Há várias décadas que se estuda a relação da privação do sono com a produtividade e a performance cognitiva e os resultados, se devidamente analisados, deveriam provocar insónia aos executivos de topo que ainda acreditam que, quanto mais horas trabalharem, mais produtivos serão os seus colaboradores. Uma viagem à fisiologia do sono e a alguns estudos que comprovam a sua importância não só para a produtividade corporativa mas, e sobretudo, para a saúde dos trabalhadores
POR HELENA OLIVEIRA

No universo das culturas corporativas, são muitas as que continuam a confundir a capacidade de se trabalhar longas horas seguidas com vitalidade e elevada performance. É comum assistir-se a uma espécie de concursos entre os mais ambiciosos dos gestores que, a todo o custo, pretendem ganhar o Óscar de quem mais horas trabalha, nem que seja somente para impressionar as chefias. Mas a verdade é que são também as empresas, especialmente, mas não só, nas áreas mais ligadas à consultoria, ao mundo financeiro ou às tecnologias, que estimulam – e premeiam – as longas jornadas de trabalho. Nada mais errado. Há mais de duas décadas que se estuda a relação da privação do sono com a produtividade e a performance cognitiva e os resultados, se bem analisados, deveriam provocar insónia aos executivos de topo que ainda acreditam que quanto mais horas trabalharem, mais produtivos serão os seus colaboradores.

Por outro lado, a somar aos exigentes horários de trabalho, as tecnologias cada vez mais omnipresentes na vida dos humanos, estão igualmente a contribuir para que se durma cada vez menos e pior, e apesar de os estudos sobre o sono não serem uma área de todo nova, os avanços na biologia e na neurociência dos últimos anos têm vindo a demonstrar o verdadeiro pesadelo em que a questão se está, crescentemente, a tornar. Não só para a produtividade das empresas, mas e mais importante que tudo o resto, para a nossa própria saúde.

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A privação do sono afecta 45% da população mundial
Fonte: World Association of Sleep Medicine
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De acordo com um estudo realizado em 2011, intitulado “Insomnia and the US Workforce”, publicado na revista Sleep, os custos associados à privação e outras desordens do sono representam 11,3 dias perdidos de trabalho por ano, 2,280 dólares anuais por empregado, ou a módica quantia de 63,2 mil milhões de dólares para o total da força laboral norte-americana.

Apesar de ainda incipiente, a consciencialização por parte de algumas empresas no que respeita à forte relação entre o sono dos seus empregados e a sua produtividade começa a dar alguns sinais de interesse. Como afirma Stewart D. Friedman, professor de gestão e director do programa Wharton’s Work/Life Integration Project, ele próprio um acérrimo defensor e praticante de sestas, “estamos a começar a dar um excelente passo em frente, com base no movimento de potencial humano que teve início nos anos de 1960 e 1970, que visa apostar no bem-estar geral dos trabalhadores”. Para o professor da Wharton School of Management, e no artigo Wake-up Call: Why Everyone Needs More Sleep, tal deve-se, em grande parte, “à economia dos cuidados de saúde e às evidências científicas que provam que a produtividade, em conjunto com a atracção e retenção de talentos, está dependente de se cuidar da pessoa ‘enquanto um todo’ para que tal seja positivo para as empresas, para as famílias e para as comunidades”. Em contrapartida, e sendo esta uma questão cultural – a ideia de que ao se sacrificar as horas do sono em prol do trabalho é uma virtude – muito há ainda a fazer para que a questão do sono seja considerada como uma prioridade corporativa e também de saúde pública.

Assim sendo, talvez ajude levantar um pouco o véu da denominada “biologia do sono” pela mão de um dos mais reconhecidos especialistas da área, Charles Czeisler, professor de Medicina do Sono na Harvard Medical School, e que defende que as culturas empresariais que continuam a encorajar as longas jornadas de trabalho estão, simplesmente, a praticar a “antítese da boa gestão”.

Fisiologia do sono e performance cognitiva

12032015_DeficeDoSonoOassassinoDaPerformanceNuma longa entrevista publicada pela revista de Harvard, de acordo com Czeisler, existem quatro factores por excelência relacionados com o sono que afectam a nossa performance cognitiva. E o tipo de trabalho, em conjunto com as viagens que os executivos de topo são obrigados a fazer, representa desafios sérios para a sua capacidade de funcionar adequadamente, de acordo com estes mesmos factores.

  1. O número de horas consecutivas em que se está acordado

O primeiro factor está relacionado com o mecanismo homeostático que conduz ao sono durante a noite, determinado em larga escala pelo número de horas consecutivas durante as quais nos mantemos acordados durante o dia. A maioria das pessoas está convencida que controla a altura em que vai adormecer e aquela em que tem de acordar, mas a verdade é que quando nos sentimos sonolentos, é o cérebro que, involuntariamente, assume o controlo. Quando a pressão homeostática para dormir fica “elevada o suficiente”, alguns milhares de neurónios existentes no cérebro “ligam” a ignição do sono, como descobriu Charles Czeisler. Assim que tal acontece, o sono apodera-se do cérebro como se de um piloto ao volante de um automóvel se tratasse. E se, por acaso, estivermos mesmo atrás de um volante nessa altura, bastam três ou quatro segundos para sairmos da estrada.

  1. Quantidade de sono total ao longo de vários dias

O segundo grande factor que determina a nossa capacidade para manter a atenção e uma performance cognitiva elevada dependa da quantidade de sono de que gozamos ao longo de vários dias seguidos. Se se dormir, por exemplo, cerca de oito horas por noite, os níveis de alerta mantêm-se estáveis ao longo do dia; todavia, no caso de uma qualquer desordem do sono ou de algo que diminua esse período de tempo de sono ao longo de vários dias consecutivos, começa-se a “construir” um défice de sono que contribuirá para o mau funcionamento do cérebro. Dando o exemplo dos executivos que “conseguem queimar a vela dos dois lados”, Czeisler assegura que nos casos em que, por exemplo, se dorme apenas quatro horas por noite ao longo de cinco dias seguidos, os níveis de danos cognitivos que se desenvolvem são muito similares aos que acontecem quando se fica mais de 24 horas sem dormir. Num espaço de 10 dias, esses níveis de perturbação equivalem a 48 horas sem dormir. Ou seja, o tempo de reacção é muito mais lento, a capacidade de julgamento sofre sérias obstruções, sendo que a capacidade de se solucionar problemas é gravemente afectada. Czeisler acrescenta ainda que nesse estado de privação do sono, beber uma única cerveja pode ter um impacto equivalente, na nossa capacidade de manter a performance, ao de beber um pack de seis quando estamos “normalmente” descansados.

  1. A importância dos ciclos circadianos

A fase circadiana – a altura do dia em que o corpo humano diz que é “meia-noite” ou “amanhecer” – consiste num “dispositivo de temporização” neurológico, o qual trabalho em conjunto, mas paradoxalmente, em oposição ao estímulo homeostático para se dormir. Este “pacemaker circadiano” envia os sinais mais fortes para se dormir poucos minutos antes da hora a que normalmente acordamos e, faz o mesmo – em termos de envio de estímulos fortes para ficarmos acordados – entre uma a três horas antes de irmos para a cama. Czeisler admite que este é ainda um mistério não resolvido pela biologia, apesar de se especular que o mesmo está relacionado com o facto de, ao contrário dos outros animais, o ser humano não estar habituado às pequenas sestas ou sonecas que permitem manter este dispositivo mais equilibrado, tal como podemos ver nos cães ou nos gatos. Por seu turno, o “pacemaker circadiano” pode ajudar-nos a concentrar num determinado projecto, permitindo que nos mantenhamos acordados ao longo de um dia sem intervalos e, em simultâneo, ajuda igualmente a consolidar o sono numa noite sem interrupções. A seguir ao almoço ou a meio da tarde, quando já temos uma “reserva suficiente” do mecanismo homeostático que estimula o sono, o sistema circadiano ainda não foi activado para nos prestar essa ajuda. E é exactamente nesse período que as pessoas mais tentadas são para fazer uma sesta ou, em contrapartida, a engolir doses elevadas de cafeína, a qual bloqueia, temporariamente, os receptores do cérebro que regulam o estímulo para se dormir. Depois disso, o pacemaker circadiano começa a enviar impulsos cada vez mais fortes para o “estado de alerta” à medida que o dia vai progredindo. Depois da nossa hora habitual para acordar, os níveis de melatonina – hormona produzida pela glândula pineal que participa na regulação dos ritmos biológicos – começam a declinar. Normalmente, estes dois processos mutuamente opostos funcionam bem em conjunto, contribuindo para manter o estado de alerta durante o dia e promovendo uma noite sólida de sono.

  1. A inércia do sono

O quarto factor que, de acordo com Czeisler, afecta a performance, está relacionado com a denominada “inércia do sono”, aquele estado “cambaleante” ou “grogue” que a maioria das pessoas sente na altura de acordar. Tal como um motor de um carro, o cérebro precisa de “aquecer” primeiro antes de arrancar. A parte do cérebro responsável pela consolidação da memória não funciona adequadamente durante os primeiros cinco a 20 minutos depois de se acordar e só atinge o pico da sua eficiência algumas horas depois. Ou seja, existe um período de transição entre o momento em que se acorda e aquele em que o cérebro se torna completamente funcional. E é por isso que nunca se deve tomar qualquer decisão importante nos minutos que se seguem ao toque do despertador.

Globalização, horários flexíveis e dispositivos móveis sempre ligados

12032015_DeficeDoSonoOassassinoDaPerformance2Para muitos de nós, as “cenas da vida real” acima descritas, estão-nos a roubar, inexoravelmente, muitas e preciosas horas de sono. Como afirma a consultora corporativa do sono Nancy H. Rothstein, citada no mesmo artigo deWharton School of Management, esta falta de horas de sono está a transformar-se em nada menos do que um verdadeiro problema de saúde pública. “Estamos a viver numa época em que parece que toda a gente funciona como se trabalhasse por turnos [os efeitos negativos deste tipo de trabalho no corpo humano há muito que são estudados e comprovados], na medida em que fazemos qualquer coisa a qualquer hora, o que contraria a necessidade de consistência no nosso corpo”, afirma a consultora.

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1 em cada 4 trabalhadores norte-americanos sofre de insónia, o que representa um custo anual na ordem dos 63 mil milhões de dólares
Fonte: Estudo publicado na Harvard Medical School
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Recorrendo a dados publicados em 2011 pela National Sleep Foundation, Rothstein afirma que cerca de dois terços dos americanos não dormem o suficiente e que 15% dos inquiridos, com idades compreendidas entre os 19 e os 64 anos, afirmam dormir menos de seis horas por noite. De acordo com os Centers for Disease Control and Prevention norte-americanos, a percentagem duplica para 30%, o que se traduz em mais de 40 milhões de norte-americanos que não cumprem o que é considerado ideal em termos de horas de sono: apesar de variar de pessoa para pessoa e de existirem muitos dados contraditórios no que a esta matéria diz respeito, em geral considera-se um período entre 7 a 9 horas de sono de qualidade por noite como o mais “adequado”. Os dados mais recentes relativos a Portugal são oferecidos por um estudo realizado, em 2014, pela Oficina de Psicologia e pela colchaonet.com, o qual afirma que, do universo de 4000 pessoas inquiridas, 54% afirmam acordar cansadas, com 49% a declararem, também, que as suas horas de sono não são contínuas. Pese embora as dificuldades comparativas face aos Estados Unidos, a verdade é que também em Portugal, cerca de 30% da população inquirida confessa que já não se recorda da última vez que dormiu sete ou oito horas seguidas.

O problema é que uma noite com má qualidade de sono não significa apenas chegar ao trabalho com umas enormes olheiras e com humor de cão, mas sim que essa “disposição” tende a marcar as restantes horas de trabalho.

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Mais de metade da população portuguesa (54%) afirma acordar cansada
Fonte: Estudo publicado pela Oficina da Psicologia e pelacolchaonet.com
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Num estudo realizado numa empresa de call-centers pertencente ao ranking da Fortune 500, por Nancy Rothbard, professora de gestão em Wharton, e Steffanie L. Wilk, da Ohio State University, foram detectados dois padrões emergentes, traduzidos em ciclos virtuosos e viciosos: “As pessoas que chegam ao trabalho com mau humor e menos vitalidade do que o normal são, sem dúvida, menos produtivas”. A sua investigação, intitulada “Waking Upon The Wrong Side of the Bed: Start-of-Workday Mood, Work Events, Employee Affect and Performance” comprovou que estas pessoas que começam o dia de forma negativa fazem log outs do sistema com muito maior frequência e são muito menos disponíveis e simpáticas para com os clientes”, afirma. Pelo contrário, quando chegam ao trabalho com uma atitude mais positiva do que o normal, são muito menos propensas a utilizar “tiques verbais” ou jargão, soando muito mais profissionais e, obviamente, prestando um melhor serviço ao cliente.

Tendo em conta que existem hoje 89 desordens do sono diagnosticadas, e os médicos, no geral, serem apenas capazes de citar cinco, pode ler-se no mesmo artigo, o problema reside, em grande parte, no próprio sistema de saúde e também no meio académico, que ainda não confere a importância devida às desordens do sono e aos perigos que delas advêm.

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Dois terços das mulheres norte-americanas sofrem de problemas regulares com o sono
Fonte: The National Sleep Foundation
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Há já várias décadas que se identificam os perigos reais resultantes do défice de sono e os sintomas relacionados com a “fadiga do trabalhador”, nomeadamente tempos de resposta mais lentos, aumento de erros, má pronúncia de palavras, fala “enrolada”, capacidade reduzida na condução de veículos, aumento de comportamentos arriscados, incapacidade para desenvolver novas estratégias com base em informação que “vai chegando”, entre outros tantos. Todavia, as preocupações com este tipo de “sinais de alerta” mantêm-se ainda no universo das empresas que estão ligadas ao transporte de mercadorias, aos operadores de transportes públicos ou aos profissionais da saúde, face aos longos turnos que são obrigados a fazer e que obrigam a um complicado equilíbrio das suas vidas.

Mas a verdade é que estes sintomas e perigos associados estão a transitar, de uma forma cada vez mais célere, para o universo corporativo “normal” e não parece haver ninguém que esteja a perder o sono por causa disso.

Helena Oliveira

Editora Executiva