É a tecnologia que nos possui ou somos nós que possuímos a tecnologia? A questão há muito que tem vindo a ser debatida, abrindo caminho fértil para um conjunto de pesquisas e argumentos variados. Num livro verdadeiramente apaixonante, e que versa sobre a interligação existente entre emoções e tecnologias ao longo dos dois últimos séculos, os autores concluem, entre muitas perspectivas interessantes, que os humanos do século XXI contam com uma afirmação ilimitada, um entretenimento sem fim e uma companhia constante. E a verdade é que a tecnologia contribui para termos essa esperança, apesar de não a conseguir realizar. E ainda bem
POR HELENA OLIVEIRA

Está o Twitter a fazer-nos mais estúpidos? E os smartphones a contribuírem para que nos sintamos mais sozinhos? Estão as crianças e os jovens a perder a tolerância para com os momentos de inactividade porque a sua vida é continuamente movida a ecrãs? As selfies indicam níveis crescentes de narcisismo? Os espaços de comentários, e o Facebook, despertam o que de pior há em nós?

Estas e outras perguntas têm sido alvo de investigação e terreno fértil para artigos, ensaios e livros que se dedicam a explorar a forma como as tecnologias invadem as nossas vidas – mesmo que seja a nosso convite – e têm influência na forma como expressamos as nossas emoções. O casal de professores Luke Fernandez e Susan J.Matt, ambos pertencentes à Weber State University, com o primeiro a co-dirigir o Tech Outreach Center da mesma e a segunda a ser considerada como uma distinta professora de História e autora do best-seller Keeping Up with the Joneses: Envy in American Consumer Society and Homesickness: An American History, resolveram recuar até ao século XIX e, tomando como ponto de partida a invenção do telégrafo, viajar e documentar de que forma é que as nossas emoções têm vindo a ser transformadas pelas mudanças tecnológicas. Em Bored, Lonely, Angry, Stupid, Changing Feelings about Technology, from the Telegraph to Twitter, argumenta-se que as tecnologias actuais removeram muitos dos limites do nosso ambiente emocional, sendo por isso que procuramos, de forma constante, o estímulo, o envolvimento e a validação dos outros, ao mesmo tempo que a raiva e os impulsos anti-sociais não são limitados, antes afirmados no terreno digital onde crescentemente nos movemos.

Para os autores, enquanto na actualidade tudo fazemos para não nos aborrecermos, nos tempos idos a sociedade aceitava os períodos de inactividade como uma oportunidade para a produtividade e para a criatividade; se antigamente a solidão era considerada como uma parte integrante da vida, e normal, hoje é vista como um traço patológico com inúmeras consequências negativas para os nossos estados mentais e físicos; se as gerações que nos precederam eram constantemente avisadas para manterem a modéstia e não celebrarem o “eu”, hoje em dia a autopromoção e a vaidade fazem parte integrante da vida da maioria das pessoas.

Não só nos limitamos a desenvolver novos dispositivos para expressar as nossas emoções, como esses mesmos dispositivos alteram a forma como expressamos essas mesmas emoções

Estas e outras ideias são exploradas no livro através do acesso a cartas e diários dos séculos XIX e XX, em conjunto com entrevistas a pessoas entre os 18 e os 87 anos, num universo variado de segmentos populacionais, profissões e backgrounds. E o seu argumento mais potente é o de que não nos limitamos a desenvolver novos dispositivos para expressar as nossas emoções, como esses mesmos dispositivos alteram a forma como expressamos essas mesmas emoções.

Como talvez seja a solidão a emoção que mais caracteriza uma grande parte de muitas vidas – sendo denominada como “a epidemia do século XXI” – o VER leu um excerto do livro que se debruça sobre a mesma e partilha ideias e conclusões fascinantes a que chegou o casal de autores.

Solidão: de um estado normal da condição humana ao estatuto de “anormalidade”

Os media sociais carregam nos ombros a culpa pela solidão que hoje se vive em todas as idades, sendo normalmente sugerido que estes isolam os indivíduos mesmo vivendo na promessa que os conectam cada vez mais.

Mas este alarme contrasta significativamente com a forma como a gerações que nos precederam encaravam a solidão. Se é verdade que tanto no século XVIII e XIX, os americanos (no caso do livro) sempre se sentiram sozinhos, a verdade é que não se preocupavam com esse sentimento, pois as suas expectativas eram muito mais modestas face ao número de amizades que deveriam ter, ao mesmo tempo que consideravam a solidão como uma parte inescapável da condição humana.

Ao longo do século XX, as novas tecnologias e as novas teorias da psicologia transformaram as expectativas sobre a solidão e a conexão

Mas ao longo do século XX, as novas tecnologias – desde o rádio ao telefone de Alexander Bell – e as novas teorias da psicologia transformaram as expectativas sobre a solidão e a conexão. Mas e até lá, não só se acreditava que estar sozinho era a vontade de Deus, como se afirmava que o conhecimento de nós mesmos só poderia ser atingido através desse mesmo estado.

E quando surge o telégrafo em 1884, muitos observadores declararam euforicamente que tinha sido Deus a ordenar a sua criação para juntar as pessoas e unir as nações. Contudo, e graças ao seu custo elevadíssimo, os americanos do século XIX consideravam-no de pouca utilidade para combater o isolamento, sendo muito aqueles que apenas o viam como uma intrusão nas suas vidas. Em vários locais dos Estados Unidos, escrevem os autores, muitos fios eram cortados e havia até quem acreditasse que a cólera se espalhava pelos mesmos. Inicialmente também, o telefone teve uma aceitação tímida e mesmo depois de a resistência se dissipar – qualquer nova tecnologia enfrenta uma certa defesa quando surge – as expectativas em poder-se comunicar com o mundo mais alargado em conjunto ainda com os altos preços das comunicações mantinham a sua adopção de forma bem modesta.

O rádio deu origem “a uma necessidade histérica de ruído constante e de diversão, funcionando como um meio para escapar ao isolamento”

Mas estas expectativas haveriam de mudar bruscamente. O livro cita um anúncio de 1912 da Bell no Nebrasca, no qual se clamava que os “telefones baniam a solidão”,enquanto em 1909, um outro anúncio apontava já para o facto de que quem não tivesse telefone, iria sentir-se muito “mais isolado” e “fora das coisas”. Já o rádio, quando começou a ser amplamente aceite, foi culpado de “viciar as pessoas” que se sentiam nervosas quando o silêncio reinava nas suas casas, com um repórter em 1942 a clamar que este tinha dado origem “a uma necessidade histérica de ruído constante e de diversão, funcionando como um meio para escapar ao isolamento”

Pior do que isso, muitas pessoas começaram a sentir-se “culpadas” quando experimentavam sentimentos de solidão, na medida em que se começou a defender largamente que o isolamento social e os fracassos nos negócios eram devidos não ao pesar inerente da condição humana ou à vontade divina, mas à incapacidade de se desenvolver um “eu” que agradasse aos outros. Na verdade, muitos escritores de sucesso afirmavam que quem aspirasse a “uma vida de negócios” que fosse próspera no mundo empresarial deveria saber cultivar redes vastas de amigos. Em simultâneo, surgiria uma nova palavra na língua inglesa – “loner” – que dava uma conotação negativa à palavra “solitário” – e, em pleno século XX, em particular depois da Segunda Grande Guerra, já era normal associar os que estavam sozinhos a um deficiente ajustamento à sociedade. Por outro lado, e também na altura em que emergiram, tanto o carro como a televisão foram encarados como fracturantes para a vida social. Os primeiros porque permitiam às pessoas viver a maior distância dos sítios onde trabalhavam, faziam compras ou se juntavam para reuniões cívicas, ao passo que em plena década de 1970, a televisão era também a culpada de manter as pessoas fechadas em casa em frente ao aparelho mágico. No livro que viria a ser um best-seller, The Pursuit of Loneliness, o seu autor, Philip Slater definia os estilos de vida dos americanos como individualistas e muito graças às tecnologias que os apoiavam. “Procuramos mais e mais privacidade, e sentimo-nos mais alienados e sozinhos quando a encontramos”, escrevia.

Em simultâneo, os psicólogos começaram a conferir um estatuto de “disciplina formal de estudo” à solidão, tendo sido desenvolvida, em 1978, uma escala de avaliação da mesma. Sempre numa espécie de contraciclo, as empresas de comunicações continuavam a insistir nos perigos do isolamento e nas promessas da conexão através das tecnologias.

“Procuramos mais e mais privacidade, e sentimo-nos mais alienados e sozinhos quando a encontramos”

Algumas décadas passadas, as tecnologias modernas aumentaram a esperança relativa à sociabilidade constante e, em simultâneo, partilha-se constantemente uma preocupação exacerbada face à solidão. Quando Mark Zuckerberg criou, em 2013, a internet.org, que prometia lutar para conferir acesso à rede para os milhares de milhões de habitantes no planeta, e obviamente já com os dois olhos no Facebook, enfatizando a necessidade humana para a conexão, já o discurso em Silicon Valley exacerbava também as ansiedades relativas à solidão. E esta ideia assenta particularmente bem quando a solidão é percepcionada como a discrepância entre o número de conexões que alguém tem versus o número daquelas que considera desejáveis.

O que acabou por acontecer, afirmam os autores, é que se conferiu uma nova titularidade à conectividade online, um desejo que não tem limites e que, para a pergunta “quanta conectividade é suficiente” parece não haver resposta. A acompanhar o número de “amigos” e “seguidores” nas redes sociais, existe também uma reinterpretação da experiência de se estar só, a qual passou de um estado comum e potencialmente positivo para um sentimento profundamente negativo. Ou seja, onde outrora se encarava a solidão como inevitável, mesmo que desconfortável, na actualidade não só é vista como uma emoção perigosa, como também é considerada como um estado de embaraço para quem se sente só.

Onde outrora se encarava a solidão como inevitável, mesmo que desconfortável, na actualidade não só é vista como uma emoção perigosa, como também é considerada como um estado de embaraço para quem se sente só

A verdade é que as tecnologias modernas fizeram com que a conexão social se tornasse em algo de extrema facilidade e a ausência desse tipo de relacionamentos um estado cada vez mais difícil de suportar. Como sublinham os autores, e ao passo que as gerações que nos precederam acreditavam que a solidão era uma condição à qual não se podia escapar, na actualidade são muitos os que a consideram como “curável”, ou como uma circunstância que pode ser mitigada pelos telefones e pelos computadores. Mesmo que se tenha consciência que todas estas ferramentas falham em cumprir a promessa de felicidade, aconchego e convivialidade que nos habituámos a ter como certa.

As tecnologias modernas acenam-nos com a promessa de satisfação, entretenimento e variedade constantes

O livro de Luke Fernandez e Susan J.Matt tenta responder, no geral, a duas grandes questões: de que forma é que as emoções [dos americanos] mudaram e até que ponto as tecnologias foram cúmplices dessas mesmas mudanças. Não sendo um tema de todo fácil nem objectivo, os autores acabam por concluir que “a tecnologia, por si só, não determina os sentimentos, mas a cultura alargada, da qual a mesma faz parte, decerto que os molda”. E a obra Bored, Lonely, Angry, Stupid acaba mesmo por ser fascinante.

Por exemplo, os autores seguem a história da máquina fotográfica e recordam que as primeiras fotografias, no século XIX, mostravam sempre as pessoas como “negras e tristes e com rostos que não sorriam”. Foi a democratização do acesso a esta nova tecnologia e muito graças à Kodak – que ensinou as pessoas a mostrarem-se felizes quando olhavam para a câmara – que à fotografia se juntou o conceito de vaidade. Alguns fotógrafos, na verdade, ofereciam aos seus clientes adereços, filtros e modificações para os ajudar a falsificar os seus traços menos atraentes. Qualquer semelhança com a vaidade e com a busca da perfeição hoje protagonizada pelas selfies não será pura coincidência.

“A tecnologia, por si só, não determina os sentimentos, mas a cultura alargada, da qual a mesma faz parte, decerto que os molda”

No que respeita à raiva – outro sentimento que nos entra pelos ecrãs a dentro na era das redes sociais – foi na viragem do século XX que os indivíduos se viram obrigados a atenuar este tipo de sentimento muitas vezes expressado cara a cara e em espaços públicos. De acordo com o livro, o número de pessoas a trabalhar em escritórios aumentou substancialmente e a capacidade para controlar um temperamento irascível face aos colegas e aos subordinados passou a ser considerada como imprescindível para aqueles que queriam ascender nas fileiras da gestão. Mas, e por outro lado, também ao longo de algumas décadas do mesmo século, as emissões de rádio eram consideradas como despoletadoras de “mentalidades de massas” e, por isso, potencialmente perigosas. No século XIX, era comum fazerem-se “reuniões de indignação” onde as pessoas, sobretudo os homens, eram livres de expressar os seus sentimentos negativos relativos a um conjunto de temas distintos. Na actualidade, essa “raiva comunitária” é expressa todos os dias nas redes sociais, com a diferença de que agora mulheres e minorias também podem contribuir para o debate.

Nem a solidão nem o aborrecimento são actualmente aceites como estados normais da condição humana

Numa entrevista concedida à Vox por Susan Matt e tendo em conta toda a investigação que, enquanto co-autora, fez para o livro, a docente de História argumenta que uma das grandes transformações veiculadas pela tecnologia reside no facto de nem a solidão nem o aborrecimento (ou tédio) serem actualmente aceites como estados normais da condição humana. Hoje em dia nunca estamos sozinhos, pois podemo-nos ligar e distrair-nos com o que quer que seja que nos apareça nos múltiplos ecrãs a que temos acesso. Como afirma, “a ascensão dos smartphones significa ‘companhia constante’ ou pelo menos a sua promessa. Nem sempre a encontramos verdadeiramente, mas o telefone está lá sempre, acenando-nos com a promessa de satisfação, entretenimento e variedade”, apesar de não ser a primeira tecnologia a fazê-lo, sendo o rádio um dos primeiros exemplos desta companhia e ausência de solidão.

Todavia, o smartphone representa uma mudança substancial nas nossas expectativas de companhia e entretenimento, bem como uma alteração na forma como respondemos aos sentimentos de tédio/inactividade e de solidão. “E por causa das promessas da era digital, quando experienciamos esses mesmos sentimentos, sentimo-nos muito mais surpreendidos e alarmados do que os nossos antecessores”, acrescenta ainda.

“A ascensão dos smartphones significa ‘companhia constante’ ou pelo menos a sua promessa”

No entanto, esta incapacidade que grassa agora na sociedade de nos sentirmos sós ou com momentos de inactividade atrofia a nossa criatividade, na medida em que estarmos sós com nós mesmos dá-nos acesso a um conjunto de ideias variadas que não surgem quando estamos sempre conectados. Apesar de todos primarmos pela nossa autonomia e auto-suficiência, e de as celebrarmos como valores, “é absolutamente claro que não queremos – nem por um momento – estarmos apenas com nós mesmos”, com os telefones a fazer-nos menos independentes do que julgamos ser. Adicionalmente, e no século XXI, as pessoas estão a desenvolver todas estas expectativas de gozarem de uma vida sociável, completamente satisfatória e sem limites, “o que nos faz ser totalmente desequipados para lidar com momentos que não correspondem a estas mesmas expectativas”, diz ainda.

A pressão crescente da autopromoção

Uma outra conclusão retirada das entrevistas realizadas para a investigação subjacente ao livro – e que não é propriamente nova – reside no facto de os respondentes confirmarem sentir uma enorme pressão para se expressarem, se celebrarem e se apresentarem como uma “marca”. Como afirma, as pessoas confirmam ter consciência de tentar editar as suas imagens de forma a transmitir uma imagem o mais próxima possível da perfeição e isto porque toda a gente o faz. O efeito “líquido” desta pressão, argumenta, é que aqueles que passam grande parte do seu tempo online sentem que ao se mostrarem na praça pública que é a Internet, têm de o fazer ostentando o “seu melhor”, o que lhes confere um sentimento mais exacerbado sobre o seu “eu” e sobre a sua própria importância.

Esta importância aumenta igualmente a relação entre a raiva e o narcisismo, relação esta igualmente aferida pelos entrevistados para o livro. Cada vez mais, as pessoas sentem-se ansiosas por chamar a atenção nas redes sociais e expressar opiniões fortes, e por vezes agressivas, o que lhes rende, geralmente, essa atenção tão desejada. Assim, discorre Susan Matt, este sentimento alargado relativamente ao “eu” e a pressão crescente para o promover parece estar a aumentar, em simultâneo, tanto a auto celebração como a ira.

Aqueles que passam grande parte do seu tempo online sentem que ao se mostrarem na praça pública que é a Internet, têm de o fazer ostentando o “seu melhor”, o que lhes confere um sentimento mais exacerbado sobre o seu “eu” e sobre a sua própria importância.

E é como se tivéssemos ganho uma muleta psicológica sem a qual já não sabemos andar. A verdade é que esta fome por atenção, e por mais perturbadora que seja, oferece um enorme desapontamento quando não a conseguimos alcançar, e as nossas esperanças de uma afirmação ilimitada poderão estimular a nossa fúria quando não temos capacidade para receber essa mesma afirmação.

No livro, escreve-se também que “o novo self” se divide entre o individualismo e a comunitarismo, entre o egoísmo e a sociabilidade. Susan Matt oferece o exemplo do narcisismo para ilustrar esta declaração, afirmando, contudo, que existe um grande diferença face ao mito de Narciso. Se por um lado existem inúmeras pessoas que estão constantemente a publicar as suas selfies e isso pode ser interpretado como narcisismo, a verdade é que o que buscam é a afirmação e aceitação por parte da sua comunidade. O que se procura nestes casos é que família e amigos “gostem” de nós e isso consiste num instinto de significativa sociabilidade e comunitarismo.

Hoje testemunhamos expressões mais isoladas de ira e raiva e, muitas vezes, com o único objectivo de se buscar “likes”, o que não se traduz nos laços fortes que eram construídos em movimentos sociais passados

Recordando as já mencionadas “reuniões de indignação” que eram comuns nas praças públicas do século XIX – com os historiadores a estimar que existia uma destas reuniões em cada cinco dias -, hoje testemunhamos expressões mais isoladas de ira e raiva e, muitas vezes, com o único objectivo de se buscar “likes”, o que não se traduz nos laços fortes que eram construídos em movimentos sociais passados.

Questionada, e naturalmente, sobre se é a tecnologia que está a alterar as nossas atitudes e não outras forças ou aspectos da nossa cultura, Matt reitera que estamos perante um processo recíproco: as mudanças na economia capitalista reforçam estes padrões e estes dispositivos são produtos dessa mesma cultura, ao mesmo tempo que a modelam. Ou seja, a tecnologia é um impulsionador, apesar de não ser o único.

Mas e então é a tecnologia que nos possui ou somos nós que possuímos a tecnologia? Susan Matt responde que temos de ter consciência que tanto as emoções como a tecnologia constituem artefactos históricos que são determinados pelos humanos, e que, colectivamente, temos o poder de os alterar. E é também verdade, assegura a co-autora, que as emoções mudam ao longo dos tempos, não só por causa da tecnologia, mas enquanto resultado de um conjunto amplo de mudanças culturais e económicas. E, acrescenta, se é verdade que temos agora mais ferramentas que ajudam a expressarmo-nos mais facilmente, também temos sentimentos para essa mesma expressão que são distintivos de determinados espaços e tempos. “As emoções não se mantêm fixas e são expressas através de novos dispositivos”, afirma. “Mas os dispositivos transformam-nas, na medida em que nos ensinam novos hábitos, alimentam novas expectativas e modelam novos comportamentos também”, acrescenta.

No final da entrevista Susan Matt explica que o objectivo deste livro é fazer com que as pessoas compreendam que muitas das nossas preocupações sobre o facto de o Facebook contribuir para exacerbar a nossa solidão, para o Google fazer-nos sentir estúpidos ou as selfies nos transformarem em narcisistas sem remédio são questões que precisam de ser estudadas de acordo com uma perspectiva histórica

As emoções não se mantêm fixas e são expressas através de novos dispositivos. Os dispositivos transformam-nas, na medida em que nos ensinam novos hábitos, alimentam novas expectativas e modelam novos comportamentos também

A grande conclusão encontrada no padrão traçado nas mudanças ocorridas, ao longo dos dois últimos séculos, na interligação entre emoções e tecnologia, deve-se à crescente esperança que sentimos para um “eu” sem limites.

“Se no século XIX, os americanos percepcionavam limites no que respeita ao número de pessoas que conheciam, sobre o quão se deviam autopromover, sobre a quantidade de excitação que poderiam almejar, os do século XXI esperam, enquanto humanos, uma afirmação ilimitada, uma ira desenfreada, um entretenimento sem fim e uma companhia constante. A tecnologia contribui para termos essa esperança, apesar de não a conseguir realizar.