Num mundo onde, de forma crescente, as nossas diferenças tendem a alienar-nos uns dos outros, temos que encontrar a nossa humanidade comum e aquilo que nos liga. Na Roots of Empathy acreditamos que a solução é a empatia, pois a mesma cria compreensão, vínculo e inclusão. Ao desenvolvermos, junto das crianças, a capacidade de compreender como outra pessoa se sente, estas começam a ser menos agressivas e violentas, criando salas de aula mais empáticas e inclusivas
POR CHERYL JACKSON

Basta lermos as notícias da actualidade para percebermos que estamos a viver uma crise de conexão. Num mundo onde, de forma crescente, as nossas diferenças tendem a alienar-nos uns dos outros, temos que encontrar a nossa humanidade comum. Acreditamos que a solução é a empatia. A empatia cria compreensão, vínculo e inclusão. E tudo isto é importante porque todos ansiamos por pertencer a algo, e aqueles que se sentem excluídos da sociedade muitas vezes acabam por retaliar com violência social ou doméstica.

A organização Roots of Empathy é uma resposta a esta crise. Começamos com as crianças. Estamos a transformar as gerações, nas escolas, de sala de aula a sala de aula. A nossa missão é construir sociedades civis solidárias e pacíficas através do desenvolvimento da empatia junto de crianças e adultos.

A inspiração

Cheryl Jackson, directora de Comunicação e Marketing da Roots of Empathy – © DR

A empreendedora social, fundadora e presidente da Roots of Empathy, Mary Gordon, foi pioneira a reconhecer a ligação entre a falta de empatia e a agressão. Embora os neurocientistas, psicólogos e educadores acreditem, actualmente, que o bullying e outros tipos de violência podem ser reduzidos através do encorajamento da empatia em tenra idade, esta não era a realidade na altura em que Mary Gordon desenvolveu a Roots of Empathy.

Ao trabalhar como educadora e especialista em parentalidade, Mary Gordon aprendeu a importância da empatia para atenuar a violência doméstica e o abuso de menores. Este trabalho com as famílias permitiu-lhe ver que a ausência de empatia não era apenas um factor de agressão infantil mas um factor de violência, no geral. Ao quebrar os ciclos intergeracionais de violência e má parentalidade, e ao criar uma geração de crianças mais empáticas, Mary Gordon criou aquilo que é conhecido na área do empreendedorismo social como uma ideia de “mudança do sistema”.

Actualmente, a Roots of Empathy actua em 11 países a nível mundial – Irlanda, Irlanda do Norte, Inglaterra, País de Gales, Escócia, Suíça, Alemanha, EUA, Nova Zelândia e Costa Rica, e em todas as províncias do Canadá.

O que é a empatia?

A empatia é a capacidade de compreender como outra pessoa se sente e de sentir do mesmo modo. Quando as crianças aprendem a ser empáticas, começam a ser menos agressivas, violentas e capazes de magoar os outros. Desafiam a crueldade e a injustiça, criando salas de aula mais empáticas e inclusivas. A empatia cria uma ligação entre os alunos, que será levada para todas as suas relações, ao longo da vida.

Como funciona o programa

A Roots of Empathy actua em escolas do ensino básico. No centro do programa estão um voluntário e um bebé, que vivem perto da escola e que, em conjunto com o instrutor da organização, visitam uma turma ao longo do ano lectivo. Utilizando técnicas adequadas à idade, o instrutor certificado da Roots of Empathy ajuda as crianças a identificar as emoções e as intenções do bebé. Neste tipo de ensino experimental, o bebé é o “professor” e catalisador. As crianças aprendem a observar a perspectiva do bebé e a sentir com ele. A literacia emocional desenvolve-se à medida que as crianças começam a identificar e rotular os sentimentos do bebé, a reflectir e a entender as suas emoções, e depois os sentimentos e emoções de outras pessoas. No fim do ano, este trabalho resulta no aumento do auto-controlo, da resiliência, do bem-estar e da empatia.

Porquê um bebé?

Acreditamos que a empatia é inata e floresce ou desaparece no primeiro ano de vida. É na criação de laços afectivos entre pais e filhos que a empatia se desenvolve. Este é o primeiro e o mais importante exemplo de empatia. Se esse laço for inadequado, a criança vai sofrer com a falta de empatia, a qual pode ser transmitida entre gerações. Todas as crianças na sala de aula têm a possibilidade de ver a relação entre um pai e um bebé a acontecer – como o bebé olha para o pai para se orientar, como o pai observa os seus sinais e responde de forma afectuosa –, e para as crianças que podem não ter tido uma relação de afecto segura, esta é uma oportunidade importante de desenvolverem a empatia, de verem com os próprios olhos como é o amor.

Investigação

A investigação é uma componente vital para o sucesso do programa. Desde 2000, a Roots of Empathy já foi avaliada em três continentes. Estes estudos concluem sempre que, com o programa, as crianças apresentam:

  • Uma melhoria no comportamento “pro-social” (por exemplo, em termos de partilha, ajuda e inclusão)
  • Uma diminuição de comportamentos agressivos
  • Uma melhoria em termos de compreensão emocional e social
  • Uma melhoria em termos de conhecimentos de parentalidade

O movimento

A Roots of Empaty cresce à medida que a necessidade do nosso programa se torna mais notória. O programa tem recebido variados prémios a nível global. Mais recentemente, foi escolhido como uma das mais inspiradoras inovações sociais do ano, pela HundrED, uma organização social finlandesa. O programa foi também reconhecido pela UpSocial em Atenas (Grécia) e em Lisboa, como uma das inovações mais bem classificadas para enfrentar o desafio das crianças em risco de exclusão social, através do projecto “Acelerar a mudança para a inclusão social”. A Roots of Empathy também foi finalista dos Klaus J. Jacobs Awards, da Fundação Jacobs, na categoria Melhores Práticas de organizações que actuam em prol das crianças.