São jovens, economistas e gestores, que se propõem a refletir e a encontrar estratégias que promovam uma economia global mais sustentável, mais ética, centrada na pessoa, no ambiente e, consequentemente, no amor. Aceitando o convite do Papa e tendo como objectivo fazer ouvir a sua voz, mais de 50 portugueses têm vindo a preparar-se para o encontro que juntará, em Assis, jovens de todo o mundo, não para uma celebração, mas para o desencadear de um processo que, nas palavras de Francisco, possa “mudar a economia de hoje e dar alma à economia do amanhã”. É que, para o Papa, “os jovens não são o futuro, mas o presente”. E é no presente e com os olhos no futuro que têm vindo a trabalhar
POR ACEGE NEXT

Por um mundo onde, a título individual, organizacional e político, reinem valores como o consumo responsável, a responsabilidade social e corporativa e a unidade da nossa vida.

É assim que se pode resumir o propósito dos dois mil jovens de todo o mundo que, desafiados pelo Papa, participam na construção da “Economia de Francisco”. Impossibilitados, por causa da pandemia, de viajar até Assis em Março deste ano para se juntarem aos mais de dois mil jovens de todo o mundo que participariam neste encontro, foi preciso reorganização para que o trabalho não parasse.

E em Portugal não foi diferente. Primeiramente através do “Curso de preparação para a Economia de Francisco”, iniciativa da ACEGE, através do seu núcleo ACEGE NEXT e que, em parceria com a Nova School of Business and Economics, a AESE Business School e Católica-Lisbon Business & Economics, desenvolveu sete sessões ao longo de oito meses, desde Outubro de 2019 a Maio de 2020. Foram mais de 50 jovens entre os 22-38 anos que iniciaram esta viagem que levará a voz de Portugal ao encontro de Assis. Este primeiro capítulo foi construído e trabalhado por todos os participantes tendo por base os pilares da proposta da Economia de Francisco: o desenvolvimento de um modelo económico que gere uma economia inclusiva, que seja centrada nos jovens e que cuide do ambiente de uma forma sustentada. Cada sessão foi dirigida e leccionada pelos professores Ricardo Zózimo, José Fonseca Pires, Fátima Carioca, Tomasso Ramus e João César das Neves nas suas respectivas instituições.

Com o aparecimento da pandemia, não só o encontro em Assis foi adiado para Novembro de 2020, mas também o método das sessões sofreu alterações, passando a ser por via digital ao invés das reuniões presenciais, como tinha sido feito até então. Em Maio de 2020, ocorreu a última sessão online do “Curso de preparação para a Economia de Francisco”, que determinou o fim do primeiro capítulo e fez a ponte para a continuação deste caminho até Assis.

A ACEGE Next – Projecto da ACEGE para as novas gerações de profissionais (20 a 40 anos) que pretende ser um espaço de referência capaz de reflectir e influenciar decisões e práticas pessoais e empresariais – iniciou, no passado mês de Junho, o 2º módulo da Economia de Francisco, onde mensalmente cerca de 40 participantes se juntam virtualmente para aprofundar os 12 temas propostos para o evento “The Economy of Francesco”.

A primeira sessão deste ciclo teve lugar no passado dia 24 de Junho sob os temas “Trabalhar e cuidar” e “Gestão e dádiva”. O grupo de jovens da ACEGE Next partilhará, no VER, o essencial destas sessões preparatórias, com vista a oferecer uma visão mais ampla do que será discutido com os seus pares em Novembro.

Trabalhar e Cuidar

Tendo como ponto de partida o “The Care Manifesto: Part(time) for all” de Jennifer Nedelsky, os jovens portugueses refletiram sobre a pergunta: “Se tivesses que organizar a tua semana, para acomodar 30h de trabalho e 22h para cuidar, como o farias?”

Um desafio que os levou a ponderar sobre o que teria de mudar na envolvente individual, organizacional, comunitária e política para que esta preocupação com o “cuidar” fosse possível.

Partindo de um contexto em que assistimos a um stress cada vez mais insustentável nas famílias, a desigualdades persistentes para os cuidadores e a decisores políticos que não conferem a prioridade necessária a estas questões, os jovens acreditam ser crucial que sejam aplicadas medidas para uma maior conquista do equilíbrio entre o tempo para trabalhar e o tempo para cuidar dos outros, do ambiente e de si mesmos.

Precisamos de cuidar uns dos outros e precisamos de cuidar da nossa casa, do planeta Terra. Devemos cuidar através do nosso trabalho e, por isso, ele deve também ser cuidado através de uma perspectiva de “ecologia humana integral”, como nos diz o Papa Francisco. Não é possível ambicionar a “uma ecologia integral, onde o Homem se insere, sem que haja tempo para o fazer”, concluem os jovens deste encontro.

Gestão e Dádiva

Conquistar o equilíbrio entre o léxico clássico da gestão – lucro, maximização, eficiência, controlo – e aquilo que é uma verdadeira gestão centrada no amor – com sacrifício, entrega, gratuidade, cedência – é uma tarefa que se revela complexa, mas que, para poder ser feita, exige coragem e pequenas mudanças, apesar de radicais.

Desafiar as práticas instaladas, onde a maximização do lucro só serve uma pequeníssima percentagem dos que para ela trabalham, e virar o jogo para o que de facto importa – o bem-estar de quem trabalha – assume-se também como uma prioridade.

Não se pretende com isto dizer que os negócios não se querem rentáveis, ou que a geração de lucro não é igualmente importante para o bem-estar sustentável de todos. Queremos apenas garantir que não se centre exclusivamente nesta única variável. E que o lucro e o que as empresas produzem estejam integrados e ao serviço de todo o ecossistema em que vivemos. “O trabalho existe para dignificar o homem e para que os frutos que dele saiam possam gerar mais frutos.”, é o desafio proposto pelo grupo de trabalho.

Mas então qual é o propósito de haver negócios? Como pensar numa Gestão em que o ser humano está no centro? Haverá espaço para a gratuidade no mundo empresarial?

Questões que nos interpelam e que nos “obrigaram” a medir a distância entre aquilo que é hoje a realidade das empresas e aquilo que acreditamos ser um tecido organizacional, social e político, mais justo e que esteja, de forma legítima, ao serviço do ambiente e das pessoas.

Propostas e desafio

Esta sessão deu origem a um conjunto de medidas que se pretende debater com maior profundidade para que, a médio prazo, possam eventualmente vir a ser implementadas.

São exemplo:

– Contemplado no programa nacional de educação, incluir nas escolas o tempo dedicado ao voluntariado e ao serviço comunitário;

– Tornar obrigatório que os responsáveis políticos, para ascenderem a cargos públicos, tenham x horas de trabalho voluntário;

– Aumento da licença de paternidade;

– Apostar na formação dos líderes para que percepcionem o seu papel como um serviço e não como um direito;

– Alteração dos critérios de acesso na atribuição de fundos europeus. Os critérios devem ser definidos tendo como base a avaliação das métricas sociais do país em causa (por exemplo, como está distribuída a riqueza neste país ou qual a percentagem de sem-abrigo existente).

Os jovens afirmam: “Sendo gestores e economistas, integrados em organizações muito diferentes, sabemos que a concretização destas medidas levará o seu tempo e que terão de ser implementadas gradualmente. Mas precisamente por nos termos dedicado a estudar e a debater estes temas e por termos vivência prática de muitos deles, sabemos reconhecer a urgência de repensar a forma como gerimos e como cuidamos.

Por fim, encerrou-se a sessão com uma pergunta muito simples, da Irmã Alessandra Smerilli, que nos impele a uma reflexão pessoal séria e que gostaríamos de convidar todos a fazê-la connosco: E se em vez de lhe perguntarem “Onde trabalha?” lhe perguntassem “De quem cuida?”. Saberia responder?

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