O Grupo IKEA registou um aumento do consumo em vários mercados, no ano fiscal de 2013. Em conjunto com a boas notícias financeiras, o relatório de sustentabilidade do Grupo mostra os progressos alcançados com a sua nova estratégia, “Pessoas Positivas, Planeta Positivo”, com base num já longo trabalho na área da sustentabilidade
POR MÁRIA POMBO

O Relatório de Sustentabilidade do ano fiscal de 2013 (também denominado FY13, o qual avalia a performance da empresa de 1 de Setembro de 2012 a 31 de Agosto de 2013) apresentado no final de Janeiro deste ano, pelo Grupo IKEA, revela um aumento de 3,1% nos seus resultados líquidos. Pela primeira vez, este ano, o Grupo comunicou os progressos alcançados no seguimento da sua nova estratégia – “Pessoas Positivas, Planeta Positivo”-, mostrando o seu empenho na procura de soluções e respostas aos maiores desafios deste século, que são, segundo Peter Agnefjäll, Presidente e CEO do Grupo IKEA, “as falhas esperadas de recursos” e “o impacto das alterações climáticas, sem deixar de providenciar às pessoas uma boa qualidade de vida”.

Através da visão ‘criar um melhor dia-a-dia para a maioria das pessoas’, o Grupo pretende mostrar que as formas de poupar mais sofisticadas não estão apenas ao alcance das elites economicamente mais favorecidas, algo que o planeta agradece.

Uma questão interessante é que esta nova estratégia pretende apresentar soluções de poupança que, além de amigas do ambiente, são acessíveis à maioria dos consumidores. Assim, não se limita a apresentar propostas para um mundo melhor com as quais só os mais ricos podem colaborar, através de ideias megalómanas e extravagantes, que exigem investimentos elevados e resultados apenas visíveis a médio/longo prazo. Na verdade, esta estratégia pretende mostrar que o IKEA não é uma “loja dos 300” – que apresenta formas de poupar, com produtos que até são acessíveis à maioria das pessoas, mas, além de prejudicarem fortemente o ambiente, revelam ter pouca durabilidade, acabando por ficar mais dispendiosos do que o esperado – mas sim um local que apresenta produtos duradouros e acessíveis e que, de facto, permitem que as poupanças se sintam quase de forma imediata.

© IKEA Foundation

Mudanças simples reduzem o desperdício
O Grupo IKEA, com base em dados do Reino Unido e da Holanda, concluiu que, em média, cada agregado familiar desperdiça 500 euros em alimentos, por ano. O Grupo defende, e comprova que, com mudanças simples, é possível reduzir em 40% a 70% o desperdício de uma casa.

Poupar água, poupar energia e reduzir o desperdício são os três caminhos, apontados pelo Grupo, para promover uma vida mais sustentável. E para que isto seja possível, são apresentadas várias soluções, com produtos e estratégias a ter em consideração.

A água pode poupar-se através de dispositivos de redução de fluxo, inseridos em todas as torneiras que estão à venda nas lojas (que permitem gastar cerca de metade da água que se gasta normalmente, sem este mecanismo) ou de máquinas de lavar loiça que gastam cerca de 10 vezes menos água do que lavando a loiça manualmente.

A energia é poupada através das lâmpadas LED e de alguns electrodomésticos. As lâmpadas são vendidas a preços muito acessíveis e permitem uma redução de custos que é sentida de forma quase imediata (em média, cada lâmpada permite poupar 7€, anualmente, comparativamente às lâmpadas incandescentes, durando cerca de 20 anos). Em 2013, foram vendidas 12,3 milhões de lâmpadas LED nas lojas IKEA. Alguns electrodomésticos, como as placas de indução de calor, dão origem a poupanças na ordem dos 40% em relação às usuais placas de vitrocerâmica. Os produtos à venda nas lojas IKEA, em 2013 são, em média, 41% mais eficientes do que aqueles que eram vendidas em 2008.

Para reduzir o desperdício, o Grupo IKEA põe à disposição uma série de recipientes práticos, fáceis de usar e arrumar, muitos deles transparentes para ser mais fácil identificar o que contêm. Promove ainda a criação de espaços onde é possível ter plantas e ervas aromáticas, úteis nos cozinhados, também com a mesma lógica dos recipientes, que consiste em ocuparem pouco espaço e serem usadas em todas as casas, desde as maiores às mais pequenas.

O grupo dá ainda dicas úteis de como reciclar e reutilizar os produtos, ajudando a poupar na conta do supermercado. Sob o mote “muitas pequenas mudanças fazem uma grande diferença para o planeta e no orçamento das pessoas”, o Grupo sugere, por exemplo, que as famílias façam compotas com fruta da estação, para o ano inteiro, que guardem as sobras dos alimentos no frigorífico ou no congelador para que possam durar mais tempo, ou que tenham sempre um saco reutilizável para evitar os sacos de plástico. Estas sugestões, expressas no relatório de sustentabilidade do FY13, ajudam a poupar e a evitar o desperdício, possibilitando “uma vida mais sustentável em casa”.

© IKEA Foundation

Mais por menos
Existem 11 critérios de avaliação de produtos, segundo os quais se pretende produzir mais a partir de menos, através da utilização de materiais renováveis, reutilizados, reciclados e recicláveis; pretende-se ainda que estes produtos tenham qualidade e permitam uma vida sustentável em casa. O IKEA quer, também, através destes critérios, garantir que os seus produtos têm qualidade, com a utilização de matérias-primas, e que possam ser reciclados no final da vida útil.

Estes critérios têm ainda em conta o consumo de energia necessária durante a produção e pretendem que a eficiência seja garantida inclusivamente no processo de transporte, e não apenas no fabrico dos produtos.

O relatório refere ainda que cerca de 1/3 (4,5 milhões de m3) da madeira usada nos produtos e 68% do papel utilizado no catálogo têm certificação FSC (Forest Stewardship Council). Esta certificação comprova que existe uma gestão ambiental responsável, ou seja, “que os produtos provêm de florestas bem geridas que oferecem benefícios ambientais, sociais e económicos”. O catálogo anterior tinha 23% de papel com certificação FSC, ou seja, cerca de 1/3 do catálogo de 2013.

O algodão revelou-se também um material a ter em conta, tendo 2/3 deste origem em fontes mais sustentáveis. No entanto, para o Grupo IKEA, 2/3 não são suficientes, e também neste material existe uma grande aposta: foram investidos 1,35 milhões de euros, em 2013, em projectos de apoio a 110 mil produtores de algodão. Melhorando as condições de vida dos produtores, o Grupo incentiva a que o algodão seja um material cada vez mais sustentável.

No FY13, foram poupados 40 milhões de euros graças a esforços de eficiência energética. Nota-se uma clara aposta em energia renovável, com 96 turbinas eólicas a funcionar e outras 137 já instaladas, a juntar aos 550 mil painéis solares também instalados (que, juntos, ocupam uma área capaz de preencher 130 campos de futebol). As turbinas eólicas e os painéis solares, no ano fiscal de 2013, permitiram produzir 366 GWh de electricidade – o suficiente para fornecer energia a cerca de 110 mil casas.

Em 2013, as lojas e edifícios do Grupo conseguiram ser, em termos energéticos, 8% mais eficientes do que foram em 2010, produzindo 1/3, em energia renovável, do total de consumo energético, e reciclando 87% dos resíduos.

Estes resultados revelam uma clara aproximação do objectivo de independência energética até 2020, que consiste em produzir (ainda) mais energia renovável do que aquela que se utiliza.

Parcerias mais fortes
Além das preocupações ambientais, o Grupo pretende melhorar as condições de vida de todas as pessoas que, de forma directa ou indirecta, fazem chegar os produtos às lojas, evitando abusos por parte dos fornecedores. Assim, e por este motivo, foi criado o IWAY, um código de conduta para fornecedores, segundo o qual o IKEA assegura, por exemplo, respeitar os direitos humanos e os dos trabalhadores (tendo em conta as horas de trabalho e o pagamento de acordo com os requisitos legais), prevenir trabalho infantil e forçado, cumprir leis e regulamentos locais, proteger o ambiente e prevenir os riscos que ponham em causa a segurança.

Todos os fornecedores do IKEA têm que garantir que os sub-contractos de trabalho também cumprem os requisitos IWAY. O IKEA garante que 100% dos fornecedores estão em conformidade com este código ou serão excluídos, caso não mostrem esforços para o cumprir.

Em 2013, foram realizadas mais de mil auditorias às empresas que fornecem produtos ao Grupo, com 80 auditores, internos e externos, todos eles formados em IWAY, a garantirem a conformidade com este código. Existem 65% de fornecedores a trabalhar com o IKEA há mais de cinco anos, permitindo ao grupo uma maior estabilidade e confiança nas parcerias estabelecidas.

Para Angela Cilento, Business Navigator da IKEA Roma Anagnina, Itália, “as auditorias IWAY são uma forma de a IKEA conhecer todos os colaboradores, fornecedores e ambiente. As auditorias detalhadas ajudam-nos a perceber melhor os fornecedores e a construir parcerias mais fortes.”

Esta política ajuda a melhorar não só a vida destes fornecedores mas também das comunidades locais, tal como confirma Raul Ganju, Responsável de Sustentabilidade, Sul da Ásia, IKEA Índia: “por exemplo, o IWAY exige que todos os nossos fornecedores de têxteis instalem estações de tratamento de afluentes das águas residuais provenientes das suas fábricas. Assim, o ambiente local é melhorado, bem como as vidas das pessoas que aí vivem”.

© IKEA Foundation

Crianças continuam a ser prioridade
Tal como foi já referido anteriormente, o Grupo fez investimentos ao nível da produção de algodão sustentável: não apenas pela importância dada a esta matéria-prima e ao ambiente, mas também porque permite que os 110 mil produtores locais tenham condições de vida mais dignas.

Existe também a preocupação de proporcionar aos trabalhadores um bom ambiente de trabalho. Esta preocupação, aliada ao princípio de não discriminação em função do género, garante, por exemplo, que 47% das funções de liderança são exercidas por mulheres (a força de trabalho tem pouco mais de 1/3 de mulheres). O código de conduta IWAY, acima referido, é outro exemplo da importância dada às pessoas, contribuindo para a criação de melhores empresas, com melhores condições de trabalho para os seus 600 mil colaboradores a nível global.

Assegurar o cumprimento dos direitos das crianças consiste, igualmente, em uma das grandes preocupações do grupo sueco. Em 2013, a IKEA Foundation doou 101 milhões de euros a programas que apoiam os direitos das crianças, um aumento de 21% relativamente a 2012. Até ao ano fiscal de 2015, mais de 100 milhões de crianças serão abrangidas pelos actuais programas financiados pela IKEA Foundation.

“A IKEA Foundation visa melhorar as oportunidades das crianças e jovens, nos países em desenvolvimento, através de uma abordagem holística e de um financiamento a programas de longa duração que possam criar mudanças substanciais e duradouras. A IKEA Foundation trabalha com fortes parceiros estratégicos com o objectivo de criar resultados substanciais e duradouros em quatro grandes áreas da vida da criança: um lugar a que possam chamar casa; um início de vida saudável; uma educação de qualidade e um rendimento familiar sustentável. Estima-se que 100 milhões de crianças beneficiem dos programas actualmente apoiados.”

Exemplo do apoio da Fundação IKEA é a campanha de Peluches para a Educação, que decorreu entre Novembro e Dezembro de 2013, em que, por casa peluche vendido nas suas lojas, a IKEA Foundation doou 1 euro à UNICEF e à Save the Children. O objectivo desta campanha foi ajudar a melhorar o acesso à educação das crianças em África, na Europa Central e de Leste e na Ásia, tendo sido  angariados 10,1 milhões de euros em todas as lojas IKEA, a nível mundial.

Esta campanha teve início em 2003 e, desde essa altura, já foram angariados 67 milhões de euros, permitindo o acesso à educação a mais de 11 milhões de crianças em 46 países. O acesso à educação implica também a formação de professores e o fornecimento de materiais educativos.

Uma outra campanha foi feita, paralelamente a esta, a nível nacional. Sob o mote ‘Doe 1 Peluche, Ofereça Mais 1 Sorriso’, o IKEA ofereceu 6.248 peluches a crianças de 21 instituições, em Portugal.

Em Portugal, foi angariada a maior contribuição de sempre – 132 mil euros – por colaboradores e clientes das três lojas existentes.

‘Uma Vida Melhor para os Refugiados’
É a mais recente iniciativa em vigor nas lojas IKEA a nível mundial e pretende oferecer iluminação sustentável a famílias em campos de refugiados do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, também conhecido por UNHCR).

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© IKEA Foundation
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Os números são alarmantes: existem cerca de 10,5 milhões de refugiados em todo o mundo, dos quais metade são crianças. Em 2013 mais de dois milhões de pessoas tornaram-se refugiados.

Tendo em conta que a ausência de luz é um dos principais problemas nos campos de refugiados, o IKEA juntou-se ao ACNUR com o objectivo de fornecer iluminação aos refugiados de Rohingya, fugidos de Myanmar, melhorando as suas condições de vida e de segurança, por um lado, através da diminuição dos riscos de crime ou violência e, por outro, através do incentivo ao aumento do rendimento escolar, com a possibilidade de os jovens estudarem à noite.

António Guterres, Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, mostra-se esperançoso com esta campanha e refere a importância do sector privado para esta causa: “o apoio do sector privado torna-se urgente e vital a cada nova emergência humanitária. Esta campanha representa um inovador capítulo na nossa relação com a IKEA Foundation, o maior parceiro do ACNUR no sector privado. Juntos, esperamos ser capazes de transformar a vida de muitos refugiados”.

Até 29 de Março deste ano, na compra de uma lâmpada LED nas lojas IKEA, a IKEA Foundation doa 1€ ao ACNUR para tornar os campos de refugiados da Ásia, África e Médio Oriente mais humanos e seguros.

Esteve também em exposição, na Fundação Calouste Gulbenkian, uma tenda real utilizada pelas famílias nos campos de refugiados, com o objectivo de sensibilizar a população para os verdadeiros problemas que se vivem, nestes locais.

Mária Pombo

Jornalista