O desenho das políticas de retribuição é uma arte que exige muita preparação. Arte, porque não basta a técnica, porque cada desenho será uma criação única, se não se quer tratar esta peça chave das políticas da organização como a má arquitectura de bairros sociais (que também pode haver boa)
POR ANA MACHADO

Nunca me dediquei a esses desenhos, nem tinha, até há pouco, dado especial atenção ao tema – até que recebi a informação de um livro que me despertou a curiosidade.

O que primeiro despertou foi o “eu céptico”, pelo título: Como liderar pessoas com a retribuição: Políticas, critérios, valores. Cepticismo: a retribuição paga, cumpre a função de “troca de equivalentes” (quando o desequilíbrio dos poderes não faz dela uma gritante troca de incomensuráveis); a retribuição estimula, pode ser chicote ou cenoura; mas … liderar?

Por aí ficaria, se não fossem os autores: Guido Stein e Carlos Anta. Professor do IESE e autor de livros como “Dirigir em tempos de incerteza”, se Guido Stein usa o termo “liderar”, é disso que está a falar. O “eu curioso” venceu, e pedi o livro.

“Como liderar pessoas com a retribuição” transmite a técnica a aplicar nestes desenhos tal como se esperaria de um professor do IESE: com abrangência de temáticas e detalhe q.b., com pedagogia, com casos reais recentes.

Isso, e mais. Sem precisar de o dizer, mostra que a liderança se exerce também – e muito! – através do desenho e implementação das políticas de retribuição.

É uma das características curiosas desta obra: o que diz, sem precisar de gastar palavras nisso. Por exemplo, das sete palavras “substantivas” do título, três têm um “peso ético” significativo: liderar, pessoas e valores. Mas, ao longo de quase trezentas páginas, os termos são os de qualquer outro que trate destes temas: salários e incentivos, expectativas e negociação, expatriados e administradores. O título aponta o Norte e com rumo claro se navega. Como os destinatários são pessoas, as políticas propostas respeitam a sua dignidade e os critérios apontados visam a justiça (mesmo que seja bem mais difícil de identificar do que a mera legalidade, sobretudo em situações problemáticas).

De uma pessoa muito discreta, dizia, sem ironia, um seu amigo apontando para uma fotografia da família em que o dito não aparecia: “São estes os melhores retratos dele!” Porque estava retratado no seu modo de ser e de participar na vida familiar. Lembrei-me dele, como uma personificação da ética que está presente sem ocupar um espaço próprio, que sustenta cada proposta sem pretender protagonismo.

No dia 21, Guido Stein vem a Lisboa para falar sobre Liderar pessoas em processos de M&A. Outro grande tema em que o “eu céptico” saltaria. Se não fosse Guido Stein.

Ana Machado

Cátedra de Ética na Empresa e na Sociedade AESE/EDP