No primeiro dia da governação de Donald Trump, uma mera campanha no Facebook transformou-se, pela força dos acontecimentos, num dos maiores protestos mundiais de sempre em defesa da igualdade e de todas as minorias. A Marcha das Mulheres mobilizou mais de cinco milhões de pessoas em 600 cidades contra o proteccionismo latente na nova ‘America First’ e na ‘nova ordem mundial’
POR GABRIELA COSTA

“Não são as diferenças que nos dividem. É a nossa incapacidade de reconhecer, aceitar e celebrar essas diferenças” – Audre Lorde, escritora e activista dos direitos humanos

“Vamos lutar pelo que é justo”. Foi com estas palavras que, do alto dos seus seis anos, Sophie Cruz, a menina americana descendente de emigrantes clandestinos mexicanos que, em Setembro de 2015, entregou ao Papa Francisco uma carta onde explicava porque é necessária uma reforma migratória nos Estados Unidos, acolheu os aplausos de milhares de pessoas na Marcha das Mulheres, em Washington, onde foi uma das oradoras convidadas.

“Estamos aqui juntos para formar uma rede de amor que proteja as nossas famílias” e “quero dizer às crianças que não tenham medo porque não estamos sós”, disse no palco montado no National Mall (ao lado da mãe, vestida com uma roupa indígena), numa referência à convicção de que todos os emigrantes, como o seu pai, “alimentam este país” e “merecem viver com dignidade”. E demonstrando assim que a manifestação originada por uma mera campanha no Facebook contra o assédio sexual no espaço público se transformara, pela força dos acontecimentos, numa das maiores marchas mundiais de sempre em defesa da igualdade e de todas as minorias.

Realizada a 21 de Janeiro, um dia depois da tomada de posse de Donald Trump como 45º presidente dos EUA, a Marcha Global das Mulheres multiplicou-se em mais de 300 desfiles no país e outros tantos realizados em 82 países, reunindo um impressionante número de participantes indignados contra a ‘America First’ do novo presidente: mais de um milhão só em Washington, 2,5 milhões a nível internacional, num total de mais de cinco milhões de pessoas.

De Sidney à Nigéria, da Tailândia ou de Buenos Aires a Paris, Londres ou Lisboa, os protestos, inspirados por uma campanha eleitoral para muitos manchada (entre outras nódoas) por uma visão discriminatória e humilhante das mulheres, coloriram-se com gorros cor-de-rosa, pussy hats tricotados com orelhas de gato, numa alusão ao sentido pejorativo da expressão, implícito nas palavras de Trump num vídeo de 2005.

A organização quis passar “ao novo governo e ao mundo” a mensagem que “os direitos das mulheres são direitos humanos”, mas não foi só contra os comentários sexistas e misóginos do bilionário que milhões de mulheres e de homens se manifestaram, frente ao Capitólio, onde Trump foi empossado perante uma multidão bem menor que esta, e equivalente a apenas um terço da que aplaudiu Barack Obama, em 2009.


“Aqui está a maioria da América”

À chamada do grupo de activistas que fez da Marcha das Mulheres um movimento global apoiado por ONGs como a Amnistia Internacional e grupos de defesa dos direitos humanos e de todo o tipo de minorias, responderam centenas de figuras públicas e celebridades, que marcaram presença na capital federal dos Estados Unidos e noutras cidades, um pouco por todo o mundo, com críticas directas ao proteccionismo latente na governação de Trump e na ‘nova ordem mundial’ (proferidas entre palavras de ordem e canções de protesto – “esta é a cara da democracia!”, cantava a multidão em Washington).

John Kerry, até à véspera secretário de Estado dos EUA, compareceu na marcha em Washington, juntando-se às mulheres que trabalharam na Casa Branca com Barack Obama, para deixar um recado: “não vamos andar para trás”. Já Hillary Clinton, que perdeu a oportunidade de se tornar a primeira presidente dos Estados Unidos, agradeceu aos manifestantes na sua conta no Twitter. “Obrigada por se erguerem, falarem e marcharem pelos nossos valores na marcha das mulheres. Acredito verdadeiramente que somos sempre mais fortes juntas”, escreveu a democrata.

No “dia dois da tragédia Trump”, o cineasta e activista Michael Moore ironizou – “sobrevivemos ao dia um”, disse ao iniciar a sua intervenção -, para fazer ecoar aquela que, porventura, será uma mensagem essencial para os americanos e para todos nós, num futuro próximo. Citando o título do diário Washington Post, “Trump conquista o poder”, Moore recordou, numa referência ao facto de Hillary Clinton ter obtido em Novembro a maioria do voto popular, apesar de não ter vencido no Colégio Eleitoral) que “aqui está o poder. Aqui mesmo está a maioria da América”. E a essa maioria deixou um pedido, e um número de telefone repetido pela multidão: “quero que telefonem todos os dias para o Congresso. Todos os dias”.

Políticos e senadores como Elizabeth Warren, activistas e actrizes como Audrey Judd, Scarlett Johansson ou America Ferrera, comentadores como Van Jones (CNN, presidente do Dream Corps), que descreveu um “movimento com amor”, líderes de organizações sociais como o Council on American-Islamic Relations, a Planned Parenthood ou a Alliance for Justice e cidadãos anónimos que registaram “a imagem da esperança” juntaram-se à Marcha ‘mãe’, em Washington, onde a diva do pop Madonna fez uma aparição surpresa vestindo um gorro com orelhas de gato, e encerrando horas de discursos a favor da igualdade com uma provocação: “bem-vindo à revolução do amor, à rebelião […] À nossa recusa como mulheres em aceitar essa nova era da tirania”.

Empunhando cartazes com a frase ‘Abra os olhos, Trump. Minha geração é a próxima a votar’, milhares de manifestantes jovens marcaram também presença na Marcha das Mulheres, pelas ruas de Washington e de muitas outras cidades americanas (Los Angeles e Nova Iorque, com mais de meio milhão de participantes cada, Chicago e Boston com perto de 150 mil, Dallas, Denver, Miami, Seattle, Filadélfia e San Francisco, onde também decorreram grandes protestos).

Num clima de resistência pacífica que se espalhou por 600 cidades um pouco por todo o planeta, a iniciativa tornou-se numa gigantesca demonstração de solidariedade por parte de uma maré humana de manifestantes inconformados.


Portugal anti-Trump

Em Portugal, os protestos aconteceram em Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Faro e Angra do Heroísmo. Nas seis cidades, centenas de manifestantes – incluindo activistas, organizações sociais, colectivos e até partidos políticos – juntaram-se à Marcha Global das Mulheres com cartazes onde se podia ler “Não sejas Trump”, “Por todas nós”, “Não nos vamos calar” ou “Contra o ódio no poder”. Mais de cem pessoas, maioritariamente mulheres, concentraram-se em frente à Embaixada dos Estados Unidos, em Lisboa.

Sob o mote “Se não me conheces, não me chames querida”, a organização do evento, uma rede de activistas feministas denominada “Parar o Machismo Construir a Igualdade”, quis lançar uma luta que “deve ser de todos” e continuá-la muito além do protesto de 21 de Janeiro, porque a desigualdade “tem sexo e geografias”: “marcharemos em defesa da justiça climática, dos direitos de quem trabalha, do precariado, dos imigrantes, dos refugiados, das pessoas portadoras de deficiência, das pessoas LGBTQ, das trabalhadoras sexuais. Marcharemos contra Trump e contra Temer”, disse à imprensa Andrea Peniche, uma das organizadoras do evento.

O foco no assédio sexual e nas desigualdades quer-se alargado a uma campanha anti-Trump e a tudo aquilo que ele “personifica” e, diz a activista, “tudo aquilo que recusamos, do machismo à homofobia, da atitude classista ao racismo”.

A campanha nacional conta com o apoio de mais de 30 organizações e de vários artistas e figuras públicas, e tem já os olhos postos no futuro, a pensar nas muitas acções que ainda estão por fazer, em ano de autárquicas. Previsto está já o 1º Fórum 8 de Março (Dia Internacional da Mulher), no Porto.

Da distribuição de panfletos ao debate aprofundado sobre temáticas que (como aconteceu com a criminalização do assédio sexual em espaço público em Portugal, em 2015) vão avançando, mas devagar, porque a realidade é que se trata de práticas e atitudes difíceis de mudar, a organização promete colocar o nosso País no mapa da participação cívica pela defesa da igualdade e dos direitos humanos.


“Não vamos andar para trás”

Donald Trump assumiu a presidência dos EUA com um já muito analisado discurso inaugural de forte tom nacionalista e populista. Determinado em desfazer o legado do seu antecessor, o novo presidente traçou uma visão sombria do declínio dos Estados Unidos sob o governo de Obama, e no seu primeiro decreto, anunciado no final do dia da tomada de posse, limitou o custo económico da famosa cobertura de saúde “Obamacare”.

No seu primeiro dia como presidente de uma das maiores potências mundiais, Trump visitou a sede da CIA e, entre vários compromissos presidenciais encontrou tempo para dizer aos funcionários da Casa Branca que “os jornalistas são as pessoas mais desonestas do mundo”, contestando as notícias que davam conta que a multidão que compareceu à sua posse foi muito menor que a presente na de Barack Obama, em 2009. E não mais parou com o discurso e as medidas proteccionistas que marcaram a sua campanha eleitoral, contra o clima e contra os emigrantes hispânicos, contra as minorias étnicas e religiosas e contra direitos cívicos há muito conquistados pelas mulheres e por todos os cidadãos, há muito consagrados como direitos humanos universais.

“Não vamos andar para trás”, respondem, inconformadas, milhares de pessoas que pensam como John Kerry. E crescem os movimentos sociais que organizam, nos Estados Unidos e fora deles, uma contestação social para fazer frente à nova conjuntura política protagonizada por Donald Trump, mas também à escalada da extrema direita e de movimentos e partidos conservadores, racistas, xenófobos, misóginos, chauvinistas e classistas na Europa.

Em causa, está uma batalha que tem já repercussões à escala global e que, como defende a organização da Marcha das Mulheres em Portugal, quer “vencer as ideias e as políticas anunciadas por Donald Trump e a sua Administração, bem como aqueles que na Europa rejubilam com a nova ordem mundial”. Um “imperativo” para inúmeros movimentos de direitos humanos, anti-racistas, feministas, anticapitalistas, ambientalistas e antifascistas, “em defesa dos refugiados e imigrantes, contra a precariedade no trabalho, contra todas as formas de opressão e exploração”, diz a rede “Parar o machismo Construir a Igualdade”.

Para “parar a trumpização do mundo”, a Marcha Global das Mulheres anunciou já que “a caminhada não termina aqui”, lançando uma nova campanha onde desafia todos a juntarem a sua voz ao coro de protestos, e fazerem história com “10 acções para os próximos 100 dias”. A cada dez dias será lançada uma nova iniciativa, e a primeira acção convida os cidadãos a escreverem um postal aos senadores norte-americanos sobre as suas preocupações e formas de luta a respeito dos direitos civis, quer se tratem de direitos das mulheres, dos trabalhadores ou dos emigrantes, de justiça climática, de liberdade religiosa ou qualquer outra questão de direitos humanos.


Os princípios de não-violência de Martin Luther King

Já aqui o dissemos: os direitos das mulheres são direitos humanos. Independentemente da raça, etnia, religião, idade, condição económica, identidade sexual ou, eventualmente, estatuto de imigrante ou necessidades especiais da mulher.

O movimento Marcha Global das Mulheres promove o direito à identidade única de cada pessoa, subscrevendo os seis princípios de não-violência Kingian, metodologia filosófica inspirada na visão de Martin Luther King Jr. (e descrita no seu primeiro livro, Stride Toward Freedom (1958), que visa munir os cidadãos dos conhecimentos, competências e motivação necessários para que adoptem estratégias de paz na resolução dos problemas da comunidade onde se inserem:

Princípio 1: A não-violência é um modo de vida para pessoas corajosas

A não-violência é uma força positiva que confronta as forças da injustiça, e utiliza a indignação legítima e as capacidades espirituais, emocionais e intelectuais das pessoas como uma força vital para a mudança e a reconciliação.

Princípio 2: A comunidade é o alicerce do futuro

O conceito de não-violência é um esforço global para atingir um mundo de reconciliação, melhorando o relacionamento entre as pessoas até um nível onde a justiça prevalece e as pessoas atingem a plenitude do seu potencial humano.

Princípio 3: A não-violência visa derrotar a injustiça, e não as pessoas

A abordagem não-violenta ajuda as pessoas a analisar as condições, políticas e práticas fundamentais do conflito, em vez de reagirem aos seus opositores e ao próprio conflito.

Princípio 4: O sofrimento educa e transforma

A aceitação do sofrimento sem lugar a retaliação é uma forma de redenção e ajuda o movimento de paz a crescer numa dimensão espiritual e humanitária. A autoridade moral do sofrimento voluntário por um objectivo transmite preocupação para os amigos e a comunidade, assim como para os adversários.

Princípio 5: Evite a violência de espírito tanto como a violência física

A atitude não-violenta permeia todos os aspectos do movimento pela paz. Esta atitude reflecte a realidade das condições da comunidade e dos seus opositores como um todo. Durante uma campanha não-violenta devem ser desenvolvidas actividades específicas para manter esta atitude.

Princípio 6: O universo está do lado da justiça

A verdade é universal, e a sociedade humana e cada ser humano é orientado para o justo sentido da ordem do universo. Os valores fundamentais de todas as grandes religiões do mundo incluem o conceito de que o arco moral do universo se curva para o lado da justiça. Neste contexto moral, a não-violência é tanto um meio quanto um fim.

Fontes: Women’s March / The King Center


Gabriela Costa

Jornalista