Durante três dias, foram vários os especialistas internacionais em educação para a sustentabilidade que, em conjunto com mais de 70 oradores oriundos de 16 países, debateram, em Lisboa, a importância desta temática para um futuro cada vez mais incerto. Assegurar a existência de um planeta ambientalmente saudável, socialmente equitativo e economicamente justo dependerá, sobremaneira, da integração destas matérias em todos os currículos escolares. Do pré-escolar à universidade, sem qualquer excepção
POR HELENA OLIVEIRA

Apesar de podermos aprender com as experiências do passado para resolver os problemas do presente e do futuro, a realidade é que os cidadãos terão a tarefa de traçar o seu caminho no sentido da sustentabilidade. Assim, a educação é crucial para a aprendizagem e para um futuro mais sustentável.
(UNESCO, 2012)

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Decorreu em Lisboa, de 24 a 26 de Setembro último, uma conferência organizada pela The Learning Network Teacher, uma rede de profissionais da educação que tem como objectivo sensibilizar, formar e debater a importância da Educação para o Desenvolvimento Sustentável para o futuro dos cidadãos responsáveis e, por inerência, para o próprio futuro do planeta.

Mas o que é isso de educação para o desenvolvimento sustentável? Mais um conjunto de palavrões, difíceis de pronunciar, e que pouco ou nenhum conteúdo contêm? Lá chegaremos.

Entretanto e se o leitor tivesse estado presente na conferência em causa, depressa se esqueceria que Lisboa era a cidade anfitriã de tal evento. Tal como um conjunto de jovens um pouco indisciplinados, a audiência, constituída por professores, educadores, formadores, em conjunto com os oradores – na sua maioria, membros da UNESCO, a entidade responsável pela Década para a Educação Sustentável 2005-2014, proclamada pela ONU – trocavam impressões, experiências, risos e contactos, num estilo completamente diferente do cinzentismo próprio dos eventos a que estamos habituados.

Participantes portugueses? Não mais do que menos os dedos de uma mão. Órgãos da comunicação social? Nenhum. Responsáveis governamentais? O secretário de Estado da Educação e mais um conjunto de personalidades (?) políticas desconhecidas deram a cara, mas por momentos muito breves. Depois de um discurso sobre a importância da educação, o qual poderia ter sido retirado de um manual anacrónico do século passado – e em português sem tradução simultânea -, os senhores políticos, com agendas sobrecarregadas, com toda a certeza, e com muito mais que fazer do que ouvir falar sobre uma temática tão árida e tão pouco sexy, nem sequer tiveram a boa educação, não para a sustentabilidade, mas aquela que nos ensinam em casa, para esperar pela palestra de Alexander Leicht, um dos principais responsáveis da UNESCO no que a esta temática diz respeito, ou pelo discurso de Magnus Persson, o coordenador da rede que organizou o evento.

Não, este não é um tema que figure nem na agenda dos políticos, nem na agenda da comunicação social, todos eles preocupados com assuntos muito mais importantes e mediáticos. Afinal, e para se ficar bem na fotografia, basta citar a famosa frase de Nelson Mandela “A Educação é a mais poderosa arma para mudar o mundo” e fica-se de consciência tranquila e com o sentimento único de “missão cumprida!” E agora adeus, que se faz tarde, porque nós temos de decidir o futuro do país.

Se os enviados políticos a esta conferência tivessem, ao menos, esperado pelos dois discursos de abertura da conferência, o de Alexander Leicht e o de Magnus Persson, entrevistado para esta edição especial – talvez tivessem aprendido alguma coisa de útil para o presente e para o futuro do país. E ficariam a saber que a educação para o desenvolvimento sustentável (EDS) é uma temática de importância, preocupação e reconhecimento crescentes a nível internacional, europeu , nacional e local, mesmo que a UE não esteja a cumprir com os objectivos que subscreveu, como também damos conta nesta newsletter.

Se todos nós sabemos que, independentemente do país ou da cultura em causa, a educação e a formação constituem os principais ingredientes para se reorientar e construir conhecimento e, neste caso em particular, para a devida compreensão e acção a caminho de um futuro sustentável, a verdade é que muito há ainda para trilhar para colocar esta “educação para o futuro” nas agendas dos decisores.

De acordo com esta nova agenda para a educação, a EDS visa disponibilizar, a qualquer pessoa, os conhecimentos, competências, atitudes e valores necessários para moldar um futuro sustentável. Ou, na prática, a EDS permite incluir questões cruciais do desenvolvimento sustentável na aprendizagem e no ensino. E a conferência em causa permitiu abordar as perspectivas ecológicas, económicas e sociais que são inerentes à educação para o desenvolvimento sustentável.

Com vários especialistas internacionais, em conjunto com sessões paralelas de palestras, workshops e apresentações de casos reais que já estão a ser implementados em muitas escolas europeias, a conferência contou com 40 sessões diversificadas e 70 oradores oriundos de 16 países. O VER partilha, de seguida, a sua visão sobre os principais resultados desta conferência.

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Os novos embaixadores da educação para o século XXI
A Estratégia para o Desenvolvimento Sustentável da União Europeia foi abordada, pela primeira vez, em Gotemburgo e revista subsequentemente em 2006 e 2009. Esta Estratégia oferece um enquadramento de longo prazo para a tão falada sustentabilidade, e consagra, num dos seus capítulos, a educação como pré-requisito para a promoção de mudanças comportamentais, imprescindíveis para que todos os cidadãos possam compreender que o mundo que temos hoje é completamente diferente do que aquele que conhecíamos há 20 anos e que só com acções globais poderemos travar a sua lenta, mas contínua, degradação.

Alexander Leicht, um dos responsáveis pela Secção de Educação da UNESCO, foi um dos poucos especialistas em educação para a sustentabilidade que se absteve de acusar a falta de empenho da União Europeia, em particular, para a devida integração das matérias e desafios da sustentabilidade nos currículos educativos.

A Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável 2005-2014 (v. caixa), proclamada pela ONU em 2002, está a um ano de terminar mas, para Leicht, a EDS está, finalmente, “a ganhar momentum”. Leicht citou exemplos de países como o Japão, o qual já incluiu, formalmente, a EDS nos seus currículos escolares nacionais ou Omã, que integrou os valores e os princípios do desenvolvimento sustentável nos programas da escola primária e secundária em disciplinas como Competências para a Vida, Ciências e Estudos Sociais. Um outro bom exemplo vem do Canadá, cujo ministro da Educação incluiu a EDS na sua declaração de missão.

No que respeita aos países europeus, até agora, só a Suécia está obrigada, por lei, a ensinar desenvolvimento sustentável nas universidades. O governo escocês, por seu turno, prometeu publicamente que, até 2014, os seus cidadãos terão já desenvolvido os conhecimentos, competências e valores necessários para viverem vidas mais sustentáveis.

O responsável da UNESCO referiu também, como iniciativas de sucesso, o facto de mais de 20 mil adolescentes, em 100 países, terem tido acesso a um programa online e gratuito, concebido para ser utilizado em salas de aula, que trata apenas das questões da sustentabilidade, e que foi desenvolvido pelo Young Masters Programme on Sustainable Development (YMP), na Suécia. Também a iniciativa brasileira “Seeds of Spring” chegou a cerca de 12 700 estudantes, em 124 escolas do município brasileiro de Osasco (Estado de S. Paulo), tornando-os “agentes da mudança nas suas vidas, escolas e comunidades”. Adicionalmente, a Comissão Alemã da UNESCO já designou mais de 1600 projectos como “oficiais” no âmbito da Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável. E o Centro para a Educação Ambiental foi responsável, na Índia, pela campanha “CO2 Pick Right”, que se centra nas alterações climáticas e na mudança das escolhas de vida individuais e que abarcou mais de 70 mil escolas.

Alexander Leicht sumarizou ainda os principais avanços e estratégias da UNESCO nesta chamada de acção global e elencou os objectivos para o futuro próximo.

Na segunda fase da DESD, sublinhou, os esforços foram concentrados em três áreas fundamentais – a educação para as alterações climáticas, a redução de risco dos desastres nutrais e a biodiversidade, com um vasto conjunto de materiais educativos (de ensino e aprendizagem) a serem partilhados pela rede global de Escolas Associadas da UNESCO, que reúne 9566 instituições educativas em 180 países. Leicht recordou ainda que a UNESCO, em conjunto com o governo do Japão, está a preparar a Conferência Mundial sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável, a ter lugar em Nagoya, em 2014 e que marca o final da Década. Adicionalmente, o responsável da UNESCO falou ainda do denominado Programa de Acção Global para a EDS, o qual virá a substituir a Década e servirá de follow up das estratégias realizadas até agora pelas Nações Unidas, pelos países subscritores, pelas várias agências internacionais (a UNESCO tem estado a trabalhar nesta matéria em parceria com 22 agências pertencentes ao sistema das Nações Unidas) e por outros stakeholders.

Este Programa de Acção estabeleceu já, para o futuro próximo, cinco áreas de acção por excelência: ao nível político, a integração da EDS nas estratégias nacionais e internacionais de políticas educativas, em parceria com os ministérios da Educação dos diferentes países; a alteração dos ambientes de ensino e aprendizagem, abarcando todos os níveis educativos, em que as escolas e as universidades deverão privilegiar parcerias não só com as comunidades, mas também com as empresas, na medida em que estas têm um papel importantíssimo no estabelecimento de modelos de desenvolvimento sustentável; um terceiro enfoque, tendo como “alvos” específicos os educadores (os quais precisam de “aprender” para “ensinar”)e uma desejável alteração – ou uma quase revolução – educativa, transformando os profissionais da educação formal e não informal em facilitadores para esta transição; conferir poder e sensibilizar os jovens para o seu papel de liderança nesta revolução educativa e, por último, trabalhar em conjunto com as comunidades locais para acelerar a implementação de soluções eficazes e inovadoras que vão ao encontro dos desafios do desenvolvimento sustentável. Uma agenda ambiciosa, sem dúvida, mas que só com alterações drásticas de atitude, principalmente por parte dos decisores políticos, poderá chegar a bom porto.

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“Temos um destino comum”
Num registo mais emotivo e, sobretudo, inspirador, foi a palestra de Akpezi Ogbuigwe, a nigeriana que, até Junho de 2010, presidiu aos destinos do Programa de Educação e Formação Ambiental da UNEP, coordenou o programa de Mainstreaming Environment and Sustainability in African Universities (MESA) e o movimento de estudantes “Sustainability Generation”. Actualmente em licença sabática, durante a qual se dedica exclusivamente à pesquisa, Ogbuigwe começou por questionar “como é possível educar para algo que não se compreende na totalidade?”. A questão é mais do que pertinente, na medida em que o conceito de desenvolvimento sustentável parece estar mais do que “esgotado” em termos teóricos, mas continua a ser ignorado na prática ou, pior ainda, a ser considerado como um “ideal” optimista que nunca será alcançado.

“Todos precisamos de compreender como é possível movermo-nos para uma educação pró-ambiente, pró-respeito pelo mundo em que habitamos e pró-responsabilidade pelas acções que nele cometemos”, afirmou Ogbuigwe. A também advogada nigeriana recordou a sua infância, passada numa pequena aldeia da Nigéria, na qual “as crianças eram criadas por toda a comunidade” e onde aprendeu, enquanto valores para a vida, como respeitar os vizinhos, os mais pobres, ou os que sofriam de alguma deficiência. “Enquanto mulher africana e praticante da educação para o desenvolvimento sustentável, herdei os valores da compaixão, da integridade, da responsabilidade, da família, da comunidade e do respeito pelo ambiente que me circundava”, afirmou, acrescentando que, na sua “versão mais simples”, estes são os princípios basilares de qualquer estratégia de sustentabilidade.

Nesta nova abordagem educativa, o desenvolvimento sustentável só pode ser atingido, de acordo com Ogbuigwe, com a partilha de conhecimentos e com acções contínuas que espelhem a integração dos aspectos ambientais, sociais, culturais e políticos em todas as práticas do quotidiano.

Enumerando os valores da EDS – o respeito pela dignidade e direitos humanos, o compromisso face às gerações futuras e às comunidades em que nos movemos, em conjunto com o respeito pela diversidade cultural e pela paz e tolerância – Ogbuigwe acredita que a iniciativa da ONU sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável constitui uma “plataforma de esperança”, que tem em conta o défice ecológico do Planeta, a necessária solidariedade intergeracional e os valores da responsabilidade e integridade.

A especialista em educação sustentável afirmou ainda que o mundo tem de ser visto como um “abrigo” e que esta é altura certa para os humanos escolherem o futuro que pretendem ter. “Temos um destino comum”, sublinhou, e apesar de a educação ter um papel principal para o futuro deste destino, não basta partilhar conhecimento, mas “reorientar a sociedade para práticas sustentáveis”. Só assim podermos assegurar à nossa descendência que “é possível herdar um planeta ambientalmente saudável, socialmente equitativo e economicamente justo”. E, termina Ogbuigwe, por que não treinar para a paz em vez de se treinar para a guerra?

 

O que precisa saber sobre a educação para a sustentabilidade
  • Em Dezembro de 2002, as Nações Unidas comprometeram-se a realizar uma tarefa ambiciosa: a declaração da Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (DESD, 2005-2014), nomeando a UNESCO como a agência líder na sua implementação.

 

  • A DESD tem como objectivo a promoção de uma mundo mais sustentável através de formas diferentes de educação, formação e actividades que contribuam para a consciencialização do público em geral para a sua importância, constituindo igualmente uma oportunidade para se repensar consideravelmente as abordagens actuais face aos desafios globais. A UNESCO ficou igualmente responsável pela publicação de três relatórios sobre a Década, em 2009, 2012 e 2014, utilizando metodologias e indicadores relevantes para a avaliação dos seus resultados.

 

  • A DESD está a trabalhar no sentido de fornecer aos países a oportunidade de incorporarem a Educação para o Desenvolvimento Sustentável nas suas reformas educativas, as quais possam contribuir, em simultâneo, para o Desenvolvimento Sustentável e para a qualidade da educação através de redes facilitadoras, ligações, troca e interacção entre diversos stakeholders da EDS; estimular uma melhoria na qualidade do ensino, aprendizagem, investigação e construção de competências em EDS; ajudar os países a atingirem os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio e a oferta de EDS como um conceito abrangente para temáticas emergentes na educação (como por exemplo alterações climáticas, cidadania, consumo responsável, etc).

 

  • A Educação para o Desenvolvimento Sustentável é, desta forma, o melhor meio para orientar as crianças – e também os jovens adultos – a respeitarem o mundo em que vivem e a compreender que as oportunidades e os recursos não são ilimitados. Através da EDS, o conhecimento, as competências e a responsabilidade social são partilhados de forma a assegurar que as crianças se tornem agentes activos e cuidadores do seu próprio futuro e que se transformem em cidadãos conscientes e despertos.

 

  • Inserir questões-chave do desenvolvimento sustentável nos currículos escolares – de que são exemplo as alterações climáticas, a biodiversidade, a redução da pobreza ou o consumo responsável – exige métodos participativos de ensino e aprendizagem que motivem e estimulem os alunos a alterar o seu comportamento e a agir em prol de um verdadeiro desenvolvimento sustentável.

 

  • Consequentemente, a EDS promove competências únicas como o pensamento crítico, a imaginação de cenários futuros e a tomada de decisões de uma forma colaborativa e informada, possibilitando, a educadores e educandos, a partilha de experiências que criam sentimentos de coesão, empatia, tolerância e uma interacção social construtiva. Adicionalmente, esta aposta educativa fomenta o desenvolvimento pessoal, o envolvimento na comunidade e uma linha de acção para a mudança no universo humano e natural em que nos posicionamos.