“Por mera intuição, admito que num tempo de pandemia o número de (in)decisões, quer pessoais quer profissionais, seja muito superior. Importa, por isso, estarmos mais cientes do processo de tomada de decisão que desenvolvemos, mesmo que por vezes inconscientemente”. Quem o afirma é Helena Gonçalves, docente e coordenadora do Fórum de Ética da Católica Porto Business School que, em entrevista, alerta para uma necessidade de maior reflexão no que respeita às decisões que poderão ter um grande impacto no futuro de muitos
POR CATÓLICA PORTO BUSINESS SCHOOL

Como resumiria o processo de tomada de decisão ética, seja ao nível pessoal como no mundo dos negócios?

Do processo de tomada de decisão ética poderá emergir o que de melhor há em nós ao longo dos seus três passos – seja em contexto pessoal ou profissional: perceber a dimensão ética da situação (consciência ética); ter a capacidade de avaliar e decidir sobre a situação (tomada de decisão ética) e ter a motivação e coragem para agir de acordo com a vontade (ação ética).

O primeiro passo – consciência ética – é absolutamente decisivo para a futura ação ética e consiste na capacidade de detetar os aspetos éticos de uma decisão que é preciso tomar. Ou seja, para cada situação é necessário analisar, a priori, as implicações, os implicados, os direitos e deveres dos envolvidos, entre outros. Estar consciente de que uma determinada decisão encerra uma dimensão ética é o primeiro passo para ser o meu melhor “eu”.

Depois é preciso avaliar, isto é, qualificar eticamente a situação e as alternativas de decisão, tendo em conta as caraterísticas individuais, da organização e do(s) grupo(s) envolvidos. Esta capacidade de produzir uma resposta razoável e defensável a uma questão ética consiste na tomada de decisão ética.

Mas ainda não se está perante a ação, não é ainda o momento ético. Para tal falta a vontade, o desejo de agir eticamente ao enfrentar uma decisão e a capacidade de superar a racionalização para não ser ético “apenas desta vez”. A ação ética envolve tomar as medidas necessárias para transformar a intenção de fazer a “coisa certa” em realidade. Só na ação existe o momento ético: esta ação concreta, que se pratica em consciência ética, com o conhecimento adquirido até este preciso momento, em circunstâncias que não se vão repetir.

Existem desafios acrescidos ao processo quando aplicado à relação em equipa?

A ação ética inclui a vontade, a eficácia e a coragem moral. A vontade moral aparece quando sentimos responsabilidade sobre a natureza ética das nossas próprias ações e das pessoas à nossa volta. Para criar esta vontade, devemos lutar contra as forças que causam a cegueira e a miopia moral. Por sua vez, a eficácia moral é a convicção na nossa capacidade de agir eticamente e de induzir os outros a fazê-lo em face da adversidade. Muitas vezes, temos um desejo abstrato de fazer a “coisa certa”, mas não nos sentimos capazes de resistir a todas as forças que podem dificultar a ação. E é nessa altura devemos lembrar-nos do poder individual: uma única pessoa pode fazer toda a diferença.

Os nossos superiores e colegas, ou as pessoas que a nós reportam, podem estar apenas a percecionar a situação de uma maneira errada e, perante boas razões para mudar, fá-lo-ão. E essa capacidade de persuadir pode criar um sentimento de eficácia moral: por vezes os outros poderiam não ter a coragem de liderar, mas teriam a coragem de seguir.

Por fim, a coragem moral é necessária para traduzir as decisões éticas em ações éticas. É um compromisso com os princípios ético/morais, uma consciência do perigo envolvido em apoiar determinados princípios, e uma resistência voluntária a esse perigo.

De que forma podem os contextos de crise influenciar a tomada de decisão ética?

Em tempo de “normalidade” diria que a fase da consciência ética é a fase crucial, porque em regra, não paramos para pensar e agimos por um sem número de racionalizações que nos faz ficar em paz com eventuais ações não éticas do quotidiano (“todos fazem assim”, “o chefe mandou”, “é muito urgente”, “é só desta vez”).

Mas, num tempo de pandemia, em que o número de (in)decisões aumenta radicalmente e em que poderão ter um potencial de grande impacto no futuro de muitos, talvez seja importante refletir sobre cada uma das nossas (in)decisões, pessoais ou profissionais, à luz de três ancestrais e consensuais filtros:

– Primeiro: E se toda a gente fizesse o mesmo? Esta questão decorre do imperativo categórico de Kant e dá-nos o potencial impacto da ação caso todos agissem como nós, ou seja, retira a ação da banalidade e dá-lhe relevância;

– Segundo: Estaria confortável se a ação aparecesse no jornal? Sabemos que o caráter de cada pessoa se revela quando ninguém a está a ver, mas sabemos também da importância da perceção da avaliação ética do outro na situação contrária, da importância da transparência;

– Terceiro: Não faça aos outros o que não gostaria que lhe fizessem a si. É a regra de ouro, tantas vezes expressa na sua forma negativa por filósofos, e também denominada de ética dos mínimos e que pode – e deve – ser formulada pela positiva – Faça aos outros o que gostaria que lhe fizessem a si. Reconheçamos que o que é ético depende do contexto, mas reconheçamos também que não é o contexto que determina o que é ético.

Alguma mensagem que queira partilhar com os nossos líderes?

Num tempo em que aumenta a consciência ética (coletiva), em que somos instados a aplicar ancestrais máximas à avaliação das nossas (in)decisões éticas acredito que (todos) tomaremos as medidas necessárias para transformar a intenção de fazer a “coisa certa” em realidade. Para bem da Humanidade!

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