. Adicionalmente, todos nós devemos, e de forma contínua, procurar o nosso fim (o nosso propósito), o mesmo servindo para as empresas, no que respeita aos seus negócios e parcerias. “Sem saber onde queremos chegar, não sabemos qual o caminho que devemos percorrer”, assegurou ainda.

Enquanto “pai” do microcrédito, Yunus explicou que este sistema, “imaginado” por si, foi criado como um modelo inverso ao do sistema bancário. O microcrédito caracteriza-se por um empréstimo de pequeno valor destinado essencialmente a micro empreendedores que não têm acesso às formas convencionais de crédito. Facilmente notamos que este sistema foi desenhado com a finalidade de contribuir para a construção do bem comum, pois os benefícios são para todos, não existindo interesse pessoal ou intenção de obter lucro a título individual. Ou seja, o intuito é a obtenção do lucro máximo e, quando possível, à escala global. E é também o inverso do sistema bancário porque, como referiu Yunus, “eles vão aos ricos, nós vamos aos pobres; eles vão aos homens, nós vamos às mulheres; eles vão as cidades, nós vamos as aldeias”.

O Nobel da Paz deixou também uma nota importante que convida à reflexão: “onde é que os bancos investem o nosso dinheiro? Temos de saber!”. Ou seja, quando colocamos o nosso dinheiro a cargo de um banco, não questionamos onde o mesmo será reinvestido. E talvez fosse uma boa ideia começar por colocar essa questão às nossas entidades bancárias, exigindo uma maior transparência e pressionando-as no sentido de promoverem investimentos com impacto social.

Muhammad Yunus terminou a sua intervenção alertando para a disparidade crescente na distribuição de rendimentos. “São muitas as vezes em que ouvimos nos meios de comunicação social que estamos perante um período de crescimento global e de prosperidade”, diz. “Mas prosperidade para quem, sabendo-se que 99% da riqueza do planeta está concentrada em apenas 1% da população mundial? Qual é o fim e onde queremos chegar?”.

A resposta poderá estar no conceito “The three zeros”, desenvolvido no livro da sua autoria, e que assenta na premissa de se poder alcançar “zero emissões de carbono, zero disparidades na distribuição de riqueza e zero desemprego”. E que consigamos trabalhar todos em conjunto, homens e mulheres, ricos e pobres, crentes e não crentes, para o alcance deste fim.

Olhar para o nosso trabalho como forma de cuidar dos outros

A última conferência do dia contou com a presença de Jennifer Nedelsky, professora de Teoria Política na Universidade de Toronto e cuja intervenção se centrou na forma como devemos olhar para o nosso trabalho como uma forma de cuidar dos outros e também da nossa Casa Comum.

Com a experiência da Covid-19, este processo tornou-se mais claro, uma vez que passámos a dar mais importância a quem cuida do outro. “Ora, para eu poder trabalhar alguém terá de cuidar de quem mais precisa, verdade?”, questionou a oradora. Adicionalmente, sublinhou, “estamos ainda perante um tipo de regime laboral no qual os empregadores, nas organizações que lideram, dão primazia aos que atribuem, quase única e exclusivamente, a prioridade ao seu trabalho, assumindo que alguém ficará a cuidar dos seus”. Nedelsky reforçou ainda que, enquanto houver pessoas que aceitem esta realidade, o sistema não mudará.

Como nota final, a oradora despertou a audiência para uma comparação deste “cuidar” entre países ricos e países pobres – sendo que a diferença é relativa porque se cuida da mesma forma, o conceito de trabalho é que pode ser diferente. Nedelsky acredita que, ambos (ricos e pobres) têm um longo caminho de transformação a percorrer, e que devem começar por alterar a percepção desta responsabilidade relativa ao cuidar, definindo novas normas de trabalho.

Momentos finais

Terminámos este dia com emoções fortes, através de uma iniciativa proposta a cada país, intitulada “The Economy of Francesco Marathon – Around the clock, around the world”. Portugal foi o país eleito para dar início a esta “maratona”, tendo apresentado um vídeo segmentado em quatro diferentes partes:

-VER: com o desenvolvimento de uma ilustração da Ana Miranda, produzida exclusivamente para a rede Economia de Francisco Portugal

-JULGAR: onde assistimos a uma conversa protagonizada pela Marta Bicho e pelo Francisco Rocha, membros da equipa Economia de Francisco Portugal

– AGIR: com o testemunho do Manuel Tovar, fundador da empresa The Loop e responsável pela ACEGE Next em Coimbra

– CELEBRAR: onde pudemos relembrar, celebrando dos alguns momentos já vividos e que fizeram parte do caminho percorrido até então, em torno da Economia de Francisco em Portugal.

Poderá assistir ao vídeo completo aqui.

Chegou a hora de agradecer. Agradeço o que vivi, o que experienciei durante estes dias, os novos projectos exemplares que conheci, as pessoas de todo no mundo que tornaram este evento possível, o empenho de toda a equipa Economia de Francisco em Portugal e a enorme inspiração que recebi e que me conferiu um novo ânimo para continuar neste caminho de transformação, por uma economia mais humana, mais justa e inclusiva e que cuide da nossa Casa Comum.

E este foi apenas o início.