Podemos afirmar que são em maior número – pelo menos publicamente – os acontecimentos que levam os cidadãos, no geral, a temer pelo futuro. E foi por estar saturado de receber más notícias que David Byrne resolveu lançar um projecto original. Através da criação da plataforma “Reasons To Be Cheerful” – que resulta numa espécie de terapia – o fundador da extinta banda Talking Heads demonstra que existem inúmeras razões para sermos alegres e optimistas. Afinal as boas notícias também existem e devem ser partilhadas
POR
MÁRIA POMBO

O mundo depara-se, actualmente e de forma crescente, com problemas económicos, políticos, sociais e ambientais. A humanidade evoluiu em inúmeros aspectos, mas continua a existir guerra, pobreza, exploração no trabalho, injustiça e desigualdade. Os ricos são ainda mais ricos e os restantes continuam na miséria, e são cada vez em maior número as histórias e os acontecimentos trágicos diariamente relatados por diversas vias. E tudo isto explica que, independentemente da ideologia política e muito à custa do que é noticiado um pouco por todo o mundo, existem motivos para temermos pelo futuro da civilização.

Mesmo no nosso dia-a-dia, quantas não são as vezes em que conversamos com familiares, amigos e colegas e concluímos que o mundo “vai de mal a pior”? Quantas não são as histórias más que nos chegam pelo telefone e pelo computador, a partir de pessoas próximas? Quantos de nós não conhecemos os problemas e as doenças dos nossos vizinhos, mais do que os seus sucessos?

Foi para contrariar esta ideia de que a humanidade está perdida que David Byrne decidiu demonstrar ao mundo que é possível encará-lo de uma forma mais optimista e positiva. Cansado de passar parte do seu tempo deprimido com as notícias más que lhe chegam constantemente, o músico e fundador da célebre banda Talking Heads criou, em Janeiro deste ano, uma plataforma onde pretende divulgar notícias, pensamentos e histórias que vai conhecendo e que em comum têm o facto de serem optimistas e demonstrarem que existem motivos para sorrir e ter esperança. Denomina-se “Reasons To Be Cheerful” e nasceu como “uma espécie de remédio e terapia”, já que leva o músico a pensar que “afinal existem coisas positivas a acontecer”, como o próprio revela na plataforma.

As histórias são contadas por si ou por outras pessoas, são acompanhadas de vídeos ou imagens, e encontram-se organizadas em variadas categorias (como Saúde, Cultura, Clima, Economia, Ciência, Tecnologia, etc.). Trata-se, na maioria dos casos, da apresentação de iniciativas ou exemplos que revelam uma atitude optimista perante a vida, inspirando os leitores e levando-os – tal como a David Byrne – a acreditar que existe esperança, mesmo nos piores cenários. São, no fundo, boas notícias – esses bens tão preciosos –, contrariando a onda de maus acontecimentos com que o músico era (e ainda é, inevitavelmente) confrontado no dia-a-dia.

Para além de procurar histórias e ir ao encontro dos protagonistas das mesmas, Byrne convida todos os cidadãos a enviarem as suas “razões para serem alegres e optimistas”, procurando, mais do que relatos individuais e que terminam em si mesmos, iniciativas colectivas ou que possam ser replicadas em outros lugares e comunidades. Complementarmente, o músico sublinha que não pretende receber – e dar a conhecer ao público – “apenas boas ideias” mas sim exemplos que já tenham sido postos em prática e cujos bons resultados possam ser comprovados.

Reclusos no atelier de cerâmica da Prisão de Halden, na Noruega

Da punição à reeducação

Estando inserida na área da Educação, a abordagem da Noruega em termos de tratamento de presos é referida, na plataforma, como um exemplo de sucesso e que deve ser implementado em outros países – nomeadamente nos Estados Unidos, onde a criminalidade e a taxa de reincidência são bastante elevadas.

Num artigo dedicado a este tema, Byrne apresenta o trabalho desenvolvido pela prisão de Halden, que é considerada a “prisão mais humana do mundo”. A mesma pretende não propriamente fazer os presos pagarem pelos crimes que cometeram, mas antes reeducá-los e apresentar-lhes caminhos alternativos que lhes permitam fugir ao mundo da criminalidade e ter um objectivo de vida. Ao contrário de quase todas, a nível mundial, esta cadeia procura que os reclusos vivam num ambiente relativamente normal. Por esse motivo, não tem grades nas janelas e tem uma cozinha (com facas à disposição de todos). Uma outra particularidade é o facto de, à sua volta, existirem árvores de fruto que tornam mais agradável o tempo que é passado naquele espaço. Com o objectivo de incentivar os reclusos a descobrir talentos e a concluir os estudos, a prisão também tem, por exemplo, um estúdio de música, uma oficina de bicicletas e um atelier de cerâmica, promovendo ainda diversas actividades vocacionais.

[quote_center]O projecto “Reasons To Be Cheerful” nasceu como “uma espécie de remédio e terapia” e demonstra que “afinal existem coisas positivas a acontecer”[/quote_center]

A ideia norueguesa, mais do que parecer simples, revela ser eficaz, já que a taxa de criminalidade no país é de 75 pessoas presas por cada 100 mil cidadãos (sendo a dos EUA de 707 presos por cada 100 mil cidadãos), e que apenas 20% dos presos regressam à prisão nos dois primeiros anos de liberdade (contra 76,6% de reincidência, nos Estados Unidos, num período de cinco anos). Trata-se então de abordar a privação de liberdade não como uma punição, mas como uma oportunidade para mudar comportamentos e adquirir hábitos de uma vida mais saudável.

De acordo com o artigo publicado na plataforma, o facto de este modelo de prisão ser, à partida, mais dispendioso do que o modelo tradicional faz com que o mesmo não seja implementado em outros países. Contudo, a longo prazo o investimento é compensado, já que a taxa de reincidência é extremamente baixa e os reclusos saem com uma nova postura perante a vida, o que lhes permite, em pouco tempo, ter uma vida normal e independente de subsídios estatais.

A linha entre o crime e a doença

Ainda no que respeita à reabilitação, desta feita com foco na saúde, o fundador dos Talking Heads foi em busca de várias abordagens ao vício da droga, descobrindo que é possível – e pode ser bastante positivo – encará-lo não como um crime, mas sim como um problema de saúde. E qual é a diferença entre ambas as abordagens? É que a primeira – o crime – é punida e a segunda – a doença – é tratada.

No seu ‘tour’, o autor descobriu um bairro em Vancouver onde existem salas – que têm sido alvo de bastante controvérsia – que foram criadas especialmente para que os consumidores possam ter acesso ao produto que procuram, fazendo-o de uma forma segura e sem perigo de contaminação de doenças (como, aliás, é bastante frequente nos locais onde esta prática acontece à margem da lei e sem cuidados). Através desta prática, e porque os utilizadores que procuram estes locais recebem ajuda imediata em caso de necessidade, Vancouver assistiu, logo nos dois primeiros anos, à redução de mortes por Overdose na ordem dos 35%, tendo diminuído igualmente a taxa de criminalidade naquela área.

Neste aspecto, Portugal surge em destaque como um bom exemplo, tendo em conta que, há 15 anos, decidiu legalizar as drogas leves, encarando-as como uma doença (que se trata) e não como um crime. Comparando com a abordagem realizada nos Estados Unidos e no Reino Unido, esta estratégia assume-se como um verdadeiro sucesso, já que a taxa de mortes por overdose é, no nosso país, de apenas três pessoas em cada milhão (ao passo que, nos EUA é de 147 e no Reino Unido é de 44,6 pessoas por cada milhão de cidadãos).

Através desta mudança, Portugal é hoje um país com uma taxa de uso de drogas relativamente baixa, com “apenas” 25 mil portugueses a consumirem heroína. Sabemos que é um número ainda assim elevado, mas também é de salientar que o mesmo tem vindo a diminuir substancialmente. No artigo, Byrne sublinha ainda que “se os Estados Unidos conseguissem alcançar a taxa portuguesa de mortalidade por consumo de droga, era possível salvar uma vida a cada dez minutos”, o que significava que “conseguiríamos salvar quase tantas vidas como aquelas que são perdidas com armas e acidentes de automóvel”.

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Detroit: uma forte ligação entre arte e inclusão

Inclusão. Foi desta perspectiva que Byrne passou a ver a música “Everybody’s comming to my house”, da sua autoria mas interpretada pelos alunos da Escola de Artes de Detroit. Estando inserida numa zona fortemente marcada por confrontos inter-raciais, esta escola é reconhecida pelos programas escolares exigentes e por preparar os seus alunos para construírem carreiras de sucesso por todo o mundo, em áreas como a música, o teatro e a dança.

O projecto que resultou na interpretação da referida música de David Byrne foi uma oportunidade para que os alunos pudessem demonstrar o seu valor, tendo feito o músico sentir que “uma canção pode mudar radicalmente conforme quem a canta”. Neste caso concreto, o autor afirma que os alunos mudaram o próprio significado da música, fazendo-o ter a consciência de que a mesma “é sobre inclusão, acolhimento e a sensação de não estar só”. Para os alunos, o desafio assumiu-se como “uma oportunidade de criar algo em conjunto e de fazer parte de algo”, dando-lhes a noção de que “aprender é bom e não faz mal errar” e a certeza de que “ser autêntico é a chave para o sucesso”.

[quote_center]A educação e a arte podem ser um excelente veículo para promover a inclusão dos jovens na sociedade[/quote_center]

Este é um excelente exemplo de como a força de vontade e o talento valem muito mais do que a cor da pele ou o background de cada um, e revela que a educação e a arte podem ser um excelente veículo para promover a inclusão dos jovens na sociedade.

Bicicleta: o transporte do futuro?

Ao nível dos transportes e de uma mudança que é necessária, pelas pessoas e pelo ambiente, David Byrne escreveu sobre uma ideia que já não é nova mas que tem vindo a melhorar grandemente a qualidade de vida dos cidadãos de muitas cidades a nível mundial: a utilização de bicicleta. Se é verdade que em diversas localidades este objecto já faz parte do dia-a-dia há muito tempo, também não é mentira que, em outros tantos locais, ainda não existem infra-estruturas que permitem a sua utilização segura.

Num artigo dedicado a este tema, o músico apresenta a forma como o aumento de ciclovias em Paris mudou a vida dos parisienses, que podem agora deslocar-se sobre duas rodas para vários locais da cidade, sem perigo, fugindo a filas intermináveis de trânsito e poupando dinheiro que outrora era utilizado em combustível. Esta é uma estratégia que tem inúmeros pontos positivos, melhorando a vida dos cidadãos e diminuindo a poluição atmosférica. Bogotá, Chicago, Toronto, Nova Iorque e Londres são outras cidades referidas no texto e que estão a utilizar, de forma crescente, a bicicleta. Quem sabe se num futuro próximo este não será o principal meio de transporte utilizado a nível mundial.

No texto, David Byrne dá ainda o seu testemunho pessoal de como, ao longo da carreira e nas diversas cidades por onde passou, foi a bicicleta que lhe permitiu visitar locais que, de outra forma, não teria conseguido ver, sendo esta, na sua opinião, uma grande aliada para a descoberta de bairros, museus ímpares e edifícios interessantes.

Estes são apenas alguns exemplos das histórias que o músico apresenta na plataforma “Reasons To Be Cheerful”. Este projecto, que revela ser uma terapia para a depressão e o pessimismo de David Byrne, pode agora ser uma ajuda preciosa para todos os leitores e cidadãos que, tal como ele, sentem falta de receber boas notícias. Afinal existem inúmeras razões para sermos optimistas e termos esperança no futuro da civilização.

Mária Pombo

Jornalista