Anunciado nos finais de 2019, o Fórum Económico Mundial lançou um manifesto que elege o denominado capitalismo dos stakeholders como o modelo económico a ser seguido pelas empresas que desejam deixar uma marca positiva no mundo. O seu fundador e presidente, Klaus Schwab, relembra que a empresa não representa apenas uma entidade que gera lucros, sendo igualmente um organismo social. Resta saber o que pensam os muitos capitalistas “da velha guarda” que, ainda este mês, se irão reunir em Davos para discutir as possibilidades de um mundo mais coeso e sustentável
POR HELENA OLIVEIRA

Davos será palco, de 21 a 24 de Janeiro próximos, de mais uma reunião de líderes globais que, pela 50ª vez, trará à famosa estância suíça cerca de três mil participantes de todo o mundo. O tema de este ano “Stakeholders para um Mundo Coeso e Sustentável”traz para a ribalta uma das grandes tendências do ano que passou – a ideia de um capitalismo mais consciente e dirigido a todos os stakeholders – com o Fórum Económico Mundial (FEM) a publicar até um denominado “Manifesto de Davos” enquanto “propósito universal para as empresas na Quarta Revolução Industrial”.

“As pessoas estão revoltadas contra as ‘elites económicas’ que as traíram, ao mesmo tempo que os nossos esforços para manter o aquecimento global limitado a 1.5°C estão a falhar em toda a linha”, afirmou Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do FEM e autor de um manifesto não muito diferente do que aquele que o Fórum publica para este ano, datado de 1973. E é “porque o mundo se encontra numa terrível encruzilhada que este ano temos de desenvolver o Manifesto de Davos para 2020 de forma a reimaginarmos o propósito e os scorecards que as empresas e governos devem seguir”, acrescenta ainda, relembrando que foi para isso que o Fórum foi fundado há 50 anos e que é para manter este desígnio que deverá contribuir no próximo meio século.

O programa para 2020 apresenta como prioritárias seis grandes áreas: na ecologia, explorar formas de mobilizar os negócios a responderem aos riscos das alterações climáticas e assegurar que as medidas necessárias para proteger a biodiversidade incluam as florestas e os oceanos; na economia, compreender como é possível reduzir o peso do endividamento a longo prazo e mantê-la a funcionar a um ritmo que permita uma maior inclusão; na tecnologia, apurar como se criará um consenso global na implementação das tecnologias da Quarta Revolução Industrial e evitar uma “guerra tecnológica; na sociedade, como requalificar e melhorar a aprendizagem ao longo da vida para mil milhões de pessoas ao longo da próxima década; na geopolítica, aferir de que forma o “espírito de Davos” pode criar pontes para resolver conflitos em focos de crise globais; e, por último, na indústria, como ajudar as empresas a criar os modelos necessários para prosperarem na Quarta Revolução Industrial, tendo em conta o mundo em que vivemos, exposto a tensões políticas variadas, movido a mudanças tecnológicas exponenciais e com expectativas crescentes por parte de todos os stakeholders.

Na verdade, e como sublinha o próprio presidente do FEM, o denominado “capitalismo dos stakeholders” está a ganhar terreno e é também por isso que Davos apresenta o seu novo manifesto. Saber que capitalismo queremos consiste numa das principais questões que definem a nossa era e, caso desejemos manter o nosso sistema económico para as gerações futuras, há que saber respondera à mesma de forma correcta. Como escreve Schwab e no geral, temos actualmente três modelos disponíveis à nossa escolha. O primeiro é o já aparentemente estafado “capitalismo do accionista”, abraçado pela maioria das organizações ocidentais, que defende que o principal objectivo de uma empresa é maximizar os seus lucros. O segundo modelo é o “capitalismo estatal”, o qual confia aos governos a direcção a tomar por parte da economia e que tem vindo a ser proeminente em muitos mercados emergentes, e em particular na China.

Mas, e comparativamente a estas duas opções, existe o terceiro modelo do “capitalismo dos stakeholders” – que Schwab diz defender há cerca de 50 anos – o qual posiciona as empresas como fiduciárias da sociedade e que, crescentemente, é considerado como a melhor resposta aos desafios sociais e ambientais da actualidade.

Como recorda, o “capitalismo do accionista” – ou o modelo actualmente dominante – começou por ganhar popularidade nos Estados Unidos nos anos 70 do século passado, tendo expandido a sua influência globalmente nas décadas que se lhe seguiram. E a sua ascensão não foi, como sabemos, isenta de mérito. Durante o seu apogeu, retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza, ao mesmo tempo que as empresas que perseguiam o lucro como seu principal objectivo deram origem a novos mercados e criaram novos postos de trabalho. Mas a sua história não se fica por aqui. Os defensores deste tipo de capitalismo, incluindo Milton Friedman e toda a Escola de Chicago, negligenciaram o facto de que uma empresa cotada não é apenas um entidade que procura o lucro, mas também um organismo social. Em conjunto com as pressões da indústria financeira para aumentar os resultados de curto prazo, acrescenta o fundador do FEM, o enfoque exacerbado nos lucros teve como resultado uma desconexão crescente entre o capitalismo do accionista e a economia real. E são cada vez mais as vozes que clamam que esta forma de capitalismo deixou de ser sustentável. Mas e como questiona Klaus Schwab, por que razões é que passámos a testemunhar uma mudança de atitude apenas agora?

A seu ver, uma das razões possíveis, a qual apelida de “efeito Greta Thunberg”, está relacionada com o facto de a jovem activista sueca ter recordado ao mundo que a adesão ao sistema económico corrente representa uma traição às gerações futuras, tendo em conta a insustentabilidade ambiental. Um outro motivo está relacionado com o facto dos millennials e os representantes da geração que se lhes segue, a Z, não desejarem mais trabalhar para, investir em ou adquirir bens e serviços de empresas sem valores e que continuam a maximizar apenas o valor para os accionistas. E por último, mas de todo não menos importante, é cada vez mais visível o facto de executivos e investidores terem começado a reconhecer que o seu sucesso de longo prazo está intimamente relacionado com o sucesso dos seus clientes, empregados e fornecedores.

Agora e finalmente, são cada vez mais aqueles que se querem sentar à “mesa dos stakeholders”. Schwab recorda a declaração de propósito publicada há poucos meses pela Business Roundtable, o mais influente lobby empresarial dos Estados Unidos que anunciou a “adopção” do capitalismo dos stakeholders, bem como a ascensão do investimento com impacto, à medida que mais e mais investidores procuram novas formas de unir os benefícios sociais e ambientais ao retorno financeiro.

E é também por todas estas razões que Davos se comprometeu a lançar o seu novo manifesto. Porque acredita ser o momento certo para assegurar que este “novo” capitalismo seja o modelo dominante, o manifesto de Davos (em maior detalhe mais à frente) declara que as empresas devem pagar a sua quota justa de impostos, mostrar tolerância zero à corrupção, preservar os direitos humanos ao longo de toda a cadeia global de fornecimento e defender condições equitativas ao nível da concorrência, em particular na “economia das plataformas”.

Todavia, e para manter os princípios do capitalismo dos stakeholders, as empresas precisam de métricas. Para os “iniciados”, uma nova medida de “criação de valor partilhado” deverá incluir os critérios “ambientais, sociais e de governança” (ESG, na sigla em inglês) como complemento de métricas financeiras padronizadas.

Para o fundador do FEM, a segunda métrica que precisa de ser ajustada é a que diz respeito às remunerações dos executivos. Desde os anos de 1970 que assistimos a uma explosão das remunerações dos executivos, em grande parte como um “alinhamento” da tomada de decisão da gestão com os interesses dos accionistas. Para Klaus Schwab, neste novo paradigma dos stakeholders, os salários deverão, ao invés, alinhar-se com a nova medida de criação de valor partilhado de longo prazo.

Por fim, acrescenta o fundador e presidente do FEM, as empresas de grande dimensão deverão perceber que elas próprias são stakeholders relevantes no nosso futuro comum. Apesar de continuarem a ter de perseguir as suas competências centrais e a sua lógica empreendedora, devem também trabalhar em conjunto com os demais stakeholders para melhorar o estado do mundo no qual operam. E, na verdade, este deve ser o seu principal propósito.

Se é verdade que os defensores do capitalismo estatal também recordam que o mesmo persegue igualmente uma visão de longo prazo – e com bons resultados recentes, especialmente na Ásia – há que ter em atenção que este pode ser uma boa opção para uma determinada etapa de desenvolvimento, mas que deverá evoluir gradualmente para algo mais parecido com o modelo dos stakeholders.

Para Schwab, os líderes de negócio têm agora uma nova e bem-vinda oportunidade. Ao conferirem um significado concreto ao capitalismo dos stakeholders, poderão mover-se para além das suas obrigações legais e cumprir o seu dever para com a sociedade. E podem ajudar o mundo a estar mais perto de atingir os seus objectivos partilhados, nomeadamente os que estão consignados no Acordo de Paris e na Agenda do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Para o fundador do FEM, e se estes desejam mesmo deixar a sua marca positiva no mundo, não existe nenhuma outra alternativa.


O Manifesto de Davos em 2020: o propósito universal da empresa na Quarta Revolução Industrial

O propósito de uma empresa é comprometer-se com todos os seus stakeholders na criação de valor partilhado e sustentado. Ao criar esse valor, a empresa serve não só os seus accionistas, mas também todos os seus stakeholders – empregados, clientes, fornecedores, comunidades locais e a sociedade no seu todo. A melhor forma para compreender e harmonizar os interesses divergentes dos mesmos é através de um compromisso partilhado no que respeita a políticas e decisões que fortaleçam a prosperidade de longo prazo da empresa.

Clientes. Uma empresa serve os seus clientes oferecendo uma proposição de valor que melhor vá ao encontro das suas necessidades. E aceita e apoia uma concorrência justa e em condições equitativas. Adicionalmente, tem tolerância zero face à corrupção e mantém o ecossistema digital no qual opera dentro dos limites de confiança desejáveis. A empresa deverá sensibilizar os seus clientes para a funcionalidade dos seus produtos e serviços, incluindo implicações adversas e externalidades negativas.

Empregados. A empresa trata as suas pessoas com dignidade e respeito. Honra a diversidade e esforça-se por melhorar continuamente as condições de trabalho e o bem-estar dos seus colaboradores. Num mundo em rápida mudança, a empresa encoraja a empregabilidade contínua através da requalificação e da formação ao longo da vida.

Fornecedores. A empresa considera os seus fornecedores como parceiros genuínos na criação de valor e oferece oportunidades justas a novos concorrentes no mercado. Integra igualmente o respeito pelos direitos humanos em toda a cadeia de fornecimento.

Comunidades. A empresa serve a sociedade no seu todo através das suas actividades, apoiando as comunidades nas quais está inserida e pagando os seus impostos devidos. Assegura, por seu turno, a utilização segura e ética dos dados. Age como guardiã do universo ambiental e material para as gerações futuras. Protege, de forma consciente, a biosfera e promove uma economia circular, partilhada e regeneradora. Expande continuamente as fronteiras do conhecimento, da inovação e da tecnologia para melhorar a vida das pessoas.

Accionistas. A empresa confere aos seus accionistas um retorno do seu investimento, o qual leva em linha de conta os riscos tomados e a necessidade de inovação contínua e investimentos sustentados. Gere, de forma responsável, a criação de valor a curto, médio e longo prazo perseguindo um retorno sustentável para o accionista que não sacrifique o futuro pelo presente.

Uma empresa é mais do que uma unidade económica que gera riqueza. Deverá preencher as aspirações humanas e societais enquanto parte do sistema social alargado. A sua performance deverá ser avaliada não só pelo retorno para os accionistas, mas também mediante a forma através da qual atinge os seus objectivos ambientais, sociais e de boa governança. A remuneração dos executivos deverá reflectir a responsabilidade para com os stakeholders.

Uma empresa que tenha um âmbito multinacional de actividades não serve apenas os stakeholders que com ela estão directamente comprometidos, mas age também como um stakeholder – em conjuntos com os governos e a sociedade civil – do nosso futuro global. A cidadania corporativa global exige que uma empresa potencie as suas competências centrais e de empreendedorismo, em conjunto com os seus recursos relevantes em esforços colaborativos com outras empresas e stakeholders para melhorar o estado do mundo.


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