No final do ano passado, e após alguns meses de entusiasmantes conversas, o IES – Social Business School (IES-SBS) assinou, através do Laboratório de Negócios Sociais, uma parceria com o B Lab EUA. A partir desse momento, tornámo-nos os parceiros globais do movimento das B Corps, para Portugal e África Lusófona, num conjunto de seis países onde, para além de Portugal, se encontram Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola e Guiné-Bissau
POR LÉNIA MESTRINHO

Paralelamente a parceiros globais como o Sistema B (América Latina) ou o B Lab Austrália e Nova Zelândia, posicionámo-nos com a ambição de inspirar a lusofonia para a construção de soluções sustentáveis e robustas, com impacto transversal em toda a sociedade, através do poder das suas empresas e dos seus líderes. Enquanto IES-SBS, não deixámos de existir para os empreendedores sociais, mas alargámos a nossa actuação para as empresas, permitindo e motivando mais agentes económicos a fazer parte de uma solução que é tanto maior quanto mais dela fizerem parte. Seguimos o caminho que temos vindo a anunciar – o da convergência –, para que todos os sectores se sintam cada vez mais imiscuídos e comprometidos no progresso das pessoas, das comunidades e dos territórios.

[pull_quote_left]A visão do B Lab é a de que, um dia, todas as empresas compitam para serem as melhores para o mundo e, como resultado, a sociedade desfrute de uma prosperidade partilhada e durável[/pull_quote_left]

Foi esta ideia que começámos a explorar, de uma forma prática, com o B Lab – a organização sem fins lucrativos norte-americana, que serve este movimento global de pessoas que utilizam o poder dos seus negócios para a resolução de problemas sociais e ambientais. A visão desta organização é a de que, um dia, todas as empresas compitam para serem as melhores para o mundo e, como resultado, a sociedade desfrute de uma prosperidade partilhada e durável.

O B Lab conduz esta mudança sistémica através de várias iniciativas interligadas, nomeadamente: 1) construindo uma comunidade de B Corps, 2) promovendo o desenvolvimento de estruturas legais para as empresas, alinhadas com a sua missão, tornando mais eficaz, por exemplo, o investimento de impacto (legislação já aprovada em 30 estados nos EUA) e, 3) promovendo campanhas “Measuring What Matters”, que permitem às empresas medir, comparar e melhorar o seu impacto, através da utilização de várias ferramentas gratuitas (a ferramenta de medição de impacto B-Impact Assessment é utilizada por cerca de 45.000 empresas e mais de 100 investidores e outras organizações utilizam o B Analytics, de forma a medirem, reportarem e compararem o impacto das suas empresas ou das empresas dos portefólios onde investem).

Em Portugal, começámos por desenvolver a comunidade de B Corps – empresas líderes de um movimento global que utiliza o poder do negócio para alavancar a resolução de problemas da sociedade. Estas empresas cumprem com uma exigente avaliação multidimensional do negócio, trazendo, além de perspectiva económica, as dimensões de impacto no meio ambiente, relações com colaboradores e comunidades.

[pull_quote_left]Acreditamos que o movimento das B Corps cria uma economia mais inclusiva, que liga o capital às necessidades das pessoas e que funciona para todos no longo prazo, traduzindo-se em menores desigualdades (…)[/pull_quote_left]

Uma empresa B não ambiciona apenas ser a melhor DO mundo, mas a melhor PARA o mundo! Sabemos que os problemas mais desafiantes da sociedade não podem apenas ser combatidos pelos Governos ou pelas organizações sem fins lucrativos. As empresas representam o maior agente de mercado neste sentido. Contudo, para que atinjam o seu potencial de impacto, são necessárias alterações sistémicas na forma de se conduzir/gerir os negócios. É fundamental que existam standards credíveis e protecção legal, para que as empresas possam alcançar o seu propósito e preservar a sua missão à medida que crescem, através de capital externo ou de mudanças de liderança. As B Corps colmatam estes desafios na medida em que representam uma voz colectiva de um número crescente de empresas, para impulsionar a mudança e a competição sustentável. Acreditamos que o movimento das B Corp cria uma economia mais inclusiva, que liga o capital às necessidades das pessoas e que funciona para todos no longo prazo, traduzindo-se em menores desigualdades, na redução da pobreza, num ambiente mais saudável, em comunidades mais fortes e empregos de alta qualidade, dignidade e propósito.

[pull_quote_left]O processo de adesão ao movimento reúne duas componentes distintas: uma avaliação de performance transversal a toda a organização e uma alteração na documentação legal da empresa.[/pull_quote_left]

Atualmente existem cerca de 1400 B Corps/empresas B, em 42 países e 130 indústrias. Desta comunidade fazem parte empresas multinacionais como a Ben&Jerry’s, empresas cotadas em bolsa como a brasileira Natura, startups tecnológicas como a Kickstarter e a HootSuite, ícones da sustentabilidade como a Patagonia ou o Triodos Bank, entre muitas outras.

Em Portugal já existem cinco empresas no movimento – a ColorADD, empresa que desenvolveu um sistema de interpretação de cores para pessoas com daltonismo, e a Biorumo, consultora em ambiente e sustentabilidade, foram as duas primeiras empresas portuguesas a aderirem ao movimento. Para além da gestão dos seus negócios partilhar desta visão, no caso da Biorumo, este era já um movimento conhecido da empresa, pelo trabalho que desenvolve na América Latina, mais concretamente no Brasil, e pela força do movimento neste território. De seguida, a Sector 3 – Social Brokers, juntou-se às empresas da turma fundadora. Como diz Pedro Morais, fundador desta empresa, “a adesão ao movimento foi apenas o primeiro passo, a partir daqui há que ser mais e mais exigente, de forma a desenvolvermos uma estrutura que maximize o nosso impacto”. A Logframe, empresa de consultoria, juntou-se de seguida, com uma missão paralela à do movimento, a de aumentar o impacto social das organizações com as quais trabalha. A Abreu Advogados torna-se a 5ª B Corp portuguesa, sinalizando o mercado quanto à tendência crescente do movimento, na atracção de empresas com modelos de negócios (originalmente) tradicionais e de base familiar.

[pull_quote_left]Fazendo parte desta comunidade de likeminded businesspeople as empresas partilham melhores práticas, colaboram no desenvolvimento de produtos e serviços, em campanhas de marketing e utilizam uma voz unívoca na redefinição do conceito de sucesso nos negócios[/pull_quote_left]

Mas como pode uma empresa ser certificada e aderir a esta comunidade? O processo de adesão ao movimento reúne duas componentes distintas: uma avaliação de performance transversal a toda a organização e uma alteração na documentação legal da empresa. No âmbito da primeira, as empresas registam-se numa plataforma online, de forma a preencherem o B-Impact Assessment (BIA) – questionário de avaliação de performance que se encontra dividido em 5 áreas: Modelo de Governo, Colaboradores, Comunidade, Ambiente e Modelos de Negócio de Impacto.

Esta plataforma molda-se de acordo com a dimensão da empresa, a sua indústria, localização geográfica, entre outros dados, o que permite que diferentes empresas sejam avaliadas com algumas especificidades, de acordo com as suas características. A plataforma funciona como uma ferramenta de consultoria do it yourself pois permite, para além da medição da performance, a consulta de boas práticas empresarias a vários níveis, de benchmarks e rankings, possibilitando ainda que a empresa conheça quais as suas áreas de melhoria, qual o grau de dificuldade de implementação de novas práticas e qual o impacto que as mesmas poderão vir a ter na empresa.

A empresa é pontuada no final do questionário, tendo de obter, pelo menos, 80/200 pontos, para poder submeter a avaliação e ser elegível para a fase seguinte. Atingido este impacto, são realizadas várias entrevistas e é partilhada informação com a equipa do B Lab EUA que realiza a certificação de empresas, em qualquer parte do mundo, de forma a garantir a pontuação obtida. Estabilizada a avaliação, as empresas terão ainda de formalizar o seu propósito, alterando a sua documentação legal, no sentido de tornar claro e transparente que a empresa, nas suas decisões e operações, terá em conta não apenas os seus accionistas, mas também todos os seus outros stakeholders. Esta alteração assegura também uma maior sobrevivência da missão da empresa, aquando de uma nova gestão, de novos investidores ou mesmo de nova posse. O último passo consiste em assinar um Termo de Compromisso, bem como a Declaração de Interdependência das B Corp, como forma de incorporar os valores e aspirações da comunidade. As B Corps pagam uma taxa anual baseada nas suas receitas e são re-certificadas a cada dois anos.

Não sendo o âmago do processo, algumas empresas têm também em conta, na sua adesão ao movimento, o impacto que a entrada na comunidade trará ao negócio. Neste sentido, são várias as vantagens ao alcance das B Corp, aquando na comunidade. Um dos aspectos mais interessantes é o facto de uma empresa passar a integrar uma rede de empresas que partilha os seus valores, a sua forma de actuar, liderar e gerir o negócio, conectando-se de forma instantânea com os seus pares estabelecendo, muitas vezes, relações robustas na sua cadeia de valor.

Fazendo parte desta comunidade de likeminded businesspeople as empresas partilham melhores práticas, colaboram no desenvolvimento de produtos e serviços, em campanhas de marketing e utilizam uma voz unívoca na redefinição do conceito de sucesso nos negócios. Outra das vantagens prende-se com a atracção de talento. Os millennials já representam cerca de 50% da força de trabalho global e são vários os estudos que reflectem as suas novas prioridades e ambições – os millennials não querem apenas uma boa compensação mensal, mas essencialmente trabalhar em empresas inovadoras, com uma missão e propósito maiores.

Adicionalmente, a certificação como B Corp coloca as empresas numa posição diferenciadora no mercado actual, extremamente competitivo, bem como as ajuda a contar a sua própria história. A importância do propósito, aquando de uma compra, é também um indicador que tem vindo a crescer a nível global – uma B Corp transmite um poderoso sinal ao mercado de que a empresa efectivamente dá corpo às suas palavras e valores e ajuda a diminuir o gap de confiança. As B Corp alavancam ainda a sua certificação através dos media, nomeadamente em campanhas como as da revista Forbes – “Best for the World” -, que salienta as empresas com maior impacto na sociedade.

Desafie-se a criar mais valor para a sociedade e meça o impacto da sua empresa em http://b-lab.force.com/bcorp/AssessmentRegistration. Junte-se a esta comunidade de empresas que ousa redefinir o conceito de sucesso nos negócios e criar um maior impacto em todos os seus stakeholders.

Mais informações: [email protected]

Lénia Mestrinho

Gestora do Laboratório de Negócios Sociais do IES – Social Business School