Parece ficção científica, mas está a ser crescentemente utilizada em várias empresas, de diversos sectores, tendo como base o princípio de que os computadores e outros dispositivos conseguirão aprender, raciocinar e interagir com os humanos de uma forma mais natural e personalizada. Um artigo adaptado da revista de inovação social de Stanford levanta o véu sobre a aplicação da ciência cognitiva aos desafios sociais
Traduzido e adaptado por
HELENA OLIVEIRA
© Stanford Social Innovation Review

O artigo que se segue introduz uma ainda nova, mas promissora temática, a qual está já a ser aproveitada por um número crescente de empresas, no geral, e que, em particular, muito ajudará os empreendedores sociais. Estamos a falar da denominada computação cognitiva que, de acordo com a IBM – um dos gigantes empresariais que está a liderar esta nova tecnologia cognitiva – pode ser definida como “os sistemas de computação que aprendem e interagem naturalmente com as pessoas para alargar o que os seres humanos ou as máquinas poderiam fazer sozinhos, ajudando os especialistas humanos a tomar melhores decisões, transpondo a complexidade dos grandes volumes de dados”.

Deepthy Welaratna, que assina este artigo, é fundadora da Thicket, um laboratório de design e consultoria que ajuda as organizações a lidar com – e a potenciar – o poder da complexidade. A Thicket tem como objectivo mapear e modelar o conhecimento humano de forma a criar ferramentas e programas que alinhem os indivíduos, as organizações e as comunidades. A sua fundadora passou os últimos 12 anos a “influenciar” os sistemas complexos através do desenvolvimento de campanhas políticas públicas, do “cultivo” de líderes criativos ou da construção de movimentos em torno de um conjunto alargado de questões sociais e económicas. Vejamos, de seguida, o que escreve Deepthy Welaratna sobre estas novas ferramentas poderosas, as quais poderão solucionar complexos problemas sociais, mas cuja forma de aplicação determina, em muito, o seu sucesso.

O fracasso está na moda. No mundo das startups, fracassar é narrar uma história de guerra que tem de ser destilada e partilhada. No desenvolvimento internacional, o fracasso tem sido, ao invés e tradicionalmente, um tópico tabu que, finalmente, parece estar a ser ultrapassado depois de longas décadas de negação. Se fizermos uma pesquisa no Google Trends, a expressão “fracassar depressa” aparece em crescimento acelerado, revelando um pico acentuado em 2014. Assim, e enquanto sociedade global, parece que finalmente estamos a mudar a nossa estrutura mental de forma a podermos abraçar os nossos erros como forma de com eles aprendermos e crescermos.

De acordo com a autora deste artigo, a actual narrativa para a aceitação massificada do fracasso parece espelhar o nosso processo de pensamento ao nível individual. Nos dias que correm, compreender as dinâmicas sociais subjacentes aos nossos processos de tomada de decisão é tão importante quanto as próprias decisões. E se pretendemos criar impacto social, temos igualmente que avaliar as dinâmicas sociais existentes nos sistemas complexos. Como afirma Deepthy Welaratna, a nova geração de ferramentas e métodos de avaliação que está a aparecer em áreas como a ciência da decisão ou a computação cognitiva está a “romper”, de forma significativa, a caixa negra do raciocínio humano.

[pull_quote_left]O big data tende a entusiasmar e a aterrorizar em doses iguais, na medida em que está a remodelar as nossas vidas “públicas” e privadas mediante formas que ainda não compreendemos[/pull_quote_left]

À medida que conferimos maior importância à avaliação em escala dos factores humanos, os investigadores estão a ir mais além do que era permitido pelas ferramentas das ciências sociais, utilizadas para reunir e agregar o conhecimento humano. As ferramentas de investigação qualitativa como o trabalho de campo, as entrevistas e os focus groups conferem uma boa visão, mas são insuficientes para a análise e respectiva comparação em escala.

Por seu turno, as ferramentas quantitativas são mais eficazes, mas também mais limitadas, devido ao seu formato rígido. Os inquéritos com respostas de escolha múltipla, por exemplo, não conseguem representar as nuances da lógica humana com a mesma riqueza de uma ferramenta qualitativa como o mapeamento cognitivo, no qual a pessoa cria uma representação visual de como compreende, mentalmente, o seu ambiente.

De acordo com a IBM, pelo menos 90% de todos os dados disponíveis na actualidade foram reunidos apenas nos últimos quatro anos. Este feito conduziu-nos a uma nova geração de ferramentas de pesquisa de big data que consegue extrair “compreensão” a partir de um conjunto de dados massificados, extensos e dispersos. Áreas híbridas como a da econometria comportamental combinam as ferramentas de big data, com a teoria da psicologia comportamental e com os dados socioeconómicos, de forma a tentar compreender e prever factores humanos como a cognição e o comportamento.

O movimento independente da quantificação – no qual se inclui o processo de quantificação emocional Affectiva, baseado no reconhecimento facial, ou a abordagem de monitorização biométrica relativa à saúde pessoal Fitbit – utiliza a análise de big data para explorar o comportamento humano. Estas abordagens de big data utilizam a análise de redes visuais e os modelos de previsão para compreender, gerir e prever as dinâmicas sociais.

Como explica a autora, no laboratório da consultora Thicket, estão a utilizar a versão de big data denominada “mapeamento cognitivo fuzzy”, o qual quantifica e agrega o conhecimento humano sobre um tópico ou um sistema complexo. A ideia é aplicar este mapeamento para agregar o conhecimento humano em escala e transformá-lo em análises visuais, cenários de decisão ou modelos previsíveis para planeamento de situações e políticas, em conjunto com a gestão e avaliação de performance. Até agora, a consultora já utilizou este mapeamento para testar modelos de negócio, avaliar o impacto social e monitorizar a performance do portefólio de uma incubadora na área dos cuidados de saúde.

Todavia, a verdade é que o big data tende a entusiasmar e a aterrorizar em doses iguais, na medida em que está a remodelar as nossas vidas “públicas” e privadas mediante formas que ainda não compreendemos. Devido à sua rápida emergência na esfera comercial e à sua ainda limitada compreensão na esfera pública, as organizações e instituições estão a utilizar o big data para reunir e aplicar vastas quantidades de informações no que respeita aos seus clientes e membros, mas com uma quase inexistente regulação. Adicionalmente, os indivíduos estão a assinar permissões no que respeita à utilização dos seus dados pessoais com um simples clique e a perder, rapidamente, a sua privacidade, segurança e autonomia, mesmo sem terem disso consciência – basta recordar a experiência de manipulação de “estados de espírito” feita pelo Facebook para termos ideia de algumas das implicações extremamente complexas no que respeita a questões éticas.

[pull_quote_right]A econometria comportamental, por exemplo, combina as ferramentas de big data com a teoria da psicologia comportamental e com os dados socioeconómicos, de forma a tentar compreender e prever factores humanos como a cognição e o comportamento[/pull_quote_right]

Assim, e se a “partilha emocional” é a nova moeda de troca do impacto social, há que abordar igualmente a distribuição do poder inerente à tomada de decisão. Criar impacto em sistemas complexos exige a utilização não só de novos modelos de avaliação, mas também de modelos de gestão e de design inclusivos que consigam envolver todos os stakeholders existentes no interior de um determinado sistema.

Um conjunto multidisciplinar de pensadores – incluindo Paul Farmer (Pathologies of Power), George Lakoff (Moral Politics) e a dupla Nicholas Christakis e James Fowler (Connected)- está a ajudar a desvendar as dinâmicas de poder invisíveis existentes nos sistemas sociais. E, como resultado, os princípios organizadores subjacentes a muitos dos nossos problemas sociais começam a surgir, tal como os elenca a autora do artigo:

  • Descobrimos que não é fácil ultrapassar as consequências de culturas destabilizadoras e desmoralizadoras. Ou seja, os programas de desenvolvimento nos quais os países pós-imperialistas devolvem uma parte dos recursos despojados aos países pós-coloniais, “disfarçada” de ajuda internacional, pouco ou nenhum impacto tem na restauração das economias.
  • A retirada do “conceito de vício” da guerra contra as drogas acabou por destacar o papel da solidão e da isolação social na criação de dependências.
  • Os limites dos cuidados de saúde convencionais e os custos elevados deles resultantes estão a alterar a abordagem vigente – do tratamento da doença para a criação da saúde – e a ampliar o enfoque dos programas de cuidados de saúde para estes incluírem não a só a biologia das pessoas, mas também os determinantes sociais da própria saúde.

Ao utilizar, em experiências-piloto, novos métodos e ferramentas de mudança social, a equipa de Deepthi Welaratna descobriu que tanto as ferramentas como a forma como estas são utilizadas interessam e muito. A equipa tem vindo a encontrar inspiração em formatos como os círculos de reflexão, os quais conseguem ajudar os indivíduos a ultrapassar o trauma da violência com base no género, e também nos denominados mapas loucos, os quais estruturam diálogos personalizados para a tomada de decisão e abordam os desequilíbrios de poder que as pessoas consideradas como mentalmente doentes enfrentam.

Como explica a fundadora da Thicket e no ano passado, a consultora trabalhou com a organização não-governamental Chinatown Youth Initiatives (CYI) na criação de uma avaliação de impacto participativa com o objectivo duplo de servir tanto a organização como os seus membros. A Thicket criou um workshop de mapeamento cognitivo, em conjunto com um processo de avaliação que media o impacto do CYI nos seus membros. O mapeamento em causa mostrou aos membros de que forma é que os ambientes sociais em que se moviam afectavam a sua saúde emocional. De seguida, e de forma agregada, a consultora comparou o impacto do CYI com outros ambientes sociais. Na medida em que, simultaneamente, o mapa ofereceu as perspectivas tanto dos membros como da organização que os serve, foi possível criar um processo de avaliação transparente, o qual terá como resultado um alinhamento mais forte entre os dois grupos de stakeholders. Com base no feedback dos participantes, o processo permitiu aos membros do CYI compreenderem melhor o papel da organização nas suas vidas, ajudando-os igualmente a clarificar as suas motivações relativamente ao facto de estarem envolvidos com aquela organização em particular.

A avaliação participativa é uma forma de se rectificar grandes desequilíbrios de poder e de oferecer um espaço estruturado para os indivíduos se envolverem num plano de igualdade. É, igualmente, uma parte de um conjunto alargado de estratégias de design que, quando acopladas com ferramentas de avaliação do factor humano, apresentam uma abordagem significativamente escalável para se criar impacto nos sistemas sociais – não sendo possível esquecer que a escala é urgente quando mais de sete em cada dez pessoas, em todo o mundo, vivem com menos de 10 dólares diários.

Actualmente, mais de 70% das pessoas possuem um acesso minimalista aos “blocos de construção” do desenvolvimento humano: ou seja, aos recursos, formação e poder na tomada de decisão no que respeita às suas vidas. E, mesmo assim, as redes humanas criam oportunidades de forma contínua. Mas, se por um lado possuímos as ferramentas necessárias para alterar os sistemas e estruturas no sentido de um equilíbrio mais equitativo, para que este seja uma realidade, há que ter vontade de o fazer.

Copyright © 2015 .Stanford Social Innovation Review. Republicado com permissão.

Helena Oliveira

Editora Executiva