Chegaram as férias e é muito provável que o seu cérebro esteja a precisar de descanso. Mas talvez seja maior a probabilidade de não conseguir desligar o seu smartphone ou tablet, de não resistir em abrir a sua caixa de email, atender chamadas de colegas ou até pensar em tudo o que terá de fazer quando chegar a altura de regressar ao trabalho. Se assim é, saiba que está a penhorar uma excelente oportunidade para fazer uma espécie de restart cerebral, imprescindível para recuperar a energia, a inspiração e, mais importante que tudo, a saúde
POR
HELENA OLIVEIRA

Em tempo de férias, o VER decidiu viajar pelos caminhos complexos do cérebro, através de estudos que revelam que as sestas, a meditação, os passeios pela natureza, as férias ou meras “pausas mentais” aumentam a produtividade, repõem a atenção, solidificam as memórias e encorajam a criatividade.

São inúmeras as pesquisas que comprovam que os cérebros “modernos” estão, na esmagadora maioria do tempo, preocupados e centrados no trabalho, sentindo-se obrigados a responder a inúmeros estímulos laborais mesmo quando estão de férias. Todavia, outras tantas investigações, em particular desde a última década do século XX, também concluíram que o cérebro precisa de “pausas” substanciais para permanecer diligente e gerar ideias inovadoras.

“Os períodos de ócio são tão indispensáveis para o cérebro como a vitamina D é para o corpo”, escreve o ensaísta e autor de We Learn Nothing Tim Kreider. “O espaço e o silêncio que a ociosidade nos oferece é uma condição necessária para nos afastarmos da nossa própria vida, olhá-la no seu todo, e para sermos capazes de fazer ligações inesperadas”, assegura na coluna que assina no The New York Times. E esperarmos que o sol do Verão nos ilumine e nos encha de raios de inspiração é uma boa analogia para o tema em destaque. Como reforça Kreider, na verdade, a imprescindibilidade de se dar tréguas ao cérebro é, por paradoxal que pareça, “essencial para que consigamos fazer qualquer tipo de trabalho”, assegura.

[pull_quote_left]Os períodos de ócio são tão indispensáveis para o cérebro como a vitamina D é para o corpo[/pull_quote_left]

Se intuitivamente e ao longo da história já tínhamos percebido que não há cérebro que resista a longas e contínuas jornadas de trabalho, preocupações intensas e estados de ansiedade frequentes, a ciência em muito tem contribuído para conferir provas empíricas que suportam este argumento, veiculadas por inúmeros e variados estudos: desde os hábitos dos trabalhadores de escritório às rotinas diárias repetidas por músicos extraordinários e atletas de elevado desempenho, aos benefícios das férias, da meditação ou dos passeios em espaços verdes, até à importância das sestas ou do “sonhar acordado” e, até mesmo o simples piscar de olhos. Todas estas temáticas têm constituído matéria fértil para pesquisas científicas sobre o funcionamento do nosso cérebro.

Entre variadíssimas e apaixonantes descobertas, os cientistas já conseguiram comprovar que, mesmo em períodos de relaxamento, o cérebro simplesmente não abranda o seu ritmo e, muito menos, deixa de “trabalhar”. Ao invés – e para além de uma multiplicidade de processos moleculares, genéticos e fisiológicos que ocorrem principal ou exclusivamente enquanto dormimos – existem muitos outros processos mentais importantes que exigem aquilo que denominamos como pausas ou períodos de descanso ao longo do dia. Estas pausas servem para repor o stock de atenção e motivação, para encorajar a produtividade e a criatividade, sendo essenciais para se atingir os mais elevados níveis de performance ou para simplesmente formarmos memórias sólidas na vida de todos os dias.

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O cérebro humano é um glutão

O século XX assistiu a um enorme desenvolvimento no que respeita ao estudo do cérebro. Logo em 1929, o psiquiatra e neurologista alemão Hans Berger, inventor do electroencefalograma, afirmava que o cérebro se mantinha sempre “num estado de considerável actividade”, mesmo quando as pessoas estavam a relaxar ou a dormir. Apesar de os seus pares concordarem, na altura, que algumas partes do cérebro e da espinal medula trabalhavam continuamente para regular os pulmões e o coração, a ideia que prevalecia era a de que o mesmo ia alternando entre um estado online e offline, mantendo-se completamente ligado apenas quando se dedicava a uma tarefa específica. Décadas mais tarde, e com o advento da imagiologia por ressonância magnética funcional (fMRI, na sigla em inglês), esta ideia de alternância ganhou ainda mais adeptos, os quais defendiam que o cérebro era um órgão especial que utilizava partes em detrimento de outras de acordo com diferentes necessidades. Mas ao conseguir rastrear o fluxo sanguíneo através de todo o cérebro, a fMRI demonstrou claramente que circuitos neuronais diferenciados se tornavam especialmente activos durante tarefas mentais diferentes, “convocando” quantidades extra de sangue, repletas de oxigénio e glucose, para que estes fossem utilizados como energia.

[pull_quote_left]As pausas servem para repor o stock de atenção e motivação, para encorajar a produtividade e a criatividade[/pull_quote_left]

Em meados da década de 1990, o neurologista e neurobiólogo Marcus Raichle, da Universidade de Washington, em conjunto com a sua equipa, demonstrou que o cérebro humano era, na verdade, um enorme glutão, exigindo constantemente 20% de toda a energia produzida pelo corpo e requerendo apenas 5% a 10% a mais de energia para ser usada na resolução de um problema de cálculo ou na leitura de um livro. Reichle também observou que um conjunto particular de regiões cerebrais ficavam, de forma consistente, menos activas quando alguém se concentrava num desafio mental, mas “pegavam fogo”, sincronicamente, quando alguém adoptava uma atitude passiva, como por exemplo a de deixar o pensamento “vaguear”. Esta descoberta intrigou os cientistas, baralhando-os de tal forma que a recusariam inicialmente, mas acabando por ser comprovada mais tarde: este misterioso e complexo circuito que “ganhava vida” quando alguém sonhava acordado acabaria por ser conhecido e apelidado de DMN (default mode network ou rede em modo padrão).

Numa revisão recente exactamente sobre o funcionamento desta DMN, Mary Helen Immordino-Yang, da Universidade da Califórnia, em conjunto com a sua equipa, argumentou que quando estamos a descansar o cérebro não está, de todo, em modo de ociosidade e que, longe de despropositadas ou improdutivas, as pausas são de facto essenciais para os processos mentais responsáveis pela afirmação das nossas identidades, para o desenvolvimento da nossa compreensão do comportamento humano e para incutir o nosso código de ética interno – processos estes que dependem todos da DMN.

O tempo de pausa é, assim, uma oportunidade para que o cérebro consiga “fazer sentido” do que foi recentemente apre(e)ndido, para enfrentar tensões não resolvidas nas nossas vidas e para “inverter o sentido” dos seus poderes de reflexão do exterior do mundo para o seu interior. Enquanto a mente vagueia, conversas que mantivemos umas horas antes são “reproduzidas” e reescrevemos erros verbais que possamos ter cometido como forma de aprendermos com eles. “Inconscientemente” praticamos diálogos que pretendemos ter com pessoas que nos intimidam ou para colher uma satisfação imaginária sobre alguém que nos fez sentir mal. Viajamos por todos os nossos post-its mentais fazendo listas dos projectos não terminados e reflectimos sobre os aspectos das nossas vidas que maior insatisfação nos causam, tentando encontrar soluções para eles. Mergulhamos em cenas que aconteceram na nossa infância e catapultamo-nos para diferentes e hipotéticos cenários futuros. E submetemo-nos a uma espécie de revisão da nossa performance moral, questionando o quão bem ou mal temos tratado os que nos rodeiam.

Estes momentos de introspecção consistem também numa maneira de (re)formarmos o nosso ego, o qual é, essencialmente, uma história que continuamente contamos a nós mesmos. Em suma, quando o cérebro arranja um momento para si próprio, a mente mergulha fundo nas nossas memórias, experiências sensoriais, desapontamentos e desejos para que continue a escrever, na primeira pessoa, esta narrativa de vida contínua.

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As férias funcionam apenas como um duche refrescante num quente dia de Verão

Há muito que os benefícios decorrentes dos períodos de férias foram estabelecidos: é do senso comum saber que servem para revitalizar o corpo e a mente na medida em que nos distanciamos dos stresses relacionados com o trabalho; que “mergulhar” em novos locais, conhecer pessoas ou experimentar gastronomias diferentes contribui para a geração de ideias e visões originais; e, é claro, que colocar o sono em dia (imprescindível para melhorar a memória) e nos focarmos numa só tarefa, durante horas se assim o desejarmos, e não em várias como acontece na rotina profissional, nos confere uma enorme sensação de bem-estar. Todavia, uma pesquisa recente realizada por Jessica de Bloom, actualmente professora na Universidade de Tampere, na Finlândia, demonstra que todos estes inegáveis benefícios se desvanecem num período entre duas a quatro semanas. O que sugere que as férias constituem apenas uma “escapadela refrescante” num dia quente de Verão.

[pull_quote_left]A imprescindibilidade de se dar tréguas ao cérebro é, por paradoxal que pareça, essencial para que consigamos fazer qualquer tipo de trabalho[/pull_quote_left]

E esta é uma das razões devido à qual são cada vez mais os investigadores que afirmam que seria benéfico, para as empresas, apostarem em um ou dois dias livres de trabalho e que abolissem, de vez, as longas jornadas de trabalho e, em particular, o trabalho levado para casa.

Num estudo realizado ao longo de quatro anos, Leslie Perlow, professora de comportamento organizacional na Harvard Business School , e a sua equipa rastrearam os hábitos de trabalho de um conjunto de empregados do The Boston Consulting Group. E, em cada ano, insistiram para que os trabalhadores tirassem um período regular de descanso, mesmo nas alturas em que os mesmos acreditavam não ser possível fazê-lo. Numa das experiências efectuadas, cada um de cinco consultores pertencentes a uma equipa tiraram um dia de folga por semana e, em outra, todos os membros da equipa foram “obrigados” a agendar uma noite completamente livre, na medida em que o normal era trabalharem a partir de casa todas as noites.

No início, a resistência foi total, pois todos os consultores recearam estar a adiar e a acumular trabalho. Mas, ao longo do tempo, começaram a adorar o facto de terem liberdade para fazer o que quisessem uma noite por semana, na medida em que começaram a sentir um revigorar da sua força de vontade e capacidade de trabalho, o que os tornou muito mais produtivos entretanto. Depois de cinco meses a cumprirem o “dia livre”, todos eles se sentiam mais satisfeitos com o trabalho, muito mais propensos a visionar um futuro de longo prazo na empresa, muito mais felizes com a sua conciliação entre vida pessoal e profissional e extremamente orgulhosos dos seus feitos.

Assim, e se ainda tem dúvidas relativamente aos benefícios inerentes às “pausas cerebrais”, não vá pesquisar nada na Internet. Faça antes uma sesta.


The Energy Project

Tony Schwartz é um reconhecido jornalista – tendo passado pelo The New York Times, pela Newsweek e pela Fast Company – e é, actualmente, CEO do The Energy Project , o qual fornece um novo paradigma para o mundo do trabalho, ajudando os trabalhadores – e por conseguinte, as empresas – a focarem-se nas suas necessidade “energéticas” e, em primeiro lugar, a interpretarem de forma diferente – e mais seriamente – os imprescindíveis “períodos de ócio”. Na verdade, a ideia central de Schwartz é ensinar as pessoas a serem mais produtivas alterando a ideia que têm dos períodos de descanso.

A sua estratégia reside, em parte, na ideia de que toda a gente pode aprender a renovar, de forma regular, as suas reservas de energia mentais e físicas. Defensor acérrimo de que o meio laboral moderno é o grande causador e responsável por custos de saúde e emocionais gigantescos e argumentando que o tempo deixou de ser um recurso disponível, para Schwartz a resposta reside na energia.

Os seus conselhos para gerir o dia-a-dia não são, de todo, originais, apesar de ser cada vez maior a percentagem de pessoas que simplesmente se esqueceram de os seguir. Gozar períodos de férias, fazer sestas e várias pausas diárias, praticar meditação e “atacar” as tarefas mais complexas pela manhã, altura em que os nossos níveis de atenção estão em valores máximos, parecem tudo menos conselhos “científicos” para revigorar a nossa energia mental.

E a verdade é que quando Schwartz começou a vender a ideia a várias empresas, convencê-las dos seus benefícios foi extremamente complicado. Afinal, o que o jornalista e autor prega contradiz exactamente a postura “quanto mais ocupado melhor” que prevalece no meio empresarial. Mas a sua persistência tem sido bem recompensada. A organização da qual é CEO estabeleceu já parcerias, de enorme sucesso, com gigantes empresariais como a Google, Apple, Facebook, Coca-Cola, Ford, Genentech – e com mais um conjunto considerável de empresas pertencentes ao ranking da Fortune 500, onde começa por fazer uma análise do nível de envolvimento dos trabalhadores relativamente aos seus locais de trabalho, aplicando de seguida o seu programa de “revitalização de energia”. Para já, existe um bom indicador: em 2013, e depois de experimentar os benefícios desta consultora especializada em programas de revitalização laboral, a Google renovou a sua parceria por um período de cinco anos.

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