“A força de sermos frágeis” foi a temática escolhida pela ACEGE para reiniciar, na passada semana, o seu ciclo de conferências online “Construir a esperança na crise”. Tendo como convidado o bispo de Setúbal, D. José Ornelas, o também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa centrou a sua intervenção na importância de reflectir as realidades da economia, das finanças e do trabalho à luz da mensagem cristã, questão que considera fundamental particularmente nos tempos de sombras em que vivemos
POR HELENA OLIVEIRA

Começando por recordar que, na sua própria realidade, é igualmente confrontado com temas económicos e que, enquanto bispo, é extremamente importante escutar a voz dos empresários, dos trabalhadores e dos que gerem a sociedade “pois isso lança não só desafios à mensagem cristã” como contribui para que “a linguagem se torne mais comum e conectada”. Como refere, “se é verdade que é necessário defender a vida e a saúde em primeiro lugar, por outro lado esta defesa tem de ser coordenada com todos os outros elementos que fazem parte da vida, como o relançamento da economia, da sua dimensão e, é claro, da esperança”, acrescentando ainda que como “a palavra de Deus e a sua presença no mundo passa através de nós, os desafios que vivemos tocam a todos e só com a colaboração conjunta é que seremos capazes de os enfrentar”.

O presidente da Conferência Episcopal recordou ainda os tempos, que agora nos parecem já longínquos, em que “parecia que não tínhamos tempo para nada, porque tudo estava focado no trabalho”, até ao aparecimento da pandemia que nos veio interromper a todos e que nos deixou, subitamente, sem esse “correr para”, ao mesmo tempo que se tentava encontrar caminhos para preparar o futuro, julgando, erroneamente, que este interregno seria breve e que iríamos voltar à normalidade. Para o bispo de Setúbal, o que é importante é ter a noção de que não se vai voltar ao passado, mas que também “não é verdade que tudo vai ser novo, porque as necessidades continuam a ser as mesmas, mas que existe realmente, a necessidade de se repensar os modelos mediante os quais tudo era feito”.

Referindo-se à recente encíclica publicada pelo Papa Francisco, a qual considera que será “um um documento de referência e reflexão para se criar “uma cultura para uma economia nova, mais humanizada” e que, como afirma Francisco, “esteja ao serviço do Homem e da humanidade” e não “a selva onde vamos lutando uns contra os outros”.

Começando por nomear o primeiro capítulo de Fratelli Tutti, no qual o Papa sublinha “as nuvens muito escuras que pairam sobre a humanidade”, “o progresso envenenado”, os “sonhos desfeitos”, não só dos mais novos, como dos mais idosos. D. José faz igualmente eco das palavras de Francisco quando este afirma que esta pandemia veio pôr a lume muitas destas situações, “as quais pareciam adormecidas”, mas que acabaram por pôr a nu, mas nossas sociedades ocidentais, “as diferenças entre aquelas que muito têm e os que nada têm”, dando ainda como exemplo o “escândalo” divulgado já na comunicação social de que “as grandes fortunas aumentaram milhares de milhões de euros durante estes meses de pandemia”. E adicionalmente, a pandemia revelou também, a nível empresarial, “os problemas estruturais de grandes e pequenas empresas, a sua falta de solidez, de previsão e formação”, o mesmo acontecendo, por exemplo, com a falta de preparação dos serviços de saúde, em toda a Europa, o que nos obrigou a reverter as nossas expectativas e também a reconsiderar o investimento que neles fazemos.

Relembrando que a pergunta feita pelo Papa – “será que aprendemos algumas lições [depois destes meses]?” – é também a que é feita por todos nós, cita ainda, e em contraponto, a existência de cenários de esperança expressos na sua mais recente encíclica: “A recente pandemia permitiu-nos recuperar e valorizar tantos companheiros e companheiras de viagem que, no medo, reagiram dando a própria vida. Fomos capazes de reconhecer como as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns que, sem dúvida, escreveram os acontecimentos decisivos da nossa história compartilhada: médicos, enfermeiros e enfermeiras, farmacêuticos, empregados dos supermercados, pessoal de limpeza, cuidadores, transportadores, homens e mulheres que trabalham para fornecer serviços essenciais e de segurança, voluntários, sacerdotes, religiosas… compreenderam que ninguém se salva sozinho.[51]”.

O bispo de Setúbal refere ainda que alguns sinais dados pela Europa neste contexto de pandemia poderão despertar novamente os “caminhos que se podem percorrer em conjunto”, não só na dimensão económica, mas também no campo social, das relações e dos cuidados, “os quais se mostram determinantes para o futuro”.

Outro sinal positivo, e no que respeita à dimensão económica, foi a “reconversão das empresas e serviços, muito assente na criatividade”, sublinha: as empresas perceberam – sendo essa também uma das suas funções – que existiam novas necessidades e que era preciso dar-lhes uma resposta, não tendo esta nada a ver com voluntariado. “É a justa dimensão de uma empresa, que tem de se auto-manter e aproveitar as ocasiões para se desenvolver, respondendo às necessidades do país – e foram muitas as que o fizeram, seja ao nível dos equipamentos de protecção que foram criados ou à importante conjugação entre a ciência e o meio empresarial para se encontrar novas respostas”. Para D. José Ornelas, “esta resposta foi fundamental, gerando muita esperança”.

Positivos foram igualmente os apoios dos governos, no ambiente europeu, para salvar empresas e garantir emprego, os auxílios às famílias, o facto de, até os imigrantes, muitos deles sem situação regularizada, terem acesso aos serviços, “o que também foi fundamental para não termos maiores focos de contaminação”. Outro tema fundamental foi também a valorização da família que, por um lado, “nos fez perceber que era o nosso local de refúgio, onde nos sentíamos seguros”, mas que também chamou a atenção para “o exacerbar dos conflitos familiares em alguns contextos”

D. José Ornelas sublinhou igualmente a extrema importância das “redes de carácter social, local e das instituições de caridade”, as quais tiveram de enfrentar também, a juntar às já existentes, o aumento das necessidades” acrescentando igualmente que, concretamente na península de Setúbal, o número de pessoas que pedem auxilio regular não tem parado de aumentar. Um dado positivo foi o aumento da participação dos jovens numa altura em que era mais difícil e perigoso para as pessoas com mais idade estarem à frente de determinados serviços, nomeadamente – e no interior das igrejas – nos serviços de acolhimento e nos que exigem um contacto mais directo com as pessoas ficando igualmente clara a noção de que “não se pode excluir pessoas nem grupos fragilizados”. Como referiu a este respeito, “uma sociedade moderna não se pode dar ao luxo de ter grupos de miséria no seu contexto” e tendo em conta a noção do barco onde todos estamos “ou nos salvamos todos ou o barco vai ao fundo”.

Em resumo, afirma o presidente da Conferência Episcopal, “toda esta situação fez-nos descer até ao realismo verdadeiro da economia, da função da economia. Foi muito interessante ver como, por exemplo, o sector agro-industrial funcionou e como isso foi importante para este país”. E, acrescenta, “ apesar de precisarmos de um sistema financeiro sólido, partir desta economia real, que gera empregos e dá mostras de criatividade se demonstra” é muito importante” no sentido de que “o sistema financeiro possa ser posto ao verdadeiro serviço da economia”.

As imagens da esperança

Na segunda parte da sua intervenção, D. José Ornelas cita algumas passagens da bíblia que, a seu ver, traduzem os seus próprios ideais de esperança e explicitam os motivos “porque somos todos trabalhadores”, optando por isso por escolher, em primeiro lugar, a imagem da criação, a qual nos ajuda a perceber “o que significa estar neste mundo, seja qual for a actividade que realizamos”.

Como afirma: “No primeiro capítulo, em que se relata que Deus criou o mundo em seis dias e ao sétimo dia descansou”, é de sublinhar que “Deus criou o homem no fim, como ponto de chegada de toda a criação” e que “tudo aquilo que Deus criou entregou-o ao Homem para o desenvolver”. Nas suas palavras, Deus quis, desta forma, “contar com o homem para melhorar este mundo”. Ou seja, “não nos apresentou o mundo já feito, dizendo antes ‘Eu criei tudo e agora está aqui, é o vosso mundo”.

Um relato que, que para o bispo de Setúbal, encerra duas questões importantes. Em primeiro lugar, a de que “o homem realiza-se na sua acção neste mundo à imagem de Deus, criador e senhor”. Em segundo, a ideia de que “Deus é Deus, o céu é Seu, mas a terra deu-a aos homens”, onde somos a sua imagem enquanto fazemos o que Deus faz”.

Num segundo texto, diz, “que é mais antigo, mais agrícola, o homem é formado do pó da terra, pertence a esta terra, mas tem o sopro divino”. De novo, afirma, “esta é, também, a nossa imagem da ligação com Deus, que nos diz que o homem não se esgota simplesmente nesta terra:  ‘limpou o jardim, e colocou lá o homem para o trabalhar e cuidar’”. E, para o bispo de Setúbal, “ é neste jardim e nesta terra que nos pertence que assenta a encíclica Laudato Si’, a qual não se refere apenas a uma questão de ecologia, mas fundamentalmente à humanização de toda a Terra, como um projecto de Deus”.

Para D. José Ornelas, este é o seu “primeiro sinal de esperança”, na medida em que explicita “as bases em que estamos neste mundo”, que nos permitem também compreender melhor as crises que o afectam, em particular e actualmente a pandemia em que vivemos, na medida em que “este mundo é sempre provisório e é a janela do nosso compromisso”.

A segunda imagem, diz, fala-nos exactamente da esperança. “É um texto que se costuma ler na missa da noite de Natal: “E no meio daquela noite de Inverno, o povo que andava nas trevas viu uma grande luz. Habitavam numa terra de sombras e guerras, mas uma luz brilhou para eles. O menino nasceu, um filho nos foi dado, o sinal da aliança de Deus connosco”.

Ou seja, e a seu ver, “a esperança não é por isso causada pelas circunstâncias, que podem ser melhores ou piores, mas sim pela confiança no cumprimento da palavra de Deus”.

Adicionalmente, o presidente da Conferência Episcopal recorda ainda que “foram os profetas que acreditaram, que ajudaram Israel a não se dispersar no meio dos povos” e “foram aqueles que se puseram a caminho porque tinham um sonho fundado na palavra de Deus e por isso caminharam e construíram”. E, acrescenta, “esse é o sonho que nós temos e que nos move”.

Desta forma, é necessário acreditar que o nosso sonho para o futuro “não pode ser causado pelas más impressões que levamos da pandemia, tendo de ter outras raízes”. “Nós temos uma missão nesta terra”, volta a sublinhar. “Eu tenho como bispo, um empresário tem como empresário, um pai ou uma mãe têm como pais, tal como o filho ou o estudante”. E é essa missão que temos de cumprir, “pois se todos o fizermos, este mundo pode mudar” e é por isso que é necessário criar “uma nova cultura que mude o mundo”.

Por último, D. José Ornelas fala ainda do milagre da multiplicação dos peixes, cujo significado, a seu ver, muitas vezes “não é entendido porque não perceberam o pão”. E, de acordo com a sua visão, “este aplica-se claramente à pandemia, e à visão económica, de uma família, de um país, do mundo”.

Como diz, “reparem que primeiro Jesus vê a multidão e sente compaixão dela, falando-lhes depois do seu ‘sonho’, do julgamento final”, sendo que”o sonho é muito importante porque vai explicar para que é que serve o pão”.

De seguida, continua, “os discípulos ficaram entusiasmados, mas perante a multidão que tinha de comer, disseram para Jesus os mandar embora, para que cada um se arranjasse, porque dar de comer não entrava no programa que tinham pensado”.

Ora, e sendo a “a fé uma coisa e a economia outra”, diz, “este divórcio é o primeiro pecado, quando a fé se descolou da economia, das necessidades, da multidão faminta”. E, acrescenta, “se eu não sinto a compaixão – e compaixão significa pedir a paixão do outro comigo – isto é, se a fome dele não se torna a minha fome, se o problema dele e a alegria dele não se tornar um problema meu e a minha alegra – se eu não sentir isso, então não tenho solução, não tenho esperança. Isto é, se há problemas, não basta ver o telejornal, é preciso encontrar solução para o problema”.

Dirigindo-se directamente à audiência que o escutava, D. José Ornelas faz também um apelo: “vocês que acreditam, têm uma responsabilidade para com a fome, vocês têm que ser gente que sente a fome dos outros e que encontra soluções para a fome a todos os níveis – a fome de educação, de cultura, a fome que é solidão”. A seu ver não basta analisar quanto vai custar ou, e dando o exemplo de Moçambique, esperar pelos dadores ou, e no caso particular de Portugal, esperar pelos subsídios da União Europeia. Ou seja, não vale a pena dizer apenas o que é preciso, “mas onde é possível colaborar, num verdadeiro empreendedorismo em prol da nossa missão”. E essa missão não pode ser virada para nós mesmos, mas sim “para saber como é que eu mato a fome, pois viemos para este mundo para ser parte da solução”.

De regresso ao milagre da multiplicação dos pães, “existiam cinco pães e dois peixes, o que matematicamente dá sete”. Sublinhando que os números na bíblia não significam apenas números, mas sim ideias e sendo o sete o número da totalidade, “o que tinham era uma totalidade repartida, diferente, mas era tudo o que eles tinham”. Assim, acrescenta, “quando uma comunidade, um país, põe aquilo que tem nas mãos de uma multidão, para matar a fome da multidão, não vai faltar o que é preciso”, diz, frisando que o que temos de ter em mente é que “ se a fome é de todos, também o pão tem de ser para todos”.

Devia ser assim também com o trabalho e os trabalhadores das empresas, afirma ainda. “Tudo deveria estar orientado para criar uma situação melhor, para matar a fome dos que precisam. Cada um de vocês está a matar a fome a muita gente, a muitas famílias. E isso é fundamental”, acrescentando também que “ninguém deve ter uma empresa simplesmente para ter lucro”.

Na visão do bispo de Setúbal, para que a sociedade tenha homens e mulheres válidos para amanhã, sejam engenheiros, gestores ou padres, é preciso agir. “Este é o fundamento da economia e o fundamento da esperança”, defende, alertando ainda que “não se cria esperança se permanecermos sentados pois a esperança é activa; é aquela que prepara o amanhã activamente, procurando caminhos”.

“E é nessa esperança que eu acredito, num caminho de sempre, sendo que o que vocês desenvolvem na ACEGE faz parte desta esperança”, remata.

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