A integridade e a relação que se estabelece com a sociedade são os aspectos principais para que os consumidores confiem nas empresas. A propósito dos desafios de uma gestão responsável e sustentável, em Davos vão-se discutir os ‘authentic values’ que os líderes devem conseguir implementar no seu dia-a-dia complexo, incerto e caótico
POR SOFIA SANTOS

De acordo com o Edelman Trust Barometer [i] divulgado em 2016, existiu uma pequena melhoria no nível de confiança que a população mundial atribui às empresas, tendo 79% dos inquiridos a nível mundial afirmado que os valores pessoais dos CEO constituem um importante atributo para que eles sejam merecedores da sua confiança. Cerca de 78% afirmam acreditar na informação ouvida pelos amigos e família, apenas 49% afirmam acreditar na informação proferida por um CEO e somente 37% confiam na informação provinda de oficiais eleitos. As empresas familiares são aquelas que são mais confiáveis pela população, quando comparadas com as empresas cotadas e públicas.

As grandes conclusões do estudo indicam que os principais atributos que contribuem para as pessoas confiarem nas empresas são os seguintes:

[quote_center]Os valores pessoais dos CEO constituem um importante atributo para que sejam merecedores de confiança[/quote_center]

1º Integridade: ter elevados comportamentos éticos; implementar acções responsáveis para resolver um problema; comportar-se de forma aberta e transparente;

2º Interacção: tratar bem os trabalhadores; ouvir as necessidades dos clientes e dar feedback; colocar o cliente acima do lucro; comunicar frequentemente e de forma honesta acerca do estado da empresa;

3º Produtos: oferecer produtos e serviços de elevada qualidade; focar na inovação e na introdução de novos produtos e ideias;

4º Propósito: dedicar-se à protecção e melhoria ambiental; garantir que a empresa cria programas que têm um impacto positivo na comunidade onde opera; que a empresa responde às necessidades da sociedade na sua gestão diária; que a empresa realiza parcerias com ONG, governo e outras organizações para irem ao encontro das necessidades da sociedade;

5º Operações: atrair e reter uma equipa de gestão de topo admirada e reconhecida; fazer parte dos rankings de CEO, como “O melhor CEO do ano”; gerir a empresa de forma a originar retornos financeiros consistentes.

Ou seja, os números desta sondagem confirmam o sentimento existente em todos nós: para que os consumidores confiem nas empresas, a integridade e a relação que se estabelece com a sociedade são os aspectos principais.

O questionário também perguntou à população quais são as características que tornam um CEO confiável. As duas características mais identificadas por região são: América do Norte – honestidade e ética; América Latina – ética e honestidade; Europa – honestidade e competência; Ásia e Pacífico – honestidade e ser visionário.

Com este diagnóstico, não é de estranhar que o próximo encontro de Davos, em Janeiro de 2017, se intitule “Responsive and Responsible Leadership”. É interessante constatar que em Davos se vão discutir os ‘authentic values’ que os líderes devem conseguir implementar no seu dia-a-dia complexo, incerto e caótico. De acordo com o World Economic Forum (WEF) os líderes vão defrontar cinco desafios prioritários em 2017:

Lidar com a 4ª Revolução Industrial: inteligência artificial, robótica, a internet das coisas, self-driving vehicles, impressões 3D, nanotecnologia, biotecnologia e computação quântica;

Construir um modelo de governo global multistakeholder, dinâmico e inclusivo, onde se consigam desenvolver projectos com base na partilha de valores e não apenas na partilha de interesses;

Restaurar o crescimento económico global. Com o crescimento populacional mundial cada vez mais próximo, os temas da inclusão social e desemprego jovem serão temas críticos na política nacional;

[quote_center]O sentimento, quando usado de forma populista, pode originar crenças extremas[/quote_center]

Reformar o capitalismo de mercado, e reparar a ligação entre os negócios e a sociedade. Se por um lado o capitalismo permitiu uma melhoria generalizada da qualidade de vida, por outro a sua abordagem centrada no curto prazo, no aumento da desigualdade de rendimentos e dos favoritismos, implica a necessidade de se criarem estruturas que garantam um equilíbrio entre as actividades económicas e o bem-estar social;

Fazer face ao processo de individuação que estamos a sentir de forma generalizada no mundo. O medo da população face à incerteza do futuro faz com que exista uma busca colectiva por valores partilhados mas distintos, que possam proporcionar um sentimento de propósito e de continuidade. O sentimento é hoje um aspecto essencial, e que, quando usado de forma populista, pode originar crenças extremas. Os líderes responsáveis devem reconhecer a legitimidade do receio das populações, e devem proporcionar planos construtivos e inspiradores para a construção de um futuro melhor.

O WEF afirma também que “não nos faltam os meios para fazer do mundo um local melhor. Mas para tal, temos de ultrapassar os interesses egoístas do passado e atender agora aos interesses da nossa sociedade global”. Palavras com as quais eu concordo completamente.

Se conseguirmos trabalhar estes cinco desafios, iremos compreender com naturalidade e urgência a importância do valor das pessoas, a importância de pensar o futuro e a importância de se implementar uma gestão humanista, onde a interacção com a sociedade, a adaptação às alterações climáticas e a inovação se apresentam como soluções integradoras capazes de gerar o sentimento de pertença tão procurado por todos nós.

É por isso que os Objectivos para o Desenvolvimento Sustentável passarão a ser gradualmente o referencial de alinhamento das práticas empresariais e da política pública. O que implica uma mudança drástica na forma como se conceptualizou o papel da empresa e dos negócios na sociedade – Uma mudança já em andamento. Haja vontade e coragem de enfrentar o futuro!

[i] Sondagem realizada entre Outubro e Novembro de 2015 a 33,000 inquiridos em 25 países.