Actuar fora dos limites formais da nossa responsabilidade exige coragem e, por vezes, assumir um certo grau de risco, calculado, ou nem por isso, se as circunstâncias não permitirem o tempo necessário para a reflexão ponderada que a acção em causa exigiria. Mas a coragem também se treina e desenvolve, nomeadamente na escola, começando bem cedo, através da educação para a cidadania responsável, desenvolvendo desde logo nas crianças o sentido de Responsabilidade Individual
POR ADELAIDE MARTINS

A primeira resposta que me ocorreu, impulsivamente, ao ler a pergunta “Devo, na empresa, ir além dos limites formais da minha responsabilidade?” foi “Sim! Na empresa e na vida! Quando e sempre que necessário!”

Mas, logo de seguida, ocorreram-me também outras questões: existem, na empresa, limites para a minha responsabilidade? Como se define, afinal, o limite da minha responsabilidade individual? Sou apenas responsável pelo que está mencionado na minha descrição funcional ou sou co-responsável pela empresa onde trabalho, tal como o são todos os restantes colaboradores e órgãos de gestão, cada um no âmbito da sua experiência e competências, devendo sentir-me obrigada, ou pelo menos impelida, a agir, sempre que as circunstâncias o requerem? E quando é que as circunstâncias o requerem?

Sabemos que existe, no âmbito das empresas e das suas culturas formais e informais, uma expectativa de diligência e proactividade, de cooperação e até mesmo de lealdade, que não é compatível com “não agir”, quando tal pode comprometer ou pôr em causa interesses das Organizações e das pessoas que as integram.

Como podemos virar a cara para o outro lado e fingir que não vemos o que se está a passar à nossa volta, à semelhança do que recorrentemente acontece no filme que serve de inspiração a este texto, quando a nossa intervenção é absolutamente necessária para evitar uma catástrofe, bastando para tal um pequeno e insignificante gesto? Como podemos, nessas circunstâncias, esconder-nos atrás de argumentos, ou melhor, desculpas, tais como: não está nos procedimentos; não tenho autorização; não compete à minha área; já fiz a minha parte, e tantas outras afirmações do mesmo tipo, que já todos ouvimos e até sabemos quem as usa com frequência nas empresas onde trabalhamos.

Claro que actuar fora dos limites formais da nossa responsabilidade exige coragem e, por vezes, assumir um certo grau de risco, calculado, ou nem por isso, se as circunstâncias não permitirem o tempo necessário para a reflexão ponderada que a acção em causa exigiria.

Ao traduzir de forma livre uma frase de John Wooden, que me marcou “O que define o nosso carácter é o que fazemos quando ninguém está a ver”, ocorre-me algo que li recentemente, referindo que nas empresas, ao inverso, o que define o nosso carácter é o que fazemos quando todos estão a ver

Mas a coragem também se treina e desenvolve, nomeadamente na escola, começando bem cedo, através da educação para a cidadania responsável, desenvolvendo desde logo nas crianças o sentido de Responsabilidade Individual, em que os limites da actuação – não agredir, não ultrapassar, não invadir, não ofender, entre tantos outros – têm de estar presentes, assim como o estímulo para a evolução de estados passivos para estados activos, gerando acção e foco no atingir de resultados, que, no final, são de todos e têm impacto em todos, sendo decisivos para o sucesso individual, das empresas e da economia.

Por sua vez, a mudança de mentalidade também se treina, nas crianças, nos jovens e nos adultos, levando-os a reflectir sobre “O que posso fazer por mim, pelos outros, pela minha empresa, pelo meu país e pelo mundo?”, fomentando atitudes empreendedoras, em vez de aguardar que “alguém” lhes resolva os problemas e que lhes pague os subsídios de “inactividade”. Podemos testemunhar actualmente no nosso país inúmeros destes exemplos, de mudança de atitude pessoal, com resultados e com impacto muito positivos na dinamização das cidades e da economia.

Face às actuais características do mundo VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo, na sigla em inglês) em que vivemos, também a partilha e o trabalho em rede, à escala mundial, originaram a transição da tradicional afirmação “No segredo é que está o ganho” para a nova formulação “Na cooperação é que está o ganho”, abrindo o conhecimento ao mundo, potenciando sinergias e criando diariamente novos contextos empresariais que contribuem para a sustentabilidade das empresas.

Ao traduzir de forma livre uma frase de John Wooden, que me marcou “O que define o nosso carácter é o que fazemos quando ninguém está a ver”, ocorre-me algo que li recentemente, referindo que nas empresas, ao inverso, o que define o nosso carácter é o que fazemos quando todos estão a ver. Não só ao agirmos nos limites formais da nossa responsabilidade, mas para além destes, quando a situação assim o exige para salvaguarda de um bem maior, ou então o que não fazemos, quando não agimos e todos estão a ver…

Ocorrem-me muitas mais questões, deixo algumas aqui, por responder, para reflexão:

E se não agirmos? A omissão da acção necessária, fora do meu âmbito de responsabilidade individual, que bloqueia algo importante ou desencadeia algo catastrófico na empresa, deve ser alvo de punição?

E se após agirmos para além da nossa responsabilidade, convictos, na pressão do momento, de que a acção era pertinente e absolutamente necessária, afinal esta se revela desajustada e prejudicial à empresa, deverão ser atribuídas responsabilidades a quem tomou a iniciativa?

Se todos somos responsáveis por tudo, qual é afinal o limite da nossa responsabilidade, será que afinal ninguém é responsável por nada?

E se o “outro” for eu? Ou melhor, quando tu és “a situação” que justifica a intervenção, o que esperas da tua empresa e de quem te rodeia?

2 COMENTÁRIOS

  1. O que defende no seu artigo de opinião é correto e julgo que muitas empresas privadas (não conheço a realidade da administração pública) já vivem nessa cultura de cooperação que é necessária. Porventura poderá haver trabalho a fazer em algumas em que há significativa dissonância entre as condições oferecidas e a cultura hands-on que a empresa desejaria. Equipa insatisfeita não veste a camisola ou veste-a menos. E se melhorar condições nem sempre é possível do ponto de vista salarial, há outras formas menos onerosas de aumentar a satisfação.

  2. Pois muito bem, até compartilho de grande parte da opinião, mas também compreendo a omissão, sobretudo quando originária dos anónimos, que é aliás a menor parte. Os que têm poder são os que mais praticam essa omissão, que para mim tem um nome desrespeito para com o próximo. Até poderia facultar provas disso por documentos emitidos pela empresa que embandeira trabalhar, embora noutra secção, não sendo por isso de sua responsabilidade…., embora do domínio publico.

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