Seja numa lógica cínica e egoísta, seja numa perspectiva de reconhecimento e valorização, creio que a sociedade como um todo tem muito a ganhar com o crescimento e consolidação dos trabalhadores por conta de outrem, daqueles que pensam, produzem, desenvolvem e fabricam
POR RUI ESPERANÇA

Recentemente assisti a duas coisas que me chamaram a atenção e que, nada tendo a ver directamente uma com a outra, acabam por estar interligadas.

A primeira foi uma entrevista no programa da BBC Hardtalk ao milionário americano Nick Hanauer, na qual este expressou o seu ponto de vista sobre o futuro do sistema capitalista, dizendo que, a continuar assim, o mesmo irá ser pulverizado. Em termos simples, Hanauer defende que a concentração em poucas (e cada vez mais reduzidas) mãos de uma fatia cada vez maior da riqueza mundial, faz com que os que não são ricos (e são cada vez mais pobres devido à crescente diferença relativamente aos primeiros) se revoltem por não poderem ter acesso aos bens de consumo a que aspiram e de que, em muitos casos, disfrutaram no passado recente. Ora, segundo ele, isso acabará por criar um sentimento de frustração e de revolta que desenbocará em conflitos permanentes e até em guerras, o que porá fim ao capitalismo. A solução para o problema passa pelo fortalecimento sustentado da classe média trabalhadora, permitindo-lhe aumentar efectivamente o seu nível de vida e as expectativas legítimas que têm para as suas vidas e as das suas famílias. Esta é, em traços muito gerais, a tese do referido milionário, sendo que não cabe aqui discuti-la.

O outro facto de que dei conta foi o do pagamento pela Porsche de um prémio no valor de € 8.600,00 a cerca de 14.600 dos seus trabalhadores, apenas ficando de fora alguns poucos milhares de trabalhadores que não estarão abrangidos pelo instrumento de regulamentação colectiva de trabalho aplicável. Importa referir que, dos € 8.600,00, € 7.900,00 estão exclusivamente relacionados com o desempenho comercial da marca e € 700,00 são afectos ao plano de pensões de cada um dos beneficiários. Para além do pagamento do prémio, a Porsche tornou pública uma nota de imprensa na qual sublinhou o seguinte: agradeceu o esforço dos seus trabalhadores pelo desempenho conseguido; elogiou-os publicamente, apelidando-os de “tão únicos quanto os nossos carros” e dizendo que os mesmos são “boa publicidade” para a empresa; tratou todos os trabalhadores de igual forma ao referir que todos eles foram abrangidos, desde os operários aos engenheiros de topo e, finalmente, referiu que o investimento de parte do bónus num plano de pensões significa que lucros e responsabilidade social podem ser sinónimos.

Dois factos tão distintos quanto estes têm, a meu ver, vários aspectos em comum. Por um lado, a valorização económica dos trabalhadores por conta de outrem, que contribuem decisivamente para o sucesso dos habitualmente denominados empreendedores. Por outro, o reconhecimento de que esse fortalecimento tem um retorno evidente para o negócio. Quanto a este aspecto, a dada altura da entrevista, Hanauer diz mesmo, de forma cínica e algo desconcertante, que o fortalecimento financeiro dos menos ricos é de todo o interesse para os mais ricos, sendo, pois, estes quem, no final do dia, irão colher os benefícios.

Na verdade, embora por razões diversas, estas duas notícias chamaram-me a atenção para o facto de, actualmente, se assistir a uma tendencial desvalorização da importância da classe média e dos trabalhadores por conta de outrem. Não me interessa tanto discutir se essa desvalorização é forçada por circunstâncias externas ou determinada por opções políticas, mas a mesma parece-me indesmentível.

Seja numa lógica cínica e egoísta – que, confesso, me interessa menos –, seja numa perspectiva de reconhecimento e valorização, creio que a sociedade como um todo tem muito a ganhar com o crescimento e consolidação dos trabalhadores por conta de outrem, daqueles que pensam, produzem, desenvolvem e fabricam. Esquecemo-nos demasiadas vezes que essas pessoas são as mesmas que consomem esses mesmos produtos fechando, desse modo, um círculo virtuoso que interessa a todos incentivar.

Nesse sentido, impressionou-me de sobremaneira a atitude da Porsche. Desconheço os lucros da marca, certamente astronómicos, mas estou em crer que a distribuição de cerca de € 125 milhões pelos seus trabalhadores é de realçar, sejam quais forem os resultados da empresa. Imagino a satisfação de um trabalhador ao ser premiado desta forma. Mas a Porsche fez mais: valorizou publicamente os seus trabalhadores, fazendo-os sentir não apenas parte do sucesso da empresa, como únicos e especiais e, até mais do que isso, iguais entre si. Ora, é precisamente este tipo de estratégia que me parece essencial em qualquer organização, para que todos – empregadores e trabalhadores – se sintam parte do mesmo projecto e trabalhem em conjunto para o mesmo fim, embora cada um com funções e objectivos específicos.

Posso estar enganado, mas julgo que em Portugal, e não só em Portugal, a dicotomia “dono” / trabalhador é demasiado acentuada, promovendo o tão nosso conhecido “nós / eles”, como se, verdadeiramente, cada um tivesse interesse em puxar para o seu lado.

Não sei se, conforme defende Hanaeur, o sistema capitalista está em risco a prazo, se nada for feito em defesa da classe média. No entanto, não me parece descabido pensar que a sociedade só tem a ganhar com o fortalecimento dessa camada da população, o que passa, sem dúvida, por lhe permitir alcançar um melhor padrão de vida, mas também por reconhecê-la verdadeira e concretamente como um dos motores essenciais do desenvolvimento e crescimento da sociedade tal como nós a desejamos.