Espero que o meu filho – nascido no primeiro dia de 2021 – e a sua geração, que irão pagar grande parte da factura para reerguer a economia pós-Covid, possam olhar para a história e contexto do seu nascimento pandémico e orgulhar-se do esforço das gerações que os antecederam, permitindo-lhes ter uma vida feliz, numa sociedade mais justa, mais inclusiva e focada no essencial
POR DIOGO OOM CARDOSO

No primeiro dia de 2021, dia de Santa Maria Mãe de Deus e dia mundial da Paz, nasceu o meu terceiro filho. Um Coronababy, já que, devido ao coronavírus, desde o início da sua existência, passou por vários estados de emergência, dias de confinamento, restrições de movimento, períodos de recolher obrigatório, fecho de fronteiras, entre outras medidas extraordinárias decretadas pelo Governo.

A sua chegada foi também, por força do dito vírus, muito diferente da dos seus irmãos. Nos dias que antecederam o seu nascimento, os seus pais, infectados pelo vírus, viveram o Natal afastados da família, incluindo dos seus próprios filhos. Foram dias marcados por uma enorme incerteza quanto ao contexto em que este bebé iria nascer, tendo em conta as condições e limitações do parto, caso a sua mãe ainda estivesse infectada. Os seus primeiros dias de vida também contrastam com a realidade vivida pelos seus irmãos mais velhos – sem visitas, sem abraços e afectos da família, tão característicos nestes dias.

Um nascimento é sempre um sinal de esperança. Uma esperança que é contagiante e visível nas pessoas que contactam com uma nova vida, conhecidos e desconhecidos. Nas famílias que se multiplicam e cruzam caminhos entre si, nos irmãos que recebem em casa um novo “brinquedo”, nas pessoas que se alegram na rua só de ver um bebé a passar… e até, surpreenda-se, nas equipas clínicas que, apesar de contactarem com esta realidade diariamente, se alegram uma e outra vez como se de um evento único se tratasse. É também um sinal de esperança para um país que tem uma das taxas de natalidade mais baixas da Europa, e que, segundo o INE, poderá perder um quarto da população até 2050, reduzindo o país a 7,5 milhões de pessoas. Uma esperança por se tratar de uma nova vida numa época onde domina a morte.

Diogo Oom Cardoso

Se uma nova vida traz esperança ao mundo, que tipo de esperança tem o mundo para retribuir a uma criança que nasce num contexto tão adverso? A geração que agora nasce pode esperar um mundo melhor? São questões complexas de responder, e haverá certamente quem veja o copo meio cheio e quem o veja meio vazio. Gostava de abordá-las de um ponto de vista positivo.

É curioso que, num cenário tão atípico, e assim como aconteceu noutros momentos negros da história da humanidade, existam sinais de esperança! Apesar dos enormes desafios que iremos enfrentar, nomeadamente o aumento das desigualdades, estou convencido que o meu filho irá encontrar um mundo melhor na realidade pós-COVID, vivendo os esperados 113 anos da sua vida (estimativa UNICEF), num mundo mais pleno e mais justo daquele em que os seus pais viveram. Gostaria de destacar dois sinais de esperança – entre tantos outros – que reforçam a minha convicção:

  1. Uma sociedade mais fraterna

Talvez um dos efeitos mais visíveis da pandemia tenha sido a solidariedade entre as pessoas.

  • São incontáveis as iniciativas de apoio aos mais necessitados. Um exemplo paradigmático é a entrega e sentido de serviço dos profissionais de saúde. A dedicação dos profissionais de saúde ao longo destes meses, indo aos limites das suas capacidades físicas e psicológicas, extravasando em vários casos as suas funções clínicas, é sem dúvida, um sinal de compromisso fraterno da humanidade.
  • Num esforço comum de disponibilização de fundos para os diferentes Estados-membros, para mitigação dos impactos económicos da actual crise, destaco ainda a solidariedade europeia. Destaque também para o compromisso internacional que se reflecte na preocupação de que as vacinas cheguem a todos, na medida do possível, especialmente aos países mais pobres (ainda que, como sabemos, em momentos diferentes).
  • É ainda de salientar a preocupação com os excluídos, os pobres e os idosos que tem sido priorizada em diferentes contextos. É contagiante a dedicação a que temos assistido nos lares, entre vizinhos, no sector social, nas paróquias, na dedicação no seio das famílias, entre tantos outros exemplos.

Como muito bem desafiou o Papa Francisco sobre a pandemia na encíclica Fratelli Tutti, “No fim, oxalá já não existam ‘os outros’, mas apenas um ‘nós’. Oxalá não seja mais um grave episódio da história, cuja lição não fomos capazes de aprender.” O fim ainda está longe, mas há sinais de esperança de que estamos a ser capazes de aprender e viver um compromisso fraterno com os outros!

  1. Empresas mais amigas das famílias 

A pandemia acelerou um movimento já em curso de uma maior preocupação das empresas com o bem-estar dos seus colaboradores e suas famílias. A necessidade de apoio dos pais aos seus filhos, por exemplo aquando do fecho das escolas ou pelo apoio a familiares infectados, obrigou as empresas a uma adaptação muito rápida e verdadeiramente extraordinária, que pôs fim aos mitos da inexequibilidade do teletrabalho e da flexibilidade laboral.

É certo que, pelos desafios e não aplicabilidade inerente à natureza de algumas profissões, não estaremos nunca a abranger todo o tipo de trabalhos. Também sabemos que muitas experiências durante a pandemia não foram positivas e que várias empresas não estiveram à altura do desafio. Ainda assim, como se pode ver no estudo Securing the Future of Work da Kaspersky, 74% das pessoas quer a introdução de novas dinâmicas laborais no seu dia-a-dia, como é o caso do teletrabalho (ex: regime híbrido) e/ou a flexibilidade laboral (ex: semanas reduzidas). É certo que estes instrumentos representam uma maior liberdade para os trabalhadores e, por isso, maior responsabilização e autonomia. Mas as vantagens, na minha perspectiva, são claras: as empresas terão nos seus quadros trabalhadores mais felizes e realizados; os trabalhadores, através destas ferramentas, terão a possibilidade de participar mais activamente no desenvolvimento da sua família, nomeadamente na educação dos seus filhos, assegurando referências mais sólidas e presentes. Consequentemente, acredito que é reforçado o papel fundamental e insubstituível da família na educação das gerações futuras.

Este movimento já está em curso! O impacto no bem-estar dos seus trabalhadores e das suas famílias, assim como uma gestão mais eficiente e produtiva dos seus recursos – nomeadamente o aumento de produtividade, redução de turnover, absentismo e redução de custos – levaram grandes empresas mundiais como a Unilever, Google, Salesforce, entre outras, a introduzir estas soluções no dia-a-dia.

Estas – e outras – reacções positivas observadas durante a pandemia trazem uma perspectiva de esperança de que o mundo pós-COVID poderá sair mais unido e equilibrado. É certo que, para lá chegar, há ainda muito caminho por percorrer, numa estrada que será longa e com obstáculos – começando pela recuperação do emprego e inclusão das pessoas em situações mais vulneráveis – contudo, é uma oportunidade clara para construir um mundo melhor. Espero que o meu filho e a sua geração, que irão pagar grande parte da factura para reerguer a economia pós-covid, possam olhar para a história e contexto do seu nascimento pandémico e orgulhar-se do esforço das gerações que os antecederam, permitindo-lhes ter uma vida feliz, numa sociedade mais justa, mais inclusiva e focada no essencial.