Neste Julho de 2021 de pandemia a ciência diz-nos que em Setembro estaremos melhor, mais protegidos, mais sãos e mais juntos, tudo desaguando nas marés vivas do equinócio do nosso contentamento. Fica então combinado: na data divulgada abriremos uma garrafa de champanhe quando contarmos de dez até zero. E do zero só se conta para diante
POR PEDRO COTRIM

Equinócio.

Se desatarmos as sílabas percebemos a compostura do vocábulo. Talvez a sua gravidade se manifeste pelo toque da língua no palato quando se abre a sílaba tónica. Enfatiza este momento astronómico e transforma «Ano Novo» numa expressão quase desajeitada e em que vamos duas vezes ao céu da boca para dizer nonô. Mudar de vida? Faz-se no equinócio, não na passagem de ano nem noutras efemérides que exijam fonemas espessos. O próprio «aniversário» se torna sibilino e é uma palavra que aparentemente podia ser vocalizada por qualquer ser de língua bífida. Ssssssá. É feio, não é? Não, não é. Feio é viver uma vida que não nos preencha.

Estamos no mais curto e mais belo momento das nossas vidas, na primeira infância de tudo o que virá depois. O que fizermos agora valerá para sempre; somos os nossos próprios peregrinos e construímos portanto o nosso caminho, sabendo que o destino, qualquer que seja, nunca será a própria casa. Reformulando Heráclito, talvez possamos dizer que ninguém morre no quarto em que nasce.

Mudar de vida. A ideia de penhorar melhores eus para as efemérides está consagrada na história dos propósitos, mas sabemos, por conversas de juras e desistências, que as decisões de novo ano apenas vicejam alguns dias. No final de Janeiro todos os asseverados ex-fumadores estão a sorver os cigarros que a vontade tensa lhes retirou durante umas semanas, os ginásios estão esvaziados após a praga de entusiastas dos primeiros dias e os grandes projectos que se prometeram encetar na mudança administrativa entraram em banho-maria ou em modo para-mais-tarde-neles-pensar. Ainda porque o dia 1 de Janeiro, como qualquer outro dia, não sucede para todos ao mesmo tempo, cortesia da redondez da Terra que tão bem se exibe nos diurnos jogos de Tóquio e que vão decorrendo nas nossas madrugadas – entretanto parabéns, grande Jorge Fonseca! Emocionados e agradecidos!

O Ano Novo é sobretudo um decreto sem o qual nos seria muito difícil viver. No fundo é um marco quilométrico nas olimpíadas da nossa vida; não é ao quilómetro treze que, de supetão, deitamos fora o que nos pesou nas últimas passadas.

O Um de Janeiro tem muitos atributos para ser aziago. Invernia, dias bruscos que nos molham e gelam e o fim das Festas que mexem connosco e terminam em spleen. O ânimo nunca estará afinado para a mudança e o ano lectivo e de trabalho é já um velhinho de três meses.

Temos agora, em menos de dois meses, o equinócio do Outono. O Sol vai cruzar o equador a uma velocidade cuja componente vertical será de pouco mais de um quilómetro por hora, um andamento ajustado aos eventos solenes. Sucede exactamente no mesmo instante para todos os habitantes do mundo e pode ser fornecido desde já: quarta-feira, dia 22 de Setembro às 20:21 de Portugal Continental e Madeira, menos uma hora nos Açores. Até lá haverá Verão – astronómico, pois que na realidade há três conceitos de Verão carimbados pela ciência – e as férias que temos nos anelos há muitas semanas; daqui até ao Kairós não vamos emendar muitas vontades. Apanharemos sol a mais, como é habitual e contrário ao que planeáramos, vamos beber as cervejinhas com os amigos, vamos às patuscadas e se formos de amores de Verão escreveremos linhas na areia rapidamente transformadas em linhas que muito mais tarde nos desenharão sorrisos sem sabermos porquê. Perderemos objectos importantes nas esplanadas e nas praias, veremos os ocasos mais belos do ano e esqueceremos a urbe. Como é belo e fagueiro e inesquecível o grande estio.

As boas decisões da rentrée estão dentro do que podemos açambarcar. O livre arbítrio tem sido matéria da filosofia e das religiões, mas, mais que isso, é uma força potencial intrínseca e que não se perde com a existência. Uma gota de chuva que caia na Serra da Estrela não escolhe boca coimbrã ou lisboeta, pois a decisão pertence ao sítio exacto onde bate no solo; esta sobe à Cabra, estoutra desce aos Restauradores. Nós também somos água, mas não tanto assim. Somos carne e espírito com doces pretextos de felicidade. E o final do Verão põe-nos à frente os afinadores perfeitos para o que aí vem. Estamos descansados, bronzeados e cheios de novas memórias queridas.

Neste Julho de 2021 de pandemia os especialistas dizem-nos que em Setembro estaremos melhor, mais protegidos, mais sãos e mais juntos, com tudo a desaguar nas marés vivas do equinócio do nosso contentamento. Fica então combinado: na data divulgada abriremos uma garrafa de champanhe quando contarmos de dez até zero. E do zero só se conta para diante.

Pedro Cotrim

Editor