Sim, estamos a falar da sustentabilidade e do nível de maturidade atingido pela mesma nos anos recentes. Em entrevista ao VER, Paz Nachón, Manager da Accenture para esta área e oradora num dos painéis do Green Fest, afirma mesmo que a sua integração eficaz na estratégia empresarial separará o trigo do joio ou, por outras palavras, as organizações vencedoras das perdedoras. Saiba porquê
POR HELENA OLIVEIRA

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Paz Nachón, Manager da Accenture na área de Sustentabilidade
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Há dois anos, a Accenture foi escolhida pelas Nações Unidas para conduzir uma importante iniciativa de investigação sobre a sustentabilidade. Os resultados comprovaram que os CEO estão mais comprometidos do que nunca na criação de um ambiente de negócios sustentável. Todavia, a pesquisa também demonstrou que a motivação para tal já não se resume à responsabilidade social, mas sim a uma abordagem mais holística. É possível identificar os principais drivers deste novo e reforçado compromisso?
Talvez a mais significativa constatação que resultou deste estudo realizado em 2010, que consistiu no mais abrangente realizado a CEO sobre sustentabilidade corporativa, é a de que, apesar da recessão económica, o compromisso empresarial relativo às questões ambientais, sociais e de governance permanece forte: 93 por cento dos CEO encaram a sustentabilidade como factor prioritário para o sucesso da empresa. Este valor demonstra uma alteração fundamental em termos de mentalidade desde 2007, ano em que o mesmo inquérito foi efectuado pela última vez. Na altura, a sustentabilidade estava a começar a reformular as regras dos negócios globais. E, de acordo com os resultados do estudo de 2010, torna-se claro que esta se transformou numa prioridade estratégica para as empresas um pouco por todo o mundo, sendo que deixou de constituir uma questão periférica para se tornar central ao negócio.

Quanto aos drivers que estão a alterar a abordagem à sustentabilidade, destacamos os seguintes:
• A própria definição de sustentabilidade está a sofrer alterações. Já não se restringe somente ao impacto ambiental, mas integra também os impactos económicos e sociais das actividades de uma empresa. Ao integrar estas três temáticas nos valores centrais da empresa, esta consegue realmente adicionar valor para os seus stakeholders.

• Os CEO identificaram o consumidor como sendo um stakeholder tão importante quanto os seus clientes de negócio e governamentais, compelindo as empresas a agir em resposta a estas atitudes e necessidades.

• A tecnologia é um factor crítico. As novas tecnologias estão a tornar possível abordar e integrar os objectivos de sustentabilidade transversalmente aos negócios e as maiores empresas de software oferecem soluções verticalmente integradas para a gestão da sustentabilidade no interior da empresa. E 91 por cento dos CEO confirmaram que irão utilizar as novas tecnologias na sua abordagem da sustentabilidade ao longo dos próximos cinco anos.

• Os CEO espalhados um pouco por todo o mundo reconhecem um papel principal à sustentabilidade na reconstrução e gestão da confiança com os seus stakeholders. 72 por cento dos CEO sublinharam a “marca, a confiança e a reputação” como as motivações por excelência para levarem a cabo as suas acções de sustentabilidade.

As empresas começaram a adoptar as práticas de sustentabilidade em resposta a influências externas, mas rapidamente se tornou claro que as mesmas se traduziam em benefícios reais para os negócios, a par de uma vantagem competitiva. Para aqueles que não estão ainda convencidos, que principais argumentos utilizaria para os converter e persuadir que esta atitude é simultaneamente positiva para o planeta e para o ROI das empresas?
A Accenture define a sustentabilidade como a forma mediante a qual uma organização, no seu caminho para atingir uma elevada performance, cria valor para os seus stakeholders, alavancando os seus activos e capacidades para estimular a inovação e a rentabilidade enquanto se esforça por ter, em simultâneo, um impacto social, económico e ambiental positivo. Desta forma, a Accenture acredita que a sustentabilidade se situa no centro de muitos dos desafios que as empresas irão enfrentar ao longo dos próximos anos.

É igualmente claro que os CEO já reconhecem a escala e a complexidade destes desafios, mas a tradução desta crença em acções tangíveis, em conjunto com a integração da sustentabilidade no core business ao longo da próxima década, contribuirão para que o cenário empresarial tenha contornos muito diferentes: as alterações exigidas relativamente a questões regulatórias, tecnológicas, de investimento e com respeito ao consumidor serão impressionantes, e criarão vencedores e perdedores significativos, nos negócios e nas indústrias, separando as empresas mais maduras e de elevada performance das demais.

De que forma é que a Accenture ajuda as empresas a planear e a abordar as suas estratégias de sustentabilidade e programas relacionados?
A prática de Serviços de Sustentabilidade oferecidos pela Accenture oferece uma solução significativamente integrada para as empresas, no seu processo de transformação da estratégia de sustentabilidade em execução, com base numa abordagem assente em quatro pilares: Estratégia de Sustentabilidade, mediante a qual trabalhamos com os nossos clientes na concepção e implementação da sua estratégia nesta área para apoiar o crescimento, a reputação da marca e o aumento da produtividade; Excelência Operacional em Sustentabilidade, onde a ênfase é colocado no aumento da produtividade e eficiência em operações core em toda a cadeia de valor; Gestão de Emissões, trabalhando com os clientes para melhorar a eficiência dos seus recursos e gestão de emissões e Infra-estruturas Inteligentes, onde trabalhamos com os clientes na reinvenção da sua infra-estrutura para uma economia de baixo carbono.

E quais são os principais desafios que encontram quando abordam os vossos clientes relativamente a estas novas “oportunidades da sustentabilidade para o negócio”?
Apesar de existirem diferenças nos requisitos de clientes de diferentes sectores, no geral e no ambiente económico da actualidade, a sustentabilidade tem tudo a ver com resultados e melhorias de eficiência e esses são os tipos de que interessam aos clientes. Neste sentido, as oportunidades que elegem como prioridade a eficiência a curto e médio prazo, como por exemplo a sustentabilidade na cadeia de fornecimento ou nas oportunidades de reciclagem em ciclo fechado, são do particular interesse dos nossos clientes.

Foi uma das oradoras convidadas, no evento Green Fest, para falar sobre a importância das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) para alcançar o objectivo de um desenvolvimento sustentável. Pode partilhar algumas das principais temáticas discutidas?
Ao longo dos últimos anos, a sustentabilidade moveu-se da periferia da actividade dos negócios, isolada, para o centro do sector público e empresarial e tudo aponta para que esta esteja para ficar. Um dos principais desafios enfrentados pelas empresas na actualidade é a execução das suas estratégias de sustentabilidade e esta é uma área na qual a tecnologia presta uma ajuda preciosa. A título de exemplo, no evento em causa falámos sobre a Gestão de Performance da Sustentabilidade, que constitui um componente crítico no enquadramento da temática, na medida em maximiza os benefícios da sustentabilidade ao permitir às organizações uma avaliação, gestão e reporte muito mais eficaz da sua performance social, económica e ambiental.

De forma não surpreendente, e considerando os volumes alargados de dados envolvidos, as organizações precisam de software que as ajude a obter uma quantificação dos benefícios inerentes à sua Gestão de Performance da Sustentabilidade e é neste campo que podemos realmente perceber o nível de maturidade atingido nos anos mais recentes. As grandes empresas de software estão agora a oferecer soluções integradas verticalmente para gerir a sustentabilidade, a gestão integrada e o reporting.

As denominadas “cidades inteligentes” constituem um outro tema quente na agenda global. A seu ver, quais são as questões mais prioritárias que governos e empresas precisam de abordar relativamente à necessidade de se desenvolver esta “inteligência urbana”? E qual é a visão da Accenture relativamente a esta questão?
Num mundo onde o poder económico, as pressões demográficas e dos recursos de longo de prazo se encontra em mudança (e pensando-se em termos de escassez de recursos e de volatilidade nos preços), as cidades estão a emergir como pontos críticos de acção no mapa global. Na Accenture, acreditamos que a combinação de tecnologias inteligentes aplicadas a intenções estratégicas claras pode transformar e acelerar o progresso para o urbanismo sustentável.

E elencamos o que, para nós, constituem alguns dos componentes principais que tornam uma cidade inteligente:
• Uma cidade que consegue “embutir” a tecnologia, utilizando sensores e fluxos de dados já existentes e que incorpore novas TIC na sua infra-estrutura – tanto ao nível da indústria (redes inteligentes) como da própria cidade (plataforma de dados aberta);

• Uma cidade que integre, transversalmente, múltiplas camadas de infra-estruturas (por exemplo, água, resíduos, energia, etc.) que “falem” entre si, para que novas economias de escala possam ser atingidas e novos discernimentos sobre as operações da cidade possam ser pensados;

• Uma cidade que utilize infra-estruturas integradas para conceber e prestar serviços que se concentrem em torno do cidadão, conduzindo a uma cultura de envolvimento por parte dos mesmos;

• Uma cidade que encoraje modelos inovadores de colaboração entre os sectores público e privado. Para gerar o maior valor possível proveniente da tecnologia, as cidades precisam da consultoria de equipas multidisciplinares e, fundamentalmente, de reequacionar a forma como planeiam e operam as suas cidades, o que envolve, entre outras coisas, a inovação nos modelos operacionais, nos modelos de negócio e nas estruturas de governance.

E, tendo em conta as temáticas acima mencionadas, o portefólio da Accenture para a Cidade Inteligente especializa-se em: Crescimento e Gestão Estratégica das Cidades, Serviços para as Cidades e em Soluções e Análise de Infra -estruturas Digitais.

Com a Grande Recessão e com muitos países a sofrer com as fortes medidas de austeridade, como é que vislumbra o caminho, a curto prazo, para a tão desejada economia verde?
A recessão económica acelerou, em muitos casos, a integração da sustentabilidade no interior das organizações, aproximando-a, enquanto estratégia, das suas operações core. E aquilo a que assistimos no clima económico actual é o facto de que as organizações estão a dar prioridade a essas medidas de sustentabilidade que conduzem a eficiências significativas a curto e médio prazo nos seguintes parâmetros: em termos de redução de custos (por exemplo, através da melhoria da eficiência energética e dos recursos, da redução de emissões e dos resíduos, adicionando eficiência à sua logística, inovando com os fornecedores, etc.); no que respeita ao aumento de receitas (através de novos produtos e serviços, novas tecnologias e à definição de um novo espaço ecologicamente repensado); no que respeita ao desenvolvimento dos activos intangíveis (como o aumento da confiança e da reputação, de uma performance melhorada nos índices de sustentabilidade, no envolvimento com os stakeholders, etc.) e ainda no que se refere à mitigação de riscos (através da implementação de medidas que reduzem os riscos físicos ou regulatórios associados às alterações climáticas, redução da ocorrência de questões de saúde e segurança, etc.).

Helena Oliveira

Editora Executiva