Foi o primeiro tema a ser objecto de reflexão no 2º dia do Congresso de gestores e empresários cristãos. Para definir o valor, em termos económicos, do amor, mais de 400 participantes puderam contar com as perspectivas diferentes de dois economistas: o altruísmo enquanto factor crucial para uma cooperação bem-sucedida, de Diogo Lucena, e a proposta de João César das Neves, que optou pela “caridade perfeita” de São Tomás de Aquino, a única que é possível para amar os inimigos, “afectiva e efectivamente”
POR HELENA OLIVEIRA

A expectativa era grande para o painel de abertura do 2º dia do Congresso da ACEGE, sob o tema “O amor ao próximo como critério de gestão”, não só pelas duas personalidades envolvidas no mesmo – Diogo Lucena e João César das Neves – mas, em particular, pela aparente dificuldade do tema: o valor económico do Amor. Tendo como moderador o reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP), a primeira sessão de Sábado, dia 2 de Junho, reuniu, logo pela manhã, cerca de 400 pessoas que trocaram o descanso próprio do fim-de-semana por uma reflexão filosófica, social, antropológica e religiosa sobre o mais nobre dos sentimentos e, por isso, também o mais complexo. Todavia, quando a ideia é conferir um valor económico ao amor, a complexidade sobe de tom. E foram duas abordagens, completamente diferentes, mas igualmente interpeladoras, que os dois economistas ofereceram à audiência.

No pequeno discurso de introdução ao tema e aos oradores, Manuel Braga da Cruz recordou que a “vida económica não é só racionalidade, estando igualmente impregnada de uma dimensão amorosa” e que “a lógica da transacção deverá ser sempre articulada com a lógica do dom e da gratuitidade”. Sublinhando ainda que a caridade – a trave mestra da Doutrina Social da Igreja – se traduz na procura do bem comum, Manuel Braga da Cruz concluiu que esta [caridade] pode e deve ser “o critério norteador da actividade económica”.

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DIOGO LUCENA
O altruísmo, o egoísmo e a cooperação
O professor catedrático e membro do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian deu início à sua exposição com a nota prévia de que iria falar do valor económico do amor enquanto economista, a partir da criação de valor na economia e decompondo a actividade económica num conjunto de transacções – na sua forma social, a interacção entre pessoas ou, mais precisamente, entre agentes económicos – a qual, na sua forma mais básica, se rege por uma transacção voluntária entre comprador e vendedor. Todavia, Diogo Lucena não deu uma “aula” meramente centrada no conceito da eficiência económica mas e ao invés, trouxe para o debate pesquisas várias na área da biologia, antropologia, da psicologia experimental e da sociologia, citou Darwin, Hobbes e Rousseau e elegeu o famoso “dilema do prisioneiro” – o problema da teoria dos jogos e o exemplo claro, apesar de atípico, do denominado “problema de soma não nula”. Ou seja, neste problema, recorrente na economia, na biologia e na estratégia, supõe-se que cada jogador, de modo independente, deseje aumentar ao máximo a sua própria vantagem sem se importar com o resultado do outro jogador. Em termos abstractos, não importa os valores das “penas”, mas o cálculo das vantagens de uma decisão cujas consequências estão intimamente relacionadas com as decisões de outros agentes e onde a confiança e traição fazem parte da estratégia em jogo.

E foi com este dilema que Diogo Lucena deu início à sua exposição, com o objectivo último de provar que na economia, tal como na biologia, “os grandes saltos que se deram foram feitos através da cooperação”.

Falar do dilema do prisioneiro é reflectir sobre a tensão contínua entre egoísmo e altruísmo, entre cooperação ou não cooperação, de reciprocidade, directa ou indirecta, dos mecanismos que, na sociedade, servem para evitar a destruição dos comportamentos altruístas e da necessidade de os sustentar.

E é esta tensão enorme entre cooperar ou não que está subjacente a uma panóplia enorme de decisões que se tomam, na vida no geral e, para o que interessa, na economia: posso ganhar mais, sendo egoísta, ou, sendo altruísta e cooperante, mesmo que sacrifique ou renuncie a um ganho maior?

Passar este conceito para o contexto das populações – tendo em vista que os comportamentos sociais se regem por mecanismos de transacção e que existem comportamentos altruístas e egoístas que se propagam de acordo com as normas sociais – é, para já, colocar em causa a famosa teoria de Darwin – de que só os mais aptos (ou os que têm sucesso, na linguagem “moderna”) sobrevivem, neste caso, os mais egoístas, uma “visão dura que julgo estar errada”, como afirmou Diogo Lucena, mas também do Leviatã , do filósofo Thomas Hobbes, que defendia que cada homem persegue racionalmente os seus próprios interesses, sem que o resultado interesse a alguém.

“Uma decisão genuinamente altruísta prejudica-me a mim para beneficiar outro” é o ponto de partida para a análise dos mecanismos que contribuem para a existência deste equilíbrio nas sociedades e que as fazem ser mais egoístas ou altruístas, afirma o professor. E, como as populações são compostas por uma mistura de egoístas e altruístas, a questão que se coloca é como se evita a propagação do egoísmo e a sustentação do altruísmo.

Com base na teoria da reciprocidade, Diogo Lucena questionou a forma como uma sociedade se organiza para sustentar os seus comportamentos altruístas. Para o professor, é mais fácil se existir uma população homogénea mas que, em caso de alguma ruptura, pode prevalecer o egoísmo. E, voltando a Darwin e também às teorias da selecção, sabemos que mais facilmente seleccionamos parceiros com quem temos relações sociais e económicos do que com quem nos é estranho. Todavia, e como alertou o professor, na sociedade moderna e globalizada, somos obrigados a interagir com estranhos. Daí que a selecção tenha de ser encarada a vários níveis e, em termos de competição, dá-se como facto certo que a competição individual gera egoísmo, ao passo que a competição de grupo gera uma maior cooperação. Na mesma linha de pensamento, grupos altruístas recebem mais benefícios, visto que os grupos egoístas são muito menos unidos. Ainda nas sociedades cooperantes, para além da cooperação, existe também o paroquialismo, que se define como a hostilidade face a grupos estranhos. O exemplo é dado por dois “actores” principais, se bem que opostos, da actual crise europeia: é óbvia a cooperação que se assiste no interior da Alemanha quando comparada com aquela que existe [dos alemães] relativamente à Grécia.

Citando ainda a famosa frase do reconhecido biólogo evolucionista e antropólogo David Sloan Wilson, “selfishness beats altruism within groups, altruistic groups beat selfish groups”, Diogo Lucena falou ainda das normas ou mecanismos na sociedade que servem para gerar bons comportamentos e terminou a sua exposição com algumas “lições” ou conclusões da sua intricada e apaixonante reflexão. A saber: compensa ser “bom”, ser previsível e estabelecer uma boa reputação (essencial na economia); o castigo é importante para disciplinar (o Estado Social permite detectar e “castigar” quem vai à “boleia, de que são exemplo aqueles que não pagam imposto); o perdão é crucial para restabelecer a confiança; os grupos pequenos são mais cooperantes, enquanto os grupos de maior dimensão têm mais propensão ao egoísmo, necessitando, por isso, de mecanismos adicionais para os travar; a cooperação deve vir “de baixo para cima” e a transparência assume um papel crucial em todas as transacções.

Em suma, amor, esperança e perdão são essenciais para vencer o egoísmo e, provada cientificamente é a tese que afirma que os mecanismos evolutivos encorajaram o altruísmo e o comportamento santo.

Por último, uma palavra às empresas: se tomarmos como exemplo Jeff Skilling, o CEO da Enron, e o seu sistema de avaliação agressivo – 15% dos melhores colaboradores recebiam regalias inimagináveis e os 15% piores eram ostracizados e/ou despedidos – conclui-se também que a competição excessiva no mundo empresarial, a par da ambição desmedida, pode conduzir, tal como aconteceu à Enron, à falência.

Interessa a conclusão final: o altruísmo é mais produtivo que o “egoísmo da batota”, como afirmou o professor.

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JOÃO CÉSAR DAS NEVES
A caridade perfeita e a gestão “sombra” ou “pedra”
A estranheza que pode causar falar do amor como critério de gestão e, em particular, do seu valor económico, foi o mote escolhido pelo economista e professor da Universidade Católica para iniciar a sua apresentação. Com o tom provocador que o caracteriza, João César das Neves começou por colocar a plateia a rir quando afirmou que “quando falamos do amor, basicamente o que estamos a dizer é que isto dos negócios são coisas do demo”.

Mas, para o professor, o ponto de partida para iniciar o tema reside na resposta a duas questões: quem é que adoramos e a quem pertencemos? Apesar de a natureza humana ser composta por uma imensa ambiguidade, não é possível ignorar, a seu ver, que “somos de Cristo e Cristo é Deus”. Todavia, o que significa tal afirmação nas empresas?

Se amar “os próximos” é fácil quando estes são os nossos colaboradores ou fornecedores, tudo se complexifica no que respeita a todos os outros “próximos”, que podem ser os concorrentes, o Estado, o burocrata, o Diabo, os que foram promovidos e eu não, os chefes, o ministro das Finanças… Assim, e como César das Neves é (re)conhecido por não escolher caminhos fáceis, a sua apresentação teve como base o “amor aos inimigos”, tendo afirmado até que o próprio Evangelho tem linhas dedicadas particularmente aos gestores: “Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos maltratam e perseguem (…). [Mt 5, 43-44].

Ou, em suma, o que o professor de economia pretende transmitir, ao longo de toda a sua intervenção, é a ideia de que só faz sentido amar o próximo se tal for a correspondência do nosso amor a Deus.

Mas, e voltando ao amor aos inimigos, César das Neves recorreu à obra de São Tomás de Aquino para explicar de que forma este sentimento se transforma na “caridade perfeita” e no acto de “amar afectiva e efectivamente” os que são nossos adversários: “Deve-se considerar que enquanto somos supostos amar o próximo pelo preceito de caridade, o preceito não se estende a amar em acto e em particular todos os próximos, ou a fazer bem a cada um em particular, pois ninguém conseguiria pensar em todos os homens, de forma a amar cada um em particular e em acto e ninguém conseguiria também fazer o bem e prestar serviços a cada um em particular”.

João César das Neves recorda ainda que “visto que com um inimigo nenhum laço nos resta senão o laço único da caridade, somos supostos, pela necessidade do preceito, amá-los em geral, afectiva e efectivamente , e em particular quando uma necessidade imperiosa os ameaça”.

Mas e na prática, o que quer isto dizer? Se, relativamente ao nosso inimigo, só nos resta o laço da caridade, tentemos apreender este intricado e complexo conceito, através de mais uma citação de S. Tomás de Aquino: “Aquele a quem compete por profissão pode licitamente punir os malfeitores ou mesmo matá-los, continuando a amá-los com caridade”. Se tomarmos o malfeitor como, por exemplo, o concorrente e, este “amar por caridade” a gestão da empresa, novas questões surgem: como é possivel castigar e amar por caridade? “Com efeito, podemos, porque os amamos por caridade, querer-lhes ou infligir-lhes algum mal temporal, por três razões: primeiro, para sua correcção. Em segundo lugar na medida em que a prosperidade temporal de alguns é nociva à multidão ou a toda a Igreja e, por último, para guardar a ordem da justiça divina”, afirmou o economista. Assim, e para o professor da UCP, a única forma de amar os nossos adversários, é fazê-lo como acto de caridade e de forma afectiva e efectiva.

No que respeita à estratégia empresarial, César das Neves relembrou que não é possível “servir a dois senhores”( Deus e dinheiro) e que, antes de tudo o mais, a empresa deverá definir o seu fim último, sendo que o primeiro ponto a considerar é “saber onde está o coração”. De acordo com o orador, a resposta a esta questão não tem muito que se lhe diga: “só pode estar em Deus e não no dinheiro”, afirmou, citando de seguida e mais uma vez S. Mateus: “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”. [Mt 16, 26]

Depois da estratégia na gestão, o economista falou da táctica, afirmando que existem dois tipos por excelência de gestores: os que gerem a olhar para a sombra e os que o fazem a olhar para a pedra.

E é a partir desta escolha de “estilo”, que podemos colocar os gestores em dois patamares distintos. “Aqueles que medem a sua estatura de acordo com a sua sombra”, diz, e cujo objetivo é ascenderem ao número 1 de um qualquer ranking ou de “fazerem” o primeiro milhão antes dos 35; e os outros, os que preferem olhar para a pedra, a analogia escolhida para o caminho, o obstáculo e que pode servir de metáfora ao acto de enfrentar os problemas, de saber como bem servir os seus clientes ou tratar bem os colaboradores, a par de melhorar as condições de vida dos que têm envolvimento, directo ou indireto, com a empresa, e que não é mais do que a sua própria razão de ser.

E, se é verdade que ambos os estilos de gestão podem ser bem ou mal-sucedidos, para o professor de economia torna-se claro que os apologistas da “sombra” só conseguem funcionar quando o céu está descoberto e não nublado (ou seja, quando tudo está bem), ao passo que os que elegem a “pedra”, “até de noite conseguem vislumbrar, com uma lanterna, o objetivo da sua estratégia e a razão de ser da empresa”.

Por fim, João César das Neves, volta ao tema inicial da sessão: como é que o amor pode ter valor económico?

Amar a Deus “leva-nos a amar o próximo e a nós mesmos”. E, enquanto não se perceber este “valor”, não conseguiremos fazer nada bem feito.