A ética ou a pessoa responsável pela ética nas empresas é o grande ausente da maioria dos comités de gestão. Sejam eles sobre risco, inovação ou desenvolvimento organizacional, por exemplo. E todos estes comités tratam de aspetos que têm de ser olhados numa perspetiva ética e de aplicação dos valores, aspetos como o desenvolvimento de novos produtos e serviços, o preço, a oferta, a relação com clientes e fornecedores, o impacto na sociedade
POR ANA ROQUE

Eram seis e pouco da manhã quando recebi uma mensagem do meu amigo Rodrigo (nome fictício) a perguntar se estava acordada. Liguei-lhe. Ele estava no País Basco e explicou-me que tinha tido uma insónia, tinha saído do hotel pelas quatro da manhã para fumar um cigarro, as portas do hotel tinham-se fechado e estava na rua à espera que fosse manhã.

– Mas não há ninguém na receção?

– Não, o hotel é todo automático.

– Mas deixaste o cartão lá dentro?

– Não, são as portas que parece que se avariaram ou o cartão desmagnetizou.

No hotel só havia uma pessoa em termos de pessoal, mas carregava-se no botão do intercomunicador que estava na rua e ouvia-se essa pessoa a fazer coisas e, pelo tipo de ruídos, estava na cozinha do hotel. O botão do intercomunicador devia estar bloqueado e, por mais que o meu amigo tocasse, o funcionário não ouvia, só se ouvia o funcionário.

– O hotel não tem um site? Vai ao site e vê se tem um número de telefone.

No site só havia um formulário para se comunicar com o hotel. Ele escreveu para lá para lhe abrirem a porta e recebeu de volta, na sua caixa do correio, uma mensagem do hotel a agradecer o contacto e a preferência e a dizer que o contactariam tão breve quanto possível. Nenhum número de telefone.

Entra-se no hotel (quatro estrelas), sobe-se até ao 10.º piso onde há, durante o dia, uma receção com duas pessoas. Recebe-se um cartão e a partir daí não se volta a ver ninguém. No elevador o cartão indica em que piso o dito deve parar, no piso o cartão dá acesso ao corredor certo e depois ao quarto.

Nunca estive num hotel assim, mas estive recentemente num hospital quase assim e não gostei.

Recebi uma mensagem a confirmar a minha consulta e a dizer em que piso seria. Entrei no edifício, subi ao piso onde uma menina hospedeira (por enquanto ainda as há) me disse que deveria inserir o meu cartão de cidadão numa máquina para receber uma senha e depois dirigir-me a uma sala de espera seguindo as setas. Na sala estavam outras pessoas como eu, à espera. Num ecrã iam aparecendo números com indicação de portas. Zero pessoal.

A determinada altura uma porta abre-se e vejo uma cara conhecida que me chama: Ana!

Levanto-me e vou. Comento que o hospital está frio e impessoal. Quem me foi buscar diz que também sente isso. Médicos, enfermeiros, pacientes, todos sentem isso. Diz-me:

– Olhe, nós ainda tentamos personalizar e vamos chamar as pessoas à sala mas é contra as regras. Eu não posso chamá-la pelo seu nome por causa da proteção de dados.

Sei que para além da proteção de dados, há a questão da eficiência e da produtividade e que dizem que o futuro é assim. Sei também que para alguns, os que tenham dinheiro, haverá sempre chamamentos pelo nome como haverá sempre tudo, mas creio que num momento especialmente vulnerável como a doença, merecemos todos não ser atendidos por máquinas, não estar fechados em salas à espera de ouvir chamar um número que somos nós.

Nestas salas de espera não há ninguém para perguntar se ainda falta muito, quantas pessoas temos à frente, uma cara que se reconhece da vez anterior. Sentamo-nos com desconhecidos, todos com a nossa senha na mão a olhar para o ecrã a cada som de mudança de número. É assim para entrar, é assim na espera, é assim para pagar.

Tem-se falado muito do trabalho do futuro, tem-se falado muito de inteligência artificial, mas há uma discussão ética que não tem surgido com a força que merecia e que é: que trabalho queremos ter no futuro?

O trabalho do futuro, a substituição dos homens por máquinas não é uma inevitabilidade, é uma escolha e quem tem um hotel ou um hospital assim, escolheu tê-lo dessa forma. Ao tomar essa decisão está a dizer qual é o seu padrão de valorização do humano e até, em última análise, qual a sua conceção de pessoa humana. E teve escolha. O facto de haver outros que vão fazer o mesmo não retira a responsabilidade dessa escolha.

Na minha opinião, algumas das decisões que são tomadas em salas de administração, enquadradas em discussões de eficiência e rentabilidade, são de facto questões do âmbito da ética – a questão do trabalho do futuro é ética, porque a ética está nos bastidores de todas as nossas decisões e, em alguns casos, é mesmo do âmbito da bioética, entendida como o ramo da ética que estuda as questões com impacto na vida humana e na sociedade.

É do foro da ética decidir que a mecanização dos serviços não será uma fonte de miséria para quem não venha a ter trabalho nunca e são do foro da ética as decisões que têm como objetivo promover a sustentabilidade. Podemos baixar os braços e dizer: no futuro os camiões vão ser conduzidos automaticamente e os camionistas ficarão sem emprego ou podemos dizer, por exemplo, que para reduzir as emissões vamos ter um consumo mais local, que isso vai reduzir os postos de trabalho dos camionistas, mas que serão criados empregos de proximidade.

Há muitas questões que cruzam com a ética, aliás, diria que todas as questões cruzam com a ética e que esse cruzamento aumenta à medida que aumenta a complexidade.

Na minha visão da ética, ela têm essencialmente a ver com valores e com uma aplicação na prática dos nossos valores com as formas como os vivemos de um ponto de vista pessoal ou empresarial.

Para valores adoto a definição de Luc de Brabandere, filósofo francês que tem estudado o mundo das empresas: são algo que defenderíamos mesmo que fosse contra a lei, algo que queremos transmitir aos nossos filhos (ou trabalhadores), algo sem o qual não nos conseguimos imaginar a viver (ou a operar num mercado).

Pode ser, por exemplo, o respeito. Posso considerar que o respeito pelos outros é um valor, e muitas empresas o consideram, então, o papel da ética será o de promover a reflexão em diferentes áreas sobre o que pode ser a materialização desse valor: o que é o respeito aplicado à inovação? O que é o respeito aplicado aos fornecedores?

O Ethisphere institute, que divulga todos os anos uma lista denominada “World Most Ethical Companies”, também parece ter esse entendimento, uma vez que algumas das perguntas a que têm que responder as empresas que querem figurar nessa lista são justamente sobre a presença da pessoa responsável pela ética nos diferentes comités de gestão onde se discutem os aspetos considerados mais relevantes para a empresa mas, olhando para as empresas da lista (li todos os relatórios de gestão e sustentabilidade das empresas europeias), esse parece ser o aspeto em relação ao qual existe um maior gap.

Encontrei evidências de códigos, instrumentos, programas, formações, mas muito pouco dessa reflexão fundamental que é: qual é a aplicação desses valores que consideramos fundamentais – e para todas estas empresas a ética está situada na matriz de relevância como um dos temas mais relevantes — nas diferentes atividades que temos, na nossa visão para o futuro e na nossa estratégia.

A ética ou a pessoa responsável pela ética nas empresas é o grande ausente da maioria dos comités de gestão. Sejam eles sobre risco, inovação ou desenvolvimento organizacional, por exemplo. E todos estes comités tratam de aspetos que têm de ser olhados numa perspetiva ética e de aplicação dos valores, aspetos como o desenvolvimento de novos produtos e serviços, o preço, a oferta, a relação com clientes e fornecedores, o impacto na sociedade.

É do foro da ética decidir qual o valor do erro humano ou da sua possibilidade – e esta questão pode ser também uma questão empresarial -, é do foro da ética e de cada empresa refletir sobre que coisas se quer que sejam feitas por pessoas e que coisas se consideram que podem ser feitas por máquinas. Queremos, por exemplo, que sejam máquinas a tratar das pessoas mais velhas ou de uma criança? No caso do hotel, por exemplo, não me incomoda a automatização, mas no hospital sim.

Todos os caminhos vão dar ao futuro, não há como fugir, mas ele pode ser desenhado de uma forma mais ou menos bela ou boa seguindo o ideal platónico ou humano, quando humano queria dizer bom.

Num hospital quero que me chamem pelo meu nome.

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