Gestão do risco, ética, competitividade e formação são os temas mais relevantes no desenvolvimento sustentável, revela um estudo recentemente apresentado pela KPMG. As principais oportunidades identificadas pelas empresas cotadas em Bolsa passam por melhorar o desempenho operacional e de gestão, a reputação e o diálogo com stakeholders, enquanto as maiores dificuldades na implementação de uma estratégia de sustentabilidade continuam a ser a gestão fragmentada do tema, a dispersão geográfica e a diversidade dos negócios
POR GABRIELA COSTA

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© KPMG
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A KPMG Advisory–Consultores de Gestão realizou em 2010, em parceria com a NYSE Euronext, um inquérito no sentido de avaliar a evolução dos riscos e oportunidades do desenvolvimento sustentável. O estudo “Riscos e Oportunidades do Desenvolvimento Sustentável”, que surge na sequência de um outro desenvolvido em 2008, a propósito do impacto das questões éticas, económicas, sociais e ambientais no modelo de gestão das empresas cotadas em Bolsa em Portugal, analisa a abordagem que o universo destas empresas faz, actualmente, da sustentabilidade.

A partir de uma amostra que contém 56 por cento da capitalização bolsista, em 31 de Dezembro de 2010, das empresas com cotação principal em Portugal (o questionário foi respondido, entre os meses de Setembro e Novembro, por 24 das 51 empresas cotadas na Euronext Lisbon), foi possível identificar os principais riscos e oportunidades inerentes à gestão sustentável.

A larga maioria (93 por cento) das 24 empresas que participaram no estudo considera importante todos os temas relacionados com o conceito de desenvolvimento sustentável. No topo da lista estão a Gestão de Risco, a Gestão Baseada em Princípios de Integridade e Ética, Competitividade e Resultados Financeiros e Formação/Gestão do Capital Humano.

Este consenso face à importância do desenvolvimento sustentável já se havia verificado em 2008, mas desta vez os temas ambientais ganharam relevância: cerca de noventa por cento das empresas consideram-nos necessários.

Embora “o compromisso assumido perante os temas do desenvolvimento sustentável” continue “elevado”, das cerca de 75 por cento das empresas que afirmam ter uma estratégia de sustentabilidade, apenas 63 por cento consideram temas de sustentabilidade nos seus objectivos de negócio.

As conclusões do estudo da KPMG revelam que as principais dificuldades na implementação de uma estratégia de sustentabilidade continuam a ser a gestão fragmentada dos temas da sustentabilidade, a dispersão geográfica e a diversidade dos negócios. Ao nível de estratégia de sustentabilidade, os resultados do inquérito destacam ainda a necessidade adicional de recursos humanos.

Gestão de risco aumenta
No que concerne questões relacionadas com o risco, e talvez por efeito da crise económica, as empresas manifestam-se preocupadas, dando relevância ao tema nos últimos anos. Em 2010, 83 por cento afirmaram ter definido um modelo de gestão de risco que inclui, entre outros, mecanismos de identificação e quantificação dos riscos de forma sistemática, para o curto, médio e longo prazo, a monitorização de riscos e a definição de planos de acção para a sua mitigação. Em 2008 este número era de 75 por cento.

Já em relação ao item Governance, cerca de 54 por cento dos inquiridos refere que a Comissão Executiva é o órgão com responsabilidade formal pela estratégia e desempenho da sustentabilidade na sua empresa, e 42 por cento das empresas afirmam ser o Conselho de Administração. Em sessenta por cento dos casos existe um administrador com o pelouro da sustentabilidade, garantem os participantes, e a gestão da sustentabilidade é efectuada por uma equipa multidisciplinar com responsáveis dos vários departamentos. Não obstante, só existe um departamento de sustentabilidade em 38 por cento das empresas, indicam os resultados.

Quando questionados sobre a adopção e formalização de uma política de Corporate Governance, 81 por cento das empresas afirma dar resposta a este aspecto, incluindo no cumprimento com recomendações, requisitos legais e regulamentares. A maioria (95 por cento) dá resposta aos princípios de regras de avaliação e remuneração dos administradores e disponibilização de informação relevante, como curriculum vitae e cargos de relevância, conclui o relatório.

Por outro lado, dezoito dos participantes (75 por cento) afirmam ter um código de conduta de colaboradores e 25 por cento afirmam ter implementado um código de conduta para fornecedores. E 71 por cento das empresas referem dispor de mecanismos e meios para esclarecimento sobre os códigos de conduta, das quais 29 por cento afirmam que estes se destinam a colaboradores e quatro por cento apenas a fornecedores.

A antecipação de nova legislação ambiental e social mais restritiva e exigente é um dos desafios que se coloca às empresas .
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Reputação e imagem no centro das preocupações
Mas, afinal, quais são os principais riscos apontados pelas empresas? Para 58 por cento das empresas que participaram no estudo realizado pela KPMG, os riscos reputacionais e de imagem são os mais preocupantes. Seguem-se os riscos associados à responsabilidade ambiental, em cinquenta por cento dos casos, e os associados à gestão dos resíduos, para 33 por cento das organizações inquiridas. As conclusões do estudo sublinham ainda os 25 por cento de empresas que não tomam em consideração standards e certificações para a selecção e contratação de fornecedores.

Relativamente ao desempenho ambiental das empresas, em cinquenta por cento das empresas é o Estado e as concorrentes do seu sector quem mais impulsiona a definição de uma estratégia de combate às alterações climáticas.

Para minimizar ou mitigar os impactos ambientais, as organizações desenvolvem principalmente iniciativas como separação de resíduos (83 por cento), instalação/utilização de equipamentos energeticamente eficientes (75 por cento), programas de educação, formação e sensibilização em medidas “amigas do ambiente (71 por cento) e utilização de produtos reciclados (67 por cento). Grande parte das empresas (cerca de 75 por cento) tem, mesmo, definidos objectivos para a utilização ou consumo de recursos com impactos ambientais, enquanto 25 por cento o faz em relação a algumas das medidas aplicadas.

Finalmente, a importância dada pelas empresas ao desempenho social sobressai do facto de 75 por cento das empresas cotadas em Bolsa que responderam ao inquérito da KPMG terem em funcionamento programas de atracção e retenção de talento, dos quais resultam os programas de Formação Avançada, medida mais referida pelas empresas (noventa por cento). A consultora alerta ainda par ao facto de apenas 38 por cento das empresas referirem estar identificadas para a gestão de topo, no que respeita à sucessão para posições críticas na organização.

Quanto aos aspectos relacionados com o equilíbrio entre vida profissional e vida familiar, doze das 24 empresas inquiridas dizem ter implementado políticas que visam o tema, adoptando diferentes medidas. A nível social, as políticas de não discriminação e a gestão do stress foram outros aspectos considerados relevantes no estudo. Sobre estes temas, 25 por cento das empresas referiram não ter uma política de contratação de pessoas com deficiência e apenas oito empresas (33 por cento) referem ter programas que visam dar assistência aos colaboradores em caso de stress profissional ou pessoal.

Os desafios que aí vêm
Maioritariamente, as empresas que participam no estudo identificam três grandes oportunidades: melhoria do desempenho operacional e de gestão, melhoria da reputação e melhoria do diálogo com stakeholders. Metade considera ainda uma oportunidade melhorar a abordagem ao risco e melhorar a sua imagem na comunidade onde se insere. Entre vinte a trinta por cento das empresas consideram que a redução de custos, o desenvolvimento de novas linhas de negócio ou a entrada em novos negócios, e a criação de novos produtos e serviços são, também, oportunidades do desenvolvimento sustentável.

A KPMG destaca ainda que, apesar de no estudo realizado em 2008 54 por cento das organizações ter eleito a Valorização dos Títulos em Bolsa como uma oportunidade, este item não foi, no presente estudo, identificado por nenhuma das empresas como uma oportunidade dentro da sustentabilidade. Curiosamente, um dos participantes referiu “que tem dúvidas quanto a considerar a sustentabilidade uma oportunidade para a actividade da sua empresa”.

Partindo dos resultados do estudo “Riscos e Oportunidades do Desenvolvimento Sustentável”, a KPMG identificou os dez grandes desafios actuais para a sustentabilidade empresarial. São eles, a capacidade das empresas cotadas em influenciar e liderar junto da cadeia de valor e das comunidades em que estão envolvidas; a oportunidade de desenvolver novos produtos e serviços mais eficientes; a oportunidade de desenvolver uma cadeia de valor baseada numa economia de Baixo Carbono; a antecipação de nova legislação ambiental e social mais restritiva e exigente a que as empresas têm que dar resposta; a necessidade de contribuir para o cumprimento de objectivos nacionais e metas internacionais no âmbito das alterações climáticas; a capacidade de ir ao encontro das crescentes orientações dos reguladores sobre estas matérias; a evolução para o reporte integrado de temas financeiros e de sustentabilidade, onde se destaca a criação em 2010 do Internacional Integrated Reporting Committee; a disponibilização de mais informação a investidores através de entidades como a Bloomberg, que já disponibilizam informação de sustentabilidade através dos seus terminais; o reforço da reputação das organizações, através do escrutínio de fornecedores alinhados com a estratégia de sustentabilidade das empresas; e, finalmente, o alinhamento progressivo da estratégia de sustentabilidade com a estratégia de negócio, consolidando o business case para a sustentabilidade, dentro das organizações.

Resta saber como irão as grandes organizações cotadas em Bolsa melhorar o seu desempenho em sustentabilidade para transformar os riscos em oportunidades. Dimensão à parte, o estudo divulgado esta semana pela KPMG permite a todas as empresas portuguesas obter um benchmark face às suas práticas, nesta área cada vez mais decisiva.

Riscos e Oportunidades do Desenvolvimento Sustentável
TOP 5 OPORTUNIDADES
. Melhoria do desempenho operacional e de gestão (67 por cento)
. Melhoria da reputação (58 por cento)
. Melhoria do diálogo com stakeholders (58 por cento)
. Melhoria na abordagem ao risco (50 por cento)
. Melhoria da imagem junto das comunidades (46 por cento)

TOP 5 DIFICULDADES
. Gestão fragmentada dos temas da sustentabilidade (54 por cento)
. Dispersão geográfica e diversidade de negócios (54 por cento)
. Necessidade adicional de recursos humanos (42 por cento)
. Necessidade adicional de recursos financeiros (25 por cento)
. Dificuldades na determinação do risco e impacto das alterações climáticas no negócio (25 por cento)

Fonte: “Riscos e Oportunidades do Desenvolvimento Sustentável” – KPMG Advisory

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Gabriela Costa

Jornalista