Tudo isto existe, tudo isto é triste… mas nem tudo tem de ser fado. Trabalhar com populações vulneráveis, cujas vidas parecem sofrer de uma fatalidade predeterminada, e tentar inverter esse carácter determinístico, é o que move muitas das associações que se candidatam ao PARTIS. E, mudar, nem que seja só um destes destinos, é já uma prova ganha. As artes circenses, a arte urbana, a fotografia ou as tutti-artes ajudam ao que não é suficiente, mas que já é um bom princípio
POR
HELENA OLIVEIRA

© Fundação Calouste Gulbenkian
© Fundação Calouste Gulbenkian

Mala Mágica – Artes circenses para a cidadania
Trabalhar o gosto pelo risco, sem o pisar

“A oportunidade de transportar, numa mala, toda a magia do circo, para qualquer lugar, quer na apresentação de espectáculos, quer na dinamização de workshops, em que os nossos rapazes e raparigas têm a oportunidade de mostrar aos outros o que vão aprendendo nos nossos ateliers no dia-a-dia”. É assim que Filipa Batista, coordenadora do projecto Mala Mágica, promovido pelo Chapitô, o define, sendo o seu principal propósito o desenvolvimento pessoal e social de 90 jovens tutelados pela Justiça nos centros educativos da Bela Vista e de Navarro de Paiva, em Lisboa, em conjunto com a sua futura inclusão. Com cerca de 45 a 50 horas semanais de atelier em cada um dos centros, Filipa Batista sublinha que, para além da dinâmica de trabalho diário que estimula estes jovens, o mesmo abre-lhes novas perspectivas e horizontes não só em termos de actividades performativas que podem desenvolver no futuro, como mesmo a nível de trabalho. Como conta um jovem, que participou no Mala Mágica enquanto estava institucionalizado, “foi uma coisa que eu adorei e que me marcou muito. E agora que já estou fora, matriculei-me numa escola de técnicos de acção educativa e espero poder ensinar a outros aquilo que aprendi”.

Como explica também Américo Peças, director pedagógico do projecto “o circo é sempre um espectáculo onde o risco, a possibilidade de nos ultrapassarmos a nós próprios, está presente”. E, continua, “estes jovens são também marcados pelo risco, mas por um risco que, socialmente, é negativo”, ou seja, o que o projecto permite é que estes mesmos rapazes e raparigas continuem a experimentar esse risco, mas agora com uma dimensão de positividade e de reconhecimento social. “Este projecto permitiu-me descobrir algo que eu gosto e em que sou bom e que me motivou a acabar o 12º ano”, refere outro jovem.

Para além do reconhecimento do projecto por parte do Ministério da Justiça, o que é uma mais-valia no que respeita à renegociação do protocolo que o Chapitô tem com a instituição, em conjunto com muitas outras entidades parceiras, o Mala Mágica foi ainda eleito como projecto-modelo no Congresso Internacional de Reincidências. “Trabalhar o risco do ponto de vista artístico supera qualquer outro tipo de desvio comportamental”, defende ainda Teresa Ricou, presidente executiva do Chapitô.

© O Teatrão
© O Teatrão

CBR Linhas Art Lab
Espaço privado, espaço público

Promovido pela Oficina Municipal do Teatro – O Teatrão, o projecto CBR Linhs Art Lab, em Coimbra, e em parceria com o Circulo de Artes Plásticas de Coimbra, o Jazz ao Centro Clube e a Casa da Esquina, trabalha com jovens entre os 14 e os 20 anos, provenientes de contextos de exclusão, mas que já participaram, na sua maioria, em outras actividades similares promovidas por esta Associação, para jovens de bairros sociais e também imigrantes, como refere a sua coordenadora, Cláudia Carvalho. Os participantes vão construindo um “currículo”, que passa por vários tipos de arte, desde o teatro, a música, a dança, as artes plásticas e, em particular, a arte pública ou urbana, como explica a directora artística Isabel Craveiro. E, no final de cada semestre, é realizado um espectáculo num espaço público. A ideia é dotar os jovens com as competências necessárias para que possam, depois, desenvolver algum projecto, exactamente nos espaços públicos que os rodeiam, uma das principais dimensões do projecto. Para uma das participantes, o projecto permite receber aquilo que a escola não oferece: “criar, e não apenas memorizar coisas, pensar por nós próprios, desenvolver ideias e discuti-las com os outros”. E é isso que significa “inclusão” para a coordenadora do projecto. Já para Isabel Craveiro, ao contrário dos que afirmam que a arte é boa para todos, mas não é considerada fundamental para ninguém, no sentido de que não serve para nada ou serve para tudo, a verdade é que, pela experiência que tem tido com estes jovens, ela serve, sim, para “mudar a vida das pessoas”.

© Fundação Calouste Gulbenkian
© Fundação Calouste Gulbenkian

Integrar pela arte – Este espaço que habito
Fotografei o gradeamento que me separa da liberdade

Promovido pelo Movimento de Expressão Fotográfica e dedicado a cerca de 200 jovens, com idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos, com medidas tutelares de internamento, em seis centros espalhados pelos distritos da Guarda, Porto, Coimbra e Lisboa, este projecto utiliza o poder da imagem, da fotografia, “para que consigam expressar aquilo que sentem, aquilo que vivem, enquanto estão no centro educativo”, como faz saber Tânia Araújo, coordenadora do mesmo. Numa primeira fase, os jovens constroem as suas próprias câmaras a partir do chamado “processo pin-hole” (ou buraco de alfinete), para as quais são necessárias, basicamente, cartolinas escuras, para que a luz não penetre, e rolos fotográficos. De seguida, exploram o espaço interno – e o externo para os que podem sair dos centros – ,tiram as suas fotografias, que são depois reveladas e coladas num “caderno de campo”, e sobre as quais os jovens têm de escrever “o que sentem”. Do “isto é treta” – a reacção inicial dos jovens quando lhes dizem que é possível construir uma máquina fotográfica a partir de um pedaço de cartão, a “todo o universo novo que se abre depois”, como conta o director pedagógico Tiago Santos, acrescentando ainda que este processo de motivação, apesar de lento, quando começa a “fazer parte deles, promove uma verdadeira mudança nas suas vidas”.

Explorar a criatividade e trabalhar para o autoconhecimento, contribuindo para o desenvolvimento das competências psicossociais destes jovens contribuirá, acreditam os mentores do projecto, para que a sua integração na sociedade depois do período de internamento, seja mais fácil e estimulante.

© Afonso Cabral
© Afonso Cabral

Há Festa no Campo
Aliar a tradição com a inovação e festejar

O desenvolvimento local das aldeias é o propósito central do já bem (re)conhecido projecto “Há Festa no Campo”, promovido pela Associação Ecogerminar, coordenado por Marcos Domingues e com intervenção nas aldeias Juncal do Campo, Freixial do Campo, Barbaído e Chão da Vã, pertencentes ao concelho de Castelo Branco. Com o objectivo de fazer acreditar aos habitantes destas aldeias que o espaço em que habitam tem potencial de desenvolvimento, o projecto aposta na participação das populações em causa, “através de ‘assembleias comunitárias’, momento em qualquer pessoa pode identificar oportunidades, as suas próprias motivações, competências e paixões”, explica o coordenador. Existe ainda um segundo momento, denominado como “oficinas de capacitação”, e que consiste na preparação e organização de iniciativas e eventos socioculturais com a população, cujo propósito é a promoção do encontro entre pessoas das aldeias intervencionadas e o desenvolvimento de algo em conjunto. Todavia, o principal “momento” deste projecto culmina na “festa” ou na celebração e apresentação pública dos eventos que foram sendo trabalhados e que podem incluir exposições de pintura, fotografia, teatro, vídeos, musica, dança, poesia, entre outras, sempre relacionados com as tradições, memórias e festividades locais.

Para Nuno Leão, director artístico, o objectivo passa também pelo aliar da tradição – porque se parte sempre do património material e imaterial das aldeias em causa – com a inovação, porque se “provoca” a reactivação de um conceito de aldeia, associado à arte, e que atinge o seu expoente na recriação do conceito das aldeias artísticas. Os responsáveis pelo projecto convidam artistas variados, que são desafiados, em conjunto com a comunidade, a criar um projecto artístico. Com um impacto win-win, para quem lá vive e para quem visita, estes eventos ajudam inclusivamente na economia das aldeias em causa, ao mesmo tempo que proporcionam uma “nova esperança quer para os jovens, quer para os mais velhos”, como conta um habitante local. Ou, como relata outro, num tom humorista, se bem que suficientemente sério, “serve para ocupar as nossas mulheres que assim não nos chateiam tanto”. Apesar de o propósito não ser bem esse, a verdade é que actividades como a pintura de edifícios, o “mercadinho do camponês” e, em particular, as “festas na aldeia” têm servido para a preparação de eventos comunitários, para inverter, de certa forma, a sua desertificação, apostando na cidadania participativa e na partilha de experiências. E até as rivalidades existentes entre aldeias vizinhas serve para apimentar a vida dos que nelas habitam e conferir um tom ainda mais colorido a este projecto.

© Mala Voadora
© Mala Voadora

Vitória 283
Porque o futuro não tem de ser uma fatalidade

Com sede em Lisboa, mas recentemente estabelecida no Porto, a companhia de teatro Mala Voadora lançou um desafio a dois parceiros, o Centro Social da Vitória e A3S, esta última organização social especialista em avaliação de impacto social para a promoção de um projecto de produção artística que envolveu 35 crianças da freguesia da Vitória, conta Vânia Rodrigues, responsável por este projecto. Partindo da questão “o que é para ti a cidade” e como explica a actriz Anabela Almeida, a partir dai foi-se desenvolvendo uma metodologia, que passou pela realização de workshops vários, como por exemplo de fotografia e de construção de maquetes relacionada com a imagem que as próprias crianças têm da freguesia onde vivem, e através destes mesmos workshops, construiu-se um conjunto de ferramentas que lhes permitisse olhar para a cidade com uma nova perspectiva. O projecto estimula também um maior acesso à cultura, nomeadamente através da ida a espectáculos de teatro, dança e cinema, na medida em que estes miúdos, que vivem em condições socioeconómicas complicadas, acabam por estar “reclusos” dentro das linhas geográficas que não vão para além do bairro onde vivem. Para Jorge Andrade, director artístico do projecto, a marca do trabalho habitual da Mala Voadora é similar também neste caso, dado que em vez de trabalharem a partir de uma peça ou guião já escrito, o ponto de partida são, na maioria das vezes, situações do quotidiano, que depois são adaptadas ao teatro, reequacionando o olhar e a perspectiva que se tem sobre essas mesmas realidades. E, confessa o director artístico, “o que mais nos impressionou foi a incapacidade demonstrada por estas crianças de imaginarem um outro percurso para as suas vidas que não seja aquele que, quase fatalmente, parece estar traçado no bairro onde vivem e que não difere do percurso que foi feito pela vizinha, pela mãe ou pela avó”. Despoletar essa capacidade imaginativa é, assim, um dos propósitos deste projecto, “numa tentativa de ‘contaminar’ a sua vida e para que o seu futuro não seja encarado de uma forma determinista, mas antes a partir de uma acção decisiva para poderem transformar as suas próprias vidas”, acrescenta ainda Jorge Andrade. Como conta uma das raparigas, e a propósito de um determinado workshop em que lhes foram disponibilizados acessórios vários, “aprendemos que é possível ‘transformarmo-nos em outras pessoas”. E, acrescenta, “fiz coisas que nunca tinha feito e isso também é uma forma de aprendermos”.

© Festival Todos
© Festival Todos

Margens – Entre o artístico e o social/Um Projecto de Empatias
As artes que preenchem vazios

Foi, durante o ano de 2014, promovido pela Academia Produtores Culturais, que surgiu o Margens, e cujo trabalho envolveu um grupo de homens sem-abrigo, a dormir no albergue nocturno de São Bento, com o objectivo de lhes devolver a auto-estima, capacitá-los socialmente e estimulá-los a recuperar as suas “vidas”, explica a coordenadora do projecto Marta Coutinho. Ao longo de nove meses, e através de uma “formação artística informal” – que passou pela fotografia, cinema, dança, teatro e música e as artes visuais nas suas várias formas, os participantes foram também convidados a visitar espectáculos e exposições, tendo recebido ainda formação por parte de 35 artistas diferentes, com o propósito último de serem parte integrante do Festival Todos. Com a coreógrafa Vânia Rovisco, foi criada uma performance conjunta e, em simultâneo, os beneficiários do projecto fizeram também parte da equipa de produção e de organização do próprio Festival. “Tudo o que eu fiz no Margens serviu para tapar o vazio da minha vida, porque eu venho de um passado muito triste”, declara um dos beneficiários do projecto, que acrescentou ainda que se agarrou de corpo e alma ao projecto. E como resume Madalena Vitorino, directora artística do projecto, pelo menos algumas vidas foram mudadas. Esperemos que sim.

NOTA: Uma parte considerável da informação utilizada para “contar a história” dos projectos apoiados pelo PARTIS, foi retirada da visualização dos vídeos sobre os mesmos, realizados pela Fundação Calouste Gulbenkian, através do seu Programa de Desenvolvimento Humano e que podem ser consultados aqui

Este artigo faz parte integrante do Especial PARTIS – Práticas Artísticas para a Inclusão Social

Editora Executiva