Os alertas chegam de todo o lado e teme-se que os efeitos nefastos no bem-estar psicológico decorrentes da pandemia possam vir a transformar-se num flagelo de proporções gigantescas e com consequências ainda por imaginar. Em Portugal, foi agora publicado o primeiro estudo que avaliou o impacto da crise pandémica na saúde mental e bem-estar na população em geral, e nos profissionais de saúde em particular, com resultados preocupantes: 34% e 45% dos inquiridos, respectivamente, apresentavam sinais de sofrimento psicológico. Um fenómeno que não se circunscreve ao nosso país e ao qual não têm sido dadas respostas adequadas, muito pelo contrário
POR HELENA OLIVEIRA

Oficialmente publicado no passado dia 15 de Janeiro, o estudo “Saúde Mental em Tempos de Pandemia”, coordenado pelo Departamento de Promoção da Saúde e Prevenção de Doenças Não Transmissíveis do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), inquiriu 3982 indivíduos da população geral (continente e ilhas) e 2097 profissionais de saúde com actividade em território português, entre Maio e Agosto do ano passado, com o objectivo de avaliar o impacto da pandemia na sua saúde mental e bem-estar.

Na medida em que se multiplicam os estudos que comprovam que os “tempos de pandemia” estão a ter um impacto significativo na saúde global das populações e, em particular, na sua saúde mental, o relatório em causa avaliou os níveis de bem-estar psicológico, ansiedade, depressão, perturbação de stress pós-traumático, burnout e resiliência de ambas as populações enunciadas. E uma das conclusões sublinhadas pelo estudo aponta para que, e no decurso dos 15 dias anteriores à participação no mesmo, 34% dos inquiridos da população geral e 45% dos profissionais de saúde apresentavam sinais de sofrimento psicológico.

Como contextualiza o estudo, os principais gatilhos para a emergência de problemas psicológicos, ou para o agudizar de sintomas preexistentes, não advêm apenas das consequências directas da infecção viral, mas também das alterações sociais e económicas que resultam em grande parte das medidas adoptadas para controlar a disseminação do vírus nas comunidades. Um outro dado resultante do estudo indica que são sobretudo “as mulheres, os inquiridos entre os 18 e os 29 anos, os desempregados e os indivíduos com mais baixo rendimento quem apresenta mais frequentemente sintomas de sofrimento psicológico moderado a grave, ansiedade, depressão ou perturbação de stress pós-traumático”. E não é possível esquecer que o estudo abrange apenas os primeiros meses da pandemia (a recolha de dados decorreu entre os dias 22 de Maio e 20 de Julho e entre 23 de Julho e 14 de Agosto de 2020) deixando de fora sequelas significativas relacionadas com o tempo de duração da mesma, a juntar à brutalidade psicológica, e económica e social, a que temos sido expostos nesta terceira vaga.

Numa entrevista ao Expresso, Osvaldo Santos, psicólogo e investigador, e um dos autores do estudo do INSA, foi questionado sobre se existe “capacidade de habituação” face a uma crise que já dura há quase um ano e tendo já em conta o novo confinamento. E se tal depende, em muito, da resiliência de cada um, o investigador sublinha que as questões financeiras, em conjunto com a incerteza, intensificam o sofrimento psicológico. Como afirma, “por mais adaptado que se esteja ao confinamento, se a situação financeira, assim como o contexto familiar e social, não forem bons, o impacto psicológico será significativo”. Como indica igualmente o estudo, a “dificuldade na conciliação trabalho-família, a preocupação com a manutenção do trabalho ou preservação do rendimento, a percepção de menos apoio social ou familiar e a preocupação relativamente ao futuro são determinantes relevantes de problemas de saúde mental na população geral”. Assim, não é de todo surpreendente que 27% dos inquiridos da população geral tenham indicado sintomas moderados a graves de ansiedade, 26% sintomas de depressão e 26% sintomas de perturbação de stress pós-traumático.

Relativamente aos profissionais de saúde auscultados, os resultados são ainda mais preocupantes, na medida em que mostram taxas mais elevadas de problemas de saúde mental comparativamente à população em geral. O estudo demonstra que os mais afectados são os que estão a tratar doentes com Covid-19, com um risco de sofrimento psicológico 2,5 vezes superior aos que não estão a tratar esses mesmos doentes. E é também neste grupo que os níveis de burnout (exaustão física e emocional) são mais elevados, atingindo os 43%. Ao longo das últimas semanas, e com o agravamento violento do número de casos e de mortes, a par do “estado de catástrofe” que caracteriza o Serviço Nacional de Saúde (SNS), têm sido inúmeros os relatos de desespero proferidos pelos profissionais de saúde, o que leva a estimar que estes valores estejam muito aquém dos resultados obtidos no período analisado por este estudo agora publicado.

E, obviamente, o fenómeno não se circunscreve ao nosso país, com a inexistência de respostas adequadas por parte dos psicólogos (sem qualquer culpa) – algo a que os governos não têm dado a atenção que se impõe – a contribuir ainda mais para a exacerbação do problema. Na verdade, um recente inquérito da OMS constatou que a pandemia perturbou ou “travou” os serviços de saúde mental críticos em 93% dos países em todo o mundo. E embora todos tenham sentido, de alguma forma, o impacto psicológico da pandemia, muitos trabalhadores da saúde têm estado diariamente expostos a traumas perturbadores, necessitando de apoio extra para lidarem com as situações-limite a que têm estado expostos. A título de exemplo, um outro inquérito realizado pela Mental Health America (MHA) em Setembro último revela que 93% dos trabalhadores da saúde estavam a sofrer de stress, 86% referiram sentir ansiedade, 76% indicaram sintomas de exaustão e esgotamento e 75% afirmaram estar “sufocados e esmagados”.

Assim, e para os autores do estudo em Portugal, os resultados alcançados (e tendo mais uma vez em conta que os mesmos se referem ao período que antecede a vaga que estamos agora a viver e com o segundo momento de avaliação a ter tido lugar no Verão, altura em que as medidas restritivas foram abrandadas e que os casos de infecção sofreram uma diminuição) demonstram uma “necessidade urgente para a elaboração de recomendações que visem mitigar os problemas de saúde mental e promover o bem-estar psicológico em tempos de pandemia”. Algo que, e com a situação caótica em que o país está mergulhado, parece crescentemente improvável ou até mesmo impossível. No entanto, e como é igualmente alertado no estudo “apesar de a pandemia ser, num primeiro nível, uma crise de saúde física e uma crise socioeconómica, no caso de não serem implementadas medidas em tempo útil, poderá vir a tornar-se uma grave crise de saúde mental”.

O que a História já nos ensinou

O facto de estarmos atentos a pandemias passadas pode ajudar-nos a compreender aquela com a qual vivemos no presente. Uma recente revisão académica (de mais de três mil papers) realizada pela The Lancet e com enfoque particular em pessoas que foram colocadas em quarentena/confinamento como resultado de outros surtos de doenças como o Ébola, a SRA e a gripe suína, concluiu que os estados de isolamento provocam, sem dúvida, uma série de efeitos psicológicos nocivos. Um resultado é o medo e a ansiedade que podem aumentar devido às inquietações relacionadas com a transmissão e contágio do vírus, em conjunto com preocupações sobre os efeitos sanitários, sociais e económicos da pandemia. Esta revisão académica sublinha igualmente sentimentos de raiva e frustração perante as políticas e medidas em mutação que afectam a vida quotidiana, bem como sentimentos de falta de controlo.

“Historicamente, os efeitos adversos das catástrofes na saúde mental afectam mais pessoas e duram muito mais tempo do que os efeitos na saúde”, explica à BBC Joshua C Morganstein, director assistente do Centro para o Estudo do Stress Traumático em Maryland, nos EUA. “E se a história é preditiva, deveremos esperar um aumento significativo de impactos na saúde mental que continuarão muito depois de o surto infeccioso se resolver”, acrescenta.

Steven Taylor, autor do livro The Psychology of Pandemics, e professor de psiquiatria na Universidade de British Columbia, argumenta também que “para uma infeliz minoria de pessoas, talvez 10 a 15%, a vida não voltará ao normal”, devido ao impacto da pandemia no seu bem-estar mental.

Quanto às questões de saúde mental ligadas à pandemia de Covid-19 que mais provavelmente terão uma duração de longo prazo, os psicólogos acreditam que a perturbação obsessivo-compulsiva (POC) pode ser uma das mais comuns. Para o professor de psiquiatria, e em particular para pessoas com predisposição genética para algumas formas de POC (neste caso, obsessões de contaminação e compulsões de limpeza), “o stress da Covid-19 é susceptível de desencadear ou piorar este transtorno “, diz. “Algumas destas pessoas tornar-se-ão ‘germafóbicos’ crónicos, a menos que recebam um tratamento de saúde mental adequado”.

Para além da POC, “a ansiedade geral é também uma questão de saúde mental muito importante a ter em conta”, acrescenta Yuko Nippoda, psicoterapeuta e porta-voz do Conselho de Psicoterapia do Reino Unido. “Há muitas pessoas que já sofrem de ansiedade na nossa sociedade moderna, mas devido a esta doença mortal, as pessoas que tendem a sentir ansiedade mais facilmente continuarão a senti-la e a condição poderá agravar-se”, afirma.

Por outro lado, espera-se igualmente que aumentem os casos de perturbação de stress pós-traumático (PSPT), particularmente por parte dos que sofreram eles próprios de doença grave provocada pela Covid-19; por indivíduos que, como membros da família ou enquanto profissionais de saúde, testemunharam o sofrimento e a morte de outros e por parte dos que tomaram conhecimento da morte ou risco de morte de um membro da família ou amigo devido ao vírus.

Além disso, os vários estudos que têm vindo a ser realizados ao longo de quase um ano de pandemia exploraram outros factores de stress que aumentam a carga emocional dos indivíduos, tais como o isolamento social, o desemprego e as perdas económicas, bem como do trabalho a partir de casa, em particular para os que cuidam das crianças e de outros membros da família em simultâneo. Entre os profissionais de saúde, as tensões incluem a falta de equipamento de protecção pessoal adequado, receios de exposição ao vírus, burnout, o facto de terem de lidar com doentes que acabam por morrer apesar dos esforços para os salvar, a par das decisões difíceis sobre quais os doentes que deverão ter primazia de tratamento e salvamento num ambiente com recursos limitados. Outros estudos comprovaram já a existência de sintomas de stress pós-traumático, bem como ansiedade, depressão e aumento na utilização de substâncias na população em geral durante a pandemia.

A carga insustentável dos efeitos sociais e económicos

Já com o novo confinamento em mente, o psicólogo e investigador Osvaldo Santos alerta para os grupos populacionais que mais riscos correm de desenvolver ou agravar perturbações psicológicas já existentes, nomeadamente aqueles que podem ficar ainda mais isolados socialmente do que já estão: “Refiro-me a pessoas com doença crónica, seja física, seja psicológica ou psiquiátrica, mas também a pessoas desempregadas ou com um nível salarial mais baixo. São também grupos de risco aqueles que, devido à natureza da sua actividade, estão em risco permanente ou têm uma maior sobrecarga de trabalho”.

A solidão crónica provocada pelo isolamento social ou “falta de sentido” na vida durante a pandemia é outra grande preocupação partilhada pelos profissionais de saúde mental. Algumas pessoas viram-se involuntariamente com menos ligações estreitas na era do distanciamento social e podem achar difícil, ou mesmo impossível, conseguir reconstruir as suas redes de apoio. Outras retiraram-se deliberadamente do mundo exterior para sentir uma sensação de segurança e podem tornar-se resistentes a aumentar as suas interacções sociais no futuro. Como oberva Yuko Nippoda “quando as pessoas experimentam o stress no mundo exterior, podem desligar-se desse mesmo mundo, e uma vez que experimentam este distanciamento, pode ser-lhes difícil voltar a socializar com os outros”.

O desemprego contínuo ou a perda de rendimentos (causados pelos efeitos económicos da pandemia) podem também afectar o bem-estar a longo prazo. Numerosos estudos pré-Covid-19 ligam estes factores à depressão, ao stress ou a pensamentos suicidas. E dados provenientes de inquéritos recentes feitos nos EUA revelaram que mais de metade das pessoas sem emprego ou com o seu rendimento reduzido durante a pandemia têm já relatado impactos negativos na saúde mental, com taxas ainda mais elevadas entre os que auferem salários mais baixos.

O mesmo acontece com os resultados do estudo levado a cabo pelo INSA, que comprovam que os desempregados e os indivíduos com um rendimento inferior a 1000€ mensais apresentam maior prevalência de sofrimento psicológico, bem como de ansiedade ou depressão moderada a grave. Adicionalmente, são ainda sobretudo as mulheres e os desempregados quem refere não ter acesso fácil nem a linhas de apoio psicológico e emocional nem a apoio psicológico e emocional presencial. As dificuldades de conciliação trabalho-família, assim como a percepção de falta de apoio social e familiar, são também mais frequentemente associadas ao sofrimento psicológico e a estados de ansiedade e depressão moderada a grave, na amostra da população em geral.

Os psicólogos sublinham que a natureza e a escala sem precedentes da crise do novo coronavírus acrescentam uma camada adicional de incerteza em comparação com crises financeiras anteriores, alertando para a situação especialmente desafiante que pessoas que “não são boas a lidar com a incerteza” irão ter de enfrentar.


As recomendações do INSA

“Considerando a importância da saúde mental positiva para o bem-estar individual e, por conseguinte, para o bom funcionamento geral e para o desenvolvimento societal, esta dimensão de saúde deve ser considerada como prioritária na definição de planos estratégicos de resposta à pandemia, a nível nacional, regional e local”, pode-se ler nas recomendações que encerram o estudo “Saúde Mental em Tempos de Pandemia” e cujas medidas se dividem a curto, médio e longo prazo. Destacamos algumas destas recomendações.

  • Promover a saúde mental e bem-estar psicossocial dos grupos-alvo, em particular, dos mais vulneráveis (nomeadamente, grupos populacionais com perturbação psiquiátrica já diagnosticada, com doença crónica incapacitante ou determinante de menor autonomia, mais idosa, com menos rendimentos, com menos escolaridade, mais isolados em termos familiares e/ou sociais, imigrantes, entre outros), procurando soluções para mitigar os efeitos psicológicos negativos associados à pandemia;
  • Ter especial atenção para com os indivíduos em isolamento físico, confinamento, quarentena ou isolamento profiláctico, idosos e profissionais na linha da frente;
  • Reforçar a monitorização em termos de saúde mental de casos identificados e que estejam no domicílio;
  • Promover e dinamizar a monitorização epidemiológica da saúde mental da população ao longo do contexto da pandemia;
  • Criar grupos comunitários online e capacitar recursos humanos e de voluntários na comunidade para apoiar as populações mais vulneráveis;
  • Promover a continuidade e sustentabilidade da articulação entre serviços de saúde mental (departamentos e serviços de psiquiatria e saúde mental nos hospitais gerais; departamentos e serviços de psiquiatria e de psicologia da infância e da adolescência; hospitais psiquiátricos; consulta de psicologia em contexto de cuidados de saúde primária; unidades de intervenção local em comportamentos aditivos e dependências (CADs), entre outros), com outros stakeholders (diferentes sectores da saúde, segurança social, educação, emprego, autarquias, academia);
  • Fomentar a intervenção remota em saúde mental, através de teleconsultas ou linhas telefónicas para os grupos vulneráveis da população em geral (pessoas infectadas que estão confinadas em casa e com sintomas de depressão e ansiedade elevados, idosos, etc.);
  • Garantir medidas dirigidas aos jovens, nomeadamente: assegurar o acesso a respostas de saúde mental e bem-estar; promover o contacto social e resiliência e comunicar de forma clara e eficaz com pessoas jovens acerca da pandemia;
  • Consolidar a articulação intersectorial, numa perspectiva de saúde mental em todas as políticas visando o desenvolvimento de políticas públicas saudáveis que priorizem os determinantes da saúde (mental) com ênfase nos grupos de risco;
  • Criar uma plataforma que agregue informação sobre literacia em saúde mental e sobre os apoios disponíveis existentes ao nível da saúde mental e com comunicação objectiva sobre a pandemia a partir de fontes fidedignas;
  • Garantir, nesta mesma plataforma, a existência de Informação sobre saúde mental, sobretudo relacionada com o contexto da pandemia para reduzir o estigma dos efeitos desta ao nível da ansiedade, depressão, burnout, stress pós-traumático, entre outras perturbações psiquiátricas.

FONTE: Saúde mental em tempos de pandemia – SM-COVID-19: relatório final