As pessoas são essenciais para as organizações empresariais se desenvolverem, terem condições para criar mais emprego, mais riqueza e dar um maior contributo para o progresso do País. Mas o desencontro que existe entre as competências que as empresas precisam e aquelas que saem das escolas está já a limitar a actividade de uma boa parte das primeiras
POR FERNANDA PARGANA

Este foi o ponto de partida do trabalho que o BCSD Portugal – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável iniciou com os seus membros em 2014, com o objectivo de identificar as principais necessidades de competências e, em seguida, definir acções que contribuam para reduzir esse diferencial, com vantagens igualmente para os jovens, cuja elevada taxa de desemprego é associada com frequência a este desfasamento.

14052015_CompetenciasParaUmFuturoMelhorA primeira fase do projecto, que termina agora, corresponde à apresentação dos resultados do inquérito realizado a 47 empresas, para identificar as competências que são críticas para o desenvolvimento dos seus negócios. Mas o diagnóstico, por si só, não resolve o problema, pelo que a fase seguinte do projecto consiste na definição de acções que, num formato eficaz, transmitam aos estudantes informação sobre as características das profissões nas quais as empresas têm mais dificuldade em recrutar, ou são essenciais.

Trata-se de um desafio grande para o BCSD Portugal, e para as cerca de trinta empresas que constituem o grupo de trabalho, uma vez que passa por adoptar uma linguagem apelativa aos mais novos, por desmistificar algumas profissões que porventura são desvalorizadas pelos alunos e pelos círculos familiares, ou, dito de outra forma, passa por aproximar duas realidades que estão ainda muito afastadas.

Mas não estamos sozinhos, porque felizmente existe um conjunto de organizações que tem vindo a trabalhar neste campo e que acumula uma experiência importante. Estamos a falar tanto de entidades públicas como de outras congéneres do BCSD Portugal, em outras áreas de intervenção com a comunidade. É um desafio que encaramos com optimismo, uma vez que, no percurso de cerca de um ano que o projecto já fez, os contributos de outras organizações tem suplantado largamente as nossas expectativas, sendo hoje para nós evidente que estamos todos a correr no mesmo sentido e para objectivos comuns. É exemplo desse trabalho conjunto o protocolo que o BCSD Portugal assinou com o Ministro da Educação e Ciência, para uma colaboração mais estreita entre empresas e ensino.

[pull_quote_left]A liderança é a competência comportamental mais escassa nos profissionais[/pull_quote_left]

De realçar, como já o fez o Ministro Nuno Crato esta semana, que as conclusões deste inquérito são apenas uma indicação das necessidades de recrutamento das empresas, e que não pretendem nem devem esgotar a formação dos jovens no que respeita a competências transversais, de cidadania e das demais áreas que permitem ajudar a formar cidadãos com visão e ambição abertas ao mundo, para as suas vidas futuras. Trata-se, sobretudo, de indicações para escolhas profissionais, que pretendem contribuir para reduzir a elevada taxa de desemprego entre os mais novos, uma vez que se constata que muitos jovens fazem escolhas de profissões sem conhecer o que realmente significam ou que opções apresentam.

O inquérito foi realizado com o apoio de um dos membros do grupo de trabalho, o Hay Group, e muito apoiado por todas as empresas que o constituem, na medida em que o tornaram muito consistente, com experiências e campos de actuação muito diversificados de quase trinta empresas.

Entre as principais conclusões, podem destacar-se as seguintes:

Criação de postos de trabalho

Entre 2017 e 2020, um total de 47 empresas do BCSD Portugal vão criar entre 7500 e 11200 postos de trabalho em Portugal. A juntar a este número, estas empresas vão criar ainda cerca de 3600 empregos no próximo ano, valor que representa 1,5% de aumento da força de trabalho e 11% dos cerca de 31 mil postos de trabalho previstos pelo Banco Central Europeu, em Março de 2015.

Competências mais escassas no mercado

As 47 empresas identificaram as cinco competências mais escassas em Portugal para o período entre 2017 e 2020:

  • engenharia tecnológica
  • comercial, marketing e comunicação de informação
  • ciências económicas
  • operações e logística
  • automação

[pull_quote_left]As empresas membros do BCSD Portugal vão criar cerca de 3600 empregos em 2016[/pull_quote_left]

Dentro das cinco competências mais escassas, são exemplos de profissões os Técnicos de Redes, Programadores e Analistas de Sistemas (engenharia tecnológica), os Técnicos de CRM/ Marketing Relacional e E-commerce (comercial, marketing e comunicação de informação), os Gestores de Risco e Controllers de Gestão (ciências económicas), os Técnicos de Operação Logística e Responsáveis de Entreposto Logístico (operações e logística) e os Técnicos de Robótica, Programadores CNC (máquinas robotizadas) e Programadores de Automação (automação).

Para o ano de 2016, a estimativa aponta para que a engenharia informática seja a profissão mais valorizada pelas empresas, podendo vir a ser contratados 1200 profissionais, valor que representa um terço do total de colaboradores a contratar pelas 47 empresas. Nestes perfis, enquadram-se exemplos de profissionais de informática em geral, análise e programação e informática de gestão.

Competências críticas para o desenvolvimento dos negócios

As 47 empresas identificaram as cinco competências técnico-profissionais críticas para o desenvolvimento das empresas e dos seus negócios:

  • operações e logística (cadeia de valor)
  • automação
  • comercial, marketing e comunicação de informação
  • engenharia de materiais e mecânica
  • engenharia tecnológica

Sem estas competências, o sucesso das empresas fica comprometido. A título de exemplo, em relação à área de operações e logística, as competências críticas que mais se destacam são a gestão logística, as operações e logística e o planeamento industrial. Na área comercial, marketing e comunicação de informação, as competências mais críticas são as compras e negociação, o marketing relacional e a prospecção comercial.

Competências comportamentais

A liderança é a competência comportamental mais escassa nos profissionais, enquanto que a orientação para o cliente e a orientação para os resultados são as duas competências mais críticas para o desenvolvimento dos negócios.