A ACÇÃO 2020, iniciativa do BCSD Portugal que quer implementar soluções empresariais sustentáveis para impulsionar o crescimento económico, apostou em 2014 em três domínios prioritários para o “desenvolvimento estratégico das empresas”: competências, competitividade e eficiência energética. Num balanço do primeiro ano da iniciativa, Fernanda Pargana explica como, face aos desafios actuais, são necessárias “novas formas de construir alianças” e “soluções de escala”
POR GABRIELA COSTA

“Em 2050, cerca de 9 mil milhões de pessoas vivem bem, respeitando os limites do planeta”

Fernanda Pargana, Secretária Geral do BCSD Portugal
Fernanda Pargana, Secretária Geral do BCSD Portugal

O ideal é o princípio que consubstancia toda a agenda de mudança da “Visão 2050”, do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD). E que norteia a actuação do BCSD Portugal, que lançou em Novembro de 2013 a ACÇÃO 2020, com o objectivo de impulsionar o desenvolvimento sustentável como motor chave do crescimento económico e social do País, através de um conjunto de soluções empresariais prioritárias.

Estas soluções, a implementar entre 2014 e 2020, materializam-se em treze medidas alinhadas com as prioridades definidas pelos líderes empresariais do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, organizadas em seis áreas-chave: Desenvolvimento Social, Economia, Capital Natural, Energia, Cidades e Infra-estruturas e Indústria e Materiais.

Desenvolvido “em estreita colaboração” com cem empresas associadas do BCSD Portugal, este projecto agregador surgiu como “uma oportunidade para fomentar a inovação, influenciar a agenda empresarial, participar na definição das áreas prioritárias e contar com indicadores e ferramentas de medição do progresso” como sublinhou em entrevista, realizada em Janeiro último, a secretária geral da organização.

No final do primeiro ano de actuação do projecto, que seleccionou três acções consideradas prioritárias para o seu arranque – nas áreas do desenvolvimento social, da economia e da energia -, Fernanda Pargana traça ao VER um “balanço muito positivo”, pela diversidade sectorial que as três acções (respectivamente, adequar perfis de competências entre empresas e formação escolar; demonstrar a competitividade de Portugal na captação de investimento estrangeiro e na exportação de serviços; e demonstrar o valor gerado por projectos de eficiência energética) encerram. Mas também pela forma como estas medidasrespondem à necessidade de se obterem quick wins, que ajudem a evidenciar as vantagens de se realizarem projectos desta natureza e que facilitem o caminho para a realização das restantes acções”.

Segundo a secretária geral do BCSD Portugal, a escolha destas três acções prioritárias reside, sobretudo, “na sua relevância para o desenvolvimento estratégico das empresas”. O desafio passa essencialmente por dinamizar um conjunto de soluções que contribuam para resolver alguns dos principais problemas do crescimento económico e desenvolvimento sustentável do País, “com a liderança das empresas e em conjunto com os principais decisores”. E por projectar oportunidades, “a partir de iniciativas de grande impacto que as empresas podem, em ações conjuntas, desenvolver”, explica Fernanda Pargana.

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Adequação de competências, competitividade e eficiência energética

A oportunidade, na “ACÇÃO 1 – Adequar perfis de competências entre empresas e formação escolar”, é colmatar a dificuldade que as empresas têm em encontrar no mercado de trabalho pessoas “com as competências necessárias para o desempenho de algumas funções críticas para o desenvolvimento dos seus negócios”.

O objectivo de contribuir para aproximar as competências técnicas e comportamentais dos jovens àquilo que as empresas precisam está, numa primeira fase, a ser desenvolvido através da identificação das necessidades de competências nas empresas para os próximos três a cinco anos.

[pull_quote_left]Estão a ser identificadas as necessidades de competências nas empresas para os próximos três a cinco anos[/pull_quote_left]

De acordo com Fernanda Pargana, o grupo de trabalho dedicado a esta Acção, e que reúne 27 empresas de distintos sectores, elaborou já, com a colaboração do HayGroup, um questionário de levantamento de necessidades críticas de competências, o qual foi enviado a todas as empresas membro do BCSD Portugal. Este questionário “é também uma ferramenta de apoio à decisão, que permite vir a integrar as necessidades de competências no planeamento estratégico das empresas”, sublinha.

Numa segunda fase, “que estimamos ser a partir do segundo trimestre de 2015”, o BCSD vai utilizar as conclusões da informação recolhida “para chegar – num formato que terá que ser pensado para ser atractivo – aos jovens em idade de decidir o seu futuro”. O objectivo é motivá-los para profissões sobre as quais têm frequentemente “preconceitos e falta de informação”. O BCSD Portugal está também a colaborar com um conjunto alargado de stakeholders neste projecto, “a quem serão propostas medidas para suprimir as maiores lacunas e medidas para novas abordagens”, adianta ainda.

A “ACÇÃO 4 – Demonstrar a competitividade de Portugal na captação de investimento estrangeiro e na exportação de serviços” inclui 18 empresas no grupo de trabalho, e tem como desafio “chegar a um grupo seleccionado de empresas estrangeiras, médias empresas incluídas, para demonstrar as vantagens competitivas de Portugal, a partir da identificação das variáveis de decisão, nos serviços e na indústria”.

Com vista a catalisar oportunidades para atrair investimento estrangeiro e exportar serviços, o BCSD está actualmente a preparar informação sobre Portugal e a identificar os factores críticos de decisão sobre o investimento no País, “através de casos de sucesso de empresas filiais de multinacionais de indústria e serviços, e de empresas portuguesas prestadoras de serviços de outsourcing”, detalha a responsável. Paralelamente, e mais uma vez, o BCSD Portugal está a envolver um conjunto de stakeholders “para o endosso do projecto e para colaboração operacional” no mesmo.

[pull_quote_left]O BCSD está a identificar factores críticos de decisão para atrair investimento estrangeiro e exportar serviços[/pull_quote_left]

Na área-chave da energia, a “ACÇÃO 7 – Demonstrar o valor gerado por projectos de eficiência energética” é a terceira elegida pelas empresas do BCSD Portugal como prioritária em 2014, no âmbito da ACÇÃO 2020. Um grupo de trabalho constituído por 23 empresas definiu como primeiro objectivo a identificação dos principais bloqueios à eficiência energética. Posteriormente, serão realizados “projectos-piloto que permitam escolher as iniciativas a implementar em maior escala”.

Segundo Fernanda Pargana, o grupo concluiu que é importante “conhecer e partilhar as melhores práticas em termos do envolvimento da gestão de topo com a eficiência energética, identificar os argumentos chave que levam à tomada de decisão de investimento nesta área e as medidas mais implementadas pelas empresas”. Outra conclusão é a necessidade de posicionar a eficiência energética como uma variável de negócio. O BCSD Portugal está a reunir casos de estudo de empresas membro, tendo já mais de 20, os quais representam 19 milhões de euros de investimento em eficiência energética, adianta ainda.

27112014_ConstruirAliancasPartilhadasEsolucoesDeEscala2A força da liderança e o valor dos parceiros
As três Acções já em curso “vão manter-se em grande destaque ao longo de 2015, até porque vão ter resultados para partilhar”, perspectiva a secretária geral do BCSD Portugal: “em termos de recursos humanos, vamos dar a conhecer as competências críticas e técnicas necessárias para os próximos três a cinco anos. Na economia, vamos colaborar para demonstrar as vantagens competitivas de Portugal. E na área da energia, vamos contribuir para caracterizar os bloqueios da eficiência energética” no País.

Para além destas medidas, que “resultam de uma escolha dos membros, visto não ser possível desenvolver as 13 acções em simultâneo”, serão feitos avanços nas outras três áreas estratégicas – Capital Natural, Cidades e Infra-estruturas e Indústria e Materiais –, as quais se encontram “em fase de planeamento”.

Numas como nas outras, a ACÇÃO 2020 espera potenciar o desenvolvimento sustentável como motor-chave do crescimento económico e do progresso  social em Portugal. O projecto é, na opinião de Fernanda Pargana, muito vincado pela força da liderança e das parcerias entre as empresas da Direcção do BCSD Portugal (Bosch, Brisa, EDP, Galp Energia, grupo Portucel Soporcel, PT Portugal, Solvay, Sonae e Unicer) e as empresas membro. Trata-se de “novas formas de construir alianças” partilhadas, as quais “são uma das chaves para implementar soluções e modelos que depois podem ganhar escala”.

Defendendo que os membros do BCSD Portugal “já perceberam que os problemas de hoje exigem soluções de escala que não são compatíveis com as soluções tradicionais ou individuais a que estávamos habituados”, a sua secretária geral enfatiza a relevância da ACÇÃO 2020, cujo grande objectivo é “trabalhar para catalisar soluções simples e práticas que as empresas possam partilhar e replicar, em articulação com os decisores públicos e outros stakeholders”.

[pull_quote_left]A nível de eficiência energética, o primeiro objectivo é a identificação dos principais bloqueios, para que se posicione como uma variável de negócio[/pull_quote_left]

E, para tanto, em cada Acção estão a ser identificadas as abordagens que já existem, e as colaborações e os stakeholders a envolver. “Sempre com o foco na simplificação e na eficácia”, garante Fernanda Pargana.

Neste primeiro ano da ACÇÃO 2020, “conseguimos a liderança consistente das empresas, acções concretas e muito participadas e juntar parceiros que acrescentam valor. Isto é o suficiente para seguirmos em frente com muito entusiasmo”, conclui.

No futuro próximo, e “com todos estes ingredientes reunidos”, a ACÇÃO 2020 será, “sem dúvida, um importante contributo para o crescimento económico, para o progresso social e para a qualidade ambiental a médio prazo”.

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Gabriela Costa

Jornalista