Os consultores sociais são conhecidos pela sua sensibilidade social, por compreender aspetos culturais e trabalhar em terrenos que não são para todos. Mas que fazer quando o mundo está de pernas para o ar?
POR CLÁUDIA PEDRA

Ser consultor social é entusiasmante. Temos o privilégio de navegar pelo mundo, conhecendo pessoas em locais mais ou menos distantes. Imergimos na sua cultura, sentimo-nos parte integrante da sua comunidade, com o delicado equilíbrio de manter um olhar externo sobre a questão que trabalhamos. Nem sempre é fácil. Como pessoas, muitas vezes a nossa empatia sobrepõe-se à racionalidade, e sentimos de forma profunda os problemas societais (sócio, económico, culturais, ambientais) que nos circundam. Afinal como estar numa tabanca isolada na Guiné-Bissau e focar em processos e procedimentos, quando a população está a falar de não ter água potável?

No mundo da consultoria temos, muitas vezes, pouco tempo para gerar confiança. Em curtas visitas de algumas horas, precisamos de uma troca honesta. Precisamos que as pessoas exponham fragilidades, para que possamos ajudá-las com soluções. Por isso a linguagem corporal do consultor é tão importante como a linguagem oral. O consultor usa o olhar e o toque para gerar proximidade. O sorriso, o aperto de mão, o abraço. Num mundo pandémico os abraços estavam fora de questão, os apertos de mão substituídos por uns estranhos toques de punho, e o sorriso escondido por detrás da máscara. Ou deveriam estar. Mas damos por nós a baixar a máscara para mostrar a nossa cara, a apertar mãos, apesar das contra-indicações, e a deixar que nos abracem. Afinal como dizer que não a uma criança que corre para ti e te abraça, de forma bem apertada, porque esperou durante meses para te conhecer?

Mas claro que o oposto também aconteceu. Pessoas que mantinham os braços hirtos ao longo do corpo e que, apesar da máscara, davam dois passos atrás quando nos aproximávamos. A confiança, de que falámos, agora exigia também potenciais sacrifícios da sua saúde e bem-estar. Talvez demasiada exigência para uma curta interação, pensaram elas.

Há muita teorização sobre o comportamento humano pós-pandémico, desde quem ache que o toque será banido de muitas relações humanas, até aqueles que acham que os comportamentos reverterão à normalidade pré-pandémica. Para aqueles que continuaram em trabalho de campo durante a pandemia exigiu uma arte de adaptação constante e decisão. Decidir se o trabalho ficaria irremediavelmente condicionado para cumprir indicações sanitárias. Se estaríamos dispostos a ofender o nosso interlocutor, porque ele não desinfetou a mão, antes de nos estender a mesma. Se nos manteríamos perfeitos desconhecidos (afinal como conhecer uma pessoa que não vemos a cara?), para não baixar a máscara. Isso implicava aprender e ajustar. Mudar comportamentos recorrentes, questionar os protocolos sociais, perceber como manter a proximidade sem pôr em perigo a pessoa com quem interagimos.

E como é sempre nestes processos, a aprendizagem gerou inovação. Dinâmicas que incorporam álcool-gel e máscaras que descem e sobem, grupos de trabalho com pessoas em distância de segurança, substituição do papel pelo uso de plataformas online. O que parece ser fantástico é que não foi preciso sacrificar a empatia. É possível continuar a ser culturalmente sensível, respeitador, e fazer um bom trabalho de forma profissional, sem deixar de lado as relações humanas. E o melhor é que podemos continuar a sorrir (nem que escondido pela máscara) nas fotos de grupo, deixando que a mão da pessoa ao nosso lado pouse gentilmente no nosso ombro, enquanto os nossos olhares se cruzam. Como sempre.

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