Se bem que gradualmente, a economia circular tem vindo a crescer, substituindo o ‘fim de vida’ pela reciclagem, reutilização e regeneração dos recursos. E com o aumento da população e da indústria nos centros urbanos, cabe a estes tomar as rédeas desta acção. Quem o diz é o Fórum Económico Mundial, num white paper denominado “Economia Circular nas Cidades – evolução de um modelo para um futuro urbano sustentável”
POR
MÁRIA POMBO

“O desperdício não existe na natureza: uma fruta que cai no chão transforma-se no alimento de um animal, que, depois de morto, sacia a fome a outro, e tudo o que sobra regressa ao solo e dá origem a novos alimentos. Trata-se de um constante e ininterrupto processo regenerativo, em que os resíduos se transformam em vida e onde até as bactérias e os fungos contribuem activamente para esse ciclo”. Quem o diz é William McDonough, arquitecto, designer e autor de diversos livros.

Mas em que medida entra o ser humano nesta equação? Seremos a única espécie que não contribui para este ciclo e que, ao invés, produz, utiliza e deita fora, sem que outros possam aproveitar aquilo que desperdiçamos e sem que aproveitemos nós aquilo que outros não utilizaram? Seremos a única espécie que não devolve à terra os nutrientes que esta nos facultou e que impede que estes sejam aproveitados por outras espécies?

Encontramo-nos numa era de consumo desenfreado, promovido e estimulado pelo crescimento urbano e industrial. De acordo com o International Resource Panel, criado pela ONU, se as circunstâncias se mantiverem como estão, o consumo de bens materiais nas cidades passará dos 40 mil milhões de toneladas (apurados em 2010) para mais do dobro (cerca de 90 mil milhões de toneladas) em 2050. E com o consumo de bens materiais surge, inevitavelmente, a produção de resíduos: em 2012 e segundo o World Bank, as cidades foram responsáveis pela produção de 1,3 mil milhões de toneladas de resíduos sólidos – o que se traduz numa pegada ecológica de 1,2kg por dia, por pessoa –, e as expectativas apontam para que, em 2025, esta produção chegue aos 2,2 mil milhões de toneladas. Complementarmente, os centros urbanos são responsáveis por mais de 70% das emissões de CO2, prejudicando gravemente o planeta e todos os que nele habitam.

Este cenário revela que as políticas de gestão de resíduos, bem como a nossa forma de encarar o consumo, necessitam de uma mudança drástica, a qual terá que passar, por exemplo, pela maximização do valor de cada bem ou produto, de modo a aproveitarmos tudo o que este tem para nos dar, evitando assim o desperdício. A utilização de energia também terá de ser feita de um modo mais responsável, nomeadamente através de fontes renováveis.

E é sobre a economia circular – um modelo económico que pretende substituir o conceito de ‘fim de vida’ pelo de reciclagem e reutilização de materiais – que versa um white paper recentemente publicado pelo Fórum Económico Mundial e denominado de “Economia Circular nas Cidades – evolução de um modelo para um futuro urbano sustentável”. De uma forma clara e sumária, o documento explica os principais argumentos deste modelo económico, apresenta as suas principais oportunidades e dá conta de variadas barreiras à sua implementação, demonstrando ainda que (e de que modo) esta já é uma realidade presente em diversas cidades, um pouco por todo o mundo. O objectivo? Acelerar a transição para a economia circular nas cidades, alcançando a sustentabilidade e minimizando os impactos sociais, económicos e ambientais provocados pelo modo como obtemos, consumimos e eliminamos os recursos.

Com a ajuda da tecnologia e através da máxima utilização dos bens, a ideia de desperdício é eliminada numa ‘cidade circular’, a qual se caracteriza por estimular “a utilização de sistemas que procuram beneficiar os cidadãos em termos económicos, sociais e ambientais, melhorando a sua qualidade de vida”. Esta cidade incorpora assim “os princípios de uma economia circular em todas as suas funções, estabelecendo um sistema urbano que é regenerativo e restaurador”. E é com esta ideia como pano de fundo que muitos centros urbanos já estão a adoptar estratégias que lhes permitem ser mais eficientes.


Da construção à tecnologia, as oportunidades são inúmeras

As oportunidades que a economia circular oferece – e que se afiguram como necessidades – são variadas e existem já a diversos níveis.

A primeira passa desde logo pela inovação no sector da construção, no qual os materiais utilizados em alguns edifícios podem ser reaproveitados e conservados para utilização futura. Esta é uma necessidade que aumenta à medida que também se torna urgente alojar o número crescente de pessoas que vivem nas cidades. De acordo com o documento, o sector da construção precisa de abandonar os métodos tradicionais, que são bastante prejudiciais para a atmosfera, para a saúde e para a economia, inovando na abordagem, nos materiais (que deverão ser mais amigos do planeta), na construção e na manutenção dos edifícios.

Aproveitar materiais provenientes de imóveis demolidos, recorrer a impressões em 3D e procurar produtos pré-fabricados, optando ainda pela construção de edifícios modulares – os quais podem ter diversas funções ao longo da “vida” – são algumas estratégias que os construtores podem adoptar, prolongando, por um lado, o tempo de vida dos materiais e optimizando, por outro, a utilização do espaço, de modo a que os edifícios possam ser mais tarde reutilizados para fins totalmente diferentes, o que evita a sua demolição e o consequente desperdício dos materiais.

A área rural de Lolland, na Dinamarca, é um exemplo de que esta não é uma ideia utópica e que pode ser posta em prática. Trata-se de uma zona que tem uma grande quantidade de população idosa e cujos edifícios vão ficando desabitados com o passar do tempo. Ao invés de simplesmente demolirem os imóveis devolutos e destruírem tudo o que estes continham, o Lendager Group – uma organização especializada na promoção da economia circular nas cidades – em conjunto com o governo daquela região – optou por fazê-lo de uma forma mais responsável, criando um plano de aproveitamento de todos os materiais que, estando em perfeito estado, podem ser utilizados em futuros edifícios. A utilização de tijolo antigo em novos imóveis é uma das técnicas utilizadas neste tipo de construção. Esta acção de aproveitamento de materiais usados significa uma redução da pegada ecológica na ordem dos 70%, quando comparada com os tradicionais métodos de construção.

Com as alterações climáticas cresce também a necessidade de criar planos de recolha e de armazenamento de água. Esta é uma realidade vivida em diversas cidades um pouco por todo o planeta – como São Paulo, Los Angeles e Lima – e assume-se como uma das principais preocupações da ONU, já que se espera que, em 2030, cerca de metade da população sofra com difíceis períodos de escassez deste bem tão precioso. Neste sentido, e para evitar catástrofes ainda piores, o desafio passa por criar mecanismos que permitam, não só recolher e armazenar a maior quantidade possível de água (proveniente da chuva, por exemplo), como também filtrá-la e reutilizá-la vezes sem conta e através de mecanismos de energia limpa.

Em Tóquio, por exemplo, cada edifício já é obrigado a ter um tanque subterrâneo de armazenamento de água da chuva, que a direcciona para o sistema de saneamento, permitindo que esta seja utilizada pela população. Em Copenhaga, uma outra iniciativa promove a utilização da água da chuva em termos domésticos (nas casas de banho, por exemplo), sendo a sua recolha feita através de painéis que são colocados nos telhados das habitações.

Para além da água, é importante levar a lógica da economia circular à energia. No geral, as cidades produzem e gastam muita energia, sendo que na União Europeia os edifícios gastam mais energia que qualquer sector. Melhorar as infra-estruturas, repensando a forma como a energia é distribuída e consumida, é um passo necessário para que o consumo diminua. Neste sentido, algumas cidades europeias – como Munique, Barcelona e Frankfurt – já estão a implementar planos e estratégias que visam a transição para energias 100% renováveis.

Complementarmente, alguns estudos também sugerem que a utilização de veículos eléctricos irá diminuir bastante a utilização de energias fósseis, permitindo um corte acentuado na emissão de CO2 nas cidades, através de baterias inteligentes e economizadoras.

Terminar com o conceito de ‘fim de vida’ é um dos grandes objectivos da economia circular, mas este é bastante difícil de alcançar no que respeita a equipamentos electrónicos. Na realidade, as tecnologias de comunicação e informação evoluem de uma forma tão rápida que os equipamentos se tornam obsoletos em pouco tempo. Paralelamente, os custos de aquisição são tão baixos que são raras as pessoas que dispõem de apenas um objecto desta natureza.

Neste sentido, e já que não é possível desacelerar a inovação, é então necessário promover a reutilização e reciclagem de equipamentos (ou, pelo menos, de alguns dos seus componentes). É precisamente com foco na reciclagem e na reutilização que uma empresa do Reino Unido paga aos consumidores pelos equipamentos antigos, produzindo outros novos, os quais são utilizados em revenda, tanto no Reino Unido como na China, e em vários países emergentes. Uma outra iniciativa surgiu em Amesterdão, onde uma empresa criou um telemóvel composto por sete partes, em que cada uma pode ser reparada autonomamente sem que os utilizadores sejam forçados a abdicar de todo o aparelho; para além disso, ao invés de comprarem estes dispositivos, os consumidores pagam uma mensalidade, a qual lhes permite trocar as suas variadas componentes sem custos acrescidos, aumentando assim a longevidade de cada aparelho e a reutilização das suas peças.

Todavia, e como os incentivos que o mercado oferece não são suficientemente aliciantes para que as empresas reciclem e reutilizem equipamentos antigos, o documento revela que as cidades irão precisar de uma estratégia regulamentar que, tanto para os produtores como para os consumidores, evite que os ciclos de vida dos equipamentos sejam tão curtos.


Saúde, alimentação e tratamento de lixo

A saúde é um sector que pode beneficiar bastante com a economia circular, já que os produtos e serviços ficam mais acessíveis a toda a população. O modelo de negócio que encara o produto como um serviço, no qual os hospitais pagam pela sua utilização sem terem que o comprar, assume-se como um forte incentivo para que os produtores criem equipamentos mais inteligentes e reutilizáveis. Todavia, se este modelo já é comum nos países desenvolvidos, existe um longo caminho a percorrer no sentido de o levar para as nações em desenvolvimento.

Um exemplo de como é possível optimizar a utilização deste tipo de equipamentos é o da Intermountain Healthcare. Esta empresa já identificou cerca de 800 objectos (e que está a analisar mais 350), quase todos de plástico e metal, em especialidades como a cirurgia, a ortopedia e a cardiologia, que até então eram utilizados apenas uma vez e que, através da esterilização e outras técnicas inovadoras, podem agora servir para mais 20 utilizações antes de serem enviados para a reciclagem.

Uma outra forma de tornar o sector da saúde mais ‘circular’ é promovendo a reciclagem e reutilização de medicamentos. De acordo com o documento, muitos medicamentos que estão fora do prazo são deitados, pela população, nos seus lixos domésticos, correndo o risco de contaminar o solo e a água. Reciclá-los e voltar a colocá-los à venda no mercado irá não só diminuir os seus custos (sendo substancialmente mais baixos do que produzir novos medicamentos), como também o risco de contaminação do ambiente.

Mas este processo de reutilização de medicamentos não tem que ser feito com base em tecnologias de ponta. Um exemplo é o de uma ONG indiana que teve uma ideia relativamente simples: sob a supervisão de um farmacêutico, os cidadãos são convidados a depositar os medicamentos que já não usam mas que estão dentro da validade e em bom estado, sendo estes posteriormente entregues a idosos que estão em casa e não têm capacidade financeira para os pagar. Esta é, assim, uma forma mais rudimentar mas igualmente importante de evitar o desperdício na saúde.

No que respeita à alimentação, os procedimentos tornam-se mais difíceis porque os alimentos são perecíveis e não podem estar armazenados durante muito tempo. Todavia, e dada a quantidade de água e energia que é necessária para a produção de alimentos, é preciso fazer alguma coisa para evitar que tantas toneladas de frutas e legumes sejam desperdiçadas, muitas vezes apenas porque não correspondem aos padrões das empresas ou porque não foram vendidas pelas lojas. Para inverter este ciclo de desperdício, em 2016 o governo francês começou a exigir aos supermercados que doassem os seus excedentes, ao invés de os deitarem no lixo, tendo recentemente levado esta lógica também para os restaurantes, a qual foi pioneira em Portugal com a iniciativa Zero Desperdício.

Paralelamente, o lixo orgânico também pode e deve ser aproveitado, para o bem de todos nós. Em São Francisco, por exemplo, são distribuídas 600 toneladas por dia de composto orgânico pelos agricultores e jardineiros locais e, em Adelaide (na Austrália), 70% do lixo orgânico é transformado em compostagem.

Uma outra solução, talvez ligeiramente mais ‘fora da caixa’ está a ser desenvolvida no estado do Michigan, nos Estados Unidos. Uma empresa – a Local Loop Farms – combina a aquacultura com a hidroponia (uma técnica de cultivo de plantas sem solo), utilizando o desperdício alimentar da população para a cultura de insectos que serão, posteriormente, utilizados para alimentar peixes, os quais serão consumidos pelos seres humanos. As tecnologias utilizadas permitem, por um lado, eliminar o conceito de ‘fim de vida’, já que se trata de um autêntico ciclo (alimentos-desperdícios-alimentos) e, por outro, reduzir a utilização de água em cerca de 90%.

O plástico é, talvez, um dos maiores pesadelos da actualidade. De acordo com o documento, mais de 40 anos após a criação do símbolo da reciclagem, apenas 14% do plástico de embalagem é reciclado, prejudicando a economia em cerca de 80 a 120 mil milhões de dólares anualmente. Os esforços até agora feitos parecem não ter os resultados esperados e necessários para que o desperdício de plástico deixe de ser um problema. Mudar as mentalidades é urgente e incentivar a aquisição de embalagens reutilizáveis – aumentando a sua qualidade e durabilidade – é fundamental para que esta transição seja feita.

E esta mudança de mentalidades não deve ser feita apenas ao nível doméstico mas também industrial. Um exemplo de como isso é possível é o da MacRebur, uma startup escocesa que produz asfalto com base em plástico desperdiçado, garantindo que este é 60% mais forte que o asfalto tradicional e, por esse motivo, uma boa alternativa.

É importante ultrapassar as inevitáveis barreiras

Se tudo isto faz todo o sentido, a verdade é que existem barreiras de diversa natureza, às quais não é possível virar costas. As barreiras financeiras são as primeiras e, provavelmente, as mais determinantes. A longo prazo, a economia circular oferece inúmeros benefícios mas é preciso ter em conta que os custos da transição são elevados, sendo necessários investimentos em novas tecnologias, equipamentos e formação. Também o preço dos produtos – que compensa ao fim de algum tempo – é inicialmente mais elevado.

As barreiras institucionais também são referidas no documento, e passam pela inflexibilidade das estruturas regulatórias, as quais limitam os processos e restringem a inovação. Complementarmente, esta transição – que na teoria precisa do esforço de todos, e principalmente do apoio do sector privado – acaba por ser da responsabilidade dos organismos públicos que gerem as cidades e que têm pouca margem de manobra para responder a todas as necessidades.

As barreiras sociais assumem-se como outro grande problema. A resistência à mudança e o facto de esta transição não ser considerada urgente são os principais entraves. Complementarmente, o documento revela que, para os consumidores e por uma questão de status social, comprar produtos novos é mais aliciante do que alugar, reparar ou adquirir produtos em segunda mão.

Por fim, as barreiras técnicas são igualmente consideradas no documento. A falta de métricas para medir os processos de transição para a economia circular, o facto de a informação estar dispersa e não promover a colaboração entre todos os intervenientes no fabrico dos produtos e os baixos incentivos à criação de equipamentos mais inteligentes e duradouros são alguns dos maiores impedimentos referidos no documento.

Independentemente do sector ou do tipo de mudança que é necessário fazer, os líderes das cidades assumem um papel fundamental no que respeita ao desenvolvimento de estratégias que têm o objectivo de tornar os centros urbanos mais sustentáveis. Todavia, este é um esforço que tem que ser conjunto, cabendo a todos – cidadãos, líderes e sociedade civil – adoptar uma atitude mais ‘circular’. É nas cidades que esta transição deve ser feita com maior urgência. Ao trabalharem para acelerarem esta transição, os centros urbanos têm o privilégio de alcançar a sustentabilidade e minimizar o impacto social, económico e ambiental provocado pelo modo de extrair, consumir e eliminar os recursos, transformando o fim de vida em novas oportunidades para todos.

O futuro deve ser circular e conceitos como reciclar, reutilizar, regenerar e reaproveitar devem, de forma crescente, fazer parte do quotidiano de todos os cidadãos.